domingo, 29 de dezembro de 2013

Ao derradeiro dia do mês de Dezembro de mil quinhentos e treze...

Parte final do Foral Manuelino onde se pode ler a data de 31 de Dezembro de 1513.
Já nos referimos neste blogue, por diversas vezes, aos Forais de Penacova, em especial àquele com que o Rei Venturoso distinguiu estas terras "no derradeiro dia do mês de Dezembro" de 1513.
 
Transcrevemos hoje um excerto da nota introdutória à edição facsimilada, assinada pela Profª Doutora Maria Alegria Fernandes Marques:
"É notório o interesse do poder local pelos aspectos históricos das suas comunidades. E surge redobrado quando elas foram alvo da concessão de foral, em um qualquer momento.
Essa atenção pode justificar-se por muitas razões, mas há duas que convém registar, muito particularmente. Referimo-nos à consciência da sua ancestralidade e identidade e ao respeito pelos documentos da sua história.
Folhas XIII do Foral de 1513
 
Assim o caso de Penacova, vila distinguida com dois forais um do rei D. Sancho I e outro do rei D. Manuel. Se o facto de este concelho da beira do Mondego ser, sem dúvida, depositário de uma história multissecular pois que, com toda a certeza, o lugar existia em 1036, podendo, mesmo, ser herdeiro e continuador de outros, mais antigos na região, e detentor de um património histórico, artístico e cultural de um valor muito apreciável a começar pelo imponente e tão significativo mosteiro de Lorvão, justificava, já de si, uma obra de pesquisa, entendeu o poder autárquico actual fazer dedicar um estudo aos seus forais.
Assim, tem este trabalho por fim a publicação fac-similada e o estudo dos dois forais de Penacova. O primeiro, do mês de Dezembro do ano de 1192, havia de inserir-se numa política de valorização do território, tão característica do rei Povoador, o segundo, datado do último dia do ano de 1513, nasceu da grande reforma dos forais levada a cabo no reinado do rei Venturoso.
D. Manuel I, o Venturoso
No intervalo, a vila de Penacova havia de conhecer o destino de tantas outras do reino de Portugal: concedida a vários apaniguados régios, ao longo dos tempos, no governo do Mestre de Avis, futuro rei D. João I, havia de conhecer a família em cuja posse havia de persistir até ao fim do regime senhorial, em Portugal. Então, era doada a Nuno Fernandes Cordovelos, em agradecimento daquele rei pelos importantes serviços e pelo apoio que esse seu vassalo lhe tinha prestado, quando ele lutara pelo trono de Portugal, contra um partido adverso que tinha no poder castelhano a sua cabeça e coração. Na sua família se manteria até à extinção dos forais."
[SAIBA MAIS NO PENACOVA ONLINE NO DIA 31]

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Penacova, Lorvão, S. Pedro de Alva e Rebordosa vão reviver Cantares de Natal


 
Os Cantares do Ciclo Natalício vão estar em primeiro plano na agenda cultural dos próximos dias. São já quatro as iniciativas programadas:
DIA 28 de DEZEMBRO: na Igreja Matriz de Penacova, pelas 21 horas, vão actuar, além do grupo organizador - Rancho Folclórico de Penacova, o Rancho Folclórico e Etnográfico de Alfarelos e o Rancho Folclórico de Paranhos da Beira.
DIA 29 de DEZEMBRO: na Igreja Matriz de S. Pedro de Alva, pelas 16 horas, integrado no Concerto de Natal, o Rancho Folclórico da Casa do Povo vai interpretar também Cantares do Ciclo Natalício. Neste evento actua ainda o organista João Guerra e o Grupo Vocal Ancãble. Uma organização conjunta da Paróquia, do Grupo Onda Jovem do Alva e do Rancho local.
No mesmo dia – e à mesma hora – em Lorvão, tem lugar o XVI ENCONTRO DE CANTARES DO CICLO NATALÍCIO, na Igreja do Mosteiro. Actuam o Grupo Etnográfico de Lorvão, o Rancho Folclórico São Salvador de Grijó, o Grupo Típico de Ancã e o Rancho Folclórico de Mundão.
12 de JANEIRO: na sede do União Popular da Rebordosa, pelas 16 horas, “Cantar do Natal aos Reis”. No encontro participam o Grupo Cultural Os Medroenses (Medrão – Sta Marta de Penaguião), Grupo de Cantares do Grupo Folclórico “Cravos e Rosas” (Oliveira de Azeméis), Cantadeiras da Alma Alentejana (Almada) e, por fim, o Grupo de Cavaquinhos da Rebordosa.
Neste tipo de cantares há “uma união do espiritual e do profano, em que se testemunha uma dualidade/unidade de princípios, de valores e de receptividade geral, vincada na exaltação, no humorístico, no satírico e no agradecimento, com votos de felicidade, de bem-estar, de gratidão, de louvor ao Menino e de penhor à pessoa" - escreveu  Mário Nunes, historiador e investigador das tradições populares, (e à data Vereador da Cultura), aquando do lançamento de um CD, em 2008, pela Câmara de Coimbra.
Segundo aquele historiador, falecido no Verão passado, a distribuição cronológica da festividade principia nos cânticos de alegria e de elevação espiritual ao Menino, entoados na noite de Natal e nos dias seguintes.

No primeiro de Janeiro cantam-se nos adros e de porta em porta as "Janeiras", cantares populares, outrora preparados para os lavradores e pessoas ricas e de linhagem, tendo por motivo agradecer os benefícios recebidos ao longo do ano, desejar Ano Novo repleto de alegria e saúde aos proprietários e familiares e pedir, em recompensa, alguns bens alimentares para festejar o evento.

Nos Reis, a 6 de Janeiro, a última fase do ciclo natalício, cultivam-se os mesmos sentimentos, emprestando-se o entusiasmo e a saudação, algumas vezes personalizados, ao Senhor da Casa e pessoas queridas. "Na ausência do esperado agradecimento, isto é, não correspondido, materialmente, cantam-se quadras, previamente escolhidas, em que o humor, a sátira e até o brejeiro dirigidos aos donos, acompanham as despedidas e formalizam o desagrado do grupo aos distinguidos com a saudação".

sábado, 21 de dezembro de 2013

Documentário Memórias de Pedra e Cal

 

Um documentário sobre a extração, transformação e uso da cal na construção tradicional, produzido por portugueses e brasileiros, vai ser apresentado no domingo, em Penacova.
Uma primeira versão do documentário "Memórias de Pedra e Cal", cuja realização contou com a colaboração dos municípios de Coimbra, Cantanhede e Penacova, vai ser exibida no auditório da Biblioteca Municipal de Penacova, às 17:00, numa sessão que inclui debate com a população.
Neste concelho, a Câmara Municipal patrocinou a recriação da produção da cal parda, com a participação dos moradores do Casal de Santo Amaro, onde esta atividade envolveu sucessivas gerações ao longo dos séculos.
 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Cartas Brasileiras: ainda o tema da emigração de penacovenses para o Brasil


Um dos navios da minha  sogra

Contar como famílias portuguesas vieram para o Brasil, falar sobre aqueles que deixaram Penacova para fazer a América é também contar um pouco da história da nossa gente. Na carta anterior falei sobre o navio que trouxe meu avô português, na de hoje falarei sobre o da avó  que adotei, por ser a da minha mulher.

O Highland Brigade

E, mudando o curso, falarei sobre o navio de minha sogra, porque ela veio com a mãe e o irmão, desembarcando em Santos no dia 6 de março de 1934. Veio mesmo de navio, como está comprovado, o que me impede de dizer a asneira de que teria vindo montada em uma vassoura, como dizem os genros desalmados; não ela, especialmente ela.
 
O interessante é que, como se observa no documento aqui já publicado em carta anterior, no Passaporte de Viagem contam dois navios: Highland Brigade e Ruy Barbosa. Segundo ela, a data da  viagem, depois de tudo pronto, foi alterada, talvez por isso constem os nomes de dois vapores, porque não trocaram de navios, nem na parada ocorrida em Recife (Pernanbuco- Brasil).
 
Sobre o vapor inglês Highland Brigade, reproduzo fragmento extraído do livro “O ano da morte de Ricardo Reis”, do famoso escritor português José Saramago:

“...Um barco escuro sobe o fluxo soturno, é o Highland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara. O vapor é inglês, da Mala Real, usam-no para atravessar o Atlântico...enfim entrará o Tamisa como agora vai entrando o Tejo, qual dos rios o maior, qual a aldeia.”
 
Como era o vapor? Deixemos que o mesmo Saramago nos diga:

“ Não é grande embarcação, desloca catorze mil toneladas, mas aguenta bem o mar, como outra vez se provou nesta travessia, em que, apesar do mau tempo constante, só os aprendizes de viajante oceânico enjoaram, ou os que, mais veteranos, padecem de incurável delicadeza do estômago... provido de tombadilho espaçosos para sport e banhos de sol, pode-se jogar, por exemplo, o cricket, que, sendo jogo de campo... Em dias de amena meteorologia ...é jardim de crianças e parada de velhos, porém não hoje, que está chovendo e não iremos ter outra tarde...”
 
Possuía acomodação para 150 passageiros na 1ª classe, 70 na segunda, e 500 na 3ª, na qual vieram Vó Maria com os filhos: Lucília (a sogra), com 6 anos e Orácio (como grafado) com 4 anos, que partindo de Povoa da Figueira, passaram por Souselas, de trem para o Porto onde embarcaram rumo a  Lisboa, desembarcando em Santos (Brasil).  

Em 1940, e durante a II Guerra Mundial foi transformado para transporte da tropa inglesa. Com o fim da guerra voltou aos antigos proprietários, vendido em 1959 para um armador grego, passou a se chamar Henrietta, fazendo rotas entre Gênova e Austrália, posteriormente foi rebatizado de Marianna em 19660, e finalmente, em 1965 foi levado para ser demolido no estaleiro de Kaohsiung, em Taiwan.

Sobre o outro navio falarei em outra carta.

Abraços  - Paulo T J Santos – ptjsantos@bol.com.br

sábado, 30 de novembro de 2013

Penacova, 1 de Dezembro de 1910


De acordo com notícias da época, o 1º de Dezembro de 1910 foi assinalado em Penacova com uma sessão solene que se realizou na Câmara Municipal.
Pelas 11 horas a Tuna de Lorvão tocou o “Hino da Restauração” dando início às celebrações. Na sessão solene discursaram António Moncada, Presidente da Comissão Administrativa e Amândio Cabral, Administrador do Concelho. António Moncada recordou que, quer em 1640, quer em 1910, fora “ o povo, e só este” que derrubara “a tirania”.
 
Joaquim Maria da Silva, em nome do povo de Lorvão, leu uma “calorosa” mensagem de saudação à República e ao Governo Provisório.
A Filarmónica de Penacova também esteve presente, executando o novo Hino “ A Portuguesa”.
Recordando o 1º de Dezembro de há 103 anos são de referir outros dois acontecimentos: 
 
- a inauguração, na Av. 5 de Outubro, do Centro Republicano de Penacova tendo como patrono António José de Almeida.
 
- a inauguração da “luz acetylene” na vila  apesar do dia de temporal que se fez sentir. “ Com vagar embora, o Progresso vai penetrando na nossa  terra “ – dizia o Jornal de Penacova.
 
À noite, os republicanos reuniram-se  ainda à volta de  um jantar no “Hotel da Srª Altina Amaral”.
 
Breves notas* sobre o feriado do 1º de Dezembro

Capa da obra referida onde
surge em 1º plano António
José de Almeida
A comemoração do 1º de Dezembro foi determinada logo nas cortes de 1641, mandando “celebrar anualmente Te Deum” em todas as Sés.
Ao longo de toda a Monarquia foi considerado apenas como dia de “simples gala”, apesar de, em 1892,  a Comissão Central 1º de Dezembro ter solicitado ao rei D. Carlos e ao Governo que a data fosse promovida a “dia de grande gala”, aspiração que não foi atendida.
Com a implantação da República o 1º de Dezembro  foi proclamado Feriado Nacional. Logo no dia 12 de Outubro aquele dia foi proclamado como Feriado Nacional e também foi escolhido para a  “Festa da Bandeira Nacional” em que seria apresentada oficialmente a nova bandeira .

*Ver Feriados em Portugal, Luís Oliveira Andrade, Luís Reis Torgal. Imprensa da Universidade, Coimbra, 2012 

Comemorações da Restauração da Independência em Lorvão.
A Filarmónica Boa Vontade Lorvanense celebra, no próximo dia 1 de dezembro, a Restauração da Independência Nacional, tradição anualmente realizada por esta Filarmónica desde a data da sua fundação em 1 de agosto de 1910.

Personificando o grupo de 40 fidalgos que atacaram os espanhóis, em Lisboa, no dia 1 de dezembro de 1640, os músicos da Filarmónica Boa Vontade Lorvanense saem, pelas 09H30, da sede da Filarmónica, na rua Bissaya Barreto, em Lorvão, e dirigem-se, em silêncio, municiados com os seus instrumentos, ao Mosteiro de Lorvão, para apanharem os espanhóis de surpresa.
Subindo pela estreita escadaria até ao zimbório poligonal, sob as ordens do Maestro Paulo Almeida, entoarão, o Hino da Restauração de 1640.

Pelas 15H30, a sede da Filarmónica Boa Vontade Lorvanense será palco do Colóquio "1º de dezembro e os Feriados Nacionais", em que serão intervenientes o Prof. Doutor Reis Torgal e o Dr. António Calhau.
( Texto: website da Câmara Municipal)

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Foral Manuelino: resgatado do balcão de uma loja onde chegou a servir de suporte a balança conseguiu completar 500 anos em terras de Penacova


Por pouco - a fazer fé na crónica do Dr. José Albino Ferreira (A Carochinha) - que o exemplar concelhio do Foral de 1513  não desapareceu no monte de papéis velhos. Aqui se conta como, graças ao antigo Secretário da Câmara, Alípio Correia Leitão, esta preciosidade foi salva do desleixo (ou intenção) de quem se quis desfazer dos testemunhos da nossa história . Felizmente que o podemos observar ainda hoje em bom estado, depois do seu restauro no último mandato do Engº Maurício Marques, enriquecido com a  publicação de uma edição fac-similada do mesmo.
O Dr. José Albino Ferreira que faleceu no início dos anos quarenta, foi notário e também padre. Foi várias vezes Presidente da Câmara. Nessa qualidade inaugurou, por exemplo, o Mirante em 1908. Era uma pessoa com uma vasta cultura e muito reconhecida em Penacova. Vamos, pois, acreditar na veracidade destas peripécias.


A crónica começa assim:

As crónicas publicadas no Notícias de Penacova
“Era o foral o estatuto fundamental, a carta constitucional do concelho, que devia ser religiosamente guardada com os livros e papéis da secretaria da Câmara.
A guerra civil em que o povo português se envolveu, dividindo-se em dois partidos, o conservador chamado legitimista e o liberal ou constitucional, teve em Penacova grande repercussão. Dividiram-se e hostilizaram-se rijamente os penacovenses.

Vencidos os legitimistas que queriam para seu rei D. Miguel, houve por cá também liberais vencedores que acharam que a história de Penacova devia começar só em 1834, ou, quando muito, em 1820. Era preciso fazer desaparecer tudo o que contrariasse os ideólogos do liberalismo. Despedaçaram o pelourinho e não se sabe o que fizeram dos livros e dos papéis do Arquivo Municipal.
O certo é que na Secretaria da Câmara, só existe dos tempos anteriores, o foral de D. Manuel e este mutilado, faltando-lhe a primeira folha, a traça e o tempo dilaceraram gravemente a forte encadernação, mas respeitaram admiravelmente o pergaminho das folhas e as vivas cores das letras.

Um dia encontrou-se na secretaria da Câmara, a Carochinha, com o ilustre penacovense que foi grande orador sagrado, Alves Mendes, e apresentou-lhe o foral, lamentando o desaparecimento da primeira folha. Alves Mendes viu e disse: Olhe, sabe a razão? É que havia, sem dúvida, como era de uso, a iluminura artística da primeira letra. Algum amador a viu e cobiçou para a sua coleção, e…foi um ar que lhe deu…
Referência aos 5oo anos do Foral
in Revista Municipal
Não ficaram por aqui as desventuras do foral.

Quando, há poucos anos se aposentou Alípio Leitão, que durante mais de 30 anos foi secretário da Câmara, encontrou-se na Pérgola a Carochinha com o saudoso penacovense Dr. Daniel da Silva que lhe disse: sabe, apareceu o foral!
A  Carochinha que ignorava o seu desaparecimento estranhou o caso. O Dr. Daniel continuou:

Eu sabia, porque me tinham dito, ignorando-se como se dera o facto. Eu suspeitava que tivesse sido o meu amigo que o houvesse escondido, não para ficar com ele, mas para o ter mais bem guardado…
Nada disse e perdoei logo ao Dr. Daniel a injusta suspeita.

Agora o Alípio Leitão fazendo entrega da Secretaria ao sucessor, apresentou-lhe uma caixa em que tinha guardados vários papéis e bem assim o foral que se julgava perdido…
Logo que a Carochinha se encontrou com Alípio Correia disse-lhe: então tu sonegaste o Foral fazendo que durante mais de 20 anos pesasse sobre mim a suspeita de o ter roubado?!
O meu amigo Alípio Correia, então, diz-me muito naturalmente:
Eu fui a uma mercearia cá da terra e vi, sobre o balcão o foral sobrecarregado com as balanças da loja!... Fiquei surpreendido, mas não disse nada. Voltei no dia seguinte e lá estava o foral na mesma tortura. Ainda desta vez nada disse ao logista. Ainda nesse dia voltei, não encontrando ninguém no estabelecimento. Peguei no foral e levei-o para a Secretaria, onde ele devia estar sob minha guarda e pu-lo numa caixa fechada onde tinha outros papéis que guardei no fundo duma gaveta.
Nunca ninguém me perguntou pelo foral e por isso a ninguém disse onde o tinha.
Eu louvei muito a discreta prudência do Secretário…

Carochinha “

----------------------------------------------------------

 
Em 17 de Julho de 2008 foi apresentado o livro

"Os Forais de Penacova", edição fac-similada com  nota introdutória, transcrição, tradução e glossário da Prof. Doutora Maria Alegria F. Marques
Apresentação da edição fac-similada dos Forais de Penacova
(Foral Sanchino e Foral Manuelino) em 17 de Julho de 2008.

Sobre o Foral Manuelino ter também em consideração a seguinte obra:
Análise codicológica do Foral Manuelino de Penacova*
Monografia
Autor : Queirós, João Paulo dos Santos
Editor Coimbra [J. P. S. Queirós], 1998
•Trabalho realizado no âmbito da cadeira de Codicologia do Curso de Especialização em Ciências Documentais da Fac. de Letras da Univ. de Coimbra.
Desc. Física 40 f. : il. ; 30 cm.
____________________________
Comentários:
Antonio Calhau   O falecido meu estimado amigo e colega Dr Homero Pimentel , grande professor do nosso concelho disse-me há cerca de 30 anos exatamente o que aqui está escrito e referiu que a 1ª página do foral poderia ter servido de cartucho nessa referida mercearia. (através do Facebook)
 

 

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A Revolta dos Sarreiros: um caso que apaixonou "a vila e seu termo" e acabou em tragédia


Sarreiro (foto cedida pelo Rancho
Folclórico "As Paliteiras"de Chelo)
A história que vamos recordar chegou ao nosso conhecimento através do jornal Notícias de Penacova. Nos inícios dos anos 60 este jornal publicou um conjunto de crónicas intituladas  "In Illo Tempore..." assinadas com o pseudónimo Zé do Mirante. A par de outros temas sobre Penacova e o concelho, o articulista relata com algum pormenor um facto que terá acontecido na vila nos finais do séc. XIX. O texto não apresenta datas nem nomes completos, mas ao procurarmos  noutras fontes referências ao Dr.  José Ferreira, citado na crónica,   somos levados a crer que de facto se trataria de José Ferreira Seco de Figueiredo e Queiroz ( 1827-1889) , bacharel de Direito e Recebedor da Fazenda em Penacova. Casado com Joaquina Emília Augusta de Melo (1827-1896) fora também Presidente da Câmara de Poiares e ainda Deputado às Cortes.
Assim sendo, os factos remontarão a 1888-1889, pois a data da sua morte (suicídio) ocorreu  em 14 de Fevereiro de 1889 na Quinta da Boiça em Sto André de Poiares.
 
Eis pois, a transcrição do texto publicado nas páginas do Notícias de Penacova de 1962:
 
I
Um dia logo de manhã, foi a vila posta em sobressalto. Eram os homens válidos das povoações de Chelo. Chelinho e Rebordosa, armados de cacetes em atitude revolucionária. Eram sarreiros que vinham dispostos a desancar, liquidar, o Escrivão da Fazenda, porque os tinha colectado arbitrariamente, sem olhar ao direito e à justiça.
Ainda deverá existir, em alguns daqueles povos algum velhote, bem velhote, que se lembre desta manifestação de força, de aventura e desafronta...
Ora o José Miguel, de prestígio pessoal e político da região, já tinha vindo com o António Lopes, também homem de respeito de Chelo, e talvez o maioral dos sarreiros, expor ao escrivão da Fazenda a engrenagem do negócio do sarro, pois que não passavam de angariadores de adegas espalhadas pelo Portugal vinhateiro, mas por conta e financiamento do verdadeiro industrial do Porto. Eles, sarreiros, somente extraiam o sarro das vasilhas com o auxilio dos moços ( ou criados) e apresentando a mercadoria ao patrão do Porto, recebiam as suas jornas e ajustavam contas.

Objectos utilizados pelo sarreiro
( Expo Artes e Cultura - Lorvão 2012 fotos de Penacova Online)
O escrivão da Fazenda, como então era tratado, e se a memória é firme e não me atraiçoa, se chamava Viriato, não atendeu às reclamações destes, agravou o caso, tributando também os moços (ou criados) dos sarreiros que fossem menores. " Aqui é que ardeu Troia" e aí vinham todos fazer barulho, fazer valer os seus direitos a cacete e queimar a papelada...
O prudente José Miguel tinha vindo à frente montado na sua fiel e pacata burrinha, dar aviso aos chefes políticos de que era devotado amigo.
As repartições foram encerradas e o Viriato não se sentindo em segurança na hospedaria da ti Levradia (mais da tarde da srª Altina do Amaral) pediu asilo ao vizinho Dr. José Ferreira que generosamente o acolheu e hospedou, entregando-o aos cuidados e vigilância da incomparável esposa D. Joaquina de Melo.
Toda a gente sabia que o Dr. José Ferreira era o Recebedor responsável e amigo de sempre, o honradíssimo compadre de toda a gente. Aquela casa era sagrada; ali minguem lhe tocaria!
Quem diria que o Viriato, cobardão e medroso, tornado cordeirinho naqueles dias, viria a ser o carrasco do seu salvador?
Mas vamos assistir aos tumultos e possíveis desacatos dos sarreiros.
Como as Repartições estavam fechadas, andavam aos montões, rua a baixo , rua acima, a dar vivas aos regeneradores e aos progressistas ( não era época de eleições) e espalhafatosos morras ao Viriato, que, tão fortes como trovões ou como o dobrar os sinos a funeral, se ouviriam em Chelo.
O que é certo, e torna evidente destacar, é a moral daqueles povos ao fim de algumas horas de furor, gritaria, de beberricar pelas tabernas, de esfacelarem os paus nos muros e nas paredes, não partiram um vidro, não queimaram a papelada...e não fizeram desacato algum! Com prudência ouviam-se as advertências das autoridades e até iam acalmando com a promessa de os políticos irem a Lisboa resolver o assunto a seu contento.
Recordo muito bem de dois famosos auxiliares do sossego, que com umas pancadinhas amigas num, com um segredo ao ouvido deste e uma anedota brejeira àquele, iam empurrando os sarreiros amotinados para suas casas. Merecem  registo os seus nomes e qualidades.
Um era Joaquim de Andrade, de Miro; o outro Joaquim Pechim, da Mata de Carvalho, se bem me recordo, ambos afilhados do Dr. José Ferreira. O primeiro era auxiliar e quase permanente à frente da Recebedoria da qual o padrinho era o responsável; o segundo, o Pechim, era com "um procurador honorário ou notário privativo dos dinheiros e rendas do Dr. José Ferreira, espalhados por toda a Comarca. Mais tarde tive nas minhas mãos e li, muitos "Títulos de Confissão de Dívida" escritos pelo Pechim e pelo sr. Luís Lopes (outro notário popular) que foram esquecidos ou perdoados. Estes "Títulos" tinham a curiosidade, sendo a moeda corrente os mil réis, em tal se não falava nem tão pouco em libras; era somente - tantas "moedas" - cujo valor era de 4 800 réis (4$80) cada.
Ora estes figurões que acima descrevi, eram conhecidíssimos no meio dos amotinados sarreiros e portanto eram obedecidos e respeitados. Alguma razão tinha o Andrade, de Miro, de me dizer, quando eu já fazia a barba, que tinha sido o rei de Penacova!...Lá tinham as suas razões de realeza que a história não registou...
Quem mais gozou com as arruaças foi a garotada; colaborou rijamente nos morras ao Viriato quanta antipatia e raiva lhes merecia.
Ah! mas a rixa com os sarreiros não findou; nem a paz e sossego para os habitantes da vila e nem a vingança do Viriato estava quite com uns e outros; aqueles porque o ameaçavam de morte e estes porque lhe negaram apoio.
 
A festa ia, pois, principiar.
 
Um ou dois dias depois e tudo em tranquilidade, andavam uns tantos gaiatos em Santo António, nos jogos próprios da idade (então não havia muro ou qualquer resguardo fora do alpendre) quando um dos miúdos - como tenho tão vivo na memória este caso! - viu que à Várzea vinham soldados a cavalo e outros, muitos, a pé, com cornetas e tambor a tocarem!
O alarme foi como o desabar da tempestade. De todos os pontos voltados ao Reconquinho, corriam, gritavam, rebolavam pelas encostas à estrada de Coimbra, os rapazinhos e até os grandes, ao encontro daquela maravilha inesperada e nunca vista!
Naquele tempo não havia qualquer ligação com a estrada para Coimbra a não ser o caminho estreito e mau pelo Cidral ao Chafariz. Pois por aí vinham os soldados e cavalos, à mistura com o batalhão de garotos.
Os mirones da vila encontraram-se na Costa do Sol.
Como a crónica já se vai estendendo para além do que permitido é o espaço do nosso jornal, eu terminarei com outro número de o "Notícias", pois vale a pena trazer ao conhecimento do nosso povo um caso que emocionou dois concelhos.
 
II
 
 
Como já dissemos, o único caminho que ligava Penacova com a estrada de Coimbra, era o acanhado caminho do Chafariz-Cidral. Pois era por aí que subiam os soldadinhos que iam ser os dominadores da vila.
Logo depois o administrador do concelho, Dr. Amaral, hóspede e parente do Sr. Constantino, bisavô da Ex.ma srª D. Maria José Leitão, que eu mais tarde viria a reconhecer como Conselheiro Presidente da Relação em Coimbra, mandava o seu oficial Joaquim Cabral, do Castelo, que, de relação na mão, ia distribuindo pelos habitantes da vila o numeroso grupo de soldados. A garotada é que achava grande honra ter em sua casa um soldado. Que importava à economia da família, se dividia o seu naco de broa com o soldado?
Os oficiais, dois ou três, ficaram hospedados na casa do Conselheiro Alípio Leitão. Um dos oficiais tinha um cavalo que era o alvo dos carinhos e a inveja dos apreciadores da espécie; lindo a valer, de caprichosas e grandes manchas brancas e negras.
Mobilizados carpinteiros para fazerem as necessárias tarimbas e a guarita, que muitos anos depois fi o refúgio e palácio da garotada, os pedreiros improvisaram uma cas para a cozinha dos militares e as indis- pensáveis instalações sanitárias, à moda da época!...
Publicidade de 1948 in NP
Talvez ainda haja quem se lembre, de, ao fundo da Pérgula, ser a serventia para a Repartição da Fazenda, que era onde hoje é a cadeia dos homens, e servia todos os baixos do edifício. Ao lado da serventia, à direita, era a cozinha, que chegou a ser taberna do carcereiro António Dias. Nas cadeias então vazias, se instalaram os militares.
Entretanto os Penacovenses é que iam amargando as favas aboletando os soldados, alguns sabe Deus com que sacrifícios e sem culpa nas quezílias dos sarreiros e do Viriato.
Aos oficiais foi preparado alojamento, onde é hoje a Secretaria Judicial e então sala das Sessões da Câmara Municipal.
A cavalaria com grande mágoa dos gaiatos, ao fim de 10 ou 15 dias retirou, acabando o prazer de a hora certa ver a corrida para o rio à data de água, com o complemento dos pinotes dos cavalos no areal, e às vezes a fuga de alguns a caminho da vila.
A infantaria esteve aquartelada na vila - eu sei la? - talvez um ano.
Para a rapaziada o recreio era permanente, desde o toque da alvorada ao recolher; era o moifar do casqueiro ao café; do render da guarda ao manducar da bóia, à tardinha.
De maior aparato e assistência era aos domingos a formatura em frente aos Paços do Concelho, para a missa na igreja. Os soldados com o fardamento que então usavam com correame complicado e muito branquinho, com barretinas de metais a luzir como ouro, era facto imponente. E a fileira dos soldados, que ia do guarda - vento à grade a meio da igreja, com as baionetas a luzir, com os oficiais à frente de espada em punho, e os que ladeavam o altar-mor, e no momento da Elevação, à ordem do comandante e ao toque das cornetas e tambor se prostravam em sinal de submissão? Posso garantir que aos domingos não faltava à missa conventual nenhum garoto e também nunca foi tão concorrida...pelas moçoilas! Não faltaram mais criadas para servir e não mais faltou água fresquinha para a mesa de Carrazedos ou da Quinta dos Peixes, assim como as três fontes da vila estavam sempre policiadas...
 
Fonte: Rancho Folclórico "As Paliteiras"de Chelo
É tempo de relatar os trágicos efeitos da rebelião dos sarreiros na nossa pacata vila.
 
O escrivão Viriato sentindo as costas no seguro e com a sentinela à porta, redobrou o ataque à bolsa do contribuinte; não poupava os funcionários que com ele não colaborassem. Mexeriqueiro, metediço nas vidas particulares, queria dos empregados confidências sobre o viver pessoal e político do Recebedor. Caçador de escândalos mexia e remexia papéis, até que, finalmente, encontrou um vale, ainda recente, do Dr. José Ferreira, de umas dezenas de mil réis! Tinha, pois, na mão a arma desejada para o seu triunfo: liquidar um homem de valor! Lealmente não avisou, não esperou um dia, que ele recorresse a um amigo para ficar logo quite com o Estado.
O Dr. José Ferreira quando teve conhecimento da patifaria do Viriato, sofreu tal desgosto que mandou logo aparelhar a égua ao criado António Langão (António São Miguel) que ainda hoje tem forte geração na Ponte e partiu para a sua quinta da Boiça, em Vila Nova de Poiares.
Escreveu carta à bondosíssima esposa D. Joaquina de Melo, aos amigos de Poiares e Penacova e a horas mortas estoirou os miolos com uma certeira bala!...
Ainda luzia a estrela d’alva, já o António Langão batia às portas a dar a triste notícia que rapidamente se espalhou . A tragédia enlutava  dois concelhos. A indignação era total contra o Viriato. Todos lhe voltavam as costas . A  hospedaria fechou-lhe a porta, não teve quem lhe vendesse um pão. Por favor do seu fiscal de impostos, um tal Sacramento, que vivia na casa em hoje ruinas, pegada ao José Félix, ali comeu e dormiu até ao dia...
Os amigos da infeliz vítima, de Penacova e Poiares, imediatamente se puseram em campo e decorridos poucos dias o Viriato saía de Penacova escorraçado como um cão lazarento.
Os povos de Chelo e Rebordosa è que não pouparam de chupa, apupos e foguetório à sua passagem de barco a caminho de Coimbra.
E a D. Joaquina de Melo? Essa também saiu para não mais voltar à sua terra. Mais tarde soube por Arsénio Pimentel que enquanto viveu, era uma verdadeira romagem às 2ªs feiras para Boiça, de gente de Penacova, a visitar a desditosa viúva.
Poucos anos sobreviveu ao Dr. José Ferreira, mas sei que nunca lhe faltaram flores de camélia, que ainda hoje existe, da sua Quinta da Cheira.
***
Esta crónica não é fruto da fantasia. Não. Os factos são verídicos. Aos poucos ia-os arrancando à memória e estendendo-os no coradoiro da pureza dos acontecimentos. Levou seu tempo a estender a cadeia, através dos anos decorridos. Mas, louvado seja Deus, chegou-se ao fim sem atropelos à verdade, e deu-se a conhecer um caso que apaixonou a "vila e seu termo".
ZÉ DO MIRANTE
 

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Cartas brasileiras: o navio do meu avô português


O navio Sierra Morena que em 1928
 transportou Manuel Castanheira, emigrante de Figueira de Lorvão

Se botarmos atenção nos documentos que ilustraram a carta anterior (Matar a cobra e mostrar o pau), mais precisamente no Passaporte de Imigrante do meu avô Manuel Castanheira, de Figueira do LorvãoPenacova, que já disse por parte de minha mulher, vê-se que tendo partido de Lisboa em 13/11/1928, desembarcou em Santos, no dia 29/11/1928, como se observa no carimbo da imigração.

Pode-se ainda notar que no passaporte existe a identificação do navio, Sierra Morena; curiosamente, o nome hispânico nada tem a ver com a origem do navio.
 
Valendo-me do site do Governo do Estado de São Paulo, http://memorialdoimigrante.org.br/ pude verificar que o navio Sierra Morena era um navio alemão, da companhia Norddeutscher Lloyd (ND), construído 1924, em Bremer (Alemanha), com 11 430 toneladas, com capacidade para transportar 1 100 passageiros, cuja empresa foi fundada e 1857, tendo sido uma das mais importantes companhias de navegação alemã do final do século 19 e início do século 20.
Der Deutsche, resultado da remodelação do Sierra Morena
Despertada em mim a curiosidade, avancei um pouco mais pela internet, descobrindo que em 1928 o navio atracou nos portos de  Bremen (Alemanha), Boulogne (França), Vigo (Espanha), Lisboa (Portugal), Madeira (Portugal), Rio de Janeiro (Brasil), Santos (Brasil), Montevideo (Uruguai,) e Buenos Aires (Argentina).

Com a Segunda Guerra Mundial, passou-se a chamar-se  Der Deutsche, tendo sido remodelado, fazia cruzeiros organizados pelo Partido Nazista – Programa Força na Alegria. No final da guerra, foi “apropriado” pela Rússia, e de 1947/1949 passou a integrar da linha Ásia, com bandeira soviética. A partir de 1950 atuou apenas em águas do extremo oriente, entre Valdivostok e Kamchatka, até 1970, quando deixou de operar.   

Na internet há inúmeras referências sobre navio, inclusive com fotos. Não tendo como saber qual a fonte original, resta-me a citar pelo menos uma, dando assim os créditos pelas imagens.


Paulo Santos - S. Paulo

sábado, 9 de novembro de 2013

Motim sangrento em Travanca: alguns mortos e muitos feridos foram o resultado de cena violenta

Brás Garcia de Mascarenhas, “o aventureiro, o guerreiro e o poeta”  da Beira-Serra, deixou a marca da sua faceta aguerrida também pelos nossos lados, designadamente em Travanca do Mondego. Numa recente tese de mestrado (2010) de Albano José Ribeiro de Almeida é recordado este episódio que, por sua vez, António de Vasconcelos relatou na sua obra "Brás Garcia Mascarenhas" (1921).

Escreve Albano José Ribeiro de Almeida:
(…) Ainda neste período, fins de 1640, Brás Garcia encontra-se de novo envolvido em rixas e cenas violentas, das quais se destaca a ocorrida em Travanca de Farinha Podre.
A paróquia de Travanca era de provimento alternativo da Sé Apostólica e do bispo de Coimbra. Em 1638, o Padre Pantaleão, prior desta igreja, ausentou-se da paróquia deixando-a entregue ao cura João Fernandes.
A paróquia foi, entretanto, considerada vaga, tendo sido provido outro pároco. Perante esta situação Brás Garcia acciona um processo judicial. Como a justiça eclesiástica demorava a solucionar a situação, Brás Garcia e o seu séquito resolveu-a, arrebatando da bainha a espada, no dia em que o novo pároco se preparava para um banquete, depois do qual, pela tarde, iria assumir aquele priorado, de grande interesse em réditos; caíram sobre os convivas, espadeirando-os e confundindo-os; alguns conseguem saltar pelas janelas e fugir, outros resistem, mas debalde.
Excerto do livro de banda desenhada sobre a história de  Oliveira do Hospital
com referência a Brás Garcia de Mascarenhas
Baseado em documentação produzida no contexto deste conflito, António de Vasconcelos descreve, deste modo, este motim:

“Como um furacão entram todos pela porta dentro, e de espada em punho uns, outros de cacetes erguidos, caem sobre os convivas espadeirando-os e confundindo-os. Alguns conseguem saltar pelas janelas, por baixo da mesa, rolam corpos feridos gravemente, jazem outros sem movimento.
Alguns dos convivas haviam-se escapado do presbitério para a igreja onde supuseram encontrar asilo inviolável. Faliu-lhes o cálculo. Ali mesmo foram feridos e espancados, ficando assim poluída a casa do Senhor”. [...] “Quando toda a resistência dentro de casa tinha acabado, os agressores descem ao pátio, para dali e do adro varrerem a população e a criadagem. Mas não encontraram ninguém. O pavor tinha-se apoderado de toda essa gente”....“Foi uma cena sangrenta em que foi protagonista Brás Garcia e na qual houve mortos e feridos”

Depois deste episódio violento, bem ao sabor do século XVII, o poeta aventureiro homiziou-se, mais uma vez, mas por curto período, na região de Avô; nesta situação e neste período, chega-se ao dia 1 de Dezembro de 1640, à  esperada Revolução.

ALBANO JOSÉ RIBEIRO DE ALMEIDA, BRÁS GARCIA MASCARENHAS, AVENTUREIRO, GUERREIRO E POETA,COIMBRA. FL.UC- 2010
 
 BRÁS GARCIA DE MASCARENHAS
 
Brás Garcia Mascarenhas nasceu na Vila de Avô, Oliveira do Hospital a 3 de fevereiro de 1596 e faleceu a 8 de agosto de 1656 no mesmo local. Foi estudar para Coimbra, mas teve de fugir para Madrid perseguido pela justiça por ter cometido um crime. Viajou por vários países da Europa e fixou-se algum tempo no Brasil, regressando a Portugal na altura em que D. João IV é aclamado rei. Durante a Guerra da Restauração organizou um batalhão de voluntários, a Companhia dos Leões da Beira, participou ativamente nas lutas pela independência contra o domínio filipino e, sendo acusado de alta traição, foi preso. Absolvido pelo rei devido à falsidade das acusações, termina os seus dias escrevendo a epopeia em vinte cantos e oitava rima Viriato Trágico (1699). Além desta obra, escreveu ainda Ausências Brasílicas e Labirinto do Sentimento na morte do Sereníssimo Príncipe D. Duarte, atualmente desaparecidas.
A obra que, no campo da literatura, imortalizou Brás Garcia de Mascarenhas

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Cartas Brasileiras / Matar a Cobra e Mostrar o Pau...

Nota do Penacova Online:
 
O nosso primeiro contacto com Paulo Santos foi através de um e-mail que recebemos do Brasil pedindo esclarecimentos sobre a Senhora da Moita, em Gondelim, e sobre o Montalto. A partir daí fomos trocando impressões sobre Penacova e região . É que a  esposa deste nosso amigo  tem raízes no nosso concelho. Por outro lado, foi com muito agrado que tomámos contacto e colaborámos na revisão de uma novela  que está quase pronta a ser publicada. Um livro que faz muitas referências a Gondelim e a outros locais da nossa região e inclui desenhos aguarelados sobre o concelho de Penacova. Este livro poderia muito bem vir a ser uma edição luso-brasileira. Quem sabe isso venha a ser possível. De tudo isto surgiu também a ideia da publicação regular das "Cartas Brasileiras".
Na crónica de hoje, Paulo Santos faz precisamente referência aos  antepassados (avós) de sua mulher, oriundos de Lorvão e Figueira de Lorvão e de Carvalhal de Mansores e Gondelim.
 

Matar a cobra e mostrar o pau

Pesquisando pela Internet não encontrei qual seria em Portugal a expressão correspondente ao ditado popular empregado no Brasil, título desta Carta Brasileira, ou se seriam idênticos, cá e ai e se com igual significado. Aqui, do lado Oeste do Oceano Atlântico, significa: comprovar o que se fez, dar provas do feito ou do dito.
 
Cartas Brasileiras é fruto da proximidade entre os daqui com os daí, mais precisamente, com as pessoas de Penacova e seus arredores, não por parte de quem vos escreve, mas pela de minha cara-metade, cujos pais são também dos arredores, mas isso deixo para outra carta.
  
E tendo matado a cobra, ao afirmar que os parentes são de Penacova, mostro os paus, comprovando, apresentando documentos; passaporte de viajante da Avó Maria e passaporte de emigrante do Avô Manoel, ambos de Figueira de Lorvão,  e registros de nascimento do avô Eduardo (Carvalhal - 1897), e da avó Maria Assumpção (Gondelim- 1898).

Abraços do Brasil.

P.T.Juvenal Santos

 

As raízes em Gondelim e Carvalhal:

Assento de Nascimento de Maria, nascida em 1898 em Gondelim,
filha de Maria Rosa da Assumpção.
 
Assento de Nascimento de Eduardo, filho de Felicidade da Silva,
nascido em Carvalhal, tendo como padrinhos
Alípio Barbosa Leite e Elisa da Conceição Leite.
Repare-se que o Prior era na altura o irmão do Deão Leite.
 

A ligação a Lorvão e a Figueira de Lorvão
 
Passaporte de Manuel Rodrigues Castanheira
, natural da freguesia de Lorvão (1928)  
Passaporte de Maria Rodrigues, natural de Figueira de Lorvão  (1933)  


 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Uma Gruta na Riba de Cima?

Curiosa visita a um subterrâneo perto de Penacova

(Texto de Alves Mendes
publicado n' O Conimbricense em 1857)

(...) Longos anos havia que com grande pasmo e admiração ouvia falar numas galerias subterrâneas a uma légua em distância de minha pátria (estão junto à Riba de Cima, lugar que ainda fica nos limites da freguesia de Penacova) sem que o desejo me excitasse a verificar a verdade de tão apregoada narração. Tinha por fabulosa esta crença a que via pasmosamente entregue o vulgo ignorante, escutando friamente novas bocas que centenares de vezes repetiam o mesmo conto, até que por fim tamanha foi a impressão em mim causada pelo seu entusiasmo, que me resolvi ir visitar esta localidade.
Riba de Cima ( foto de Penacova Online, 2013)

Dispostos alguns companheiros (o Reverendo José d’Almeida Coimbra e Lemos e os Srs. Francisco José Mendes e António Pimentel de Sande) que me seguissem, convencionamos ser a visita da manhã, devendo partir logo ao romper da aurora para fugirmos aos ardores da crescença do dia.

Assim foi. Já o sol esplêndido e radioso se erguia majestosamente no horizonte e o frio orvalho tinha desaparecido da verdejante folhagem das plantas, quando nos achávamos a pequena distância do sítio que demandáramos. A estrada, apesar de escabrosa e áspera e sepultada no fundo de duas altas montanhas, era contudo menos penosa pelo contínuo refresco das árvores que a copavam e pela agradável melodia das aves que por todo a parte nos seguiam.
Tudo nos sensibilizava, tudo nos comovia, tudo nos extasiava: a preciosidade que procurávamos tinha escapado da nossa lembrança com a presença deleitosa do delicioso vale que trilhávamos. Por fim acabou e só ao longe divisávamos sumidamente uma colina de encantadora posição. Diante de nós se desenrolava uma planície descoberta e ilimitada onde os raios do sol dardejavam fortemente sobre nossas cabeças; porém o seu calor era modificado pela fresca brisa que suavemente enxugava o suor que nos regava as frontes.
Caminhámos, caminhámos por esta viçosa chã, até que avizinhámos um formoso oiteirinho juncado de verdes arbustos. Era o termo da nossa viagem e o lugar da nossa pretensão. Trepámos então por uma pequena vereda que, segundo o conselho de um venerando que encontrámos, nos dava direcção para a entrada do subterrâneo.
Na verdade assim sucedeu: em breve deparámos com uma profunda cova, cercada por um lado duma agigantada penedia, que no sopé apresentava uma abertura pouco mais de dois palmos de largura e em direcção perpendicular. Eis aí a entrada das galerias (se assim dizê-lo posso) – exclamaram os companheiros. Eu tomado de susto hesitei logo em atravessar tão estreita garganta e estive quase prestes a abandoná-los, que impacientes me excitavam a empreender semelhante passagem.
No meio destes colóquios, que de nada aproveitavam, um deles se levanta com um semblante grave e corajoso e em tom alto e expressivo assim fala: Ânimo! Ânimo!... Ao ouvir estas palavras doces e penetrantes, em mim se produziu nova alegria e novo brio: minha juventude e minhas forças não me permitiram fraqueza: desapareceu de repente aquele receio que me ouriçava os cabelos e coalhava o sangue nas veias, e levantando-me com coragem e valor me arremeço impetuosamente à boca da profunda caverna e comigo os meus companheiros.
Com efeito depois de uma longa e aturada dificuldade com que tivemos de lutar passando através da rocha por uma cavidade que a custo nos podia abranger, chegámos à majestosa entrada do subterrâneo. A espessa escuridão que continuadamente aí reina, era aumentada com a rápida passagem que fizemos da claridade do dia. Foi-nos então forçoso o recorrer à luz de algumas velas que com antecedência havíamos levado. Apenas estas horrorosas trevas foram substituídas pelo clarão sepulcral de nossos círios, oh! que belo contraste era ver uma espaçosa sala eternamente habitada por um jamais interrompido silêncio!
Depois dos primeiros lances de olhos sobre tão mágica e curiosa cena, entregues às mais fortes comoções nos dirigíamos como magneticamente atraídos a uma pequena altura levantada no meio deste aposento, para daí com mais exactidão e liberdade contemplarmos a magnífica abóbada, que à luz ainda que pálida de nossas velas, soltava sobre todo o pavimento um tão forte clarão, que como os raios abrasadores do meio-dia deslumbrava fortemente a nossa vista. Era na realidade aquele um dos melhores momentos que havíamos passado no mundo! O pasmo em que estávamos não nos podia deixar com precisão fazer o analítico exame que mais impressionaria o nosso entusiasmo. Conservávamo-nos hirtos e calados, e só os olhos correndo velozes por todo o recinto, mutuamente indicavam o prazer interno de cada um.
foto Wikipédia_Mira d'Aire
Fomos então pouco a pouco caminhando junto das soberbas colunas embutidas nas pedras laterais que sustentam a grandiosa massa da abóbada, e fazendo uns aos outros reflexões sobre tão rara obra da natureza. A parte superior da sala,(se assim se pode chamar) que com as paredes colaterais perfazem uma só pedra, é dum assento geralmente branco como o puro cristal. Por toda a superfície da abóbada se acham em certa e determinada distância acanudados fios, nascentes da mesma pedra, no meio das quais aparecem delicadas estrelinhas, que com as sumidades cheias de água de que se conjectura serem formados, apresentavam aos raios flagrantes de nossas luzes uma vista maravilhosa.
Pelo meio de tão precioso esmalte passam alguns veios de pedra de cor diversa da do assento e que com toda a graça e simetria dividem em gomos a vasta extensão da abóbada e que estão por tal modo brincados com lavores, que mais parecem ter merecido a atenção do delicado cinzel do escultor.
Já nas paredes laterais se não divisa o mesmo bordado da coberta superior, mas (coisa pasmosa!) embutidos por entre as colunas, donde nascem as inarcadas fachas de pedra, que simetricamente dispostas dividem toda a extensa cobertura, se encontram formados pela natureza diversos lavores em grandes e pequenas pedras, que tem semelhança com alguns dos membros humanos! Eu mesmo toquei com meus dedos uma cara e um braço – que pela sua exactidão me causaram o maior espanto!
Mas ainda isto não é tudo: de espaço a espaço saem alguns bocados de uma pedra que sem ofenderem a perspectiva geral, nem tão pouco encobrirem o delicado da renda derramada por toda a superfície donde estão aderentes, dão pelo contrário ao observador um considerável aspecto; e ainda mais excitam a atenção pela rara saliência de tangerem com qualquer movimento, e apresentarem um timbre como o do mais fino metal!
Desprendidos os olhos de tão cuidadoso exame, com que minuciosamente analisávamos cada uma das particularidades encontradas num sítio eternamente deserto e desamparado, de repente vimos dois arcos de elegante delicadeza formados de pedra lavada e transparente, nos dois lados da parede e em oposta posição. Moveu-nos logo a curiosidade de os demandarmos, a fim de examinarmos se por ventura dariam comunicação para algum vácuo, em que tivéssemos de admirar o mesmo embelezamento do da sala em que estávamos.
Com efeito não nos desmentiram. Depois que entramos aquele, cuja perspectiva vasta e altíssima perfazia o adorno mais rico e sublime, e que se achava logo imediato à nossa direita, não sabíamos em que fitar a atenção: ela não ficou logo cativa na contemplação daquele todo, mas errante por aqui e ali era já empregada  na variedade das brilhantes cores, já no maravilhoso efeito que faziam as diversas rendas engraçadamente estendidas nas paredes e abóbadas. Ainda ali havia a descortinar um horizonte mais vasto do que o do grandioso painel que acabávamos de visitar.
 
A acção da natureza excitada pouco a pouco pela mão do tempo, tinha feito diluir o exterior da lisa pedra que servia de remate àquela abóbada, e assim os raios do sol dando de encontro com a pedra fina e transparente, introduziam dentro um clarão basso e sepulcral, que reflectindo misteriosamente sobre todo o aposento, tornava aos olhos do expectador os objectos quase distintos.
Enfim, aí se encontrava a mesma sublime simplicidade que vínhamos de observar e nem a pedra é de diferente natureza, mas em tudo idêntica, apresentando assim os mesmos primores de ornato. O outro conduzia a um esquisito vácuo, onde apenas se encontra uma pedra encostada, e como que servindo de sustentáculo a uma colossal penedia que sobre ela repousava; mas que apenas mostrava um grosseiro adorno.
A beleza porém de tão magnífico subterrâneo está de dia para dia em considerável diminuição, devida sem dúvida à dolorosa incúria e desleixo em que se acha.
Lamento com amargor as grandes mutilações que aí se acham, determinadamente feitas, e que desfiguram essencialmente uma obra tão rara na natureza. Por toda a parte se vêem rendas de pedra quebradas violentamente a martelo, e colunas de que só restam simples fragmentos que ainda indicam a sua primitiva elegância. Quanto se aproveitaria com a proibição de semelhante abuso!
Tal é a traços largos a descrição do subterrâneo que tão vivamente impressionava os ânimos dos povos circunvizinhos, descrição que a nós não pertencia, mas a pena que mais enérgica do que a nossa a fizesse com mais graça e extensão, e que só a triste recordação de até hoje jazer no esquecimento nos comoveu apresentá-la.
Penacova, 17 de Setembro de 1857
António Alves Mendes da Silva Ribeiro