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06 abril, 2026

Segunda-feira da Páscoa de 1932 e a (já) célebre fotografia do Enterro do Bacalhau


Esta fotografia vai sendo conhecida dos penacovenses. Há poucas semanas, graças à IA (Inteligência Artificial) até foi apresentada nas redes sociais com animação, onde parte dos figurantes se moviam. Ora, o Notícias de Penacova noticiou com algum pormenor aquele Cortejo (Enterro do Bacalhau) que se realizou naquela Segunda-feira de Páscoa de 1932, dia 28 de Março. Deixamos aqui a transcrição:

"Alguns rapazes - uns já descriados, outros casados e muitos solteiros, mas todos alegres lembraram-se de levar a efeito uma festa burlesca, comemorativa do fim da quaresma - o enterro do bacalhau.

Para esse fim, foi constituída uma comissão, composta dos srs. Armando Pimentel, Augusto Pimentel, Alípio Pimentel, Heliodoro da Costa, António Luís, Augusto Luís, Alberto da Costa, António Viseu, Américo Leitão, António Alvarinhas, Mário Carvalho, Fernando Alvarinhas, José Alvarinhas, José Alberto Alvarinhas, Jaime Barbosa, Júlio Ferreira da Silva, António da Cruz Assunção, José de Assunção, Eduardo Miguel, José Alves Coimbra, José Augusto Ribeiro, Lusitano Alexandre Ribeiro, José Ferreira da Silva, Jorge da Costa e Álvaro Martins Coimbra, que, depois de aturados mas profícuos trabalhos, conseguiu realizar uma festa engraçada e decente, o que é motivo para os felicitarmos vivamente.

A festa dos rapazes devia ter-se realizado no sábado de aleluia, mas, por motivo independente da sua vontade e que não importa saber, teve de ser adiada para segunda-feira.

Saiu o vistoso e numerosíssimo cortejo de casa do sr. Armando Pimentel, seriam 22 horas, e foi acolhido por francas gargalhadas da multidão que o aguardava na rua e que nele se incorporou.

Em andores bizarramente enfeitados viam-se um enorme bacalhau, uma bacalhoa e uma cavala ... em pano pintado; à frente um grande pendão, ornamentado com bacalhaus, alhos, cebolas, grelos, facas, garfos, etc.; dentro de uma camioneta, os oradores e seus acólitos; dois automóveis e um barco, conduzindo aficcionados; e o todo ladeado e acompanhado por muitos rapazes e raparigas, portadores de lanternas de papel de varias cores, com letreiros apropriados. O efeito era soberbo!

Seguia o cortejo muita gente da vila e dos arredores, rindo abandeiras despregadas das facécias dos oradores, que, em vários pontos do trajecto, fizeram o elogio... fúnebre do bacalhau.

Depois de percorrer as ruas da vila, sempre no meio da maior alegria e em boa ordem, o cortejo regressou ao ponto de partida, onde dispersou.

Seguiu-se um baile em casa do sr. Armando Pimentel, dançando-se animadamente até muito tarde.

A festa foi abrilhantada pelo gaiteiro, que executou valentemente um ruidoso repertório. Os oradores, que conseguiram manter as numerosas pessoas que escutaram, em constante hilaridade, foram os srs. Eduardo Soares, Jorge da Costa, Jacinto Alvarinhas, José de Castro Pita e Mário Carvalho.

Todos os trabalhos de pintura foram executados pelos artistas pintores desta vila srs. Fernando e António Alvarinhas.

Decorreu a festa sem que houvesse a menor nota discordante, o que mostra que os nossos rapazes não são tão maus como por vezes os pintam, e os torna dignos dos nossos louvores. 

Mostraram que sabem divertir-se, sem exageros irritantes de verduras de mocidade. Bem hajam!

Acompanhava o cortejo um grupo de crianças transportando uma coberta onde se recolhia dinheiro, destinado a ser distribuído pelas crianças pobres da vila. Rendeu 25$45, quantia que foi logo entregue a autoridade administrativa. 

Foi realmente pouco, sendo para lamentar que a generosa ideia dos alegres rapazes não fosse melhor compreendida.

Bem o mereciam as horas risonhas que eles a todos proporcionaram. Mas os tempos correm tão bicudos ... Não queremos fechar esta notícia sem mais uma vez louvar os briosos rapazes pela forma ordeira como decorreu toda a sua festa, felicitando ao mesmo tempo a comissão a que acima fizemos referência pela feliz execução que teve a sua iniciativa."          NP 9 Abril 1932

04 abril, 2026

Penacova e as tradições pagãs na Quaresma: 𝑶 𝑬𝒏𝒕𝒆𝒓𝒓𝒐... 𝒅𝒂 𝑺𝒂𝒓𝒅𝒊𝒏𝒉𝒂


Enterro da Sardinha? Ou Enterro do Bacalhau? Em Penacova, até aos inícios da década de trinta, com mais ou menos interrupções, era tradição do Sábado de Aleluia organizar o cortejo do Enterro do Bacalhau. Em 1932 o Administrador Concelhio não terá autorizado a sua realização na véspera do Domingo de Páscoa. Então, (crê-se, com base em notícias de jornais) uma nova comissão levou a efeito, mas no dia posterior à Páscoa, um Cortejo com um programa algo diferente. Será este que aparece em fotografias da época, onde vemos a camioneta de Heliodoro Costa acompanhada de todo o aparato típico do momento. 

Ainda não conseguimos reconstituir cabalmente a história dos acontecimentos, mas tudo leva a crer que (estamos em 1932, sublinhe-se) dois grupos, onde se terá metido política e religião, se terão demarcado na vila. Estariam em causa duas facções, uma afecta ao "Jornal de Penacova" e outra, mais simpatizante do recém aparecido "Notícias de Penacova". 

Certo dia, ao analisar alguns "papéis" antigos, do arquivo pessoal do meu amigo José Alberto Costa, encontrei um interessante folheto de 1932. Curiosamente, em vez do Enterro do Bacalhau fala do Enterro da Sardinha! Tudo leva a crer que seria este o programa que acabou por ser proibido. É que ao ler uma notícia que relata Enterro do Bacalhau da segunda feira da Páscoa de 1932 não se verifica coincidência com os elementos que o pequeno cartaz, impresso a vermelho, nos fornece.  

Este curioso documento, não só, por se referir à Sardinha (e não do Bacalhau, como seria de esperar), mas também pelo fino e mordaz humor que nele perpassa (o que era característico) merece ser recordado. Aqui fica a sua transcrição integral, na grafia original. Leva uns minutos a ler...mas valerá a pena.  

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Piramidais festejos em Penacova

1932 - No dia em que os judeus se enforcam – 1932

SEPULTARUM SARDINHORUM ET RESSURRESCIT CARNORUM

Para os que não sabem latim: Enterro da Sardinha e Ressurreição da Carne

Programa imprevisto. Não tem graça. Não ofende

Logo após o último “Gaudet», ao raiar das 22 horas, a multidão, com comichão, vai a calcão para o Luiz Brandão de lampeão na mão. No local já dito, os pais com os filhos e os filhos sem pai, empalmam uma vela, riscam um forfo, acendem a dita e encorporam-se na bicha do préstito (os homens vão á frente das mulheres) uns á mão direita e outros ao pé esquerdo. A Canastra (da Sardinha) vai a trás, debaixo do pálido, arreada por 4 valientes comilões. As bandeiras e os pendões, vão amarrados aos bordões. A guarda vai à frente da honra. As borlas e corôas, são confiadas aos Carinhas.

O itenerário do enterro é o de todos, isto é: de cima para baixo e vice-versa. Nas ruas haverá luminárias luminosas e nas janelas caras feias e formosas. O Cruz leva a Cruz. A chave do caixão (da Canastra) é confiada ao Ex." Sr. A. Pimentel.

Quando todo o mundo chegar ao Cruzeiro, junto ao chafariz do Sr. A. Cabral, cada qual chega a brasa à sua sardinha. Um orador apiteirado dirá larachas com graça e sem ela; e no último adeus á Sardinha, haverá cheliques e flatos. Espera-se que ao abrir o sarcófago, para lá enterrar a Sardinha, a multidão proteste, por haver quem goste mais do rabo e poucos da cabeça; pelo que a maioria acordará em enterrar só a cabeça (da Sardinha) ficando o rabo de fora.

Serenados os ânimos, dão-se as descargas do estilo, e enquanto o diabo esfrega o olho, Ressuscita a Carne !!

Estoiram bombas! Há cheiro a pólvora queimada e indícios de tempestade baixa! Alegria sem par! Aleluia! Aleluia! Novo cortejo segue o mesmo caminho, isto é: debaixo para cima, podendo as mulheres irem á frente dos homens. E a Carne, saltitante, sanguínea, quente, é levada em triunfo pelos gulosos para a Cova da Barro. Ali, cada lambareiro tira à sua fêvera e lambe os beiços por mais!

O cortejo é dirigido pelo mestre de cerimónias sr. A. Carvalho

REPRESENTAÇÕES

Fazem-se representar pelos Ex. Srs.:

A. Cabral - A Verónica. (Este Ex."' Sr. também de bom agrado se encarregou de regular o passo do enterro).

F. Tintim - A arquitectura médica e a engenharia cirúrgica

Silva (estageário) - Os mártires do trabalho.

E. Silva - Os mecheriqueiros internacionais (jornalistas) e a "Voz" ... de Dcmo ... nio

J. Cabral - A comarca de Penacova e múmias do Egito.

A. Guedes - Os códigos de Confúcio.

F. Miguel - Os sábios da Grécia e as Musas do Alcorão.

Américo L. - Os mártires do descanço.

D. M. Coimbra - O diabo em fralda de camisa.

J. Ribeiro - O Mirante e as ciências da Patagonia.

A. Leitão -  A Universidade de Salamanca e o deserto de Sahará.

X. Z. - O  "ludra-se" do Jornal de Penacova.

F. A. V. A. (fava) - A acreditada agência do Bacalhau.

O instrutor dos B. V. de P. faz-se representar pela farda do 2." comandante.

FESTA DE CARIDADE

As bondosas damas de Penacova, levam a efeito, no Domingo de Páscoa, um peditório em favor dos pobres, o que lhe acarretará as maiores simpatias. O Secretário Geral do Céu enviou-lhes o Rádio seguinte:

"S. Martinho enviou a capa que vós lhe ofertásteis, as mães pobresinhas, para dela fazerem camisas para os filhos. S. Sebastião vai mandar-lhes também os calções. Para decôro do Ceu, ide falar ao Revcrendo Pinto e Domingo de Páscoa tirai o folar para os que têm fome c frio " -  Pedro

Os Doutores da Igreja também enviaram no Ex."° Sr. Dr. Albino, o seguinte telegrama: "Doutores Penacova - Secundem missão caridosa folar pobres - Jerónimo.

NOTA - A chefe do correio deturpou o telegrama e escreveu : Mentores Pinóca -Fecundem missão maldosa esfolar pobres. - Jeremias.


SARAU DE GALA NO CINE-TEATRO-CLUB

1ª PARTE

Poesias e prosas (recitado ao cavaqainho) - A. Pinto

História dos amarguras de um piolho (em harpa) - J. Barreto

Cataratas do Mondego com garfadas de grelos (discurso inédito)  - A. Casimiro

Tretas e pêtos (solo de pífaro em si b. m.  - F. Redondo

O amor em sonetos - pelo soprano lírico - M. Carvalho


2ª PARTE

Tango Argentino e Sonho de valsa (à guitarra).   - J. Nunes

Música de D. Faustino ... e um violino -  J. Cabral

Filosofias de pataco e a canção do grilo (com ferrinhos - J. Ribeiro

Rapsódia política (piano a 4 mãos)  - J. Leitão - E. Pinto

Fado choradinho (assobio em dó menor) - S. Rosa


3ª PARTE

Um drama ... em cuécas (Peça em 3 actos pelo autor)  - J. Gouveia

Sonata-Pacata (ao fagote, em lá maior) -  J. Alves

Minuête do perdalário (gaita de loiro com sardina)  - A. Cabral

Profecias dos Planetas (com pandeireta e berimbau) - Mendes C.

Piruetas no trapésio do amor (com castanholas) - F. S. Guedes


APOTEOSE

Luta à  Portuguesa. Sôco à inglesa. Coice à hespanhola, pelo respeitável público.


NOTA IMPORTANTE

Para que as criancinhas pobres compartilhem desta festa, roga-se às almas caridosas que atirem com o seu óbulo para a colcha que será conduzida pelas crianças, no cortejo. A importância recolhida será escrupulosamente entregue à Autoridade Administrativa, que no Domingo de Páscoa a distribuirá pelas CRIANCAS MAIS POBRES da Vila.

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Bacalhau, Enterro do - Representação popular que tinha lugar em sábado de aleluia ou domingo de Páscoa, simulando o enterro de um rabo de bacalhau para simbolizar o fim do jejum quaresmal de carne. Em certas localidades, organizava-se um cortejo "fúnebre", em que o bacalhau seguia à frente, pendurado num pau. Quase sempre havia testamento. Não se conhece prática musical específica a acompanhar. Hoje em dia são raras as povoações que conservam esta tradição, a qual ainda se mantém, por exemplo, em Soutocico, Leiria.

N. B. - OS TEXTOS DESTA ENCICLOPÉDIA DAS TRADIÇÕES POPULARES ESTÃO SUJEITOS A DIREITOS DE AUTOR,PELO QUE A SUA REPRODUÇÃO, AINDA QUE PARCIAL, DEVERÁ INDICAR O NOME DO SEU AUTOR, JOSÉ ALBERTOSARDINHA.



20 junho, 2025

Penacova 1932: paisagem de sonho e beleza


Vista de Penacova 
Atendendo à existência do Mirante e à inexistência
do Preventório podemos situar a foto entre 1908 e 1932


No início dos anos trinta, durante cerca de meia dúzia de anos, Maria Lúcia Vassalo Namorado, viveu em Penacova, dado que o seu marido Joaquim Jerónimo da Silva Rosa, funcionário público, natural de Lorvão, onde nasceu em 1900, foi colocado nesta vila. Maria Lúcia era sobrinha de Maria Lamas e foi uma escritora e jornalista de renome. Curiosamente, essa carreira jornalística passou também pelo Notícias de Penacova onde deixou muitos escritos. Refira-se que o marido foi um dos fundadores deste periódico. Lúcia Namorado criou  e dirigiu durante muitos anos a prestigiada revista "Os Nossos Filhos" , onde podemos ler muitas referências a Penacova, inclusivamente fotografias de bebés da vila. Existem estudos académicos sobre Lúcia Namorado, onde se refere a sua relação com a nossa terra.

***

Pequenina, modesta, privada ainda hoje de comodidades modernas, embora distanciada apenas cerca de 20 quilómetros de Coimbra, a que a liga uma lindíssima estrada, Penacova impõe-se pelo acaso da sua situação caprichosa, a meio de uma paisagem privilegiada de beleza. Particularidade singular, talvez única na nossa Terra, essa paisagem, sendo grandiosa é, ao mesmo tempo, limitada. Como se a natureza entendesse que os olhos tinham ali pasto bastante para alimentar sucessivas e atentas contemplações.

Rodeia-a uma infinidade de montes: uns cónicos e rochosos; outros, de ondulações suaves, grandes extensões de pinhais salpicados e  de povoados - nódoas claras que, surgindo dentre a romaria  verde,  alegram a vista e fazem lembrar sorrisos cândidos e saudáveis. No vale, amplo e luminoso, duma claridade doce de aguarela, passa o rio silencioso e manso, estorcendo-se em curvas airosas que descobrem, ora à direita, ora à esquerda, areais onde as lavadeiras coram a roupa, e onde o milho que viceja e amadurece nas ínsuas vizinhas, depois de loiro e descasulado, é estendido para secar.
Cortando as águas límpidas do rio, que deixam ver as areias de oiro cantadas pelos Poetas, deslizam, carregadas de madeira, as barcas negras e muito esguias, de grande proa revirada; os barqueiros, tisnados, conduzem-nas à vara, penosamente, correndo sobre os bordos, num esforço exaustivo, prodigioso de equilíbrio; e só quando o vento sopra a faina abranda um pouco: nas barcas escuras incha e resplandece a brancura duma vela.

É assim aquele vale de cores macias e duma serenidade extática. Ao centro eleva-se uma colina semeada de oliveiras e coroada por uma povoação que dir-se-ia, na verdade, uma rainha no trono - tal como está debruçada para o Mondego, do alto duma penha erguida numa cova.
É a vila de Penacova uma das mais antigas da Península; nela , porém, nada nos fala da sua vetustez, pois nem sequer do seu remotíssimo castelo existem vestígios. Vários investigadores afirmam que é de origem cantábrica, mas parece assente que a primeira notícia desta vila data do tempo do conde D. Henrique.

D. Sancho I mandou-a povoar e deu-lhe em 1193 foral que foi confirmado em Coimbra por D. Afonso II; D. Manuel I deu-lhe novo foral em Lisboa, no ano de 1513.

É hoje muito visitada por pessoas atraídas pela justa fama dos seus encantos naturais, e tem um grupo de bons amigos empenhados em a dotar com melhoramentos, dentre os quais se destaca o esplêndido edifício do preventório, prestes a funcionar – obra cujo largo alcance social é desnecessário encarecer.
A população,  que é pobre, emigra facilmente, sobretudo para as Américas.

A principal indústria do concelho é dos palitos, que se intensifica na freguesia de Lorvão – cova sombria, triste, contraste profundo da beleza colorida e sonhadora de Penacova: nessa aldeiasita se desmorona o velhíssimo mosteiro do mesmo nome, outrora riquíssimo e agora desmantelado, mas onde ainda se encontram jóias artísticas de raro valor, belas evocações de páginas distantes da nossa História maravilhosa.


18 de Outubro de 1932
MARIA LÚCIA



11 julho, 2020

Nudismo em Penacova?




Pois é verdade. E hoje podemos garanti-lo, o nudismo continua na ordem do dia por esse mundo além, parece que cada vez com maior número de adeptos. O que nós não calculávamos é que a nossa terra, apesar do seu actual progresso, chegasse tão depressa a tal civilização.

É um facto, caros leitores. Em Penacova, neste decantado rincão de Portugal à beira rio plantado, onde a mãe Natura foi pródiga em benesses de encanto e maravilha, onde o ar que respiramos tem perfumes de inebriante odor, onde o sol tem mais luz e o luar maior claridade, neste altar maravilhoso que Deus fez talvez para ser o primeiro degrau nas escadas do céu a civilização atingiu o auge.Em Penacova pratica-se escandalosamente o nudismo.

Estamos a ver o pasmo dos nossos leitores. A máscara de um sorriso incrédulo desenhando-se-lhes no rosto.

-Será verdade?

É verdade sim senhores. E se querem a confirmação do que dizemos, vão até ao Mirante, ao fim da tarde, à hora apetecida do banho e…olhem lá para baixo, para o Mondego, manso e sereno…

Chamamos, para esta falta de vergonha, a atenção das autoridades administrativas deste concelho.

A nossa terra, por enquanto, dispensa tais manifestações de progresso e civilização.

in Jornal de Penacova,16 Jul 1932



15 abril, 2017

Memórias do Enterro do Bacalhau: o "Rabo+R+Rio" de 1911


Sobre o Enterro do Bacalhau de 1910 já escrevemos no Penacova Actual. Também de 1932 se conhecia uma fotografia, bem como algumas referências dispersas. Entretanto, ainda não há muito tempo, conseguimos ter nas mãos um exemplar do “programa” que veio a público nesse ano.

Não menos interessante e valioso é também o “jornal” que se publicou em Penacova aquando do Enterro do Bacalhau de 1911. Falamos de  “A ESPINHA”: uma preciosidade que tivemos a sorte de fotografar. Quatro páginas cheias de humor e sarcasmo, como convinha nesta manifestação popular que marcava o fim da Quaresma.

Proibida durante o regime de Salazar, a tradição foi retomada com o 25 de Abril nalguns pontos do país. Em Penacova o último cortejo terá sido mesmo o de 1932.  


Mas viajemos um pouco até 1911. O programa do “Rabo+r+rio” (em rodapé do folheto aparece a solução da charada) prevê para as oito da noite o início do “luzido” e “pyramidal” cortejo. Dois arautos anunciarão das suas “sonorosas” trombetas, o “passamento” daquele que em vida se chamou Bacalhau.

Como se consegue ainda ler no já carcomido papel, o relato do “funeral” é um texto pleno de humor e sátira. As restantes páginas traduzem também a fértil e mordaz imaginação dos seus “redactores”, num momento, não nos esqueçamos, em que estava ainda fresca a revolução do 5 de Outubro, e se vivia um misto de alguma liberdade de expressão e de luta religiosa. Confrontando o relato do Cortejo de 1910 (ainda na vigência da Monarquia) com o conteúdo deste panfleto, é notório o tom mais solto da sátira e da crítica social.

O tema merecia maior desenvolvimento. Por hoje deixamos os leitores do Penacova Online com este breve apontamento, prometendo voltar ao assunto.

Nota: Gostaríamos de deixar um agradecimento ao nosso amigo Sr. José Alberto Costa que nos facultou o acesso a estes valiosos documentos que com grande sensibilidade cultural e cívica sabe preservar 

Ler +:

CORTEJO DE 1910: http://www.penacovactual.pt/2013/03/penacova-enterrou-o-bacalhau-uma.html
CORTEJO DE 1932http://www.penacovactual.pt/2012/02/o-enterro-do-bacalhau.html

31 julho, 2015

Leituras para férias: Penacova paisagem de sonho e beleza


Quem não se recorda das edições antigas da revista Modas e Bordados? Ora, esta revista, associada ao jornal O Século publicou em 1932 um artigo sobre Penacova, assinado por Maria Lúcia. Quem era Maria Lúcia?

No início dos anos trinta, durante cerca de meia dúzia de anos, viveu em Penacova, dado que o seu marido Joaquim Jerónimo da Silva Rosa, funcionário público, natural de Lorvão onde nasceu em 1900, foi colocado naquela vila. Maria Lúcia Vassalo Namorado era sobrinha de Maria Lamas e foi uma escritora e jornalista de renome. Curiosamente, essa carreira jornalística começou no Notícias de Penacova onde deixou muitos escritos. Refira-se que o marido foi também um dos fundadores deste periódico. Lúcia Namorado criou passado algum tempo e dirigiu durante muitos anos a também afamada revista OS NOSSOS FILHOS, onde apareceram muitas referências a Penacova, inclusivamente fotografias de bebés/crianças da vila.   Existem estudos académicos detalhados sobre Lúcia Namorado e a sua relação com a nossa terra. 

AQUI FICA O TEXTO publicado em 18 de Outubro de 1932:

Penacova 
paisagem de sonho e beleza  

Pequenina, modesta, privada ainda hoje de comodidades modernas, embora distanciadas apenas cerca de 20 quilómetros de Coimbra, a que a liga uma lindíssima estrada, Penacova impõe-se pelo acaso da sua situação caprichosa, a meio de uma paisagem privilegiada de beleza. Particularidade singular, talvez única na nossa Terra, essa paisagem, sendo grandiosa é, ao mesmo tempo, limitada. Como se a natureza entendesse que os olhos tinham ali pasto bastante para alimentar sucessivas e atentas contemplações.

Rodeia-a uma infinidade de montes: uns cónicos e rochosos; outros, de ondulações suaves, grandes extensões de pinhais salpicados e  de povoados - nódoas claras que, surgindo dentre a romaria  verde,  alegram a vista e fazem lembrar sorrisos cândidos e saudáveis. No vale, amplo e luminoso, duma claridade doce de aguarela, passa o rio silencooso e manso, estorcendo-se em curvas airosas que descobrem, ora à direita, ora à esquerda, areais onde as lavadeiras coram a roupa, e onde o milho que viceja e amadurece nas ínsuas vizinhas, depois de loiro e descasulado, é estendido para secar.

Cortando as águas límpidas do rio, que deixam ver as areias de oiro cantadas pelos Poetas, deslizam, carregdas de madeira, as barcas negras e muito esguias, de grande proa revirada; os barqueiros, tisnados, conduzem-nas à vara, penosamente, correndo sobre os bordos, num esforço exaustivo, prodigioso de equilíbrio; e só quando o vento sopra a faina abranda um pouco: nas barcas escuras incha e resplandece a brancura duma vela.

É assim aquele vale de cores macias e duma serenidade extática. Ao centro eleva-se uma colina semeada de oliveiras e coroada por uma povoação que dir-se-ia, na verdade, uma rainha no trono - tal como está debruçada para o Mondego, do alto duma penha erguida numa cova.

É a vila de Penacova uma das mais antigas da Península; nela , porém, nada nos fala da sua vetustez, pois nem sequer do seu remotíssimo castelo existem vestígios. Vários investigadores afirmam que é de origem cantábrica, mas parece assente que a primeira notícia desta vila data do tempo do conde D. Henrique.

D. Sancho I mandou-a povoar e deu-lhe em 1193 foral que foi confirmado em Coimbra por D. Afonso II; D. Manuel I deu-lhe novo foral em Lisboa, no ano de 1513.

É hoje muito visitada por pessoas atraídas pela justa fama dos seus encantos naturais, e tem um grupo de bons amigos empenhados em a dotar com melhoramentos, dentre os quais se destaca o esplêndido edifício do preventório, prestes a funcionar – obra cujo largo alcance social é desnecessário encarecer.

A população,  que é pobre, emigra facilmente, sobretudo para as Américas.

A principal indústria do concelho é dos palitos, que se intensifica na freguesia de Lorvão – cova sombria, triste, contraste profundo da beleza colorida e sonhadora de Penacova: nessa aldeiasita se desmorona o velhíssimo mosteiro do mesmo nome, outrora riquíssimo e agora desmantelado, mas onde ainda se encontram jóias artísticas de raro valor, belas evocações de páginas distantes da nossa História maravilhosa.

MARIA LÚCIA






26 abril, 2013

Preventório de Penacova: notas para a sua história


 
 
Por volta de 1930 a Irmandade de N. S. da Guia aprova novos estatutos que lhe conferem  a categoria de  Misericórdia. Por acção do Dr. Sales Guedes, sendo Provedor o Dr. Luís Duarte Sereno, o sonho de criar um  Hospital em Penacova começa  a ganhar forma. Conta-se que foi ele próprio que elaborou o projecto do edifício aproveitando as paredes da capela de Nª Sª da Guia, com excepção da sua frontaria.
Terá sido  quando essa construção - no local onde depois se implantou o Preventório -  já estava avançada,  que Bissaya Barreto veio a Penacova a convite do Dr. Sales Guedes.  Bissaya Barreto visitou as obras e dado  que era sua intenção construir na zona centro  um Preventório, a ideia ficou a germinar. Passado pouco tempo a Junta Geral do Distrito, da qual  era Presidente,  propôs à Misericórdia de Penacova a cedência  do edifício em construção bem como do largo adjacente. Em contrapartida,  a Junta Distrital apoiaria  a construção e o funcionamento de um novo edifício hospitalar naquelas imediações, o que veio a acontecer. Esse edifício inaugurado por volta de 1933 e foi depois remodelado em 1961.

 
Em 25 Agosto de 1930 Bissaya escreveu  no Diário de Coimbra que a Junta Geral resolvera fundar um Preventório em Penacova “local que, pela sua situação e exposição, não tem igual em Portugal." O Diário de Notícias de 26 de Maio de 1932 publicou um artigo onde se podia  ler que “A Junta Geral do Distrito de Coimbra não podia ter encontrado, em termos da sua feitoria, para construir essa casa airosa, um sítio melhor, mais formoso e mais saudável.”
O Preventório de Penacova, o primeiro no nosso país, foi considerado como instituição modelar no combate à tuberculose, recebendo os filhos dos doentes -  dos 3 aos 12 anos - para evitar o contágio.  Poucos anos mais tarde, escreveu o Dr. José Albino Ferreira: “O Castelo que fora de grande poder defensivo contra os Mouros e a capela de N. S. da Guia bom farol para os navegantes, deram lugar a novas fortalezas contra as doenças, especialmente a tuberculose”.

 
Equipamento de Saúde mas também  de Educação: no Congresso Internacional de Protecção a Infância (Lisboa, 25 a 29 de Outubro de 1931) o Dr. Luiz Raposo referiu-se ao Preventório dizendo que se tratava de “um magnífico edifício”, estando  apetrechado com “os melhores requisitos” e podia receber uma média de 150 crianças, acrescentando : ” É dum encanto indescritível a paisagem que o cerca como outra mais bela não sei que exista em Portugal”.

 
Texto: David Almeida
Imagens: Acção Regional, 1932 [recolha de David Almeida]

15 setembro, 2010

O novo ano lectivo...um texto do Notícias de Penacova ( 1932 )

Neste arranque do ano lectivo, trazemos aqui um texto publicado no jornal NP de 17 de Setembro de 1932, na rubrica Tribuna do Professorado. Nesse tempo as aulas só começavam em Outubro, como muitos de nós sabemos. Comentários? Deixamo-los para os leitores ...
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