No artigo “A Saudade Portuguesa na Toponímia Brasileira”, escreve Antenor Nascentes (1886 -1972), filólogo, linguista e lexicógrafo brasileiro que “os navegadores portugueses que a partir do século XVI começaram a explorar os mares nunca dantes navegados à procura de novas terras para dilatar a fé e o império, levavam consigo a saudade da terra natal e para mitigá-la muitas vezes davam às povoações fundadas nomes dos lugares onde nasceram”.
“Essa transplantação quase sempre se operou espontaneamente, graças ao concurso dos povoadores anónimos, saudosos da pátria distante” – salienta.
No entanto, “algumas vezes se deu por influência oficial, com o intuito de fazer desaparecer o topónimo aborígene, como aconteceu no Pará em 1758. O capitão-general Francisco Xavier de Mendonça Furtado ordenou que se substituíssem por topónimos portugueses os de origem tupi, visando assim dissimular a origem indígena dos povoados em que se transfiguraram os aldeamentos organizados pelos jesuítas”, mal vistos então pelo marquês de Pombal.
Antenor Nascentes não refere uma outra personalidade que terá, em contexto semelhante, conferido um topónimo português a um lugar do Pará.
Referimo-nos a José de Nápoles Telles de Menezes (c.1747-c.1795), Governador do Pará no final do século XVIII, filho de Luís Xavier de Nápoles Lemos e Menezes, Senhor do Morgado de Penacova.
No livro “Belém do Pará sob o domínio português-1616 a 1823” de Jorge Harley, encontramos na pág. 78 a seguinte nota:
O autor refere que Tello de Menezes “talvez” fosse filho de Penacova, desconhecendo que na realidade pertencia à família dos Nápoles, muito influente em Penacova, sendo filho do referido Luís Xavier e de Francisca Macedo. Quer os pais, quer os avós eram, pois, reputados elementos da nobreza beirã (Viseu, Penacova…).
José de Nápoles, nascido em Viseu, foi Fidalgo da Casa Real, Cavaleiro da Ordem de Cristo e Tenente de Cavalaria em Almeida. Em 1779 passou a Governador e Capitão Geral do Estado do Grão Pará e Rio Negro.
“No dia 26 de fevereiro de 1780, a bordo da charrua “Águia Real e Coração de Jesus” (navio de três mastros e um grande porão, mas de pequena capacidade para armamentos) chega ao Pará o governador e capitão general do Estado do Grão Pará e Rio Negro José de Nápoles Telles de Menezes, acompanhado de membros da Comissão de Demarcação de Limites entre os domínios de Portugal e Espanha.”- escreve Hoje na História.
Depois de meritória acção no cargo, acabou por cair em desgraça, afastando-se em 1783. Veio a falecer em Lisboa. Solteiro e sem filhos deixou os bens ao sobrinho Luís Augusto de Nápoles Bourbon de Menezes.
Referimos estes pormenores na medida em que podem ser pistas para a história dos tempos da nobreza em Penacova.
Ficamos então a saber que existiu em Terras de Vera Cruz uma localidade chamada Penacova. O nome não terá vingado, já que nenhuma das pesquisas que fizemos nos confirmaram a existência deste topónimo nos nossos dias, ao contrário do que acontece , por exemplo, com Coimbra, nome de um município brasileiro no interior do estado de Minas Gerais.
SABER MAIS:
Ainda, pela leitura do artigo “A SAUDADE PORTUGUESA NA TOPONIMIA BRASILEIRA”, de Antenor Nascentes, ficamos a conhecer muitos outros exemplos:
No Amazonas encontram-se: Borba, Silves, Barcelos, Badajoz, S. Paulo de Olivença (Olivença, então portuguesa). No Pará: Alcobaça, Alenquer, Alter do Chão (antigo Borani), Almeirim (antigo Paru), Aveiro, Arraiolos, Bragança, Chaves, Colares, Esposende (antiga Tuaré), Faro, Mazagão, Melgaço (antiga Cuaricuru), Monsaraz, Monte Alegre (antiga Curupatuba), Óbidos (antiga Pauxis), Oeiras (antiga Araticu), Ourém, Portei (antiga Arucará), Porto de Moz, Santarém (antiga Tapajós), Sintra, hoje Maracanã, Soure, Tentúgal, Viseu, Mazagão, antiga Vila Nova de Mazagão.
No Maranhão: Alcântara, Viana (talvez a do Castelo, que não a do Alentejo),Guimarães, Caxias (igualmente no Estado do Rio de Janeiro,onde foi mudado para Duque de Caxias por ocasião da revisãonda nomenclatura geográfica e no Rio Grande do Sul, onde passou a chamar-se Caxias do Sul.
No Piauí, estado da região Nordeste: Amarante, Oeiras, Valença (talvez a do Minho), Jerumenha. Jerumenha, alteração de Jurumenha, recebeu de Martius uma incrível etimologia tupi. Oeiras antigamente se chamou Moxa. Quando foi escolhida em 1761 para capital da capitania do Piauí, recebeu do rei D. José I este nome em homenagem ao ministro Sebastião de Carvalho e Melo, conde de Oeiras, mais tarde marquês de Pombal.
O Ceará conta: Sobral, Soure, Crato, Mecejana. Não se pode pôr em dúvida o primeiro. Não há sobreiros no Brasil.
Apesar de reconhecer a existência de uma vila portuguesa com o nome de Mecejana, apesar José de Alencar dá a palavra como de origem tupi e significando "a abandonada".
O Rio Grande do Norte apresenta Macau e Estremoz.
Alagoas tem apenas Anadia.
Sergipe tem Badajoz.
A Baía conta: Abrantes, Barcelos, Belmonte, donde era senhor Pedro Álvares Cabral, o descobridor, que tocou em terras baianas em 1500, Alcobaça, Santarém, Trancoso, Olivença (hoje espanhola), Valença.
O Estado do Rio de Janeiro apresenta Arcozelo, uma simples estação ferroviária. Lá existem Valença e Resende, que se prendem a personalidades portuguesas.Valença em homenagem a D. Fernando José de Portugal, marquês de Aguiar, descendente dos nobres de Valença.
A cidade de Resende, foi criada no governo de D. José Luís de Castro, segundo conde de Resende e quinto vice--rei do Brasil, sendo assim chamada em honra dele.
São Paulo apresenta a cidade de Montemor, Paranhos, Nova Louzã, e as estações ferroviárias Lusitânia e Miragaia. Houve uma antiga Queluz.
O Rio Grande do Sul apresenta Alegrete, que não vem de topònimo. Havia no local uma cidade cuja capela os espanhóis incendiaram em 1761. O capitao-general marquês de Alegrete mandou reconstruída e então os habitantes, gratos, deram à localidade o nome do título do marquês.
Mato Grosso apresenta Melgaço.
Finalmente, Minas Gerais possui Cedofeita, que lembra a igrejinha do Porto, Ericeira que evoca a praia donde partiu para o exílio o rei D. Manuel II. Barbacena, nome de freguesia próxima de Elvas, Queluz (hoje Lafayette), lembrando o palácio real das cercanias de Lisboa, Matozinhos, que possui um santuário que é uma réplica do que existe no Porto, Mariana e S. João del-Rei. Mariana era a vila do Carmo. Passou a ser cidade em 25 de Abril de 1745, recebendo este nome em honra de D. Maria Ana d'Austria, esposa do rei D. João V. S. João del-Rei era o antigo arraial do Rio das Mortes. Perto de S. João dei-Rei fica a antiga vila de S. José do Rio das Mortes, depois S. José del-Rei, hoje Tiradentes, cujo nome se atribui ao príncipe real D. José, mais tarde rei D. José I, filho de D. João V. Feita uma homenagem ao pai, julgaram de bom aviso fazer outra ao filho.
Por sua vez, uma simples pesquisa em “modo IA" dá-nos o seguinte:
A toponímia brasileira é rica em nomes portugueses, refletindo a colonização e a devoção, com exemplos como Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais (em homenagem às minas portuguesas) e Santa Catarina, além de muitas cidades com nomes de locais e santos de Portugal, como Braga, Coimbra, Aveiro, Lisboa, e Viseu, demonstrando a profunda ligação cultural e histórica entre os dois países, de Norte a Sul do Brasil.
Tipos de Nomes de Origem Portuguesa no Brasil
Nomes de Cidades e Estados:
Grandes Capitais: Rio de Janeiro (inspirado no estuário), São Paulo (dia de São Paulo), Porto Alegre (referência a "porto" e "alegre"), Belo Horizonte (referência à beleza do horizonte).
Nomes de Regiões: Minas Gerais (referência às ricas minas encontradas), Espírito Santo (referência religiosa), Santa Catarina (em homenagem a Santa Catarina de Alexandria).
Nomes de Santos e Devoção:
Grande parte das cidades brasileiras leva nomes de santos católicos, muitos deles venerados em Portugal, como São Francisco de Assis, Santo Antônio, São Sebastião, Nossa Senhora da Conceição (variando de estado para estado).
Nomes de Lugares e Características Geográficas de Portugal:
Cidades: Coimbra (MG), Braga (PB, SC), Aveiro (AM), Viseu (MG), Lamego (RJ), Évora (PE).
Características Naturais:
Rio Douro (em homenagem ao rio português), Serra da Mantiqueira (com influência toponímica).
Nomes de Pessoas (Colonizadores e Figuras Históricas):
Muitos lugares recebem nomes de bandeirantes, exploradores e nobres portugueses, como Fernando de Noronha (PE), Ilha de São João (hoje Fernando de Noronha) e nomes de famílias importantes da época.
A toponímia brasileira é um espelho direto da colonização portuguesa, apresentando mais de 70 cidades com nomes idênticos aos de Portugal.
Esta herança consolidou-se através da substituição de nomes indígenas por designações lusitanas, especialmente durante a Reforma Pombalina. Aqui estão os principais exemplos dessa influência:
Cidades Homónimas (Mesmo Nome)
Muitas localidades brasileiras foram batizadas em homenagem a vilas e cidades da metrópole:
Santarém (Pará) – O estado do Pará é um dos que mais preserva esta ligação, com mais de 20 cidades homónimas. Bragança (Pará) e Bragança Paulista (São Paulo). Óbidos (Pará). Chaves (Pará). Viseu (Pará). Amarante (Piauí). Barcelos (Amazonas).
