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06 abril, 2026

Segunda-feira da Páscoa de 1932 e a (já) célebre fotografia do Enterro do Bacalhau


Esta fotografia vai sendo conhecida dos penacovenses. Há poucas semanas, graças à IA (Inteligência Artificial) até foi apresentada nas redes sociais com animação, onde parte dos figurantes se moviam. Ora, o Notícias de Penacova noticiou com algum pormenor aquele Cortejo (Enterro do Bacalhau) que se realizou naquela Segunda-feira de Páscoa de 1932, dia 28 de Março. Deixamos aqui a transcrição:

"Alguns rapazes - uns já descriados, outros casados e muitos solteiros, mas todos alegres lembraram-se de levar a efeito uma festa burlesca, comemorativa do fim da quaresma - o enterro do bacalhau.

Para esse fim, foi constituída uma comissão, composta dos srs. Armando Pimentel, Augusto Pimentel, Alípio Pimentel, Heliodoro da Costa, António Luís, Augusto Luís, Alberto da Costa, António Viseu, Américo Leitão, António Alvarinhas, Mário Carvalho, Fernando Alvarinhas, José Alvarinhas, José Alberto Alvarinhas, Jaime Barbosa, Júlio Ferreira da Silva, António da Cruz Assunção, José de Assunção, Eduardo Miguel, José Alves Coimbra, José Augusto Ribeiro, Lusitano Alexandre Ribeiro, José Ferreira da Silva, Jorge da Costa e Álvaro Martins Coimbra, que, depois de aturados mas profícuos trabalhos, conseguiu realizar uma festa engraçada e decente, o que é motivo para os felicitarmos vivamente.

A festa dos rapazes devia ter-se realizado no sábado de aleluia, mas, por motivo independente da sua vontade e que não importa saber, teve de ser adiada para segunda-feira.

Saiu o vistoso e numerosíssimo cortejo de casa do sr. Armando Pimentel, seriam 22 horas, e foi acolhido por francas gargalhadas da multidão que o aguardava na rua e que nele se incorporou.

Em andores bizarramente enfeitados viam-se um enorme bacalhau, uma bacalhoa e uma cavala ... em pano pintado; à frente um grande pendão, ornamentado com bacalhaus, alhos, cebolas, grelos, facas, garfos, etc.; dentro de uma camioneta, os oradores e seus acólitos; dois automóveis e um barco, conduzindo aficcionados; e o todo ladeado e acompanhado por muitos rapazes e raparigas, portadores de lanternas de papel de varias cores, com letreiros apropriados. O efeito era soberbo!

Seguia o cortejo muita gente da vila e dos arredores, rindo abandeiras despregadas das facécias dos oradores, que, em vários pontos do trajecto, fizeram o elogio... fúnebre do bacalhau.

Depois de percorrer as ruas da vila, sempre no meio da maior alegria e em boa ordem, o cortejo regressou ao ponto de partida, onde dispersou.

Seguiu-se um baile em casa do sr. Armando Pimentel, dançando-se animadamente até muito tarde.

A festa foi abrilhantada pelo gaiteiro, que executou valentemente um ruidoso repertório. Os oradores, que conseguiram manter as numerosas pessoas que escutaram, em constante hilaridade, foram os srs. Eduardo Soares, Jorge da Costa, Jacinto Alvarinhas, José de Castro Pita e Mário Carvalho.

Todos os trabalhos de pintura foram executados pelos artistas pintores desta vila srs. Fernando e António Alvarinhas.

Decorreu a festa sem que houvesse a menor nota discordante, o que mostra que os nossos rapazes não são tão maus como por vezes os pintam, e os torna dignos dos nossos louvores. 

Mostraram que sabem divertir-se, sem exageros irritantes de verduras de mocidade. Bem hajam!

Acompanhava o cortejo um grupo de crianças transportando uma coberta onde se recolhia dinheiro, destinado a ser distribuído pelas crianças pobres da vila. Rendeu 25$45, quantia que foi logo entregue a autoridade administrativa. 

Foi realmente pouco, sendo para lamentar que a generosa ideia dos alegres rapazes não fosse melhor compreendida.

Bem o mereciam as horas risonhas que eles a todos proporcionaram. Mas os tempos correm tão bicudos ... Não queremos fechar esta notícia sem mais uma vez louvar os briosos rapazes pela forma ordeira como decorreu toda a sua festa, felicitando ao mesmo tempo a comissão a que acima fizemos referência pela feliz execução que teve a sua iniciativa."          NP 9 Abril 1932

04 abril, 2026

Penacova e as tradições pagãs na Quaresma: 𝑶 𝑬𝒏𝒕𝒆𝒓𝒓𝒐... 𝒅𝒂 𝑺𝒂𝒓𝒅𝒊𝒏𝒉𝒂


Enterro da Sardinha? Ou Enterro do Bacalhau? Em Penacova, até aos inícios da década de trinta, com mais ou menos interrupções, era tradição do Sábado de Aleluia organizar o cortejo do Enterro do Bacalhau. Em 1932 o Administrador Concelhio não terá autorizado a sua realização na véspera do Domingo de Páscoa. Então, (crê-se, com base em notícias de jornais) uma nova comissão levou a efeito, mas no dia posterior à Páscoa, um Cortejo com um programa algo diferente. Será este que aparece em fotografias da época, onde vemos a camioneta de Heliodoro Costa acompanhada de todo o aparato típico do momento. 

Ainda não conseguimos reconstituir cabalmente a história dos acontecimentos, mas tudo leva a crer que (estamos em 1932, sublinhe-se) dois grupos, onde se terá metido política e religião, se terão demarcado na vila. Estariam em causa duas facções, uma afecta ao "Jornal de Penacova" e outra, mais simpatizante do recém aparecido "Notícias de Penacova". 

Certo dia, ao analisar alguns "papéis" antigos, do arquivo pessoal do meu amigo José Alberto Costa, encontrei um interessante folheto de 1932. Curiosamente, em vez do Enterro do Bacalhau fala do Enterro da Sardinha! Tudo leva a crer que seria este o programa que acabou por ser proibido. É que ao ler uma notícia que relata Enterro do Bacalhau da segunda feira da Páscoa de 1932 não se verifica coincidência com os elementos que o pequeno cartaz, impresso a vermelho, nos fornece.  

Este curioso documento, não só, por se referir à Sardinha (e não do Bacalhau, como seria de esperar), mas também pelo fino e mordaz humor que nele perpassa (o que era característico) merece ser recordado. Aqui fica a sua transcrição integral, na grafia original. Leva uns minutos a ler...mas valerá a pena.  

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Piramidais festejos em Penacova

1932 - No dia em que os judeus se enforcam – 1932

SEPULTARUM SARDINHORUM ET RESSURRESCIT CARNORUM

Para os que não sabem latim: Enterro da Sardinha e Ressurreição da Carne

Programa imprevisto. Não tem graça. Não ofende

Logo após o último “Gaudet», ao raiar das 22 horas, a multidão, com comichão, vai a calcão para o Luiz Brandão de lampeão na mão. No local já dito, os pais com os filhos e os filhos sem pai, empalmam uma vela, riscam um forfo, acendem a dita e encorporam-se na bicha do préstito (os homens vão á frente das mulheres) uns á mão direita e outros ao pé esquerdo. A Canastra (da Sardinha) vai a trás, debaixo do pálido, arreada por 4 valientes comilões. As bandeiras e os pendões, vão amarrados aos bordões. A guarda vai à frente da honra. As borlas e corôas, são confiadas aos Carinhas.

O itenerário do enterro é o de todos, isto é: de cima para baixo e vice-versa. Nas ruas haverá luminárias luminosas e nas janelas caras feias e formosas. O Cruz leva a Cruz. A chave do caixão (da Canastra) é confiada ao Ex." Sr. A. Pimentel.

Quando todo o mundo chegar ao Cruzeiro, junto ao chafariz do Sr. A. Cabral, cada qual chega a brasa à sua sardinha. Um orador apiteirado dirá larachas com graça e sem ela; e no último adeus á Sardinha, haverá cheliques e flatos. Espera-se que ao abrir o sarcófago, para lá enterrar a Sardinha, a multidão proteste, por haver quem goste mais do rabo e poucos da cabeça; pelo que a maioria acordará em enterrar só a cabeça (da Sardinha) ficando o rabo de fora.

Serenados os ânimos, dão-se as descargas do estilo, e enquanto o diabo esfrega o olho, Ressuscita a Carne !!

Estoiram bombas! Há cheiro a pólvora queimada e indícios de tempestade baixa! Alegria sem par! Aleluia! Aleluia! Novo cortejo segue o mesmo caminho, isto é: debaixo para cima, podendo as mulheres irem á frente dos homens. E a Carne, saltitante, sanguínea, quente, é levada em triunfo pelos gulosos para a Cova da Barro. Ali, cada lambareiro tira à sua fêvera e lambe os beiços por mais!

O cortejo é dirigido pelo mestre de cerimónias sr. A. Carvalho

REPRESENTAÇÕES

Fazem-se representar pelos Ex. Srs.:

A. Cabral - A Verónica. (Este Ex."' Sr. também de bom agrado se encarregou de regular o passo do enterro).

F. Tintim - A arquitectura médica e a engenharia cirúrgica

Silva (estageário) - Os mártires do trabalho.

E. Silva - Os mecheriqueiros internacionais (jornalistas) e a "Voz" ... de Dcmo ... nio

J. Cabral - A comarca de Penacova e múmias do Egito.

A. Guedes - Os códigos de Confúcio.

F. Miguel - Os sábios da Grécia e as Musas do Alcorão.

Américo L. - Os mártires do descanço.

D. M. Coimbra - O diabo em fralda de camisa.

J. Ribeiro - O Mirante e as ciências da Patagonia.

A. Leitão -  A Universidade de Salamanca e o deserto de Sahará.

X. Z. - O  "ludra-se" do Jornal de Penacova.

F. A. V. A. (fava) - A acreditada agência do Bacalhau.

O instrutor dos B. V. de P. faz-se representar pela farda do 2." comandante.

FESTA DE CARIDADE

As bondosas damas de Penacova, levam a efeito, no Domingo de Páscoa, um peditório em favor dos pobres, o que lhe acarretará as maiores simpatias. O Secretário Geral do Céu enviou-lhes o Rádio seguinte:

"S. Martinho enviou a capa que vós lhe ofertásteis, as mães pobresinhas, para dela fazerem camisas para os filhos. S. Sebastião vai mandar-lhes também os calções. Para decôro do Ceu, ide falar ao Revcrendo Pinto e Domingo de Páscoa tirai o folar para os que têm fome c frio " -  Pedro

Os Doutores da Igreja também enviaram no Ex."° Sr. Dr. Albino, o seguinte telegrama: "Doutores Penacova - Secundem missão caridosa folar pobres - Jerónimo.

NOTA - A chefe do correio deturpou o telegrama e escreveu : Mentores Pinóca -Fecundem missão maldosa esfolar pobres. - Jeremias.


SARAU DE GALA NO CINE-TEATRO-CLUB

1ª PARTE

Poesias e prosas (recitado ao cavaqainho) - A. Pinto

História dos amarguras de um piolho (em harpa) - J. Barreto

Cataratas do Mondego com garfadas de grelos (discurso inédito)  - A. Casimiro

Tretas e pêtos (solo de pífaro em si b. m.  - F. Redondo

O amor em sonetos - pelo soprano lírico - M. Carvalho


2ª PARTE

Tango Argentino e Sonho de valsa (à guitarra).   - J. Nunes

Música de D. Faustino ... e um violino -  J. Cabral

Filosofias de pataco e a canção do grilo (com ferrinhos - J. Ribeiro

Rapsódia política (piano a 4 mãos)  - J. Leitão - E. Pinto

Fado choradinho (assobio em dó menor) - S. Rosa


3ª PARTE

Um drama ... em cuécas (Peça em 3 actos pelo autor)  - J. Gouveia

Sonata-Pacata (ao fagote, em lá maior) -  J. Alves

Minuête do perdalário (gaita de loiro com sardina)  - A. Cabral

Profecias dos Planetas (com pandeireta e berimbau) - Mendes C.

Piruetas no trapésio do amor (com castanholas) - F. S. Guedes


APOTEOSE

Luta à  Portuguesa. Sôco à inglesa. Coice à hespanhola, pelo respeitável público.


NOTA IMPORTANTE

Para que as criancinhas pobres compartilhem desta festa, roga-se às almas caridosas que atirem com o seu óbulo para a colcha que será conduzida pelas crianças, no cortejo. A importância recolhida será escrupulosamente entregue à Autoridade Administrativa, que no Domingo de Páscoa a distribuirá pelas CRIANCAS MAIS POBRES da Vila.

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Bacalhau, Enterro do - Representação popular que tinha lugar em sábado de aleluia ou domingo de Páscoa, simulando o enterro de um rabo de bacalhau para simbolizar o fim do jejum quaresmal de carne. Em certas localidades, organizava-se um cortejo "fúnebre", em que o bacalhau seguia à frente, pendurado num pau. Quase sempre havia testamento. Não se conhece prática musical específica a acompanhar. Hoje em dia são raras as povoações que conservam esta tradição, a qual ainda se mantém, por exemplo, em Soutocico, Leiria.

N. B. - OS TEXTOS DESTA ENCICLOPÉDIA DAS TRADIÇÕES POPULARES ESTÃO SUJEITOS A DIREITOS DE AUTOR,PELO QUE A SUA REPRODUÇÃO, AINDA QUE PARCIAL, DEVERÁ INDICAR O NOME DO SEU AUTOR, JOSÉ ALBERTOSARDINHA.



10 abril, 2023

Enterrar o Bacalhau para agitar e dar cor a Penacova


No dia 8 de Abril, sábado de Aleluia, realizou-se em Penacova o “Enterro do Bacalhau”. Esta manifestação popular que durante muitos anos se fez na vila e que desde os inícios da década de trinta não tinha lugar começou, no ano passado, a ser reavivada graças à iniciativa das associações juvenis “Partículas Soltas” e “Vox et Communio”, tendo-se-lhe este ano juntado a associação musical “Sons do Mondego”.

O cortejo do “Enterro do Bacalhau” arrancou da Eirinha, desceu ao Terreiro (onde em frente a Câmara actuaram grupos de crianças), dirigiu-se à rua principal da vila, entre a Igreja e o largo de Cruzeiro (onde o “bacalhau” acabou por ser enterrado) com uma paragem no Largo de S. Francisco para a apresentação de um Teatro de Rua onde não faltou o humor, a sátira e a crítica social e política, traduzida nalgumas quadras com que o “bacalhau” se tentou defender das acusações que lhe foram dirigidas.

Sandra Henriques, encenadora do grupo de Teatro Partículas Soltas, escreveu na rede social Facebook, a propósito do evento deste ano o seguinte: “Uma vez mais saímos à rua para ver se, de alguma forma, agitamos e damos cor à nossa querida Vila de Penacova (...) E que bem acompanhados estivemos! De um lado os nossos 30 atores (miúdos e graúdos) acompanhados pelos familiares que largam os seus afazeres de Páscoa para virem fazer a festa connosco e mostrarem aos mais novos que é tão bom sermos livres! Do outro, o Vox et Communio com as suas vozes e a garra de se desafiarem constantemente num espírito de cooperação maravilhoso. De outro, a energia contagiante da Associação Musical Sons do Mondego, que era a peça que nos faltava.”

Esta tradição está ainda presente nos dias de hoje em muitos locais do país (Pampilhosa, Figueira da Foz, Góis, Soutocico, Peniche, Sesimbra, Laranjeiro, Barreiro, Rio de Mouro, Alenquer, Torres Novas, etc). Recorde-se que o Enterro do Bacalhau de Soutocico (Leiria) chegou mesmo a ser, em 2020, candidato às 7 Maravilhas da Cultura Popular. A condenação à pena capital e enterro do bacalhau, bem como todo o conjunto de rituais passou a integrar a cultura popular há longos anos atendendo a que durante os quarenta dias que vão do Carnaval à Páscoa a Igreja Católica impôs rigoroso jejum e completa abstinência de carne. Com isso, quando se chegava ao fim da Quaresma já o povo estava farto de comer bacalhau e de se privar de muitas coisas além da carne, por exemplo dos bailes e de tudo o que fosse divertimento.

Assim, o “enterro do bacalhau” passou a assumir-se como uma “tradição que tem lugar no Sábado de Aleluia para celebrar o fim das privações, incluindo as gastronómicas, que tinham lugar na Quaresma. Em geral, o julgamento do bacalhau é uma manifestação teatral que inclui também um cortejo fúnebre. Algumas das personagens que participam são o doutor juiz, os advogados, o oficial de diligências, o réu bacalhau e as testemunhas – salsa, alho, cebola, e vários temperos.” Há localidades - por exemplo Rio de Mouro (Sintra) - que fazem o “enterro do bacalhau”, não no Sábado de Aleluia, mas na Terça-Feira “gorda”, isto é no dia de Carnaval.

Em Penacova, temos notícia dos Cortejos em 1910, 1911 e 1932. Em 1932, a comissão que estava constituída não obteve autorização do Administrador Concelhio tendo surgido um outro grupo que, à última hora, acabou por organizar um cortejo alternativo na Segunda-Feira da Páscoa, com “figuras simbólicas e carros alegóricos”. Em 1910, de acordo com notícia no Jornal de Penacova “foi um verdadeiro sucesso o enterro do bacalhau que teve lugar nesta vila” na noite de Sábado de Aleluia. “A afluência do público ao funéreo e burlesco enterro foi extraordinária (…). O povinho ficou embasbacado ante o aparato para si estonteador e nunca antes visto na nossa terra”. Um autêntico “sucesso” para “um burgo, apático e podre a propósito de diversões.” Em 1911 repetiu-se e até se publicou um “jornal” satírico “A Espinha”. Uma preciosidade: quatro páginas cheias de humor e sarcasmo, como convinha nesta manifestação popular.

Fotografias de Carolina Sim: 

















Fotografias de PENACOVA ONLINE:






















15 abril, 2017

Memórias do Enterro do Bacalhau: o "Rabo+R+Rio" de 1911


Sobre o Enterro do Bacalhau de 1910 já escrevemos no Penacova Actual. Também de 1932 se conhecia uma fotografia, bem como algumas referências dispersas. Entretanto, ainda não há muito tempo, conseguimos ter nas mãos um exemplar do “programa” que veio a público nesse ano.

Não menos interessante e valioso é também o “jornal” que se publicou em Penacova aquando do Enterro do Bacalhau de 1911. Falamos de  “A ESPINHA”: uma preciosidade que tivemos a sorte de fotografar. Quatro páginas cheias de humor e sarcasmo, como convinha nesta manifestação popular que marcava o fim da Quaresma.

Proibida durante o regime de Salazar, a tradição foi retomada com o 25 de Abril nalguns pontos do país. Em Penacova o último cortejo terá sido mesmo o de 1932.  


Mas viajemos um pouco até 1911. O programa do “Rabo+r+rio” (em rodapé do folheto aparece a solução da charada) prevê para as oito da noite o início do “luzido” e “pyramidal” cortejo. Dois arautos anunciarão das suas “sonorosas” trombetas, o “passamento” daquele que em vida se chamou Bacalhau.

Como se consegue ainda ler no já carcomido papel, o relato do “funeral” é um texto pleno de humor e sátira. As restantes páginas traduzem também a fértil e mordaz imaginação dos seus “redactores”, num momento, não nos esqueçamos, em que estava ainda fresca a revolução do 5 de Outubro, e se vivia um misto de alguma liberdade de expressão e de luta religiosa. Confrontando o relato do Cortejo de 1910 (ainda na vigência da Monarquia) com o conteúdo deste panfleto, é notório o tom mais solto da sátira e da crítica social.

O tema merecia maior desenvolvimento. Por hoje deixamos os leitores do Penacova Online com este breve apontamento, prometendo voltar ao assunto.

Nota: Gostaríamos de deixar um agradecimento ao nosso amigo Sr. José Alberto Costa que nos facultou o acesso a estes valiosos documentos que com grande sensibilidade cultural e cívica sabe preservar 

Ler +:

CORTEJO DE 1910: http://www.penacovactual.pt/2013/03/penacova-enterrou-o-bacalhau-uma.html
CORTEJO DE 1932http://www.penacovactual.pt/2012/02/o-enterro-do-bacalhau.html