Em 1882, Camilo Castelo Branco respondeu ao clima de celebração do centenário da morte do Marquês de Pombal com um ensaio biográfico que mostrou o homem cruel por trás do estadista visionário. Em https://www.e-cultura.pt/artigo/29671 podemos ler, igualmente, que esta obra de Camilo “mostra o lado negro de Sebastião José de Carvalho e Melo”. Na página 63 e seguintes, Camilo aborda o Caso do Morgadio de Carvalho.
Transcrevemos, em grafia actualizada:
“Este homem quando encontrava o administrador dum vínculo a estorvar-lhe a usurpação, matava-o juridicamente.
Na casa de Ataídes estava o morgadio de Carvalho. Sebastião José, o descendente do padre Sebastião da Mata-Escura (2), dizia descender do instituidor D. Bartolomeu Domingues, e nessa qualidade impôs que o senado de Coimbra o encabeçasse no morgadio vago por morte do conde de Atouguia, justiçado em 13 de Janeiro de 1759.
E depois como viram na carta requisitória para a prisão de José Policarpo, dizia-se pomposamente - Senhor donatário de Carvalho.
Na História de D. José I, diz o Snr. Soriano que ignorava se se dava a existência de vínculo na casa de Atouguia. Com toda a certeza existia.
Em 28 de Novembro de 1689 passou o senado de Coimbra carta de nomeação do conde de Atouguia, D. Jerónimo de Ataide, para administrador do morgado e albergaria da Vila de Carvalho, cuja administração vagara pelo falecimento de seu pai D. Luís d'Ataíde. A carta é passada por Gonçalo Morais da Serra, escrivão e juiz e vereadores a quem a nomeação pertencia pela instituição do vínculo. (Veja Índice cronológico dos pergaminhos e forais existentes no Arquivo Municipal de Coimbra, pag. 72 e 73).
Já o pai do conde de Oeiras quisera espoliar deste morgadio de Carvalho os Ataídes como ao senhor da Teixeira do morgadio de Montalvão.(3)
O conde de Atouguia padeceu a morte afrontosa que sabem no dia 13 de Janeiro, e a 19 de Fevereiro Sebastião José de Carvalho - já ministro quando o conde de Atouguia foi nomeado administrador do vinculo em 1756 - era chamado à posse do vínculo do conde garrotado trinta e seis dias antes.
Encabeçado no morgadio, para que depois nunca mais saísse de sua casa, esbulhou o senado do direito que lhe assistia de o nomear, conforme a disposição do instituidor.
A carta régia de 9 de Janeiro de 1770 diz ... «para que, regular e perpetuamente, na forma da lei do reino, continue nos descendentes legítimos do dito conde de Oeiras em cuja linha presentemente está, etc.».
A abjecta adulação, se não foi imposta violência do senado de Coimbra, foi assim galardoada pelo sucessor do conde d'Atouguia.
Em Março de 1759 ordenou ele que picassem as armas dos Ataídes e esculpissem as suas nos padrões do morgadio.
Este vínculo rendia aos senhores de Atouguia 590 mil reis, muito pouco em relação ao que podia render, se o morgado obrigasse os foreiros; mas o conde de Oeiras para ordenhar a vaca até ela dar o sangue, obteve em 1767 um alvará que lhe concedia a faculdade de nomear um ministro de letras por ele pago para juiz privativo da cobrança dos foros e rações do morgado de Carvalho, que os rendeiros lhe devessem na forma do foral e antigo costume.
Imaginem quanto este amigo do povo faria render o vinculo!
E o mais é que o conde de Oeiras gozava-se do morgadio do senhor da Teixeira e ria-se das certidões dos linhagistas. O marquês do Montebelo induzia Sebastião José de Carvalho a que se fizesse genealogista; e ele, contando o caso ao beneditino de S. José Queiroz, sua criatura e depois sua vítima, dizia que respondera ao marquês: «Não, senhor, porque ficarei pior que alfaiate ou pedreiro; porque a estes homens se dá crédito em juízo quando são chamados para louvados, e das certidões de genealogias nenhum caso fazem os ministros."
Queria dizer que os desembargadores riam das certidões genealógicas e sentenciavam a favor dos poderosos que as apresentavam. Cínico e impudentissimo biltre!
in Camilo Castelo Branco, Perfil do Marquês de Pombal. 3.ª edição. Companhia Portuguesa Editora, Lda. Porto, 1932. Página 33 e seguintes.
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(1) Resultado da pesquisa Google /Modo IA em 19/07/2026, 18h55
(2) Sebastião da Mata-Escura foi um clérigo (arcediago) português, amplamente citado em biografias históricas e sátiras da época como um dos antepassados remotos (quinto avô) de Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal. A figura de Sebastião da Mata-Escura ganhou notoriedade histórica devido aos ataques satíricos feitos pela alta nobreza portuguesa, que tentava desqualificar as origens familiares do poderoso ministro do rei D. José I. Segundo relatos biográficos analisados por historiadores e biógrafos (como Camilo Castelo Branco e Mário Domingues), Sebastião da Mata-Escura envolveu-se com Marta Fernandes, descrita como uma mulher negra e possivelmente escrava. Os opositores políticos e os afetados pelas reformas do Marquês de Pombal utilizavam esta ascendência africana distante e o nascimento ilegítimo na linhagem para o ridicularizar e rotular como "mestiço". Apesar do coro de críticas que visavam amesquinhar o ministro, os registos visuais e retratos oficiais do Marquês de Pombal (como o célebre quadro de Louis-Michel van Loo) mostram-no com traços e fenótipo tipicamente euro-caucasianos. A Sátira Popular. Após a queda e morte do estadista, circulavam em Lisboa versos satíricos populares que faziam alusão direta a este antepassado para atacar o legado pombalino:
"Torna, torna marquês à Mata Escura / Solar do quinto avô, o arcediago, / Que da mãe Marta, por seu negro afago / Em preto fez cair tua ventura..."
Embora parte da historiografia contemporânea aponte para a falta de provas documentais irrefutáveis sobre a veracidade desta linhagem exata, a menção a Sebastião da Mata-Escura permaneceu como um marco da violenta disputa de classes e propaganda racial que dividiu a corte portuguesa no século XVIII. In pesquisa Google /Modo IA em 19/07/2026, 19h03
(3) O Morgadio de Montalvão foi um importante vínculo senhorial e propriedade cuja disputa envolveu a poderosa família do Marquês de Pombal no século XVIII. O Morgadio e a sua respetiva Quinta despertaram forte cobiça. O avô do Marquês de Pombal tentou apropriar-se dele sem sucesso, mas a disputa foi renovada pelo próprio Sebastião José de Carvalho e Melo antes de 1750. Devido a um processo judicial de defesa da posse do morgadio, o advogado e conselheiro da Casa da Suplicação Gonçalo Cristóvão e o seu advogado Francisco Xavier Teixeira de Mendonça foram perseguidos. Este último foi preso e degredado para Angola em 1756 por oposição ao futuro Marquês. Após a execução do Conde de Atouguia em 1759 (no âmbito do Processo dos Távoras) e a posterior consolidação de poder do Marquês de Pombal, o rei D. José acabou por fazer a doação da propriedade aos Condes da Redinha em 1776, mantendo a sua natureza de vínculo. Historicamente, o Morgadio e a Quinta de Montalvão estavam associados à zona de Lisboa (Olivais), existindo registos da sua administração por figuras próximas à corte e da sua exploração agrícola. ibidem





















