Vai hoje ser assinado o contrato de concessão do Mosteiro do Lorvão para instalação de uma unidade hoteleira. A reabilitação e exploração do Mosteiro foi adjudicada à empresa Soft Time, de Luís Sérgio Aleixo Pita.
18 março, 2021
Lorvão vai ter unidade hoteleira
Vai hoje ser assinado o contrato de concessão do Mosteiro do Lorvão para instalação de uma unidade hoteleira. A reabilitação e exploração do Mosteiro foi adjudicada à empresa Soft Time, de Luís Sérgio Aleixo Pita.
14 março, 2021
Lenda de Penacova
Todo jovem, todo ledo
A Coimbra a estudar.
Levou os livros no intento
De passar bem o seu tempo
Se tivesse de parar.
Longa via já andada
Toda a roupa ensopada
No suor do corpo seu
Ali, na falda da serra
Deitou os livros em terra
E à fadiga se rendeu.
Lá do Céu meigo luar
Já cuidava em pratear
As negras cristas dos montes,
E o Mondego já tremia
Do medo que então sentia
Do rumor surdo, das fontes.
Temeroso ajoelhou
E de mãos postas rezou
Ao Senhor de quanto havia,
Que do Céu prestes mandasse
Um Anjo que lhe falasse
E fizesse companhia.
E o Senhor atento ouvia
E depois pena sentia
Do seu amargo penar…
Seu pedido despachou
E um anjo, prestes mandou
Num raio do seu lar.
E nessa noite distante
Jovem Mondego estudante
Dormindo naquela cova
Dos livros fez livraria
Da pena fez alegria
Da Cova fez Penacova
E o anjo da caridade,
Todo amor, todo bondade,
todo puro e sem labéu
Em sua visão infinda
Achou a terra tão linda
Que não mais voltou ao Céu
E quando um beijo de amor
Quis dar ao seu protector
No momento de partir
O anjo tornou-se astro
E sobe ao monte do Castro
E a meio pôs-se a sorrir
Não posso subir ao Monte
Para pôr na tua fronte
O meu beijo apaixonado?!
Ficarei aqui, ao fundo
Enquanto o mundo for mundo
Dizendo muito obrigado!
E a promessa do Mondego
Todo jovem todo ledo
Foi promessa de valor.
Sabe a gente velha e nova
Que o rio de Penacova
Nunca mais se fez Doutor!
P.e Agostinho
In Notícias de Penacova ,1950
Locuções populares (VI): Estar nas suas sete quintas
Significa estar satisfeito, contente, feliz.
Então, nesses tempos, quando se perguntava pelo rei, dizia-se que estava nas suas sete quintas.
No Dicionário de Caldas Aulete, “Estar nas suas sete quintas” significa estar muito contente. Para Cândido de Figueiredo “Estar nas suas sete quintas" seria estar como se quer, perfeitamente à vontade.
Em relação a muitas locuções, há dúvidas, indefinições e discussões sobre as suas origens. Com esta expressão que, como vimos, tem fundamentação histórica profusa, tal não se verifica.
Essas quintas situavam-se na margem sul do Tejo, quase em frente a Lisboa, e a sua história é bem conhecida: Alfeite, Romeira, Piedade, Outeiro, Quintinha, Antelmo e Bomba.
10 março, 2021
Locuções populares (V): Emprenhar pelos ouvidos
A expressão é muitas vezes usada com o significado de dar importância a rumores, dar ouvido a intrigas, a mexericos.
Na origem desta expressão está, evidentemente, a alusão ao processo de gravidez da virgem Maria.É no Evangelho de S. Lucas que se refere o episódio do anjo quando anunciou a concepção de Maria. Com efeito, aí se afirma que foi pelos ouvidos que as palavras do Arcanjo Gabriel foram ela recebidas.
A importância do ouvido como local de estabelecimento da alma e do espírito humano foi reconhecida desde a Grécia antiga tendo essa ideia subsistido durante séculos no imaginário das populações.
Nesses tempos recuados, acreditava-se que a mulher podia realmente engravidar sem ter relações sexuais, isto é, ‘sine decubito’. Tal poderia acontecer por várias formas, principalmente por sonhos e consumo de determinados alimentos.
Os inumeráveis casos de gravidez ‘sine concubito’ motivaram debates judiciais na Idade Média e os tribunais davam muitas vezes razão às mulheres dos cruzados que combatiam na Terra Santa, acreditando que estas podiam ser fecundadas à distância e em sonhos!
Fonte: Repositório do conhecimento inútil, op.cit.
27 fevereiro, 2021
Locuções populares (IV): "Mal e porcamente"
Esta expressão significa “de modo muito imperfeito”, “muito mal”, “de forma desleixada”, apressada e mesmo até atabalhoada.
Pensa-se que a origem esteja na corruptela de «mal e parcamente» que teria o sentido de “fez mal e, ainda por cima, pouco”. Sendo assim, a expressão original corresponderia a alguma coisa mal feita e com poucos recursos
Como vimos, a expressão ‘mal e porcamente’ era, originalmente, “mal e parcamente”. “Parco” vem do latim “parcus” com o significado de pouco abundante, poupado, pequeno… Como o termo “parco” não é habitualmente utilizado na linguagem popular, a expressão sofreu uma corruptela, sendo “parcamente” trocado por “porcamente”, palavra bastante conhecida e com sonoridade semelhante.
21 fevereiro, 2021
Lorvão: páginas cinzentas da sua história
Escreveu Hipólito Raposo (1885-1953):
“As monjas para quem Alexandre
Herculano pediu esmola, já não existem. Infinita crueldade seria que a morte as
não tivesse poupado ao destino de ver as celas da penitência convertidas em
lares onde duas dúzias de famílias foram procurar uma ilusão de abrigo.
Agora, aqueles que no amor ou
curiosidade das coisas mortas, se aventuram a transpor os montes que muralham o
vale até ao céu, sombriamente, impressiona-os de surpresa a majestade do edifício
que o roçar dos séculos tornou venerando.
A cúpula rebrilhante ergue-se no
ar sereno, e quando o sol volta, deixa projectar na encosta, a sombra alongada
por sobre a ramaria verde-negra dos pinheirais. E toda a face do mosteiro tem
no aspecto contrafeito uma opulência decaída, aquela melancólica saudade dos
solares de província, abandonados para sempre à vida simples dos abegões.
No Páteo relvoso em que virgens
em flor apeando das liteiras no braço dos pais, voltavam os olhos chorosos para
dizer adeus ao mundo, vendo apenas ao alto um recorte de céu azul, nesse Páteo dançam
agora as moças aos domingos, danças profanas que ultrajam a santidade do lugar
e escandalizariam as freiras como um pecado vivo.
Lá dentro, guarda o órgão um silêncio
doloroso: das harmonias que derramavam clarões de divindade na alma das
noviças, só as paredes e os altares vibram, como outrora na solenidade fúnebre
das profissões.
Virgens imateriais quase, erguem
na sombra os vultos brancos, entre círios que rodeiam o sacrifício da carne
estéril, a chorar pela Vida para gloria de Deus. Toda a visão se ilumina, revive
o velho Cenóbio a sua grandeza, cheira a incenso, vozes esvoaçara aflitivamente
pelas naves, como suspiros de saudades do céu ...
Em túmulos de prata, dormem há
séculos duas filhas de Sancho I e pasma a gente de ver que lhes tenham
respeitado a paz, ao lado de oleografias e alfaias milagrosamente salvas à
mesma cobiça sacrílega que desnudou a igreja e o convento.
Olhando ao fundo o coro, sumptuoso
lavor, luz fria entristecendo a face das coisas e como uma súplica sem
esperança, alevanta-se o vulto anguloso da estante do ofício, suportando ainda
o velho antifonário coberto de poeira sagrada.
Mal resistindo à deterioração de
toda a hora, o cadeirado glorioso alonga a todo o comprimento a graça das decorações,
todas animadas da celeste espiritualidade que resplandecem cada figura tutelar.
Pelas altas arcarias, emparedadas
aqui e além de fragmentos de capiteis e colunas, vai-se escoando o fumo dos
lares que tendo bafejado torpemente os azulejos dos corredores, anda a denegrir
os ornatos do coro, da mais preciosa talha de este país, porque o Governo para cobrir
o deficit e matar a dívida, arrendou a míseros paliteiros, por uma centena de
mil réis, as celas das freiras de Lorvão.
Se cada convento em Portugal é
uma página de vergonha para a história contemporânea, creio que em nenhum
haverá tão numerosos exemplos de ladroagem e desleixo como neste que tendo sido
poupado pelo vandalismo francês, é destruído e roubado em proveito dos liberais
do presente e em nome do interesse público.
Aqui, no alto da cúpula, a vista
sobe a encosta, pela extensão da verdura até ao céu, torna a descer o declive e
pára no fundo do vale, nas trepadeiras e heras da cerca, enlaçando ruínas
musgosas, entre silvas e alecrim, a romper vigorosamente dos entulhos onde erram
perfumes de cravos do outono e cintilações de azulejos migados ao sol.
Dos três claustros, ainda de pé,
alguns arcos, alternando com fustes brancos de colunas mutiladas e inertes. Debaixo
das arcarias abatidas movem-se crianças famintas, olhos vermelhos do fumo, fugindo
das celas para a agonia dos corredores onde o ar é opaco e a friagem passa rudemente,
ululando rumores de morte, sem a resistência das portas já moídas do temporal.
Mulheres de andrajos cruzam-se na
faina, outras espreitam dos buracos e encontram ainda um sorriso de motejo
pelos que lhes devassam o martírio que nem o sacrifício da Arte lhes abranda a
existência, ao menos.
Nas ruas, mocinhas de rosto
seráfico e olhar tímido, paradas de curiosidade, duvidam que alguém possa ter
interesse em peregrinar àquela ruinaria com que entestam a toda a hora, desde
que nasceram.
E assim, entre o desdém de um
povo que desejaria aniquilar um monumento que lhes humilha a pobreza dos
casebres e o fisco faminto, amolecendo mais a indiferença de um Conselho de
Monumentos Nacionais, é que se extinguirá até aos alicerces, o que ainda resta
do mais histórico mosteiro de Portugal.
Velhas Crónicas falam gravemente
de estes frades da cogula negra, cultivadores de terras bravias nos primeiros
séculos, em doações alargadas mais tarde e mantidas pelos próprios moiros já
dominando em Coimbra, até que em tempo de cristãos eles cederam casa e senhorio
à virtude das netas do primeiro Rei de Portugal.
Toda a tragédia das Rainhas
Teresa e Sancha, com a dedicação de nobres damas que nos votos acompanharam o
infortúnio daquela - eu a revivo entre matagais agrestes lá no fundo da Idade
Média portuguesa, o irmão feroz usurpando-lhes os castelos e a triste Infanta
Beringela, deserdada, na Dinamarca cinzenta, chorando com saudades do sol e da terra
que perdera.
Casa de penitência agora, viveiro
de bastardos, quatro séculos depois, no governo de Filipa d'Eça, quando as
monjas ricas e protegidas, resistiam com tantos abusos pelo prestígio da sua
beleza, ao intuito reformador de D. João III.
Sob estes claustros se exaltou o misticismo de Joana de
Albuquerque, discípula de Santa Teresa, que na alucinação histérica de cada hora,
tinha colóquios de amor com Jesus, de novo ressuscitado para a sua paixão
ardente, com beijos, ciúmes e amuos, como no mais trivial namoro português,
segundo a sua própria narrativa.
O Mosteiro de Lorvão - “antre serras onde o sol não era
visto” - a saudade de Crisfal o rememora a todo o coração enamorado; as
lembranças tristes das freiras que resolviam morrer à fome para não quebrarem a
clausura, a mendigar nos caminhos, hão de sepultar-se nas últimas ruinas que
impressionando-nos com respeito, ainda mais nos indignam pelo testemunho de uma
execranda malvadez."
In Livro de Horas de Hipólito Raposo. Coimbra. França Amado Editor. 1913
[José
Hipólito Vaz Raposo (São Vicente da Beira, 13 de Fevereiro de 1885 — Lisboa, 26 de Agosto de 1953), mais conhecido
por Hipólito Raposo, foi um advogado, escritor, historiador e político
monárquico, que se notabilizou como um dos mais destacados dirigentes do
Integralismo Lusitano.]
19 fevereiro, 2021
Locuções populares (III): "Custar os olhos da cara"
Esta locução, que tem o significado de custar muito caro, ter um preço muito alto, será o equivalente de “custar couro e cabelo”, “custar um dinheirão” ou mesmo “custar cara a brincadeira”.
Pensa-se que a sua
origem esteja relacionada com o costume
bárbaro de arrancar os olhos aos prisioneiros de guerra.
Furar ou mesmo arrancar os olhos de inimigos era um costume completamente
desumano praticado depois das batalhas
ou também na sequência de golpes de estado. Assim, privados da visão, os
inimigos tornavam-se menos perigosos ou até inofensivos e a guerra seria mais
fácil de vencer e a manutenção no poder teria o caminho mais facilitado.
Pagar com a perda dos olhos era um custo demasiado pesado que ninguém queria pagar. Talvez por isso a expressão "custar os olhos da cara" passou a ser também sinónimo
de custo exagerado, de preço excessivo.
Refira-se que tal prática de arrancar os olhos aos inimigos se manteve, pelo menos, até ao século XIX. A "Gazeta de Lisboa", de 1825, dava conta de uma notícia relacionada com acontecimentos passados no Médio Oriente e publicada em Marselha no "Journal des Debats”:
“O Emir-Bechir tomou huma vingança muito mais cruel dos Principes da sua familia que havião seguido o partido do Cheik-Bechir; pois a estes mandou arrancar os olhos e cortar alingoa na sua mesma presença para prolongar o seu supplicio e humiliação.”
13 fevereiro, 2021
Locuções populares (II): "São favas contadas"
A locução “são favas contadas” tem o significado de algo dado como certo, de coisa certa, de negócio seguro.
Antigamente era costume fazer contas por meio de favas. Ora, esta expressão tem origem no antigo método de votação em que se usavam favas brancas e pretas. As favas eram no fundo um instrumento de cálculo, uma espécie de calculadora mecânica.
Já na Antiguidade Clássica era habitual fazer votações utilizando favas brancas e pretas.
Este antigo processo de votação, que se mantém metaforicamente até aos dias de hoje, existe em toda a península ibérica e mesmo noutros países europeus.
Favas contadas quer dizer então: não restar dúvida, ser infalível, ser inevitável…
09 fevereiro, 2021
Locuções populares (I): “Do tempo da Maria Cachucha”
Quantas pessoas já não terão sido acusadas de viver “à grande e à francesa" ou de serem “chei(as) de nove horas”?
Ou ter a mania de “embandeirar em arco”, de “emprenhar
pelos ouvidos” e depois, quem sabe, “pagar com língua de palmo”…?
Tudo isso pode ser só “para inglês ver”. Muitas vezes “são
mais as vozes que as nozes” e tudo, afinal, tantas vezes, “traz água no bico”…
É à volta destas expressões que se perdem na memória dos
tempos que iniciamos hoje esta rubrica sobre locuções populares ou frases
feitas.
A expressão “Do tempo da Maria Cachucha” significa “muito antigo, desactualizado, obsoleto,
antiquado.” “Do tempo da outra senhora”, ou ”do tempo da pedra
lascada”…são expressões com significado semelhante.
Esta locução terá
origem na cantiga popular “Maria
Cachucha”, adaptação da cachucha espanhola, que esteve muito em voga no Século
XIX. Era uma dança sapateada de compasso ternário, normalmente
executada por uma uma mulher que acompanhava o ritmo com castanholas, ao som de
guitarras e, por vezes, canto, sendo a designação extensível à música.
Tendo origem em Cuba, rapidamente se popularizou na
Andaluzia, tendo-se daí disseminado por toda a Espanha, por Portugal, pela
França e outros países.
Tipicamente começava com movimentos lentos, que iam
acelerando, até terminar com movimentações muito agitadas.
A cachucha tornou-se muito popular em grande parte da
Europa, principalmente na primeira metade do século XIX e também em Portugal.
A cachucha passou de moda e tornou-se uma dança antiga, razão porque o povo, quando se queria referir a algo antiquado,
desactualizado ou obsoleto, passou a empregar a expressão ‘do tempo da Maria
Cachucha’. Uma clara alusão à melodia espanhola mas, principalmente, à canção
‘Maria Cachucha’ que tão popular foi em Portugal.
Quem te cachuchou?
- Foi um frade Loyo,
Que aqui passou.
Maria Cachucha
Não vás ao Rocio
Toma lá dinheiro,
Sustenta o teu brio.
Maria Cachucha
Não vás ao quintal,
Em sainha branca
Que parece mal
Maria Cachucha
Que vida é a tua?
Comer e beber,
Passear na rua.
Maria Cachucha
Com quem dormes tu?
- Eu durmo sozinha,
Sem medo nenhum …
Maria Cachucha
Com quem dormes tu?
- Durmo com um gato,
Que me arranha o c...
Maria Cachucha
Se fores passear
Vai pelas beirinhas,
Podes-te molhar
FONTE: Repositório
do Conhecimento Inútil de João M. Alveirinho Dias.
10 janeiro, 2021
Poetas penacovenses (VIII): A tentar descodificar este tempo, em sofrimento: um poema de Luís Amante
Pela manhã, da minha janela, por baixo dela
O meu circuito parecia que encolheu
... ou que, dando guarda à liberdade, se encheu!
Hoje é Domingo, segundo do novo ano
Que se segue a um outro, espartano
As pessoas encolhidas de geada branda
Sem benesses ou compadrio
Vieram respirar ar puro
Vieram a fugir do confinamento
Vieram ganhar coragem para o sofrimento
Que se avizinha ...
Desci pra me juntar à multidão
Pra sentir de perto o bater do coração
Sapatilhas calçadas
Ceroulas apertadas
E calças de fato de treino por cima
Com anorac de neve
De frente no caminho solto
Uma família de máscaras: uma azul clara; outra verde; outra
preta
Atrás com distância de segurança
Outra família sem máscara
Rapaz atleta; rapariga de olhar suave ... os filhos de
bicicleta
A seguir um grupo grande a correr sem gemer
De gente madura transportando frescura
Quatro voltas alargadas no espaço do meu tempo
Outras quatro circunscritas à volta do Estádio Universitário
E, sempre, o mesmo pensamento:
- quem será que está livre do vírus danado?
- como é que, afinal, ele se tem propagado, assim, tão
descontrolado?
Daqui a cinco dias terminam os meus sessenta e seis
Gostava que a passagem fosse no ambiente do “ar puro” da
minha terra
Encostadinho ao cheirinho da nossa serra
A olhar pro Rio, envergonhado com frio
Mas não vai dar
Não posso passar
Os meus conterrâneos estão lá a sofrer
... e no meu novo “circuito”, só dá pra temer!
Luís Pais Amante
Telheiras Residence,10Jan21; 14h00
A tentar descodificar este tempo, em sofrimento.
________________
Obrigado Dr. Luís. Muita saúde! Abraço
02 janeiro, 2021
Milagre em Penacova: uma história caída no esquecimento...
Ao monte da Senhora da Guia, quando ainda não existia a capela, mas um enorme templo inacabado, foi Isabel Francisca, viúva de Manuel de Brito, "assoalhar" lã levando consigo um filhinho de um mês, chamado António.
A dado momento, do alto da abóbada da igreja, desce uma enorme ave de rapina, talvez um bufo ou guincho, como refere a crónica, que rapta o bebé, cravando-lhe as enormes garras. Num ápice dirige-se para a zona de Entre Penedos enquanto a mãe, impotente, solta um grito de desespero.
E naquele momento de grande aflição de imediato implora a protecção de Santo António.
Ora, ao passar sobre a Quinta de Bernardo Cabral de Castello Branco, presumivelmente na zona de Vila Nova, pousou junto a uma fonte onde existia uma imagem daquele Santo. Afugentada por uns trabalhadores que por ali andavam, a enorme ave de rapina deixou a pobre criança em paz e sem feridas de maior, a não ser “leves” (?) marcas das garras.
Só podia ser milagre!
E quer os que presenciaram quer os que de tudo tiveram conhecimento mais não fizeram que redobrar a devoção a Santo António, já venerado na antiquíssima capela existente na encosta sul da vila.
12 dezembro, 2020
Penacova, Sá Carneiro e o nome da Avenida que ficou na gaveta
Sá Carneiro tem o seu nome em ruas, praças e avenidas de muitas localidades do nosso país: Lisboa, Viseu, Bragança, Funchal, Quarteira, Portimão, Albufeira, S. Pedro do Sul, Ansião, Carregal do Sal, Santa Comba Dão, Castro Daire, Valença, Vila de Rei, Mação, Marrazes, Alijó, Agualva, Nelas, Porto de Mós, Ovar, Tavarede, Marco de Canavezes…
Penacova também era para ter uma Avenida com o nome de Sá Carneiro. No entanto, os poderes políticos deixaram cair uma proposta que havia mesmo sido aprovada na Assembleia Municipal no sentido de a artéria entre os Bombeiros e a N110, passando pela escola da Cheira e pelo cruzamento da Estrada das Malhadas, passar a designar-se por Av. Sá Carneiro.
Vejamos o recorte do jornal “Nova Esperança” de 30/7/1982:
11 dezembro, 2020
Já disponível a 3ª edição de "Patrimónios de Penacova"
Publicado pela Câmara Municipal em 2012, o livro Patrimónios de Penacova: Apontamentos para a sua valorização e divulgação da autoria de Joaquim Leitão Couto e David Gonçalves de Almeida, viu sair a 3ª edição em Outubro de 2020. A capa surge agora com uma panorâmica geral de Penacova (foto de Óscar Trindade, que já integrou o "miolo" da 1ª edição).
Transcrevemos a nota a esta 3ª edição:
01 dezembro, 2020
Novo livro: "De Coimbra a Lorvão pela Estrada Verde"
A "Comarca de Arganil" noticiou o lançamento do livro "De Coimbra a Lorvão pela Estrada Verde". Aqui fica o registo:
"Integrada na Feira do Mel e do Campo, que este ano revestiu um formato digital, teve lugar no dia 7 de Novembro a apresentação do livro “De Coimbra a Lorvão pela Estrada Verde”, tendo como autores J. Leitão Couto e David Almeida.
Esta obra surgiu na sequência do anterior livro, dos mesmos autores, publicado em 2013 com o título “Patrimónios de Penacova - apontamentos para a sua Valorização e Divulgação” e também como resposta ao desafio lançado por Fernando Fonseca, do Grupo de Cavaquinhos da Rebordosa.
O lançamento, que decorreu na Biblioteca Municipal, contou com a presença do Presidente da Câmara, Humberto Oliveira, e da Vereadora da Educação, Sandra Ralha, a quem coube fazer a apresentação deste livro. No seu entender, este “excelente trabalho” é uma forma de enriquecer o nosso conhecimento e um convite a visitar Lorvão e Penacova, conhecer melhor a história e a identidade destes territórios e descobrir as suas particularidades diferenciadoras. O livro é, pois, “um reforço na nossa cultura, na nossa identidade e na nossa missão de preservar o património cultural e natural de Penacova”.
Na impossibilidade de estar presente, Joaquim Leitão Couto deixou uma mensagem gravada em vídeo e David Almeida contextualizou a génese desta obra, elencou alguns dos conteúdos e apresentou alguns dos pressupostos teóricos à volta do conceito de património.
Inicialmente pensada para se focar apenas na Rebordosa, no decurso da recolha de elementos, entendeu-se ser pertinente fazer um enquadramento mais alargado, estendendo-se também ao Caneiro e a Chelo, tendo como fio condutor o percurso, da estrada Verde (N 110) que partindo de Coimbra, passa por Torres do Mondego, Caneiro, Rebordosa, seguindo para Penacova. Assim, esta publicação acabou por abordar alguns aspectos de carácter monográfico sobre estas terras que se encontram naquele trajecto. E estar na Rebordosa e não visitar Lorvão seria muito redutor, já que, com um pequeno desvio, facilmente se chega lá.
Para a concretização deste projecto os autores contaram com a colaboração de diversas pessoas que se disponibilizaram a partilhar documentos, vivências e memórias: António José da Silva Calhau, Sandra Ralha da Silva, António Castanheira, Amável Ferreira, Maria da Fonseca Simões, Graça Pimentel, Pedro Cardoso e António de Miranda.
A obra é mais do que um simples roteiro, aprofundando muitos dos temas ligados à história, à cultura e à geografia destas localidades. Fala de dinâmicas locais, de associativismo cultural, de barqueiros e de paliteiras, de monges e de freiras, de abades e de abadessas, de acontecimentos quase esquecidos como a revolta dos sarreiros e o polémico desmantelamento da fonte “santa” de Chelo. Apesar de Lorvão já estar bastante estudado e divulgado, os autores não deixaram também de fazer uma síntese dos aspectos históricos, sociais e culturais, deste secular mosteiro e lugar.
A obra, editada pela Câmara Municipal de Penacova, pode ser adquirida na Biblioteca Municipal, no Posto de Turismo e no Mosteiro de Lorvão."
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21 novembro, 2020
Reivindicações do Porto da Raiva no jornal "O Conimbricense"
O Porto da Raiva constituiu um importante entreposto comercial, sendo um dos principais portos do curso navegável do Mondego. Ali chegavam muitos carros de bois carregados de milho da Beira. Os "carreiros" eram sobretudo das regiões de Penacova, Coja e Arganil. A feira realizava-se todas as quintas-feiras. Aqui se transacionava também o feijão, o sal, as fazendas, as mercearias e outros produtos. Até finais do século XIX, todo o concelho de Penacova afluía ao mercado da Raiva, principalmente para a compra de cereais. Os armazéns enchiam-se de tudo o que não era vendido no dia de feira e ali esperava pelo mercado da semana seguinte.
01 novembro, 2020
Memórias das Lutas Liberais: o Poial das Almas
O POIAL DAS ALMAS
- José Albino Ferreira *
"Há um banco de pedra encostado à parede da Igreja à frente da Rua da Corujeira, que foi muito falado a propósito de um caso das lutas civis entre miguelistas e liberais.
Este banco era dantes denominado o Poial das Almas porque, por antigo costume, a certa hora da noite no tempo da Quaresma, subia para ele algum penacovense de voz muito forte e suplicava um Padre Nosso por alma de cada um dos penacovenses ultimamente falecidos.
Havia então em Penacova um Sr. Dr. Fernando, pai do conselheiro Fernando de Melo, que era Juiz de Direito e conhecido como Liberal.
Chegou a Penacova o boato, ou notícia, de algum acontecimento que levou os miguelistas da terra à persuasão de que estava certa a vitória do seu partido.
Era Domingo de manhã. Na hora própria, saiu de casa o Dr. Fernando, ignorando a novidade e dirigiu-se a caminho da Igreja para ouvir Missa.
Quando chegou ao Poial das Almas, saiu-lhe ao encontro um grupo de miguelistas que em termos persuasórios o convidaram a subir para cima do Poial e gritar bem alto: "Viva D. Miguel!"
O bom Dr. Fernando não tentou resistir. Subiu e levantou o viva.Desforrou-se mais tarde, quando a vitória tombou para a banda dos liberais.
Contou-me uma virtuosíssima senhora de Penacova, há muitos anos falecida, que em pequena ia muitas vezes para casa do velho Dr. Fernando, logo de manhã. Ele levantava-se já alto dia e, depois de se lavar e vestir, fazia o seu penteado ao espelho, tudo com muito esmero.
Depois abria a janela do quarto que dava para a rua e dava sempre os bons dias à vizinhança miguelista, gritando com toda a força dos seus pulmões: "Viva D. Miguel!"
__________
Obs: Isto ter se á passado já depois de 1840, isto é, muitos anos depois de ter acabado a Guerra Civil, com a vitória dos Liberais. Muitos outros actos de violência e crime se cometeram naqueles tempos em toda a região da Beira, incluindo Penacova, como pode ver-se na obra de Joaquim Martins de Carvalho, intitulada "Os Assassinos da Beira".
* Crónicas do NP "À sombra amena da Pérgola"- finais da década de 30
21 outubro, 2020
Notas para a história do edifício que vai dar lugar à Casa das Artes
Com a implantação do regime liberal, pela vitória definitiva do partido constitucional, por toda a parte se refundiu e transformou a vida social dos portugueses.
As antigas casas dominantes desapareceram ou decaíram. As fortunas das famílias antigas que em geral se mantiveram ligadas ao partido miguelista estavam muito comprometidas por virtude das Invasões Francesas e depois pela Guerra Civil.
Em Penacova aconteceu o mesmo.
Eram donatários da vila de Penacova, primitivamente, os condes de Odemira. Esta Casa fundiu-se mais tarde, por casamento, com a dos Duques de Cadaval e, assim, ficou a ser donatário de Penacova o Duque de Cadaval. Era este Senhor que superintendia em todos os serviços judiciais e administrativos. Nomeava o Juiz e demais funcionários públicos.
Tinha em Penacova o seu Paço, com capela anexa, no sítio onde agora
está a Casa do Tribunal. Tinha em Penacova o seu capelão e procurador, pois era proprietário de muitas terras, lagares e azenhas, e recebia delas as rendas e foros.
O Duque de Cadaval era Governador Militar de Lisboa quando
os miguelistas foram vencidos pelas tropas liberais em Almada. Como visse que
não podia manter-se em Lisboa, retirou com as tropas fiéis e, assim, depois da
Convenção de Évora Monte e termo da Guerra Civil, emigrou para França, não
voltando a Portugal.
Ainda hoje [c. 1940] a Família Cadaval vive em França e só vem a Portugal com curta
demora, mas conserva o seu apego à Pátria. Os varões, chegando à idade própria,
cumprem os seus deveres militares, segundo me consta.
Como consequência, resolveu o Duque de Cadaval vender todos os bens que possuía em Penacova.
O Paço foi destruído por um incêndio e depois vendido à
Câmara de Penacova, que ali construiu o edifício dos Paços do Concelho e o
Largo Fronteiro, que hoje temo o nome de largo Alberto Leitão.
Tinha a Casa de Cadaval além da capela anexa ao Paço, que foi destruída
pelo incêndio, uma capela lateral na Igreja de Penacova onde ainda está o escudo das armas dos Duques de Cadaval. É uma capela ampla com sacristia. O estilo é de boa renascença.
Com o desaparecimento da fortuna da Casa Cadaval em Penacova, desapareceu o capelão, o procurador e mais pessoal. Com o incêndio desapareceram muitos documentos que, certamente, dariam luz para a história de Penacova.
José Albino Ferreira,
in Notícias de Penacova, "À
Sombra Amena da Pérgola" c. 1940.
11 outubro, 2020
A colheita e a vindima no Apocalipse de Lorvão
Ao abrir o livro HISTÓRIA DE PORTUGAL EM 40 OBJETOS, publicado em 2017, encontramos um capítulo dedicado ao “Apocalipse de Lorvão”. O autor, Sérgio Luís de Carvalho, começa por referir uma observação de João Aguiar. Dizia aquele jornalista e escritor que “os irlandeses têm o Livro de Kells [1]cuja edição fac-similada se vende em qualquer livraria. Nós temos o Apocalipse de Lorvão, que não lhe fica muito atrás, e não o temos acessível ao grande público.”
O Apocalipse de Lorvão
é uma cópia do Commentarium in Apocalypsin, da autoria do chamado
Beatus (Beato) de Liébana, um monge que viveu durante o século oitavo no Mosteiro
de S. Martinho de Turieno, no norte de Espanha. O original perdeu-se, mas
existem algumas reproduções, sendo o nosso Apocalipse (datado
de 1189) uma delas. Naturalmente, as cópias,
reflectindo as especificidades dos respectivos copistas e iluminadores, resultaram
diferentes entre si.
Em Lorvão, o autor deste códice ricamente iluminado foi o monge Egeas. Escrito em latim, com letra gótica a 29 linhas e 2 colunas, é formado por 221 fólios (ou folhas) com o formato de 345 x 245 mm e inclui 57 ilustrações de carácter místico e apocalíptico, que reflectem a concepção do mundo que se tinha naquele tempo e são também testemunho do quotidiano agrícola de Portugal no séc. XII.
“A Colheita e a Vindima” é uma das mais conhecidas ilustrações deste códice. Cristo, o supremo juiz tem na mão uma foice com a qual se prepara para ceifar a seara seca pelo pecado e que será deitada ao fogo. De igual modo, o supremo juiz corta, através de um anjo armado com uma podoa, as latadas estéreis devido aos pecados dos homens que serão lançadas e esmagadas no lagar divino. Esta é a leitura sagrada, baseada no texto da bíblia. Mas esta iluminura espelha também as actividades da época do ano e também da época histórica. Por exemplo, Jesus e o anjo têm alfaias típicas da Idade Média, há cestas de vime no chão e lá está o lagar a funcionar. Podemos também observar o tipo de vestuário dos trabalhadores do campo. Há, ainda, cavaleiros, arcadas românicas, mobiliário e utensílios de artes várias, animais reais ou imaginários. Ali está, mental e materialmente, muito dos primórdios do nosso país.
Durante aquele período, o mosteiro de Lorvão afirmou-se como um dos principais centros de produção de manuscritos iluminados em Portugal. Como sabemos, o Apocalipse de Lorvão está inscrito, desde 2015, na Memória do Mundo da Unesco.
[1] O Livro de Kells, também conhecido como Grande Evangeliário de São Columba, é um manuscrito ilustrado com motivos ornamentais, feito por monges celtas por volta do ano 800. Constitui, apesar de não concluído, um dos mais sumptuosos manuscritos iluminados que restaram da Idade Média e é considerado por muitos especialistas como um dos mais importantes vestígios da arte religiosa medieval.
04 outubro, 2020
A proclamação da República foi há 110 anos ... em Lisboa e em Penacova
Em seguida dirigiram-se todos para a Câmara Municipal onde ia ser feita a proclamação da República.
Efectivamente, às 8 horas e meia da manhã, o Dr. Eusébio Leão, secretário do Directório, acompanhado pelo mesmo, apareceu à varanda dos Paços do Concelho e declarou implantada em Portugal o sistema republicano. Estas palavras foram recebidas pelo povo com uma ovação muito prolongada.
Depois o Dr. Inocêncio Camacho, também membro do Directório, leu os nomes dos Ministros que compõem o actual governo provisório, sendo cada nome à medida que ia sendo lido, freneticamente festejado.
Foi imediatamente enviado a todos os ministros dos negócios estrangeiros dos outros países um telegrama anunciando o advento da República e a nomeação do governo provisório. Depois tratou o governo de promulgar todas as medidas precisas para a manutenção da ordem e segurança da cidade. Enviaram-se telegramas para todas as cidades e vilas mandando hastear a bandeira republicana. Em todas as povoações a notícia dessa proclamação foi recebida com o maior entusiasmo, fraternizando o povo com o exército.
Conhecida na cidade a proclamação da república, o entusiasmo foi enorme. Das janelas desfraldavam-se as bandeiras republicanas e aos ecos da Portuguesa e da Marselhesa e ao estalejar dos foguetes juntavam-se os vivas à República, à pátria e à liberdade.
Como que por encanto, a capital adquiriu um aspecto de extraordinária animação. As ruas encheram-se de povo. Muitas carruagens e automóveis começaram a circular, levando todos os carros bandeiras encarnadas e verdes. Quase todos os populares traziam nos casacos fitas com as mesmas cores.
Todos mostravam nos semblantes a satisfação e a alegria por haverem terminado as cenas de sangue. E bem assim foi visto que os republicanos estavam decididos a vencer ou morrer. Disse um marinheiro que estava a bordo de um dos cruzadores, que a marinha iniciou o movimento revolucionário com perto de 900 homens, dispostos a não abandonar o seu posto e a irem até ao fim, havendo a certeza de que, se o movimento tem sido dominado em terra, resultaria uma guerra civil, com uma mortandade como não haveria memória. (…)
in Almanaque da República, 1911
EM PENACOVA:Só no dia 6 de manhã a notícia chegou a Penacova. Joaquim Serra Cardoso “tinha ido na véspera para Coimbra, e assim teve a honra de trazer em primeira mão a grata notícia”. Ao chegar ao ramal de Santo António, “soltou um estridente Viva a República que foi ouvido na vila”. Pouco depois, uma comissão republicana composta por Rodolfo Pedro da Silva, António Moncada, José Pedro Henriques, José Alves de Oliveira Coimbra e Amândio Cabral, percorreu a vila convidando os cidadãos para assistirem, ao meio dia, à proclamação da República nos Paços do Concelho.
A notícia fora anunciada por uma salva de 31 morteiros e grande número de foguetes. Em toda a vila o trabalho ''foi suspenso, pois que todos queriam pormenores do faustoso acontecimento.''
27 setembro, 2020
Os 210 anos da Batalha do Bussaco
Um ano diferente para o projeto " Caminhos da Batalha do Bussaco" - podemos ler hoje na página do Município. "Este ano não tivemos os nossos passeios encenados, as nossas atividades que de forma diferente tentam levar de uma forma lúdica e cativante a história da Batalha do Bussaco e a sua importância nesta região. Este vídeo é uma retrospetiva do nosso trabalho até aqui realizado, mas é também uma homenagem ao grande responsável pela existência deste projeto. Em memória do "General" Luís Rodrigues."
13 setembro, 2020
À SOMBRA AMENA DA PÉRGOLA (III) - O Castelo de Penacova e o florescimento da Vila
A importância notável do Castelo de Penacova, no largo período da reconquista cristã, não podia deixar de determinar que, junto dele construíssem suas moradias os guerreiros mais afortunados.
Assim nasceu a vila de Penacova.
Perdida a importância militar do Castelo, com a completa reconquista cristã do território português, e firmada a independência do reino de Portugal contra a pretensão dos Reis de Castela, podia ter acontecido que a vila se desmoronasse como o Castelo. Não aconteceu, porém, assim.
(…) Para fazer a sua história, era preciso que algum investigador competente rebuscasse nos arquivos da Torre do Tombo, da Casa Cadaval e outras, a documentação que por lá, sem dúvida, existe.
Não resta , porém, dúvida alguma de que foi muito florescente a vida de Penacova nos séculos XV, XVI e XVII.
Atestam-no exuberantemente, a arquitectura e a escultura de muitos edifícios que, felizmente, em Penacova têm resistido aos malefícios do tempo e dos homens. São notáveis a Igreja de Penacova, com as suas capelas laterais, a Capela de S. João, a Capela de Santo António, a Capela do Monte Alto, bem como alguns edifícios particulares que a Carochinha irá mencionando.(…)
09 setembro, 2020
Poetas penacovenses (VII): Cogitando sobre as consequências deste tempo...
Nu
Poema de Luís Amante
Neste tempo de percurso cinzento,
fiquei nu
Corri devagar, pensei sem saber,
contive a tristeza
Não sorri, nem o exteriorizei,
nem falei com o cu
Apenas dei por mim a percorrê-lo só, com leveza
A minha rua, sem gente, vai nua
de despojada
E eu despido no silêncio que me
afaga
De beijos francos, carinhos em
laço de vaga
De abraços ternos, de ti como
sorte almejada
Nu é o despido de tudo, até de
auto-estima
Silêncio é o ponto mais assertivo
da rima
Gente é vida, amizade é culto abrangente
A tristeza cresce nesta condição
dormente
O mundo entorpece até para lá do
pungente
A crença desvanece, passando a
saber a lima
Telheiras Residence
9Set20; 17h45
Cogitando sobre as consequências deste tempo
04 setembro, 2020
À SOMBRA AMENA DA PÉRGOLA (II) - O Castelo de Penacova e o Monte da Senhora da Guia
Acabada a guerra entre mouros e cristãos, e convencidos os castelhanos de que os portugueses se não deixavam dominar, o valor militar da maior parte dos castelos perdeu-se, pelo que estes foram em geral abandonados, começando a arruinar-se. O castelo de Penacova não fez excepção a esta regra.
Mas, ao formoso outeiro sobre que ele assentava, ir-se-ia dar outro destino ainda mais nobre. A vida mais pacífica dos povos determinou grande desenvolvimento da sua riqueza.O movimento comercial cresceu notavelmente. Como não havia as estradas que há hoje , era pelo rio Mondego que as mercadorias vindas de fora subiam do porto da Figueira até às Beiras e os produtos dessas regiões em excesso vinham igualmente para o porto da Figueira pelo rio Mondego para serem exportadas.
Desde a Raiva até Louredo numa extensãp de 9 ou 10 quilómetros, avistava-se o outeiro e Castelo de Penacova. Com os temporais, a navegação era muito difícil e perigosa o que levou um devoto a deixar em seu testamento os meios necessários para se construir no sítio do castelo uma capela consagrada à Virgem sob a invocação de Nossa Senhora da Guia, para que os barqueiros aflitos implorassem o seu auxílio.
Foi esta capela construída depois do meado do século XVIII, aproveitando-se em parte as paredes do castelo. Levou assim o castelo um grande rombo. O que sobrou dele ficou a ser explorado como pedreira, até que todo ele desapareceu. Os terraços do castelo ficaram com o nome de "Largo do Castelo" e eram pontos obrigatórios, de dia para os passeantes desocupados, e de noite para os descantes e serenatas da rapaziada da Vila.
À capela foi dado, há pouco tempo, outro destino, como é sabido, construindo-se capela nova a pouca distância. Era de há muitos idealizado um Hospital em Penacova, mas não havia os recursos necessários, para a construção e sustentação dele. Um dia soube-se em Penacova que um benemérito penacovense. do lugar da Ponte, António Maria dos Santos, que saira muito novo e pobre para o Brasil e de quem quase se apagara a notícia, tinha deixado em seu testamento um legado para construção de um modesto hospital em Penacova. Foi o primeiro passo para a construção do Hospital da Santa Casa da Misericórdia.
(continua)







































