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17 janeiro, 2026

O topónimo Penacova em Terras de Santa Cruz


No artigo “A Saudade Portuguesa na Toponímia Brasileira”, escreve  Antenor Nascentes (1886 -1972), filólogo, linguista e lexicógrafo brasileiro, que “os navegadores portugueses, que a partir do século XVI começaram a explorar os mares nunca dantes navegados à procura de novas terras para dilatar a fé e o império, levavam consigo a saudade da terra natal e para mitigá-la, muitas vezes, davam às povoações fundadas nomes dos lugares onde nasceram”. 

“Essa transplantação quase sempre se operou espontaneamente, graças ao concurso dos povoadores anónimos, saudosos da pátria distante” – salienta. 

No entanto, “algumas vezes se deu por influência oficial, com o intuito de fazer desaparecer o topónimo aborígene, como aconteceu no Pará em 1758. O capitão-general Francisco Xavier de Mendonça Furtado ordenou que se substituíssem por topónimos portugueses os de origem tupi, visando assim dissimular a origem indígena dos povoados em que se transfiguraram os aldeamentos organizados pelos jesuítas”, mal vistos então pelo marquês de Pombal.

Antenor Nascentes não refere uma outra personalidade que terá, em contexto semelhante, conferido um topónimo português a um lugar do Pará.

Referimo-nos a  José de Nápoles Telles de Menezes (c.1747-c.1795),  Governador do Pará no final do século XVIII, filho de Luís Xavier de Nápoles Lemos e Menezes, Senhor do Morgado de Penacova. 

No livro “Belém do Pará sob o domínio português-1616 a 1823” de Jorge Harley, encontramos na pág. 78 a seguinte nota:

    
      "Fundou Tello de Menezes o lugar Penacova abaixo do Igaparé Una, 
povoando-o de aborígenes catequisados e "homens, segundo Baena,
de cor de mista qualidade e mulheres de prazer de fácil colheita no
mesmo sítio em que teve existência a Aldea de nome igual ao referido 
igarapé".
     Tello de Menezes aplicou ao lugar que creara o nome Pena Cóva
recordando a pitoresca vila Pena-Cóva, freguesia do Douro* em Portugal,
de onde talvez fosse filho.

 

O autor refere que Tello de Menezes “talvez” fosse filho de Penacova, desconhecendo que na realidade pertencia à família dos Nápoles, muito influente em Penacova, sendo filho do referido Luís Xavier e de Francisca Macedo. Quer os pais, quer os avós eram, pois, reputados elementos da nobreza beirã (Viseu, Penacova…). 

José de Nápoles, nascido em Viseu, foi Fidalgo da Casa Real, Cavaleiro da Ordem de Cristo e Tenente de Cavalaria em Almeida. Em 1779 passou a Governador e Capitão Geral do Estado do Grão Pará e Rio Negro. 

“No dia 26 de fevereiro de 1780, a bordo da charrua “Águia Real e Coração de Jesus” (navio de três mastros e um grande porão, mas de pequena capacidade para armamentos) chega ao Pará o governador e capitão general do Estado do Grão Pará e Rio Negro José de Nápoles Telles de Menezes, acompanhado de membros da Comissão de Demarcação de Limites entre os domínios de Portugal e Espanha.”- escreve Hoje na História

Depois de meritória acção no cargo, acabou por cair em desgraça, afastando-se em 1783. Veio a falecer em Lisboa. Solteiro e sem filhos deixou os bens ao sobrinho Luís Augusto de Nápoles Bourbon de Menezes. 

Mas temos mais referências: os Anais da Biblioteca e Arquivo Público do Pará (1902), ao falarem do Hospício construído pelos Capuchos de Santo  de Santo António, regista que “em torno do hospício grupou-se uma aldeia indígena, a que, em 1782, o governador e capitão general do Pará, José de Nápoles Tello de Menezes pôs a denominação de Penacova, e tentou reanimar, aumentando-lhe o número de habitantes”. 

Outra menção ao lugar “Penacova” aparece-nos na História do Pará (pág. 238 do vol. I) quando são referidas as “Agitações Políticas de 1823 a 1834”, designadamente a “Revolta de Outubro: Prisão do Cónego Batista de Campos”. Refere-se o seguinte: “Arrojados os corpos na lancha do navio, foram levados para a margem do rio, no sítio chamado “Penacova” e aí sepultados em grande vala que para isso se abriu”. 

Ficamos então a saber que existiu em Terras de Vera Cruz uma localidade chamada Penacova. O nome não terá vingado, já que nenhuma das pesquisas que fizemos nos confirmaram a existência deste topónimo nos nossos dias, ao contrário do que acontece, por exemplo, com Coimbra, nome de um município brasileiro no interior do estado de Minas Gerais. 

* De 1835 a 1936, a Província do Douro incluía os distritos do Porto, Aveiro e Coimbra. VER https://audaces.blogs.sapo.pt/2585.html

~~~o~~~

QUER SABER MAIS SOBRE TOPÓNIMOS BRASILEIROS DE INFLUÊNCIA PORTUGUESA?


1. Ainda, pela leitura do artigo A SAUDADE PORTUGUESA NA TOPONIMIA BRASILEIRA, de  Antenor Nascentes,  ficamos a conhecer muitos outros exemplos: 

No Amazonas encontram-se: Borba, Silves, Barcelos, Badajoz, S. Paulo de Olivença (Olivença, então portuguesa). No Pará: Alcobaça, Alenquer, Alter do Chão (antigo Borani), Almeirim (antigo Paru), Aveiro, Arraiolos, Bragança, Chaves, Colares, Esposende (antiga Tuaré), Faro, Mazagão, Melgaço (antiga Cuaricuru), Monsaraz, Monte Alegre (antiga Curupatuba), Óbidos (antiga Pauxis), Oeiras (antiga Araticu), Ourém, Portei (antiga Arucará), Porto de Moz, Santarém (antiga Tapajós), Sintra, hoje Maracanã, Soure, Tentúgal, Viseu, Mazagão, antiga Vila Nova de Mazagão. 

No Maranhão: Alcântara, Viana (talvez a do Castelo, que não a do Alentejo),Guimarães, Caxias (igualmente no Estado do Rio de Janeiro,onde foi mudado para Duque de Caxias por ocasião da revisãonda nomenclatura geográfica e no Rio Grande do Sul, onde passou a chamar-se Caxias do Sul.

No Piauí,  estado da região Nordeste: Amarante, Oeiras, Valença (talvez a do Minho), Jerumenha. Jerumenha, alteração de Jurumenha, recebeu de Martius uma incrível etimologia tupi. Oeiras antigamente se chamou Moxa. Quando foi escolhida em 1761 para capital da capitania do Piauí, recebeu do rei D. José I este nome em homenagem ao ministro Sebastião de Carvalho e Melo, conde de Oeiras, mais tarde marquês de Pombal.

O Ceará conta: Sobral, Soure, Crato, Mecejana. Não se pode pôr em dúvida o primeiro. Não há sobreiros no Brasil.

Apesar de reconhecer a existência de uma vila portuguesa com o nome de Mecejana, apesar José de Alencar dá a palavra como de origem tupi e significando "a abandonada". 

O Rio Grande do Norte apresenta Macau e Estremoz.

Alagoas tem apenas Anadia.

Sergipe tem Badajoz.

A Baía conta: Abrantes, Barcelos, Belmonte, donde era senhor Pedro Álvares Cabral, o descobridor, que tocou em terras baianas em 1500, Alcobaça, Santarém, Trancoso, Olivença (hoje espanhola), Valença.

O Estado do Rio de Janeiro apresenta Arcozelo, uma simples estação ferroviária. Lá existem Valença e Resende, que se prendem a personalidades portuguesas.Valença em homenagem a D. Fernando José de Portugal, marquês de Aguiar, descendente dos nobres de Valença.

A cidade de Resende, foi criada no governo de D. José Luís de Castro, segundo conde de Resende e quinto vice--rei do Brasil, sendo assim chamada em honra dele.

São Paulo apresenta a cidade de Montemor, Paranhos, Nova Louzã, e as estações ferroviárias Lusitânia e Miragaia. Houve uma antiga Queluz.

O Rio Grande do Sul apresenta Alegrete, que não vem de topònimo. Havia no local uma cidade cuja capela os espanhóis incendiaram em 1761. O capitao-general marquês de Alegrete mandou reconstruída e então os habitantes, gratos, deram à localidade o nome do título do marquês.

Mato Grosso apresenta Melgaço.

Finalmente, Minas Gerais possui Cedofeita, que lembra a igrejinha do Porto,  Ericeira que evoca a praia donde partiu para o exílio o rei D. Manuel II. Barbacena, nome de freguesia próxima de Elvas, Queluz (hoje Lafayette), lembrando o palácio real das cercanias de Lisboa, Matozinhos, que possui um santuário que é uma réplica do que existe no Porto, Mariana e S. João del-Rei. Mariana era a vila do Carmo. Passou a ser cidade em 25 de Abril de 1745, recebendo este nome em honra de D. Maria Ana d'Austria, esposa do rei D. João V. S. João del-Rei era o antigo arraial do Rio das Mortes. Perto de S. João dei-Rei fica a antiga vila de S. José do Rio das Mortes, depois S. José del-Rei, hoje Tiradentes, cujo nome se atribui ao príncipe real D. José, mais tarde rei D. José I, filho de D. João V. Feita uma homenagem ao pai, julgaram de bom aviso fazer outra ao filho.

2. Por sua vez, uma simples pesquisa em “modo IA" dá-nos o seguinte:

A toponímia brasileira é rica em nomes portugueses, refletindo a colonização e a devoção, com exemplos como Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais (em homenagem às minas portuguesas) e Santa Catarina, além de muitas cidades com nomes de locais e santos de Portugal, como Braga, Coimbra, Aveiro, Lisboa, e Viseu, demonstrando a profunda ligação cultural e histórica entre os dois países, de Norte a Sul do Brasil.

Tipos de Nomes de Origem Portuguesa no Brasil

Nomes de Cidades e Estados:

Grandes Capitais: Rio de Janeiro (inspirado no estuário), São Paulo (dia de São Paulo), Porto Alegre (referência a "porto" e "alegre"), Belo Horizonte (referência à beleza do horizonte).

Nomes de Regiões: Minas Gerais (referência às ricas minas encontradas), Espírito Santo (referência religiosa), Santa Catarina (em homenagem a Santa Catarina de Alexandria).

Nomes de Santos e Devoção:

Grande parte das cidades brasileiras leva nomes de santos católicos, muitos deles venerados em Portugal, como São Francisco de Assis, Santo Antônio, São Sebastião, Nossa Senhora da Conceição (variando de estado para estado).

Nomes de Lugares e Características Geográficas de Portugal:

Cidades: Coimbra (MG), Braga (PB, SC), Aveiro (AM), Viseu (MG), Lamego (RJ), Évora (PE).

Características Naturais: 

Rio Douro (em homenagem ao rio português), Serra da Mantiqueira (com influência toponímica).

Nomes de Pessoas (Colonizadores e Figuras Históricas):

Muitos lugares recebem nomes de bandeirantes, exploradores e nobres portugueses, como Fernando de Noronha (PE), Ilha de São João (hoje Fernando de Noronha) e nomes de famílias importantes da época. 

A toponímia brasileira é um espelho direto da colonização portuguesa, apresentando mais de 70 cidades com nomes idênticos aos de Portugal. 

Esta herança consolidou-se através da substituição de nomes indígenas por designações lusitanas, especialmente durante a Reforma Pombalina. Aqui estão os principais exemplos dessa influência:

Cidades Homónimas (Mesmo Nome)

Muitas localidades brasileiras foram batizadas em homenagem a vilas e cidades da metrópole:

Santarém (Pará) – O estado do Pará é um dos que mais preserva esta ligação, com mais de 20 cidades homónimas. Bragança (Pará) e Bragança Paulista (São Paulo). Óbidos (Pará). Chaves (Pará). Viseu (Pará). Amarante (Piauí). Barcelos (Amazonas). 

07 setembro, 2022

2º Centenário da Independência do Brasil: a Visita de António José de Almeida àquele "país irmão"

Faz agora 100 anos. Por estes dias, o Presidente de Portugal estava no Brasil. A primeira Visita de Estado, após a independência, coube a António José de Almeida. A ida ao país irmão era desejada havia muito tempo. Estivera para ser D. Carlos, o primeiro a fazê-lo. Só mais tarde, com a comemoração do 1º Centenário da Independência do Brasil, a 7 de Setembro de 1922, data do famoso “grito do Ipiranga”, se deu essa deslocação.

A viagem teve alguns contratempos. Um deles foi o facto de o navio que levou o nosso presidente ter chegado com mais de uma semana de atraso. O convite havia sido feito com muita antecedência, mas os preparativos terão ficado para a última hora.

A primeira viagem de um chefe de Estado ao Brasil fez-se num "recauchutado" navio. Um antiquado paquete alemão, entretanto rebaptizado de “Porto” necessitou de grandes reparações mas mesmo assim as obras atrasaram-se e a partida foi sendo sucessivamente adiada. Pouco tempo depois de sair de Lisboa, teve de aportar às Canárias, devido a uma avaria. Avarias que se multiplicaram em todo o trajecto e a lentidão era tal que se chegou a pensar que havia falsificação do carvão!

No dia previsto para a chegada, 7 de Setembro, ainda a comitiva estava a meio do caminho. Na Rio de Janeiro iniciaram-se as comemorações do 1º Centenário da Independência e inaugurou-se uma exposição internacional (os nossos pavilhões não estavam prontos e tiveram de ser cobertos para não dar mau aspecto...). E mais grave: o único chefe de Estado convidado - António José de Almeida – não estava presente.

Apesar de todas estas contrariedades, António José de Almeida terá reagido com enorme calma e sentido de Estado. A viagem havia sido acompanhada com muita ansiedade dos dois lados do Atlântico e os brasileiros prepararam uma recepção apoteótica. O Presidente Português foi recebido por milhares de pessoas em todos os locais onde se deslocou, muito bem acolhido pelas entidades oficiais e civis. A retribuição revestiu-se de enorme simpatia (uma das características de António José de Almeida) a que se juntaram muitos discursos que arrebataram as plateias, confirmando perante os brasileiros a expectativa criada de grande orador. Muitas cerimónias tiveram lugar onde não faltaram grandiosos banquetes.

A viagem ficou marcada , mais pelos afectos do que pelos ganhos políticos, já que do ponto de vista oficial apenas três tratados de pouca relevância foram assinados.


UM DOS DISCURSOS DE ANTÓNIO JOSÉ DE ALMEIDA NO BRASIL

Provavelmente poucas pessoas conhecerão o discurso no palácio do Catete  por ocasião do Banquete oferecido pelo Presidente do Brasil. Aqui fica, tendo como fonte a Revista da Semana de 1922,  publicada no Brasil.


Senhor Presidente:

A emancipação política da grande pátria que é hoje o Brasil foi um facto espontâneo e normal, consequência de uma evolução inexorável, que nehuma força seria capaz de impedir.

A independência do Brasil não data do grito de Ypiranga, como à primeira vista podia supor-se; ela partiu de
mais longe, porque se vinha formando lentamente na consciência nacional, visto que, de facto, o Brasil apesar de colónia, foi desde cedo nação, tendo mais condições de vida própria do que tantos outros povos que, ao longo da história, com aparência de independentes, mais não foram do que organismos subordinados a outros mais poderosos que os dominaram.

O nervosismo, mais feito afinal de desolação e despeito do que de má vontade, que em Portugal se manifestou logo após o acto definitivo da Independência, deasapareceu sem demora, porque aqueles que lá lutavam contra uma forma de governo retrógrada e reacionária compreenderam que, se para eles a fórmula da própria independência individual e colectiva era a revolução liberal, aqui, no Brasil, a revolta contra a mesma opressão só podia revestir um aspecto: o da independência.

Como V. Ex. acaba de dizer com firme exactidão e escrupulosa verdade, Portugal descobriu, povoou e defendeu contra a cobiça dos estrangeiros o vasto território do Brasil. O Brasil independente de hoje tem pois que agradecer a Portugal o facto de ele lhe ter legado, intacto, à custa de torrentes de sangue e torrentes de lágrimas, tamanho e tão rico património. Mas Portugal tem que agradecer ao Brasil independente de hoje a energia, a bravura, a inteligência e o amor da raça com que ele tem sustentado,
aumentando-a, desenvolvendo-a e dourando-a de uma maior magestade e beleza, a obra que foi a maior glória do seu grande passado.

Creio que estamos pagos perante a história.

Nenhum povo deve menosprezar as honradas origens que teve, e nenhum povo tem o direito de olhar, com ressentimento ou tristeza sequer, a separação do seu todo daquela parte que, no exacto cumprimento dos destinos históricos, uma vez sentiu em si a acção das forças indomáveis que a levaram ao legítimo afastamento.

É esse o motivo que determinou V. Ex. a render, neste momento, um sentido culto a Portugal. É essa a razão que me impele, a mim, a prestar profunda e comovida homenagem ao Brasil. V. Ex. o disse: o Sete de Setembro é uma data luso-brasileira, e celebrá-lo é realizar uma festa da raça. Em verdade, nesta data há glória que chegue para todos. Somente eu, senhor Presidente, doutor Epitácio Pessoa, devo declarar francamente que não vim aqui com mandato da minha Pátria para tomar a porção de glória que lhe pertence. Eu vim aqui no exclusivo intuito de reconhecer aquela outra, e bem grande ela é, que cabe em partilha ao Brasil.

É nesta missão de que venho investido e que teve ontem tão auspicioso início na maneira inexcedível de entusiasmo e carinho com que V. Ex., o seu governo, as autoridades civis e militares e o povo quiseram receber-me, ao entrar nesta formosa cidade, estou reconhecendo, por mim próprio, o que já sabia por depoimentos alheios, isto é que o Brasil tem sabido criar uma civilização própria que é, em parte, feita da velha tradição portuguesa, em parte devida ao forte e sadio ambiente americano, mas sobretudo é o resultado do esforço intrépido e inteligente dos homens resolutos que o povoam e na verdade se formaram um estado de alma, colectivo, poderoso e resplandecente, a que com justeza se deve chamar brasilidade - força nova, serena e ousada que está intervindo eficazmente nos destinos do mundo.

Brasil e Portugal são duas pátrias irmãs, cada uma vivendo em sua casa, tendo um passado até há cem anos comum e um futuro em muitos pontos diverso, mas em tantos outros equivalente.

Os brasileiros sentem-se em Portugal como na sua Pátria.

Os portugueses, em vastos núcleos de trabalhadores, sentem-se no Brasil como na sua própria terra. As mesmas constituições republicanas, embora sob aspecto diferente, governam e dirigem as duas nações que tem dado provas, ambas elas de amar sinceramente a democracia.

Uma língua incomparável, que retine o melhor ouro da linguagem humana e dispõe de um poder plástico sem igual, serve - maravilhoso instrumento de civilização e solidariedade - os dois povos, que se sentem presos nas espiras desse verbo quasi divino.

Que outra coisa é precisa para que eles auxiliem sempre e se entendam cada vez mais. Creio que coisa nenhuma, já que o sentimento fraterno que enleia os corações, perenemente alvoroçados pela estima comum, é tão forte que em caso nenhum a vontade dos homens o pode quebra. E o nosso encontro aqui, senhor Presidente, é um eloquente testemunho dessa esplêndida realidade.

Senhor Presidente, em nome da nação portuguesa e no meu próprio nome, agradeço a V. Ex. e ao Brasil a entusiástica e comovida recepção que me fizeram e de que guardarei perdurável recordação, e erguendo a minha taça em honra de V. Ex. e do grande povo de que é chefe eminente, faço votos sinceros pelas suas mútuas felicidades."

03 setembro, 2012

Cartas Brasileiras I

Por ter parentes de minha mulher oriundos de Penacova, atrevido, me ofereci ao amigo David Almeida como colaborador do Penacovaonline, para enviar textos desde esse longínquo  Brasil.
 
Creio que o gentil gestor do blog não encontrou meios para me dizer não; assim é que aqui estou.
 
É verdade, depois de uma longa data, desde a oferta. Aconteceu que me pus a pensar como escrever dirigindo-me, principalmente, para leitores de Portugal, sabendo da existência de particularidades interessantes existentes na língua comum a todos nós.
 
Realmente, ou seja “de fato”, porque aqui não se escreve de “facto”, o texto poderia acabar por se tornar ininteligível, quando se sabe que “fato” nas terras lusitanas se refere à roupa masculina, para nós “terno” (camisa, calça  e colete).
 
As pessoas aqui, em sua grande maioria, vão trabalhar tomando “ônibus”, enquanto ai utilizam o “autocarro”, embora sejam a mesma coisa. Viajamos de “trem” e não de “combóio”; se bem que aqui trem também pode significar alguma coisa extravagante.  
 
Podemos nos referir a um grupo expectadores somo sendo uma “galera”, isto é, uma turma, nunca como uma embarcação. As torcidas, suas ditas claques, aqui  compram camisas de seus times (clubes) de futebol, jamais “camisolas”, por serem vestimentas que as mulheres usam para dormir.
 
Em uma fonte de água pode existir uma “bica”, um tubo por onde escorre o líquido, que colhido pode ser utilizado para fazer um “cafezinho”, para vocês, “bica”. Com a laranja fazemos “suco”, que ai se chama “sumo”; o Papa  é para nós o Sumo Pontífice.
 
Mulher que muito fala é tagarela ou faladeira, chamá-la de “galinha” é dizer que se deita com todo mundo!!! E se for feia ela é um tribufu.
 
Até outro dia, um abraço a todos.
P.T.Juvenal Santos – São Paulo - Brasil
 
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NR: Obrigado por este intercâmbio que muito nos honra e que esperamos continue com regularidade.

29 novembro, 2010

Crónicas do Brasil (II)

E o Rio de Janeiro continua...
                                             
A imprensa internacional destaca guerra do Rio contra o crime organizado; O jornal americano The New York Times ressaltou que o Rio será palco de eventos importantes, como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2010; já o parisiense Le Figaro destacou o número de mortos; o equatoriano El Commercio trouxe o assunto como o mais importante de sua seção internacional; o jornal português Publico traz o assunto em sua capa na versão internet e também na versão impressa. E assim mais uma vez o Brasil é noticiado.
As ações dos criminosos no Rio de Janeiro atentam contra o estado democrático de direito. Mas, para que o estado democrático de direito não enfraqueça, tais ações criminosas precisam ser combatidas dentro dos marcos legais, sem execuções sumárias, sem torturas e sem vinganças
A cidade mais bela do Brasil é palco de uma guerra social, que surge como resultado de anos e anos de um Estado promíscuo, que mantinha um “certo relacionamento respeitoso” com os bandidos. E por essa – vamos dizer – “amizade”, foi feita vista grossa ao avanço maciço da criminalidade, com tráfico de drogas e crime organizado, bandidos fortemente armados, se tornando os “xerifes” dos morros, mandando e desmandando no Rio de Janeiro.
O ministro da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Paulo Vanucchi, afirmou que as ações dos criminosos, incendiando ônibus e metralhando cabines de política, são um atentado ao estado de direito. Ele acha fundamental que haja solidariedade da sociedade no enfrentamento do crime organizado.
“É fundamental que a força policial seja mobilizada para enfrentar, combater e neutralizaras as ações desses criminosos, mas sempre dentro dos marcos legais, que não permitem execuções sumárias, tortura e nem vingança. É prender e levar”, disse.
 “Agora, no contexto de uma batalha deste tipo, é muito difícil encontrar ouvidos sensíveis, porque se trata de uma situação de que quem está defendendo a lei está sendo alvo de tiros de bandidos. E na hora em que há um ataque dessa proporção, a polícia tem que reagir sem, no entanto, deixar de se ver como defensora dos direitos humanos. Porque ela defende a vida, o direito das pessoas não serem sequestradas, assaltadas e mortas", completou o ministro.
Divididos em três grupos, Comando Vermelho, Comando Geral e Amigos dos Amigos, os marginais colocaram a sociedade carioca como refém, impondo toques de recolher á escolas e ao comércio local, tomaram conta de tudo, sem receio, originando assim um governo paralelo ao estado democrático.
Mas o cenário começou a mudar com a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (as UPPs) que ofereceram resultados visíveis e extraordinários, com apoio irrestrito da população.
O carioca se sentiu protegido, cidadão. Comunidades que eram apartadas dos serviços básicos essenciais, hoje possuem uma realidade diferente. O banimento da violência nos morros propiciou a liberdade do ir e vir desses cidadãos.
Essa mudança não seria tranqüila, com o encurralamento das quadrilhas, elas certamente revidariam e revidaram. Veio numa onda terrorista e de vandalismo, com arrastões, assaltos e incêndio de veículos, que visavam fundamentalmente espalhar o medo e intimidar as autoridades. O império do tráfico, que por anos entendeu que estava tudo dominado, quis tomar de volta o que perdeu. Mas a resposta da sociedade – por mais dolorosa e arriscada que possa parecer nesse momento – deve ser a da resistência.  A hora é agora! O controle territorial do Rio não pode seguir nas mãos de marginais como ocorreu no passado recente. A falsa ideia de que a via do entendimento com esses bandidos é uma alternativa possível não deve prevalecer. A polícia fluminense precisa seguir avançando, sem fraquejar, no encalço daqueles que se imaginavam imunes à lei, expulsando-os do convívio social.
E temos que ressaltar... O Rio de Janeiro continua lindo, O Rio de Janeiro continua sendo, o Rio de Janeiro, Fevereiro e Março. Alô, alô, Realengo aquele abraço! Alô torcida do Flamengo aquele abraço... (Aquele Abraço – Gilberto Gil)
Bia Montes, jornalista

17 novembro, 2010

Do Brasil para o Penacova Online: Novos Caminhos Políticos-uma análise pós-eleitoral


Bia Montes
Antes de iniciar falando sobre o novo cenário político do Brasil, irei apresentar-me aos ilustres leitores do Penacova Online, meu nome é Beatriz Montes, mas podem me chamar de Bia Montes. Sou jornalista e também possuo um blog e foi por meio dele que acabei conhecendo o David.  E aceitei o seu convite para escrever algumas coisas sobre as terras de cá. Espero que gostem.

Novos Caminhos Políticos

 O Brasil viveu no último mês de outubro e ainda vive uma séria mudança em seu cenário político, temos uma nova presidente da República, a primeira presidente mulher da história do Brasil, uma ex-rebelde marxista, que no período da Ditadura Militar (Décadas 1960 e 1970) foi presa e torturada.    
Imagem da responsabilidade
do Penacova Online
Em seu discurso da vitória foi surpreendente, manteve-se inexpressiva, sem muita demonstração de emoções, contendo lagrimas e ate mesmo a explosão de felicidade por ter conseguido se eleger como a primeira presidente do Brasil. Em seu discurso muito falou, mas, pouco foi dito. Usou palavras sóbrias, sem vestígios do sentimento de perseguição que aflorou durante a campanha eleitoral, em momento algum culpou as elites brasileiras da luta imaginária travadas em trincheiras existentes somente no imaginário do seu antecessor, o presidente Lula.
Vale ressaltar que durante seu discurso, utilizou uma fala de quem realmente quer trabalhar e não apenas para impressionar, mesmo assim, ainda deixou ressaltar o seu desnorteamento, deixando algumas dúvidas no ar, pois, seu discurso e suas atitudes não podem mais ser aquelas que os marqueteiros da campanha embelezam e jogam no ar.

Seu governo terá início em 1º de janeiro de 2011, e a presidente ainda não sabe, evidentemente, como vai domar a gastança pública. Ainda mais tendo de saciar o PT e o PMDB, as maiores bocas do fisiologismo nacional. Dilma fez o movimento certo, corajoso, ao incluir o controle fiscal em sua primeiríssima fala. Falta agora conversar com alguém que entenda do assunto, pois, a conta precisa fechar.

Em matéria de economia, falta entender, também, que os remendos populistas um dia estouram – como se vê na Venezuela chavista e na Argentina dos Kirchners.  E assim chegamos ao ponto onde uma parcela pensante da sociedade brasileira teme a imprensa. Ela convive com medo de ser amordaçada, principal medida dos dois vizinhos contra a derrocada econômica. É por isso que chega a causar arrepios o anúncio, pela presidente eleita, de um Fundo Social do Pré-Sal.

A criação de uma assinatura politicamente correta para lavar a gastança do governo é antiga, e pode ate se mostrar uma saída esperta, mas o tombo no final é grande. Se a economia pega um vento de través – o que Lula não soube o que é –, não há populismo que segure os navegantes. Talvez Dilma só compreenda essa equação no dia em que tiver de cortar Bolsa Família. Espera-se que a ficha caia antes.
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Obrigado Bia pela análise tão  pertinente sobre o  período pós-eleitoral no Brasil, país onde vivem tantos portugueses e luso-descendentes, muitos deles pertencentes ao concelho de Penacova.
Ficamos a aguardar mais textos seus, sempre que possa e ache oportuno.