24 janeiro, 2026

Recorte de jornal satírico: "Há muitos anos que isto aconteceu em Lorvão..."


O ZÉ, sucessor do jornal O Xuão – semanário de caricaturas e humorístico, publicou-se em Lisboa  entre 1 de Novembro de 1910 e 1 de Março de 1919. Trocado no título o invocativo de João (Xuão) Franco pelo do Zé Povinho, o jornal era o mesmo, feito pelas mesmas pessoas: Estêvão de Carvalho (1881-1935), diretor e editor, Ricardo de Sousa, administrador e Silva e Sousa, caricaturista.

Numa época de exacerbado anticlericalismo, “O Zé” lembrou-se de publicar, em Fevereiro de 1912, sob o título “É padre e basta…” uma história que se terá passado em terras de Lorvão. 

Conta o jornal satírico-homorístico:

“Há muitos anos que isto aconteceu em Lorvão, próximo de Penacova. Havia lá um padre que desde a sua chegada àquela localidade notou a beleza de uma sua devota. Fez todos os possíveis para se aproximar dela o mais assiduamente que podia ser e um belo dia confessou-lhe o que sentia por ela. A mulher, primeiro zangou-se, mais tarde sorriu-se, até que por fim já trocava impressões com o cura.

O padreca estava todo enlevado pela conquista feminina que tinha feito, mas o que ele não imaginava por vislumbres sequer era que a mulher antes do último sorriso tinha contado tudo ao marido lá em casa e por conselho deste é que ela tinha continuado com tanta familiaridade… O carola caguinchas estava todo baboso e estava ansioso pelo momento feliz de estar a sós com ela… O momento desejado apresentou-se e o papa-hóstias do inferno já todo se inchava de prazer, de uma satisfação desmedida que o forçava.

Na povoação já havia mais pessoas que tinham notado a anormalidade do padre e essas pessoas espreitaram-lhes os passos até que ficaram sabendo o motivo daquele seu novo modo de ser. Inteirados do que conseguiram saber foram contar ao marido da devota cobiçada que se pôs a sorrir quando lhe expuseram o facto que pra ele não era segredo. Contou tudo aos indivíduos que se lhe dirigiram, depois de lhes agradecer a boa intenção com que o procuravam e combinou-se fazer-lhe uma partida.

Estavam no Carnaval e o marido da devota fez-se saído da terra para dar ocasião a que o engole partículas entrasse em sua casa… Assim aconteceu por antecipada combinação feita pelo padre e pela crente e sabida pelo marido pseudo-ofendido. Os amigos deste último também entravam como actores na peça que se ia representar e por isso estavam a postos por trás dum muro que pertencia ao quintal da casa onde morava a mulher traidora… O marido saiu de casa e com a sua saída chegou a noite, que na sua escuridão ocultava o vulto do padre. A beata, a medo, abriu a porta ao padre-cura e este, todo jubiloso, entrou na alcova conjugal.

O marido bateu à porta… e o padre em lugar de vestir a sua camisa, vestiu por engano a da mulher e não pôde vestir mais nada. Como não pudesse sair pela porta da rua serviu-se da porta traseira, a do quintal, e ao saltar o muro os outros homens que o esperavam correram após o padre, gritando: - Cerquem! Cerquem a alma do outro mundo! Realmente com aquela camisa tão grande de mulher parecia um fantasma…

O padre teve a sorte de chegar a sua casa depois de ter apanhado com um cacete pelas pernas… Assim é que em todas as aldeias haviam de proceder contra os padres insolentes, mas tendo o maior cuidado possível em lhes aplicar bem as doses de cacete, porque aquela gente sagrada, como são do céu, não lhes dói nada!

Sem comentários:

Enviar um comentário