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16 junho, 2026

Ó da Roda! … paisagens sonoras e visuais de outros tempos

O texto que se transcreve é a introdução de uma das crónicas de João Augusto Simões Barreto (1877-1933) no Jornal de Penacova, intituladas “Regionalismo - Bairrismo. Penacova progressiva - O passado, o presente e o futuro”, publicadas em 1929. Pelo realismo da descrição e pelo curioso “retrato” que faz duma época, achamos pertinente voltar a ler este excerto:

“Debruçado sobre as grades da Pérgola, eu olhava o vale do Mondego, um fio de água, quase parada, que o verde negro dos pinheirais dos montes tornava sombria.

No remanso do Reconquinho as lavadeiras cantavam em coro, batendo o compasso com a roupa sobre as pedras.

Mais adiante, no caneiro da Várzea, a roda desandava devagar, gemendo cantando, toda aureolada do brilho das gotas de água que tombavam dos púcaros de barro negro. Um barco descia o rio lentamente, reflectindo na água quieta o seu perfil esguio de graciosas linhas curvas. 

Ó da roda! Ó da roda !

Abre-se a comporta do caneiro e a água represa precipita-se em cascata luminosa pela abertura. O barco segue veloz a corrente, empinando a ré, a que o leme dá a forma de um cutelo.

Depois tudo recai em silêncio, ouvindo-se apenas o gemer lamentoso e soluçado da roda do caneiro.

Em frente do Penedo da Carvoeira, duas raparigas atravessam o rio, mergulhando os pés na água baixa do rio e erguendo as saias mais do que seria preciso.

Ao cimo, na minha frente, o sol poente doira a penedia escura de formas caprichosas. Em baixo, um automóvel risca de negro a estrada branca e sinuosa levantando um turbilhão de poeira: O dia esteve quente, abafadiço. Só agora, perto da noite, começa a soprar o vento fresco do norte. A temperatura agora está deliciosa.”

13 junho, 2026

Lugares, monumentos e sítios de Penacova (14): a(s) Pérgola(s) de 1918 e 1948

 


No início do século XX, a Sociedade de Propaganda de Portugal inscreveu Penacova no conjunto das 17 localidades portuguesas dignas de serem visitadas. O triângulo Coimbra-Penacova-Luso/Bussaco foi, nos primórdios do turismo no nosso país, um dos circuitos mais divulgados por aquela Sociedade.

Em 1916, aquando da vinda de Raul Lino a Penacova, para o arranque do projecto da Pérgola, a Sociedade tinha uma Delegação local, presidida pelo Conselheiro Luís Duarte Sereno. Mais tarde surgirá a Sociedade de Propaganda e Defesa de Penacova. Pretendia-se a promoção turística da vila, num tempo em que à mesma acorria já um número significativo de "aristas". 

Reconhecendo Penacova como “região caracteristicamente de turismo pelas belezas naturais que encaixilham o Mondego e pelos horizontes que do largo da povoação se desfrutam”, a Sociedade de Propaganda de Portugal decidiu mandar construir na vila uma Pérgola (ou latada).

Refere o Relatório de 1916 que aquela Sociedade,  pelos motivos enunciados e por “constituir um centro de turismo de certa importância”, decidira “aformosear o largo” com a construção de uma Pérgola projectada pelo “distinto arquitecto Raul Lino”. 

Luís Duarte Sereno, em entrevista ao Jornal de Penacova,  no mês de Março de 1917, deu conta do andamento do projecto. Apesar de ter sublinhado que o custo da obra (que terá rondado quinhentos escudos) se devia à Sociedade de Propaganda de Portugal, fez questão de realçar “a mais dedicada cooperação” por parte da Câmara. Na ocasião, anunciou para início do mês de Abril o arranque das obras e apontou o dia 31 de Maio para a inauguração, conforme seria desejo de Emídio da Silva. Note-se que nesse dia se assinalariam 10 anos da inauguração do Mirante. Este calendário não se cumpriu e as obras só acabariam por ser concluídas em Dezembro de 1918.

Saliente-se que esta obra de 1918 não incluiu a pérgola que podemos observar hoje a oeste do edifício da Câmara, construída junto da antiga Pensão Vizeu. Esta “Pérgola de Cima”  é muito posterior, apesar de se inspirar na outra construção desenhada pelo arquitecto Raul Lino.

Uma notícia do jornal “Notícias de Penacova” de 27 de Março de 1948 dá conta do seguinte:

A SEGUNDA PÉRGOLA - Estão montadas as vigas em cimento armado da nova Pérgola junto à Pensão Vizeu, a qual parece ficar mais desafogada e de mais pé direito do que a primeira.

Continuam os trabalhos agora com mais intensidade na intenção certamente de já proporcionar aos turistas do próximo Verão os confortos e regalos que se gozam na Pérgola junto do Café Turismo, cujo piso acaba de ser modificado e suavizado com saibro batido.”

Desconhecemos se de facto foi inaugurada antes do Verão de 1948, mas certamente tê-lo-á sido por aquela altura. Um outro pormenor que a notícia nos revela: o piso da Pérgola Raul Lino em 1948 foi melhorado com saibro compactado. Nada de calçada, que só chegará mais tarde…

13 setembro, 2020

À SOMBRA AMENA DA PÉRGOLA (III) - O Castelo de Penacova e o florescimento da Vila


A importância notável do Castelo de Penacova, no largo período da reconquista cristã, não podia deixar de determinar que, junto dele construíssem suas moradias os guerreiros mais afortunados.

Assim nasceu a vila de Penacova.

Perdida a importância militar do Castelo, com a completa reconquista cristã do território português, e firmada a independência do reino de Portugal contra a pretensão dos Reis de Castela, podia ter acontecido que a vila se desmoronasse como o Castelo. Não aconteceu, porém, assim.

(…) Para fazer a sua história, era preciso que algum investigador competente rebuscasse nos arquivos da Torre do Tombo, da Casa Cadaval e outras, a documentação que por lá, sem dúvida, existe.

Não resta , porém, dúvida alguma de que foi muito florescente a vida de Penacova nos séculos XV, XVI e XVII.

Atestam-no exuberantemente, a arquitectura e a escultura de muitos edifícios que, felizmente, em Penacova têm resistido aos malefícios do tempo e dos homens. São notáveis a Igreja de Penacova, com as suas capelas laterais, a Capela de S. João, a Capela de Santo António, a Capela do Monte Alto, bem como alguns edifícios particulares que a Carochinha irá mencionando.(…)

 >Texto de José Albino Ferreira, publicado no "Notícias de Penacova" em finais da década de trinta.

 

15 julho, 2016

Foi há oitenta anos: a 15 de Julho morreu em Lisboa Manuel Emídio da Silva

Retrato de Manuel Emídio da Silva (1904)
Columbano Bordalo Pinheiro

 [Amigo de infância de Columbano, Manuel
Emídio da Silva,
deputado e crítico de arte, sob o
pseudónimo de El Mano,
escreveu artigos elogiosos das obras do artista]
Manuel Emídio da Silva faleceu em Lisboa há oitenta anos, em 15 de Julho de 1936.
Por vontade expressa, só no dia do funeral (que se realizou às 11 horas do dia seguinte), os jornais da manhã tornaram pública a sua morte. A Emissora Nacional apenas deu a notícia às 12.30. O Presidente da Câmara, (e director do Notícias de Penacova) José de Gouveia Leitão, mandou içar a bandeira em sinal de luto nos Paços do Concelho.
Sobre a relação de Emídio da Silva com Penacova, o Diário de Notícias escreveu o seguinte:
“Em matéria de turismo deve-lhe ainda, por exemplo, a vila de Penacova, uma das mais pitorescas do país, larga campanha em seu favor. Em troca, a um mirante que ali se erigiu e de onde se descortina sobre o Mondego uma paisagem deliciosa, deu a vila o nome de Manuel Emídio da Silva. Dos "Emídios" se chama também a estrada que liga os vértices Luso-Penacova-Coimbra, do chamado triângulo turístico do centro do país, em louvor popular do seu nome e de Emídio Navarro, o primeiro que deu fundos para a sua construção."
"Manuel Emídio da Silva - regista o jornal Notícias de Penacova, de 25 de Julho, nº 210- era inteiramente desconhecido em Penacova há pouco mais de trinta anos. Vindo a esta vila de passagem para visitar o Convento de Lorvão ficou de tal maneira extasiado com as paisagens de Penacova que poucos dias depois iniciava no Diário de Notícias uma intensíssima propaganda em favor delas. Por influência sua, incluiu a Sociedade de Propaganda de Portugal a vila de Penacova no número das terras do país que mereciam ser visitadas."
Adianta ainda este periódico: "Promoveu ele a abertura de uma subscrição entre os Penacovenses para a construção do Mirante que projectara. Foi o principal subscritor e ofereceu ainda a planta para a construção que foi elaborada a seu pedido pelo notável arquitecto Nicola Bigaglia."
Mais tarde, em 1916 veio do Luso a Penacova acompanhado do engº Vasconcelos Correia, então director da Sociedade de Propaganda de Portugal. Esta visita estará relacionada com o facto de, algum tempo depois, vir a Penacova o grande arquitecto Raul Lino escolher o local para a construção da Pergola "que a expensas daquela benemérita sociedade foi construída no largo Alberto Leitão e inaugurada em 1918."
Sobre a influência de Emídio da Silva, recorda o Notícias de Penacova, no Governo Provisório (1910), sendo Brito Camacho Ministro das Obras Públicas, foi dotada com verba de 3 000 escudos a estrada de Penacova para Corta Montes. "Sempre a instâncias de Emídio da Silva esta obra foi sendo dotada e quando se deu o golpe de 1926 faltavam apenas construir cerca de dois quilómetros. A parte do concelho da Mealhada já estava construída a instâncias de Emídio Navarro." A título de curiosidade acrescente-se que a Câmara Municipal "em testemunho do reconhecimento resolveu colocar na sala nobre dos Paços do Concelho os retratos daqueles dois beneméritos" - Emídio da Silva e Emídio Navarro.