sábado, 30 de novembro de 2013

Penacova, 1 de Dezembro de 1910


De acordo com notícias da época, o 1º de Dezembro de 1910 foi assinalado em Penacova com uma sessão solene que se realizou na Câmara Municipal.
Pelas 11 horas a Tuna de Lorvão tocou o “Hino da Restauração” dando início às celebrações. Na sessão solene discursaram António Moncada, Presidente da Comissão Administrativa e Amândio Cabral, Administrador do Concelho. António Moncada recordou que, quer em 1640, quer em 1910, fora “ o povo, e só este” que derrubara “a tirania”.
 
Joaquim Maria da Silva, em nome do povo de Lorvão, leu uma “calorosa” mensagem de saudação à República e ao Governo Provisório.
A Filarmónica de Penacova também esteve presente, executando o novo Hino “ A Portuguesa”.
Recordando o 1º de Dezembro de há 103 anos são de referir outros dois acontecimentos: 
 
- a inauguração, na Av. 5 de Outubro, do Centro Republicano de Penacova tendo como patrono António José de Almeida.
 
- a inauguração da “luz acetylene” na vila  apesar do dia de temporal que se fez sentir. “ Com vagar embora, o Progresso vai penetrando na nossa  terra “ – dizia o Jornal de Penacova.
 
À noite, os republicanos reuniram-se  ainda à volta de  um jantar no “Hotel da Srª Altina Amaral”.
 
Breves notas* sobre o feriado do 1º de Dezembro

Capa da obra referida onde
surge em 1º plano António
José de Almeida
A comemoração do 1º de Dezembro foi determinada logo nas cortes de 1641, mandando “celebrar anualmente Te Deum” em todas as Sés.
Ao longo de toda a Monarquia foi considerado apenas como dia de “simples gala”, apesar de, em 1892,  a Comissão Central 1º de Dezembro ter solicitado ao rei D. Carlos e ao Governo que a data fosse promovida a “dia de grande gala”, aspiração que não foi atendida.
Com a implantação da República o 1º de Dezembro  foi proclamado Feriado Nacional. Logo no dia 12 de Outubro aquele dia foi proclamado como Feriado Nacional e também foi escolhido para a  “Festa da Bandeira Nacional” em que seria apresentada oficialmente a nova bandeira .

*Ver Feriados em Portugal, Luís Oliveira Andrade, Luís Reis Torgal. Imprensa da Universidade, Coimbra, 2012 

Comemorações da Restauração da Independência em Lorvão.
A Filarmónica Boa Vontade Lorvanense celebra, no próximo dia 1 de dezembro, a Restauração da Independência Nacional, tradição anualmente realizada por esta Filarmónica desde a data da sua fundação em 1 de agosto de 1910.

Personificando o grupo de 40 fidalgos que atacaram os espanhóis, em Lisboa, no dia 1 de dezembro de 1640, os músicos da Filarmónica Boa Vontade Lorvanense saem, pelas 09H30, da sede da Filarmónica, na rua Bissaya Barreto, em Lorvão, e dirigem-se, em silêncio, municiados com os seus instrumentos, ao Mosteiro de Lorvão, para apanharem os espanhóis de surpresa.
Subindo pela estreita escadaria até ao zimbório poligonal, sob as ordens do Maestro Paulo Almeida, entoarão, o Hino da Restauração de 1640.

Pelas 15H30, a sede da Filarmónica Boa Vontade Lorvanense será palco do Colóquio "1º de dezembro e os Feriados Nacionais", em que serão intervenientes o Prof. Doutor Reis Torgal e o Dr. António Calhau.
( Texto: website da Câmara Municipal)

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Foral Manuelino: resgatado do balcão de uma loja onde chegou a servir de suporte a balança conseguiu completar 500 anos em terras de Penacova


Por pouco - a fazer fé na crónica do Dr. José Albino Ferreira (A Carochinha) - que o exemplar concelhio do Foral de 1513  não desapareceu no monte de papéis velhos. Aqui se conta como, graças ao antigo Secretário da Câmara, Alípio Correia Leitão, esta preciosidade foi salva do desleixo (ou intenção) de quem se quis desfazer dos testemunhos da nossa história . Felizmente que o podemos observar ainda hoje em bom estado, depois do seu restauro no último mandato do Engº Maurício Marques, enriquecido com a  publicação de uma edição fac-similada do mesmo.
O Dr. José Albino Ferreira que faleceu no início dos anos quarenta, foi notário e também padre. Foi várias vezes Presidente da Câmara. Nessa qualidade inaugurou, por exemplo, o Mirante em 1908. Era uma pessoa com uma vasta cultura e muito reconhecida em Penacova. Vamos, pois, acreditar na veracidade destas peripécias.


A crónica começa assim:

As crónicas publicadas no Notícias de Penacova
“Era o foral o estatuto fundamental, a carta constitucional do concelho, que devia ser religiosamente guardada com os livros e papéis da secretaria da Câmara.
A guerra civil em que o povo português se envolveu, dividindo-se em dois partidos, o conservador chamado legitimista e o liberal ou constitucional, teve em Penacova grande repercussão. Dividiram-se e hostilizaram-se rijamente os penacovenses.

Vencidos os legitimistas que queriam para seu rei D. Miguel, houve por cá também liberais vencedores que acharam que a história de Penacova devia começar só em 1834, ou, quando muito, em 1820. Era preciso fazer desaparecer tudo o que contrariasse os ideólogos do liberalismo. Despedaçaram o pelourinho e não se sabe o que fizeram dos livros e dos papéis do Arquivo Municipal.
O certo é que na Secretaria da Câmara, só existe dos tempos anteriores, o foral de D. Manuel e este mutilado, faltando-lhe a primeira folha, a traça e o tempo dilaceraram gravemente a forte encadernação, mas respeitaram admiravelmente o pergaminho das folhas e as vivas cores das letras.

Um dia encontrou-se na secretaria da Câmara, a Carochinha, com o ilustre penacovense que foi grande orador sagrado, Alves Mendes, e apresentou-lhe o foral, lamentando o desaparecimento da primeira folha. Alves Mendes viu e disse: Olhe, sabe a razão? É que havia, sem dúvida, como era de uso, a iluminura artística da primeira letra. Algum amador a viu e cobiçou para a sua coleção, e…foi um ar que lhe deu…
Referência aos 5oo anos do Foral
in Revista Municipal
Não ficaram por aqui as desventuras do foral.

Quando, há poucos anos se aposentou Alípio Leitão, que durante mais de 30 anos foi secretário da Câmara, encontrou-se na Pérgola a Carochinha com o saudoso penacovense Dr. Daniel da Silva que lhe disse: sabe, apareceu o foral!
A  Carochinha que ignorava o seu desaparecimento estranhou o caso. O Dr. Daniel continuou:

Eu sabia, porque me tinham dito, ignorando-se como se dera o facto. Eu suspeitava que tivesse sido o meu amigo que o houvesse escondido, não para ficar com ele, mas para o ter mais bem guardado…
Nada disse e perdoei logo ao Dr. Daniel a injusta suspeita.

Agora o Alípio Leitão fazendo entrega da Secretaria ao sucessor, apresentou-lhe uma caixa em que tinha guardados vários papéis e bem assim o foral que se julgava perdido…
Logo que a Carochinha se encontrou com Alípio Correia disse-lhe: então tu sonegaste o Foral fazendo que durante mais de 20 anos pesasse sobre mim a suspeita de o ter roubado?!
O meu amigo Alípio Correia, então, diz-me muito naturalmente:
Eu fui a uma mercearia cá da terra e vi, sobre o balcão o foral sobrecarregado com as balanças da loja!... Fiquei surpreendido, mas não disse nada. Voltei no dia seguinte e lá estava o foral na mesma tortura. Ainda desta vez nada disse ao logista. Ainda nesse dia voltei, não encontrando ninguém no estabelecimento. Peguei no foral e levei-o para a Secretaria, onde ele devia estar sob minha guarda e pu-lo numa caixa fechada onde tinha outros papéis que guardei no fundo duma gaveta.
Nunca ninguém me perguntou pelo foral e por isso a ninguém disse onde o tinha.
Eu louvei muito a discreta prudência do Secretário…

Carochinha “

----------------------------------------------------------

 
Em 17 de Julho de 2008 foi apresentado o livro

"Os Forais de Penacova", edição fac-similada com  nota introdutória, transcrição, tradução e glossário da Prof. Doutora Maria Alegria F. Marques
Apresentação da edição fac-similada dos Forais de Penacova
(Foral Sanchino e Foral Manuelino) em 17 de Julho de 2008.

Sobre o Foral Manuelino ter também em consideração a seguinte obra:
Análise codicológica do Foral Manuelino de Penacova*
Monografia
Autor : Queirós, João Paulo dos Santos
Editor Coimbra [J. P. S. Queirós], 1998
•Trabalho realizado no âmbito da cadeira de Codicologia do Curso de Especialização em Ciências Documentais da Fac. de Letras da Univ. de Coimbra.
Desc. Física 40 f. : il. ; 30 cm.
____________________________
Comentários:
Antonio Calhau   O falecido meu estimado amigo e colega Dr Homero Pimentel , grande professor do nosso concelho disse-me há cerca de 30 anos exatamente o que aqui está escrito e referiu que a 1ª página do foral poderia ter servido de cartucho nessa referida mercearia. (através do Facebook)
 

 

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A Revolta dos Sarreiros: um caso que apaixonou "a vila e seu termo" e acabou em tragédia


Sarreiro (foto cedida pelo Rancho
Folclórico "As Paliteiras"de Chelo)
A história que vamos recordar chegou ao nosso conhecimento através do jornal Notícias de Penacova. Nos inícios dos anos 60 este jornal publicou um conjunto de crónicas intituladas  "In Illo Tempore..." assinadas com o pseudónimo Zé do Mirante. A par de outros temas sobre Penacova e o concelho, o articulista relata com algum pormenor um facto que terá acontecido na vila nos finais do séc. XIX. O texto não apresenta datas nem nomes completos, mas ao procurarmos  noutras fontes referências ao Dr.  José Ferreira, citado na crónica,   somos levados a crer que de facto se trataria de José Ferreira Seco de Figueiredo e Queiroz ( 1827-1889) , bacharel de Direito e Recebedor da Fazenda em Penacova. Casado com Joaquina Emília Augusta de Melo (1827-1896) fora também Presidente da Câmara de Poiares e ainda Deputado às Cortes.
Assim sendo, os factos remontarão a 1888-1889, pois a data da sua morte (suicídio) ocorreu  em 14 de Fevereiro de 1889 na Quinta da Boiça em Sto André de Poiares.
 
Eis pois, a transcrição do texto publicado nas páginas do Notícias de Penacova de 1962:
 
I
Um dia logo de manhã, foi a vila posta em sobressalto. Eram os homens válidos das povoações de Chelo. Chelinho e Rebordosa, armados de cacetes em atitude revolucionária. Eram sarreiros que vinham dispostos a desancar, liquidar, o Escrivão da Fazenda, porque os tinha colectado arbitrariamente, sem olhar ao direito e à justiça.
Ainda deverá existir, em alguns daqueles povos algum velhote, bem velhote, que se lembre desta manifestação de força, de aventura e desafronta...
Ora o José Miguel, de prestígio pessoal e político da região, já tinha vindo com o António Lopes, também homem de respeito de Chelo, e talvez o maioral dos sarreiros, expor ao escrivão da Fazenda a engrenagem do negócio do sarro, pois que não passavam de angariadores de adegas espalhadas pelo Portugal vinhateiro, mas por conta e financiamento do verdadeiro industrial do Porto. Eles, sarreiros, somente extraiam o sarro das vasilhas com o auxilio dos moços ( ou criados) e apresentando a mercadoria ao patrão do Porto, recebiam as suas jornas e ajustavam contas.

Objectos utilizados pelo sarreiro
( Expo Artes e Cultura - Lorvão 2012 fotos de Penacova Online)
O escrivão da Fazenda, como então era tratado, e se a memória é firme e não me atraiçoa, se chamava Viriato, não atendeu às reclamações destes, agravou o caso, tributando também os moços (ou criados) dos sarreiros que fossem menores. " Aqui é que ardeu Troia" e aí vinham todos fazer barulho, fazer valer os seus direitos a cacete e queimar a papelada...
O prudente José Miguel tinha vindo à frente montado na sua fiel e pacata burrinha, dar aviso aos chefes políticos de que era devotado amigo.
As repartições foram encerradas e o Viriato não se sentindo em segurança na hospedaria da ti Levradia (mais da tarde da srª Altina do Amaral) pediu asilo ao vizinho Dr. José Ferreira que generosamente o acolheu e hospedou, entregando-o aos cuidados e vigilância da incomparável esposa D. Joaquina de Melo.
Toda a gente sabia que o Dr. José Ferreira era o Recebedor responsável e amigo de sempre, o honradíssimo compadre de toda a gente. Aquela casa era sagrada; ali minguem lhe tocaria!
Quem diria que o Viriato, cobardão e medroso, tornado cordeirinho naqueles dias, viria a ser o carrasco do seu salvador?
Mas vamos assistir aos tumultos e possíveis desacatos dos sarreiros.
Como as Repartições estavam fechadas, andavam aos montões, rua a baixo , rua acima, a dar vivas aos regeneradores e aos progressistas ( não era época de eleições) e espalhafatosos morras ao Viriato, que, tão fortes como trovões ou como o dobrar os sinos a funeral, se ouviriam em Chelo.
O que é certo, e torna evidente destacar, é a moral daqueles povos ao fim de algumas horas de furor, gritaria, de beberricar pelas tabernas, de esfacelarem os paus nos muros e nas paredes, não partiram um vidro, não queimaram a papelada...e não fizeram desacato algum! Com prudência ouviam-se as advertências das autoridades e até iam acalmando com a promessa de os políticos irem a Lisboa resolver o assunto a seu contento.
Recordo muito bem de dois famosos auxiliares do sossego, que com umas pancadinhas amigas num, com um segredo ao ouvido deste e uma anedota brejeira àquele, iam empurrando os sarreiros amotinados para suas casas. Merecem  registo os seus nomes e qualidades.
Um era Joaquim de Andrade, de Miro; o outro Joaquim Pechim, da Mata de Carvalho, se bem me recordo, ambos afilhados do Dr. José Ferreira. O primeiro era auxiliar e quase permanente à frente da Recebedoria da qual o padrinho era o responsável; o segundo, o Pechim, era com "um procurador honorário ou notário privativo dos dinheiros e rendas do Dr. José Ferreira, espalhados por toda a Comarca. Mais tarde tive nas minhas mãos e li, muitos "Títulos de Confissão de Dívida" escritos pelo Pechim e pelo sr. Luís Lopes (outro notário popular) que foram esquecidos ou perdoados. Estes "Títulos" tinham a curiosidade, sendo a moeda corrente os mil réis, em tal se não falava nem tão pouco em libras; era somente - tantas "moedas" - cujo valor era de 4 800 réis (4$80) cada.
Ora estes figurões que acima descrevi, eram conhecidíssimos no meio dos amotinados sarreiros e portanto eram obedecidos e respeitados. Alguma razão tinha o Andrade, de Miro, de me dizer, quando eu já fazia a barba, que tinha sido o rei de Penacova!...Lá tinham as suas razões de realeza que a história não registou...
Quem mais gozou com as arruaças foi a garotada; colaborou rijamente nos morras ao Viriato quanta antipatia e raiva lhes merecia.
Ah! mas a rixa com os sarreiros não findou; nem a paz e sossego para os habitantes da vila e nem a vingança do Viriato estava quite com uns e outros; aqueles porque o ameaçavam de morte e estes porque lhe negaram apoio.
 
A festa ia, pois, principiar.
 
Um ou dois dias depois e tudo em tranquilidade, andavam uns tantos gaiatos em Santo António, nos jogos próprios da idade (então não havia muro ou qualquer resguardo fora do alpendre) quando um dos miúdos - como tenho tão vivo na memória este caso! - viu que à Várzea vinham soldados a cavalo e outros, muitos, a pé, com cornetas e tambor a tocarem!
O alarme foi como o desabar da tempestade. De todos os pontos voltados ao Reconquinho, corriam, gritavam, rebolavam pelas encostas à estrada de Coimbra, os rapazinhos e até os grandes, ao encontro daquela maravilha inesperada e nunca vista!
Naquele tempo não havia qualquer ligação com a estrada para Coimbra a não ser o caminho estreito e mau pelo Cidral ao Chafariz. Pois por aí vinham os soldados e cavalos, à mistura com o batalhão de garotos.
Os mirones da vila encontraram-se na Costa do Sol.
Como a crónica já se vai estendendo para além do que permitido é o espaço do nosso jornal, eu terminarei com outro número de o "Notícias", pois vale a pena trazer ao conhecimento do nosso povo um caso que emocionou dois concelhos.
 
II
 
 
Como já dissemos, o único caminho que ligava Penacova com a estrada de Coimbra, era o acanhado caminho do Chafariz-Cidral. Pois era por aí que subiam os soldadinhos que iam ser os dominadores da vila.
Logo depois o administrador do concelho, Dr. Amaral, hóspede e parente do Sr. Constantino, bisavô da Ex.ma srª D. Maria José Leitão, que eu mais tarde viria a reconhecer como Conselheiro Presidente da Relação em Coimbra, mandava o seu oficial Joaquim Cabral, do Castelo, que, de relação na mão, ia distribuindo pelos habitantes da vila o numeroso grupo de soldados. A garotada é que achava grande honra ter em sua casa um soldado. Que importava à economia da família, se dividia o seu naco de broa com o soldado?
Os oficiais, dois ou três, ficaram hospedados na casa do Conselheiro Alípio Leitão. Um dos oficiais tinha um cavalo que era o alvo dos carinhos e a inveja dos apreciadores da espécie; lindo a valer, de caprichosas e grandes manchas brancas e negras.
Mobilizados carpinteiros para fazerem as necessárias tarimbas e a guarita, que muitos anos depois fi o refúgio e palácio da garotada, os pedreiros improvisaram uma cas para a cozinha dos militares e as indis- pensáveis instalações sanitárias, à moda da época!...
Publicidade de 1948 in NP
Talvez ainda haja quem se lembre, de, ao fundo da Pérgula, ser a serventia para a Repartição da Fazenda, que era onde hoje é a cadeia dos homens, e servia todos os baixos do edifício. Ao lado da serventia, à direita, era a cozinha, que chegou a ser taberna do carcereiro António Dias. Nas cadeias então vazias, se instalaram os militares.
Entretanto os Penacovenses é que iam amargando as favas aboletando os soldados, alguns sabe Deus com que sacrifícios e sem culpa nas quezílias dos sarreiros e do Viriato.
Aos oficiais foi preparado alojamento, onde é hoje a Secretaria Judicial e então sala das Sessões da Câmara Municipal.
A cavalaria com grande mágoa dos gaiatos, ao fim de 10 ou 15 dias retirou, acabando o prazer de a hora certa ver a corrida para o rio à data de água, com o complemento dos pinotes dos cavalos no areal, e às vezes a fuga de alguns a caminho da vila.
A infantaria esteve aquartelada na vila - eu sei la? - talvez um ano.
Para a rapaziada o recreio era permanente, desde o toque da alvorada ao recolher; era o moifar do casqueiro ao café; do render da guarda ao manducar da bóia, à tardinha.
De maior aparato e assistência era aos domingos a formatura em frente aos Paços do Concelho, para a missa na igreja. Os soldados com o fardamento que então usavam com correame complicado e muito branquinho, com barretinas de metais a luzir como ouro, era facto imponente. E a fileira dos soldados, que ia do guarda - vento à grade a meio da igreja, com as baionetas a luzir, com os oficiais à frente de espada em punho, e os que ladeavam o altar-mor, e no momento da Elevação, à ordem do comandante e ao toque das cornetas e tambor se prostravam em sinal de submissão? Posso garantir que aos domingos não faltava à missa conventual nenhum garoto e também nunca foi tão concorrida...pelas moçoilas! Não faltaram mais criadas para servir e não mais faltou água fresquinha para a mesa de Carrazedos ou da Quinta dos Peixes, assim como as três fontes da vila estavam sempre policiadas...
 
Fonte: Rancho Folclórico "As Paliteiras"de Chelo
É tempo de relatar os trágicos efeitos da rebelião dos sarreiros na nossa pacata vila.
 
O escrivão Viriato sentindo as costas no seguro e com a sentinela à porta, redobrou o ataque à bolsa do contribuinte; não poupava os funcionários que com ele não colaborassem. Mexeriqueiro, metediço nas vidas particulares, queria dos empregados confidências sobre o viver pessoal e político do Recebedor. Caçador de escândalos mexia e remexia papéis, até que, finalmente, encontrou um vale, ainda recente, do Dr. José Ferreira, de umas dezenas de mil réis! Tinha, pois, na mão a arma desejada para o seu triunfo: liquidar um homem de valor! Lealmente não avisou, não esperou um dia, que ele recorresse a um amigo para ficar logo quite com o Estado.
O Dr. José Ferreira quando teve conhecimento da patifaria do Viriato, sofreu tal desgosto que mandou logo aparelhar a égua ao criado António Langão (António São Miguel) que ainda hoje tem forte geração na Ponte e partiu para a sua quinta da Boiça, em Vila Nova de Poiares.
Escreveu carta à bondosíssima esposa D. Joaquina de Melo, aos amigos de Poiares e Penacova e a horas mortas estoirou os miolos com uma certeira bala!...
Ainda luzia a estrela d’alva, já o António Langão batia às portas a dar a triste notícia que rapidamente se espalhou . A tragédia enlutava  dois concelhos. A indignação era total contra o Viriato. Todos lhe voltavam as costas . A  hospedaria fechou-lhe a porta, não teve quem lhe vendesse um pão. Por favor do seu fiscal de impostos, um tal Sacramento, que vivia na casa em hoje ruinas, pegada ao José Félix, ali comeu e dormiu até ao dia...
Os amigos da infeliz vítima, de Penacova e Poiares, imediatamente se puseram em campo e decorridos poucos dias o Viriato saía de Penacova escorraçado como um cão lazarento.
Os povos de Chelo e Rebordosa è que não pouparam de chupa, apupos e foguetório à sua passagem de barco a caminho de Coimbra.
E a D. Joaquina de Melo? Essa também saiu para não mais voltar à sua terra. Mais tarde soube por Arsénio Pimentel que enquanto viveu, era uma verdadeira romagem às 2ªs feiras para Boiça, de gente de Penacova, a visitar a desditosa viúva.
Poucos anos sobreviveu ao Dr. José Ferreira, mas sei que nunca lhe faltaram flores de camélia, que ainda hoje existe, da sua Quinta da Cheira.
***
Esta crónica não é fruto da fantasia. Não. Os factos são verídicos. Aos poucos ia-os arrancando à memória e estendendo-os no coradoiro da pureza dos acontecimentos. Levou seu tempo a estender a cadeia, através dos anos decorridos. Mas, louvado seja Deus, chegou-se ao fim sem atropelos à verdade, e deu-se a conhecer um caso que apaixonou a "vila e seu termo".
ZÉ DO MIRANTE
 

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Cartas brasileiras: o navio do meu avô português


O navio Sierra Morena que em 1928
 transportou Manuel Castanheira, emigrante de Figueira de Lorvão

Se botarmos atenção nos documentos que ilustraram a carta anterior (Matar a cobra e mostrar o pau), mais precisamente no Passaporte de Imigrante do meu avô Manuel Castanheira, de Figueira do LorvãoPenacova, que já disse por parte de minha mulher, vê-se que tendo partido de Lisboa em 13/11/1928, desembarcou em Santos, no dia 29/11/1928, como se observa no carimbo da imigração.

Pode-se ainda notar que no passaporte existe a identificação do navio, Sierra Morena; curiosamente, o nome hispânico nada tem a ver com a origem do navio.
 
Valendo-me do site do Governo do Estado de São Paulo, http://memorialdoimigrante.org.br/ pude verificar que o navio Sierra Morena era um navio alemão, da companhia Norddeutscher Lloyd (ND), construído 1924, em Bremer (Alemanha), com 11 430 toneladas, com capacidade para transportar 1 100 passageiros, cuja empresa foi fundada e 1857, tendo sido uma das mais importantes companhias de navegação alemã do final do século 19 e início do século 20.
Der Deutsche, resultado da remodelação do Sierra Morena
Despertada em mim a curiosidade, avancei um pouco mais pela internet, descobrindo que em 1928 o navio atracou nos portos de  Bremen (Alemanha), Boulogne (França), Vigo (Espanha), Lisboa (Portugal), Madeira (Portugal), Rio de Janeiro (Brasil), Santos (Brasil), Montevideo (Uruguai,) e Buenos Aires (Argentina).

Com a Segunda Guerra Mundial, passou-se a chamar-se  Der Deutsche, tendo sido remodelado, fazia cruzeiros organizados pelo Partido Nazista – Programa Força na Alegria. No final da guerra, foi “apropriado” pela Rússia, e de 1947/1949 passou a integrar da linha Ásia, com bandeira soviética. A partir de 1950 atuou apenas em águas do extremo oriente, entre Valdivostok e Kamchatka, até 1970, quando deixou de operar.   

Na internet há inúmeras referências sobre navio, inclusive com fotos. Não tendo como saber qual a fonte original, resta-me a citar pelo menos uma, dando assim os créditos pelas imagens.


Paulo Santos - S. Paulo

sábado, 9 de novembro de 2013

Motim sangrento em Travanca: alguns mortos e muitos feridos foram o resultado de cena violenta

Brás Garcia de Mascarenhas, “o aventureiro, o guerreiro e o poeta”  da Beira-Serra, deixou a marca da sua faceta aguerrida também pelos nossos lados, designadamente em Travanca do Mondego. Numa recente tese de mestrado (2010) de Albano José Ribeiro de Almeida é recordado este episódio que, por sua vez, António de Vasconcelos relatou na sua obra "Brás Garcia Mascarenhas" (1921).

Escreve Albano José Ribeiro de Almeida:
(…) Ainda neste período, fins de 1640, Brás Garcia encontra-se de novo envolvido em rixas e cenas violentas, das quais se destaca a ocorrida em Travanca de Farinha Podre.
A paróquia de Travanca era de provimento alternativo da Sé Apostólica e do bispo de Coimbra. Em 1638, o Padre Pantaleão, prior desta igreja, ausentou-se da paróquia deixando-a entregue ao cura João Fernandes.
A paróquia foi, entretanto, considerada vaga, tendo sido provido outro pároco. Perante esta situação Brás Garcia acciona um processo judicial. Como a justiça eclesiástica demorava a solucionar a situação, Brás Garcia e o seu séquito resolveu-a, arrebatando da bainha a espada, no dia em que o novo pároco se preparava para um banquete, depois do qual, pela tarde, iria assumir aquele priorado, de grande interesse em réditos; caíram sobre os convivas, espadeirando-os e confundindo-os; alguns conseguem saltar pelas janelas e fugir, outros resistem, mas debalde.
Excerto do livro de banda desenhada sobre a história de  Oliveira do Hospital
com referência a Brás Garcia de Mascarenhas
Baseado em documentação produzida no contexto deste conflito, António de Vasconcelos descreve, deste modo, este motim:

“Como um furacão entram todos pela porta dentro, e de espada em punho uns, outros de cacetes erguidos, caem sobre os convivas espadeirando-os e confundindo-os. Alguns conseguem saltar pelas janelas, por baixo da mesa, rolam corpos feridos gravemente, jazem outros sem movimento.
Alguns dos convivas haviam-se escapado do presbitério para a igreja onde supuseram encontrar asilo inviolável. Faliu-lhes o cálculo. Ali mesmo foram feridos e espancados, ficando assim poluída a casa do Senhor”. [...] “Quando toda a resistência dentro de casa tinha acabado, os agressores descem ao pátio, para dali e do adro varrerem a população e a criadagem. Mas não encontraram ninguém. O pavor tinha-se apoderado de toda essa gente”....“Foi uma cena sangrenta em que foi protagonista Brás Garcia e na qual houve mortos e feridos”

Depois deste episódio violento, bem ao sabor do século XVII, o poeta aventureiro homiziou-se, mais uma vez, mas por curto período, na região de Avô; nesta situação e neste período, chega-se ao dia 1 de Dezembro de 1640, à  esperada Revolução.

ALBANO JOSÉ RIBEIRO DE ALMEIDA, BRÁS GARCIA MASCARENHAS, AVENTUREIRO, GUERREIRO E POETA,COIMBRA. FL.UC- 2010
 
 BRÁS GARCIA DE MASCARENHAS
 
Brás Garcia Mascarenhas nasceu na Vila de Avô, Oliveira do Hospital a 3 de fevereiro de 1596 e faleceu a 8 de agosto de 1656 no mesmo local. Foi estudar para Coimbra, mas teve de fugir para Madrid perseguido pela justiça por ter cometido um crime. Viajou por vários países da Europa e fixou-se algum tempo no Brasil, regressando a Portugal na altura em que D. João IV é aclamado rei. Durante a Guerra da Restauração organizou um batalhão de voluntários, a Companhia dos Leões da Beira, participou ativamente nas lutas pela independência contra o domínio filipino e, sendo acusado de alta traição, foi preso. Absolvido pelo rei devido à falsidade das acusações, termina os seus dias escrevendo a epopeia em vinte cantos e oitava rima Viriato Trágico (1699). Além desta obra, escreveu ainda Ausências Brasílicas e Labirinto do Sentimento na morte do Sereníssimo Príncipe D. Duarte, atualmente desaparecidas.
A obra que, no campo da literatura, imortalizou Brás Garcia de Mascarenhas