segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Penacova e Lorvão sob o olhar de Saramago

Entre Outubro de 1979 e Julho de 1980 José Saramago terá estado em Penacova e Lorvão a fim de  recolher elementos para a obra que o Círculo de Leitores lhe encomendara e que viria a ser publicada em 1981 com o título de  “Viagem a Portugal”.

Vindo de Góis, onde visitou o túmulo de D. Luís da Silveira, depreende-se, pelo seu relato, que terá passado por Vila Nova do Ceira, Poiares e Louredo, em direcção a Penacova: “O caminho que leva a Penacova é um constante sobe-e-desce, um novelo de curvas, e atinge o delírio já perto do Mondego quando tem de vencer o desnível em frente à Rebordosa.”
“Enfim, aqui está a ponte - escreve - agora é subir até Penacova, nome que consegue a suprema habilidade de conciliar uma contradição, reunindo pacificamente uma ideia de altura (pena) e uma ideia de fundura (cova). O que logo se entende quando se verifica que construíram a meia encosta: quem vem de cima, vê-a em baixo; quem vem de baixo, vê-a em cima. Nada mais fácil.”
Estaríamos no Inverno de 1979,  num daqueles dias em que a amenidade de Penacova também não resiste. “O viajante almoça numa sala gelada e húmida” onde “a criada, envolvida em acumuladas roupas, tem o nariz vermelho, constipadíssima.”
Salve-se um elogio à boa comida porque de resto o tom irónico vem ao de cima:” Parece uma cena polar. E se a comida é excelente, bastou-lhe viajar entre a cozinha e a mesa para chegar fria.”
Para agravar a má disposição (conforme confessa) dá com as bombas de gasolina fechadas, abrindo só às três horas. Para passar o tempo resolve ir à Igreja Matriz e “levar o dobro do tempo necessário” e depois, da Pérgola, “olhar cá de cima o vale do Mondego, contemplar os montes à procura de qualquer aspecto que os distinga dos cem outros vistos antes e justifique tão longo admirar”. Mesmo a chuviscar deteve-se ali algum tempo, o que terá induzido em erro quem porventura reparou nisso. “Os penacovenses devem estar muito satisfeitos com este viajante, que tanto mostra gostar da terra, ao ponto de não abandonar o muro do miradouro, nem mesmo quando chuvisca”.
“Enfim, deram as três, já pode ir a Lorvão.” – desabafa.
A visita a Lorvão não mereceu grandes elogios, a não ser um ou outro comentário mais positivo. “De Lorvão não viu muito. Levava a cabeça cheia de imaginações, e portanto só pode queixar-se de si próprio. Da primitiva construção no séc. IX, nada resta. Do que no século XII se fez, uns poucos capitéis. Pouco relevantes as obras dos séculos XVI e XVII. De maneira que aquilo que mais avulta, a igreja, é obra do século XVIII, e este século não é dos que o viajante mais estime, e em alguns casos desestima muito.”
A frustação é evidente, pois  “vir a Lorvão à espera de um mosteiro que corresponda a sonhos românticos e responda à paisagem que o rodeia, é encontrar uma decepção.”
Apesar de achar a igreja imponente, entende que a sua arquitectura é “fria, traçada a tira-linhas e escantilhão de curvas.” Nem “as três gigantescas cabeças de anjos que enchem o frontão por cima da capela-mor” escapam à crítica: “ são, no franco entender do viajante, de um atroz mau gosto.”
No entanto, “belo” é o coro, “com a sua grade que junta o ferro e o bronze”. Belo também o cadeiral setecentista e “o claustro seiscentista, da renascença coimbrã.”  “E se o viajante está de maré de não esquecer o que estimou, fiquem também notadas as boas pinturas que na igreja estão.” – deste modo termina Saramago (o escritor que em 1998 ganhou o Prémio Nobel da Literatura) o relato da sua visita a Lorvão, num dia frio e chuvoso de 1979. 

sábado, 17 de outubro de 2015

LORVÃO: Tricentenário da Trasladação das Santas Rainhas para os Túmulos de Prata

“A funcção que começara depois do meio dia terminou ás dez horas da noute, 
quando já a frontaria do mosteiro se achava deslumbrantemente illuminada;
 estoiravam no ar as bombas dos foguetes e morteiros, 
cahiam as bagas luminosas dos foguetes de lagrimas, 
e os fogos d'artificio eram acclamados por enorme multidão,
 que juntava as suas acclamações 
ao repique jubiloso dos sinos.”
                                      in "As Freiras de Lorvão"

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Prossegue hoje o programa da Comemoração dos 300 Anos da Trasladação das Santas Rainhas Teresa e Sancha em Lorvão. Como se pode verificar pelo cartaz das Comemorações outros eventos decorreram e vão decorrer este fim de semana. Ontem teve lugar a  Celebração de Abertura dos Túmulos, presidida pelo Senhor Bispo de Coimbra bem como  cerimónia da Veneração das Sagradas Relíquias. Ainda, a cerimónia do lançamento do livro infanto-juvenil "Teresa de Portugal", uma edição do Município de Penacova com autoria de Paula Silva e ilustrações de Cristina Carvalho e Paula Silva. Hoje à noite há um espaço musical que contará com as actuações Coral Divo Canto (Penacova) e dos grupos convidados: Coral Polifónica "Santiago López" (Pravia - Astúrias) e Coimbra Gospel Choir.


 Fotografias de "PENACOVA EVENTOS" no Facebook






APONTAMENTO SOBRE A TRASLADAÇÃO EM

1715

No livro “As Freiras de Lorvão” de  T. Lino d'Assumpção é feita uma descrição daquele momento alto da Trasladação. Para as pessoas mais interessadas em conhecer com algum pormenor estes acontecimentos, transcrevemos, do original, e por isso redigido em português de finais do séc XIX, um excerto (não incluindo notas de rodapé) daquela obra:

Quatro séculos passaram e durante elles as sepulturas das duas irmãs estiveram no coro monástico, obrando grande copia de milagres, conjunctamente com o copo por onde D. Thereza bebia em vida. Mas a quantidade de romeiros era tal á procura de saúde, tantos os devotos que junto do tumulo das santas desejavam expandir-se em lagrimas e suspiros, que vinha d'isso fraude e perturbação para a clausura, e sempre importunas visitas.
Pensava a abbadessa D. Bernarda den Lencastre,neta d'el-rei D. Manuel, por seu pae o cardeal Affonso, em fazer trasladar para o corpo da egreja os dois mausoléus, mas achou a communidade resistente em conformar-se com tal deliberação.Foi neste transe que ceu  se manifestou, como soe  acontecer cm casos taes.
Certa noute, uma das monjas. D. Catharina d’ Albuquerque, sonhou que estava vendo as duas santas vestidas como nos tempos idos da sua vida.  Grandes calanticas ou toucas de miúdas pregas na cabeça, fino e branco veu nos hombros, longas estolas franjadas cahindo-lhes até os pés, e mantos presos ao pescoço por fivellas de ouro.
Uma a outra compunha seus adornos, e na conversa pareciam um pouco agitadas. Tremendo, perguntou- lhes Catharina o que queriam? ao que ellas responderam, rindo: que o fosse  perguntar ao questor da communidade,  João Lacto. E, ao esvairem-se no espaço, acordou a monja.
Immediatamente procurou a abbadessa a quem contou o succedido. Foi chamado o questor e este decidiu que as duas rainhas queriam que os seus túmulos fossem trasladados para a egreja. Soube o mosteiro da visão e ninguém se atreveu a oppór-se a tão formaes ordens.
E' esta a versão que corre impressa, inclusive no processo da beatificação; entretanto, nas memorias manuscriptas do mosteiro, attribue-se a mudança á abbadessa D. Briolanja de Mello.
Eis a copia d'um rascunho para o seu termo de óbito, que existe no livro respectivo:
“A muito religiosa D. Briolanja de Mello, religiosa deste real mosteiro de S.ta Maria de Lorvão foi a penúltima abbadessa perpetua d'esta casa, viveu com muita edificação e santidade, guardando os votos e em tudo o mais a regra do nosso P.° S. Bento; e, estando para ser abbadessa, havendo duvidas como fosse feita abbadessa, nessas occupações veiu uma voz do ceu que a publicou. No seu officio se conheceu fora feita por Deus, e assim se verifica, pois escolheu o Senhor o seu tempo para se publicarem os thesouros que tinhamos nas santas rainhas S. ta Theresa e S.ta Sancha; por que estando as suas sepulturas no interior do mosteiro, e havendo grande difficuldade em as religiosas as deixarem ir para fora, por não perderem a- consolação de tão santa companhia, ellas acharam merecimentos para lhes apparecerom e mandando-lhes que as puzessem na egreja de fora, que Deus ajudaria. E assim foi que as religiosas se accommodaram com a sua saudade: conhecendo pela sua virtude era vontade de Deus, e se ficou fazendo muito maior estimação da prelada. Foi Deus servido, depois (Testa obra. leval-a para si com grande mostra do salvação e edificação das religiosas d'aquelle tempo, em que todas, pelas noticias que achamos no cartório, foram santas pelo espirito com que vieram á religião ».
Na egreja estiveram os dois túmulos até que em 1617. uma das religiosas, D. Catharina da Silveira, mandou fazer a capella de Nossa Senhora do Rosário, e os sarcophagos ficaram constituindo o altar, um junto do outro.
Nessa occasião. emquanto os operários foram jantar, as monjas sahiram da egreja, e, servindo-se das ferramentas, levantaram a pedra do sepulchro de D. Thereza. « Logo um suavissimo perfume" se espalhou pela egreja, e o corpo, deitado numa alcatifa de flores, tão frescas, como se ali não estivessem ha perto de quatrocentos annos, mas como se fossem cortadas naquella hora, achava-se inteiro, cerrados os olhos e entreaberta a bocca, deixando ver os alvos dentes como de quem sorri. Vestia habito de S. Bernardo e sobre o rosto estendia-se um veu preto e a pelle tão fresca e tão perfeita como se estivesse dormindo ».
Na egreja continuavam os cadáveres bemaventurados a obrar tantos milagres, que el-rei D. Sebastião resolveu promover em Roma as duas beatificações, o que não levou a effeito pelos revezes que todos conhecem e que, se lhe custaram a vida, nós tivemos que pagal-os com a independência. O intento do cavalheiroso príncipe foi continuado pelos prelados da Ordem  e, d'accordo com as monjas, trataram durante largos annos a causa junto da Santa Sé, até que em 1705 conseguiram que Clemente XI declarasse bem aventuradas as filhas de Sancho I. Os gastos para tal concessão foram tantos que durante dez annos o mosteiro ficou empenhado, a ponto de somente, em 1715, sendo então abbadessa D. Bernarda Telles de Menezes, se conseguir fazer a trasladação dos túmulos de pedra, em que os cadáveres jaziam, para outros em que mais ricamente ficassem expostos á veneração dos fieis. Muito custa, em Roma, ser santo ! Foi encarregado d'esta obra, de prata lavrada batida a martelo, batida a martello, o ourives do Porto, Manuel Carneiro da Silva, que se não fez cousa maravilhosa, como diz o editor da Monarchia Lusitana, Miguel Lopes Ferreira, fez comtudo uma obra bem acabada e que não deixa de ter grande ar e o que quer que seja da elegância cortezã d'aquelle século .
Estes novos cofres são ambos semelhantes. Teem o feitio de urnas, forradas de veludo  carmezim sobre o  qual assentam lavores de prata recortada,realçados de pedrarias. A tampa termina com remate de dois anjos sustentando uma coroa, de cujas aberturas sahem quatro açucenas. A collocação das urnas, em nicho, impede que se vejam por todos os lados, mas o citado Ferreira assim as
Descreve:
O tumulo de santa Thereza «na primeira face tem formada uma tarja com a imagem da santa Rainha vestida no habito de S. Bernardo, com um escudo aos pés partido em pala, do lado direito as armas de Leão de que foi rainha, no esquerdo as de Portugal, onde nasceu infante, e esta lettra: Sancta Theresia Regina. Na face ulterior, e logar correspondente á primeira, se forma outra tarja em que se vêem umas lettras complicadas, cifra do nome da reverendíssima prelada, em cujo triennio se fez a obra, e junto a ella um escudo atravessado com uma banda  xadrezada entre duas flores de liz, que são as armas da illustre Ordem de Cister. Da parte da cabeceira ha outra tarja, que expõe uma cruz, e por cima duas mãos dadas com esta inscripção : Votis conjunctis. Na correspondente ha outra tarja, e nella esculpido em meio relevo um mosteiro com esta epigraphe: Hic tutor».
A urna que encerra os restos de D. Sancha é em tudo semelhante á primeira, differençando-se nas figuras, emblemas e disticos. «Vê-se na tarja da primeira face a imagem da mesma santa polidamente formada, com esta inscripção : Sancta Sanctia Infans ; e ao pé um escudo com as armas de Portugal. Na cabeceira duas coroas, uma real, outra de espinhos, com esta lettra: Per hanc ad illarn. Na parte dos pés duas mãos dadas com esta: Felicitas temporum; e no remate do meio uma coroa por onde saem quatro palmas ».
A trasladação, a que assistiram o bispo de Coimbra, e seu cabido, o D. Abbade Geral, o senado da cidade, vários abbades cistercienses e grande multidão, realizou-se a 19 d'outubro de 1715, depois de alguns mezes perdidos em questões de formalidade, etiqueta e jurisdicção entre o Bispo e o D. Abbade, tão próprias daquelle século essencialmente formalista.
Foram então abertos os túmulos para se fazer a trasladação dos cadáveres. O de santa Thereza, coberto com um veu de tafetá branco, estava completo, mas a cabeça separada do tronco e os ossos já sem carne nem pelle. O de D. Sancha « se viu todo unido e inteiro sem embargo de se haver sepultado quatro centos oitenta seis annos antes, com os braços cruzados sobre o peito, e estes organizados com a composição dos ossos, e nervos cobertos com a pelle e carne: todo o peito composto, e coberto com a cutila sem lhe apparecer nenhuma das costellas: e fazendo exame o dr.  Manuel dos Reis de Sousa, lente de medecina na Universidade de Coimbra, e o dr. Francisco de Oliveira Raposo, medico do convento, pelo contacto do pulso e artelho declararam que se achava brandura na carne. Só se achava separada dos hombros a cabeça». O geral da Ordem tirou-lhe um osso grande da garganta que mandou de presente a D. João V.
Revestidos os dois cadáveres com o habito de S. Bernardo, compostas as caveiras com o toucado e veu de religiosas, foram collocados nos túmulos de prata, fechados a duas chaves cada um, uma de aço outra de prata, entregues ao Bispo, e outras iguaes ao D. Abbade Geral, e collocados no altar, onde até então tinham ficado os de pedra.
A funcção que começara depois do meio dia terminou ás dez horas da noute, quando já a frontaria do mosteiro se achava deslumbrantemente illuminada; estoiravam no ar as bombas dos foguetes e morteiros, cahiam as bagas luminosas dos foguetes de lagrimas, e os fogos d'artificio eram acclamados por enorme multidão, que juntava as suas acclamações ao repique jubiloso dos sinos.
E comtudo a festa não passou sem um dissabor,que por não ter tomado maior vulto, n em por isso deixaria de figurar como incidente no poema do Hyssope. Pois na segunda feira, segundo dia do Triduo que se seguiu á trasladação dos santos ossos, o cabido não teve a audácia grande de vir á porta da egreja de cruz alçada, cantando o Te Deum receber o Bispo !  Ora isto oppunha-se á jurisdicção do D. Abbade Geral que se intitulava nada menos que: D. Abbade do Real Mosteiro de Santa Maria d’Alcobaça, Senhor Donatário e Capitão Mor das Villas de Alcobaça, Aljubarrota, Alfeizarão, Alvorminha, Pederneira, Santa Catherina, Paredes, Coz, São Martinho, Señr do Matto, Mayorga, Évora, Cella, Turquel e mais logares e povoações dos seus termos e coutos do Mosteiro, do Conselho de Sua Magestade, e seu Esmoler Mor, Geral reformador da congregação de São Bernardo nestes Reinos e Senhorios de Portugal e Algarves, etc. etc.
A Senhora da Paz  metteu-se entre os monjes e o cabido, e a pendência de jurisdicção, entre o faustoso bispo-conde d'Arganil  D. António de Vasconcellos e Souza, e o reverendíssimo padre doutor fr. António do Quental, não teve seguimento, embora ficasse, de passagem, consignada nas chronicas.
Findos os três dias de festa, os cofres foram levantados do altar onde durante ellas se conservaram e collocados nos camarins que lhes estavam  preparados na capella mor; o de D. Thereza do lado do evangelho, e o de sua irmã do lado da epistola.
Por fins do primeiro quartel do século XVII, as monjas tratavam de nova mudança dos restos das duas princezas para o seu antigo altar, onde lhes tinham preparada « uma admirável tribuna de rica talha dourada, e nella dous vãos, ou nichos grandes, nos quaes em mãos de anjos se exporiam os cofres das santas rainhas, tudo por modo admirável.
Esta ultima trasladação não se levou a effeito. Que motivos a obstaram, ignoro.“

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Faustoso acontecimento suspende o trabalho em toda a Vila

Edição do Jornal de Penacova
de 8 de Outubro de 1910
Mais ou menos por esta hora (oito e meia da manhã) Penacova recebe a notícia: ali para os lados de Santo António ouviu-se um forte “Viva a República” que ecoou por toda a vila. Daí a pouco o largo Alberto Leitão já estava cheio de gente entusiasticamente aclamando a instauração do Regime Republicano em Portugal.
Os ecos deste dia 6 de Outubro de 1910 chegam-nos através do periódico que se publicava desde Setembro de 1901, o Jornal de Penacova. A notícia é conhecida de muitos penacovenses. Muitos deles ainda conservam um exemplar da edição de 8 de Outubro. Por altura do Centenário da República publicámos, com o apoio da Câmara Municipal, o livro Penacova e a República na Imprensa Local. Aí, procurámos ir um pouco mais além do relato que é feito naquele jornal, enquadrando os acontecimentos no clima político que antecedeu o 5 de Outubro bem como nos momentos decisivos que se seguiram.
De modo a assinalar a efeméride, deixamos alguns apontamentos baseados naquilo que escrevemos na referida obra:
“A notícia da Implantação da República em Portugal foi trazida a esta vila pelo nosso correligionário Joaquim Serra Cardoso1, na quinta -feira, pelas 8 e meia horas da manhã” – escreve o Jornal de Penacova – que explicita: “o nosso amigo tinha ido na véspera para Coimbra, e assim teve a honra de trazer em primeira mão a grata notícia. Logo ao chegar ao Ramal de Santo António, o nosso amigo soltou um estridente Viva a República que foi ouvido na vila o que fez com que o nosso director [Amândio dos Santos Cabral] corresse ao seu encontro, dirigindo-se logo ao Largo Alberto Leitão, onde imediatamente se juntavam muitos cidadãos aclamando a República.”
E prossegue o relato:  “Pouco depois, uma comissão Republicana composta dos nossos correligionários  dr. Rodolfo Pedro da Silva, dr. António Moncada, José Pedro Henriques, José Alves de Oliveira Coimbra e o nosso director percorreu a vila convidando os cidadãos para assistirem à proclamação da República nos Paços do Concelho, ao meio dia. A notícia fora anunciada por uma salva de 31 morteiros e grande número de foguetes. Imediatamente ''foi suspenso o trabalho em toda a vila, pois que todos queriam pormenores do faustoso acontecimento.''

Conta-se, de seguida, o episódio da subida ao telhado da Câmara para desfraldar a bandeira verde rubra: “Como as repartições da Câmara Municipal estivessem fechadas, o nosso director subiu por uma escada ao telhado do edifício dos paços do concelho e ali, no meio de aclamações entusiásticas do povo, que se achava no largo, hasteou a bandeira vermelha e verde, augusto símbolo da pátria redimida, a qual foi saudada com entusiásticos vivas e por nova salva de 31 morteiros e inúmeros foguetes.”
“Ao meio dia da tarde [assim se dizia] apareceu nesta vila o nosso correligionário sr. Leonel Serra [de Miro], a cavalo, e empunhando uma bandeira branca onde se lia – PAZ – acompanhado de muitos populares, que saudavam a República.”
Só no dia 7 (porque no dia 6 haviam fechado todas as repartições públicas) foi exarado no livro de actas da Câmara o Auto de Aclamação.  
“Ontem, cerca das duas horas da tarde, na sala das sessões da Câmara, no meio do maior entusiasmo, foi lavrado o auto que noutro lugar publicamos, da aclamação da República, sendo logo assinado por todos os cidadãos presentes, levantando-se muitos vivas à República, à Pátria portuguesa, etc. “
Também, de acordo com os relatos do jornal, apareceu pouco depois, no largo Alberto Leitão um ''numeroso grupo de correligionários da freguesia de S. Pedro de Alva que foi recebido no meio do maior entusiasmo, indo logo todos assinar o auto”.
Em seguida, ''todos os cidadãos que estavam no Largo Alberto Leitão se dirigiram para a nossa redacção – conclui o Jornal de Penacova – fazendo-nos uma calorosa e penhorante manifestação, sendo-lhes aqui oferecida uma taça de champanhe, trocando-se numerosos brindes, sempre no meio do maior entusiasmo.  Este periódico  transcreve na íntegra o texto exarado no livro de Actas das Sessões da Câmara:
“Aos seis dias do mês de Outubro do ano de 1910 pelas 12 horas do dia, nesta vila de Penacova e no Largo Alberto Leitão, fronteiro aos Paços do Concelho, foi entusiasticamente aclamada a República Portuguesa, proclamada em Lisboa no dia cinco do corrente, e hasteada abandeira republicana no edifício acima referido. E não podendo este auto ser lavrado logo após a aclamação, em virtude de estarem ausentes as autoridades administrativas deste concelho e fechadas as portas da câmara municipal sendo impossível, por isso, sem violência haver-se o competente livro das actas das sessões da mesma câmara, se lavra hoje,7 do corrente, o presente Auto de Aclamação da República Portuguesa, que vai ser assinado pela Comissão Republicana Local, pelas pessoas que tomaram parte naquela manifestação e ainda pelas demais presentes a este acto que espontaneamente o queiram fazer. Depois de lido por mim, Alípio de Sousa Correia Leitão, secretário da Câmara que o escrevi. “
Penacova por volta de 1910

O documento é assinado por cerca de sessenta pessoas. A ordem aqui apresentada não corresponde ao original. Optámos pela ordem alfabética:

Abílio Augusto Fernandes, Alberto Cabral de Nascimento Palma, Alípio Serra Cardoso, Amândio dos Santos Cabral, Américo Pinto Guedes, Aníbal Duarte de Vasconcelos, António Carlos Pereira Montenegro, António Casimiro Guedes Pessoa, António Correia da Silva, António Gomes Freire de Almeida e Silva, António Henriques Fonseca Júnior, António Joaquim Dias, António Lopes da Costa Carvalho, António Seiça Ferrer de Saldanha Moncada, Armando Alberto Pimentel, Athalyba Duarte Sousa, Augusto Ribeiro de Almeida, Carlos Mendes, Constantino António Carvalho, Daniel da Silva, Eduardo Pedro da Silva, Eduardo Silva, Fernando Miguel, Francisco Augusto Guedes, Francisco de Almeida Ventura, Francisco da Costa Gonçalves, Francisco Sousa Júnior, Heitor Ribeiro de Almeida, Henrique de Assumpção, Henrique Freire Garcez, Henrique Silva, João Augusto Simões Barreto, João Casimiro Guedes Pessoa, Joaquim Augusto de Carvalho, Joaquim Cabral Júnior, Joaquim Madeira Marques, Joaquim Pereira Castanheira, Joaquim Pita d’Eça Aguiar, Joaquim Serra Cardoso, José Alves de Oliveira Coimbra, José António de Almeida Júnior, José Augusto Monteiro Júnior, José Augusto Ribeiro, José de Almeida Coimbra, José de Matos Vieira, José dos Santos Silva, José Maria Marques, José Maria Pereira Pimentel, José Pedro Henriques, José Ventura de Almeida, Leonel Lopes Serra, Luís Pereira de Paiva Pita, Manuel Maria Ralha, Manuel Correia da Silva, Manuel Maria Ferreira, Manuel Silva, Rodolfo Pedro da Silva, Rodolfo  Silva, Silvério de Amaral Guedes e Urbano Ferreira da Natividade.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

CARTA BRASILEIRA DE OUTUBRO: O PRIMEIRO PÊSSEGO

Meu caro amigo, me perdoe por favor se eu  não lhe faço uma visita. Mas o que eu quero lhe dizer é que antigamente, poucas casas tinham garagens, havia quintais, com espaço para as crianças brincarem. A casa de meus pais ocupava um terreno 20x40, onde  plantavam de tudo um pouco, alface, couve, repolho, chicória, almeirão, espinafre, cenoura, tomate, cebolinha, cheiro-verde e tomate. Havia espaço para árvores, uma enorme mangueira, mamoeiro, limão-china, um pé de tangerina, três laranjeiras, chuchu, parreira, uma touceira de cana caiana, figueira, pessegueiro, galinheiro, uma colmeia, e muitas bocas para comer.
O pessegueiro, por ser mais novo ou por exigir algum cuidado especial, demorou para frutificar. Um belo dia, apareceu uma flor. Depois, uma pequena fruta. Começamos a namorá-la. Sem que ninguém combinasse, decidimos, o primeiro pêssego seria de mamãe.
Os cuidados eram de todos. Se alguém jogava uma pedra, logo ouvia um grito: “cuidado com o pêssego da mamãe”. E assim foi,  com fruta  crescendo, o verde começou a amarelar. Um dia, sumiu do pé.  Alguém deveria tê-la colhido e dado a ela.
Quisemos saber dela como era, se doce ou azeda, que gosto teria. Ela não havia comido, guardara para nos mostrar. Descoberta por um passarinho, estava toda bicada. Contou-nos que a pegara caída, cheia de formigas. Fiquei endoidecido. Mas como os  bichos foram fazer aquilo? Peguei minha arma, um estilingue, sai ameaçando, esmagando formigas pelo caminho, naquele momento, matar o passarinho seria pouco. Mamãe interrompeu-me. O importante, ensinou-nos, foi termos visto o pêssego crescer, e o cuidando que tivemos.
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Hoje, quando vejo na quitanda, ou no supermercado, a gôngula cheia de pêssegos, penso no quintal da minha casa, na penca de irmãos, nos ensinamentos de minha mãe, nos passarinhos e até nas formigas. Ainda bem, tenho coisas boas em que pensar, porque “coisa está preta”, é pirueta pra cavar o ganha pão, que gente vai cavando só de birra e só de sarro.
"Meu Caro Amigo", uma das canções de Chico Buarque que critica o regime é uma carta em forma de música, uma carta musicada que ele fez em homenagem ao Augusto Boal, que vivia no exílio, quando o Brasil ainda vivia sob a regime militar, lançada em 1976. 


P.T.Juvenal Santos