04 maio, 2026

Crónicas do Avô Luís (10) - Aprender nos Museus: O Museu Vitorino Nemésio


Penso ser difícil alguém não conhecer Vitorino Nemésio. Açoriano, nascido na Praia da Vitória, Ilha Terceira (poeta, ensaísta, romancista, cronista) académico que deu aulas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Enquanto Escritor, realça-se pela Obra Mau Tempo no Canal, onde retrata o espaço geográfico entre as Ilhas do Pico e do Faial e as suas vicissitudes.

E ligado a Penacova escreveu: Viagens ao Pé da Porta; Retrato do Semeador e partes do Guia de Portugal.

Nasceu em 1901 e faleceu em 1978.

Numa época da sua vida, Vitorino Nemésio apaixonou-se por Penacova, a minha Terra, e adquiriu ali um Moinho, na Portela de Oliveira, moinho esse onde hoje (com adaptações) se situa o Moinho Museu Vitorino Nemésio!

Enquanto proprietário do Moinho, o Intelectual inspirou-se, sendo-lhe atribuída a mensagem de que: “Em Penacova o vento moveu mós e mentes”!

Que moveu as mós, nós sabemos, mas as mentes, naquele tempo, nem mudavam muito, nem pouco: faziam o que lhes ordenavam de Lisboa!

Ao que consta, inspirava-se no recato amplo da paisagem da Portela de Oliveira, para escrever! A Portela de Oliveira (que tem uma fabulosa vista) é um ex-libris local -que começou a ficar bem composto, mas que ainda está por explorar- que tem capacidades enormes para fazer, por exemplo, um Festival anual de referência…

Após a sua morte, muito se deve ao ex-Presidente da Câmara Municipal (O Médico Dr. Leitão Couto) que, como pioneiro na matéria, deu ação à valorização do Património Local (até Nacional) do conjunto dos Moinhos, incluindo os de Penacova -que, para além dos da Portela de Oliveira e de Paradela de Lorvão, tem, ainda, os de Gavinhos e Arroteia e das Serras da Atalhada, Aveleira e Roxo!

Como disse um visitante: “… A zona envolvente é top. Com moinhos recuperados, alguns de alojamento local, percursos pedestres e paisagens espectaculares”. Ou outro: “… dotado de uma vista de 360 graus de tirar o fôlego e de um museu todo ele renovado aos tons do modernismo, torna-se facilmente uma experiência aliciante.”

No seu interior o Museu dá acesso a todas as peças de todos os tipos de Moinhos e das fainas conexas, bem como às suas legendas e explicações de como as peças encaixam na análise histórica da evolução alimentar.

Existe em permanência - no horário normal - um(a) Guia que explica tudo o que é necessário saber.

Os moinhos em geral - e os de Penacova em particular - estão muito ligados “ao ciclo do pão” uma vez que eram as suas pesadas mós que produziam a farinha, esmagando os grãos da aveia, da cevada, do trigo e do milho.

O que, nestes locais de vida pobre, eram fundamentais para matar a fome.

Estive na inauguração deste Moinho/Museu ou Museu/Moinho, como queiramos, no dia 25 de Fevereiro de 2016 - sendo Presidente do Município Humberto Oliveira, que me convidou - tendo aí conhecido o meu Amigo David Almeida, Director do Blogue Penacova OnLine, onde hoje são publicadas as Crónicas do Avô Luís e outros textos que ele ilustra de modo exemplar.

E quero salientar, aqui, que a museologia portuguesa tem uma certa tendência para empolar as situações, incluindo as locais: grandes obras; grandes somas de dinheiros envolvidas; grandes -por vezes insustentáveis- manutenções, nalguns casos, até, sem existência dos respectivos planos, para não se “assustarem” os orçamentos, como me dizem amigos expert’s em museologia, por exemplo referindo os meios promotores das acessibilidades que, se bem repararmos, se encontram cheios de ferrugens, ou inoperacionais, quando existem.

Daí salientar a simplicidade culta deste Museu icónico, que se “encaixa” em absoluto com o nosso passado, não tão distante assim.

Por isso Vos peço:

- levem as Crianças a este Museu Vitorino Nemésio. Visitem uma das Terras mais belas de Portugal: Penacova. Se não optarem por tomar a refeição num dos Restaurantes locais - o que recomendaria - levem um lanche e passem por cá um dia, uma manhã ou uma tarde feliz!

A Portela de Oliveira está inserida no espaço técnico/tático da Batalha do Bussaco, aquando das 3as Invasões Francesas (Ou Guerra Peninsular).

O que me leva a deambular, poetando, se me permitem:


A PORTELA


É de “Oliveira” por algum motivo

Fica na Beira, num lugar cativo

De beleza natural e sem igual…


Tem Moinhos (muitos)

Velas a rodar

Mós a circular


E tem um Museu

Que ensina História

Esquecida no Tempo


Num local de paisagem

estonteante

Num cimo de Serra bela

Que faz o Ser pensante


O que terá dito, na pena, a Napoleão

O seu Marechal Massena

Aquando da invasão?


Ter-lhe-à feito parar o coração?


E terá sido essa simples distração

(A olhar pra paisagem ali à mão)

Que pôs os Franceses a andarem

De St António do Cântaro para fora

Serra acima e Serra abaixo

Para, em Guerra, não mais voltarem?


Luís Pais Amante

Casa Azul


03 maio, 2026

Os Reparos de Vasco Vizeu (1946) e o velho Coreto do Terreiro


REPAROS *

"Sobre o nosso Largo do Terreiro, de que falei no meu último «rabisco», muito há ali a fazer para que tudo fique nos seus lugares arrumadinho com aspecto de quem sabe ter a sua casa em ordem, aprazível, atraente, pois que além de ser a entrada principal da nossa linda vila, é, como já se disse, a nossa sala de visitas, o nosso salão de festas, o nosso jardim de verão e inverno, o ponto obrigatório de reunião; é ali que estão as nossas Câmaras (velha e nova), todas as repartições públicas, o correio, algum comércio, pensões e o único café que possuímos e que por sinal melhorou ultimamente bastante com a transformação que sofreu, ficando comum bom aspecto moderno, mais amplo, asseado e que, para compensação do seu arrendatário, tem tido farta concorrência não só dos nossos hóspedes aristas como pelos naturais; e ainda bem, porque assim, e a seu tempo, pode melhorar muito mais, como sei ser essa a boa intenção do seu explorador.

Existe no referido Terreiro o coreto da nossa música, a colectividade mais velha da nossa terra e que só pela sua velhice ela nos impõe um certo respeito e gratidão mas também porque hoje faz parte da benemérita associação dos Bombeiros Voluntários Penacovenses, colectividade de que muito podem esperar, se todos nós olharmos para ela com amor e carinho que bem merece. 

Pois esse coreto, apesar de não ser obra de arte, e de, valha a verdade, estar em regular estado de conservação, e de ser absolutamente preciso, 𝖉𝖊𝖛𝖊 𝖉𝖊𝖘𝖆𝖕𝖆𝖗𝖊𝖈𝖊𝖗 𝖉𝖊 𝖔𝖓𝖉𝖊 𝖊𝖘𝖙á. Se alguma vez ali ficou bem, hoje, de forma alguma o está, porque além de afogar a bifurcação do Largo com o ramal que vai para Santo António, corta a meio aquele bocadinho de Avenida que, da nova Câmara, segue para cima. No entanto, antes ali que em parte nenhuma.

Mas onde ficaria bem o coreto? Na verdade é um assunto para pensar maduramente. Eu, sem que ninguém me encomendasse o sermão, mas sim pelo amor à nossa terra, já o visionei em diversos lugares e confesso que só num me parece ficar bem. E por coincidência há até uma árvore (um acer) que ali, um pouco abaixo do meio da Pérgola, está a morrer como a querer dar lugar ao coreto, sem que seja preciso estragar absolutamente nada do que lá existe. Ficaria ali bem e até resguardado dos ventos de Entre Penedos, sempre os mais desagradáveis, e até com a vantagem de se poder dar ali uns festivais com entradas pagas, para fins de Beneficência ou melhoramentos da terra, vedando o jardim da Pérgola.

Também se poderia transformar o seu aspecto, aproveitando as colunas e grades e substituindo o telhado por uma forma de caramanchão moderno e no sentido da ramada da Pérgola, que, com trepadeiras, roseiras e outras plantas próprias para cobertura, formaria como que um lindo bouquet de flores. E não julguem que isto ficaria muito dispendioso, porque aproveitando todos os materiais do coreto, o dispêndio é relativo, compensando bem o benefício que fazia ao nosso Largo do Terreiro.

VASCO VIZEU 

Notícias de Penacova, 1946

_______________________

* Escrevia o Notícias de Penacova em 1946: "Reparos" - Costumam ser lidos com bastante interesse e atenção os artigos publicados neste semanário, sob a designação genérica «Reparos», da autoria do sr. Vasco Vizeu, a quem, por isso, enviamos os nossos cumprimentos.

* sugerimos, igualmente, a leitura deste "post" sobre o Terreiro.


29 abril, 2026

Notas para a história do Memorial aos Soldados Mortos na 1ª Grande Guerra


MEMORIAL INAUGURADO EM 29 DE JULHO DE 1934

Sempre terá chamado a atenção dos penacovenses e daqueles que nos visitam o Memorial que se encontra ao fundo da Pérgola Raúl Lino. Pintada recentemente  a parede ao redor, em tonalidade ocre,  o bloco  que serve de suporte à inscrição, continua, no entanto, a reclamar algum restauro, problema para o qual já em 1999 Martins da Costa alertou, numa das suas crónicas no Jornal de Penacova. Para este pintor, esta é, aliás "uma das peças artísticas mais bonitas que a vila possui".  E acrescentava o Mestre: "Ao chamarmos a atenção dos penacovenses, que superintendem na autarquia, para este monumento, queremos fazer aqui uma chamada de atenção para e seu estado, actual e futuro, de conservação. É que o monumento foi construído em pedra que, pelo seu grau de fragilidade, pode de um momento para o outro sofrer ruína irreparável (o que em parte já está a acontecer)." 

Este memorial padece de um lapso que nunca foi corrigido: Manuel Alves, soldado que serviu em França, não tombou, felizmente, em combate, ao contrário do que se possa pensar, ao ver ali o seu nome. Quem de facto morreu, quando prestava serviço militar na mesma época, em Moçambique, foi o seu irmão António Alves, cujo nome não figura na lista de combatentes gravada na pedra. Sobre este equívoco, Óscar Trindade, neto de um dos visados, publicou há dias na sua página do Facebook uma interessante poesia. (1)

Mas passemos ao relato da inauguração do memorial. Não estando datado, muito poucas pessoas saberão que foi descerrado no dia 29 de Julho de 1934, no mesmo dia da inauguração do Preventório e do Hospital da Misericórdia.

A imprensa local e regional registou aquele dia memorável. O Notícias de Penacova  anunciou o evento ,alguns dias antes, nos seguintes termos:

"No dia 29 do corrente, nesta vila de Penacova - poiso de êxtase e paragem de sonho, altar de maravilhas que nos descobre uma das mais surpreendentes belezas da terra portuguesa terá lugar a inauguração oficial:

Da lápide que contém os nomes gloriosos dos MORTOS da Grande Guerra, naturais do concelho, o nome saudosíssimo e por toda a vida imensamente querido, de aquele que foi dos maiores e melhores amigos da sua terra, militar valente - o grande aviador SANTOS LEITE;

Do Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Penacova;

Do abastecimento de água a esta vila e do fornecimento de energia eléctrica para iluminação pública e particular.

Nos Paços do Concelho, na sala do Julgado Municipal, haverá sessão solene, de boas-vindas às entidades oficiais que se dignarem visitar-nos, e será conferida posse á Comissão Política da UNIÃO NACIONAL, ultimamente proposta e nomeada.

A recepção terá lugar no largo Dr. Alberto Leitão, pelas 15 horas, seguindo-se imediatamente a sessão solene a que se faz referência; depois a inauguração da lápide na presença de um representante da heroica plêiade dos Combatentes, e finda esta, nas salas do Casino de Penacova, será servido aos nossos ilustres hóspedes um «Porto de honra».

Seguir-se-á a inauguração do Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Penacova.

Para todos estes actos está assegurado o valioso concurso da «Filarmónica Fraternidade Poiarense», que gentilmente se ofereceu à sua congênere de esta vila para, em conjunto, executarem os trechos que estabeleceram e firmaram a sua união e afecto indestrutíveis".

Por sua vez,  A Comarca de Arganil, do dia 31 de Julho, publicou notícia desenvolvida sobre todos aqueles actos solenes, destacando, igualmente,  a "Homenagem aos mortos da Guerra":

"Na frontaria dos Paços do Concelho, realizou-se a seguir - pelas 19 horas - o descerramento da lápida aos mortos da Grande Guerra, cerimonia a que procedeu o sr. Mário Augusto Barbosa dos Santos Leite, aluno do Colégio Militar e filho do saudoso aviador Santos Leite, natural daquele concelho.

Discursou o sr. capitão Cunha Oliveira, presidente da agência da L. C. G. G (Liga dos Combatentes da Grande Guerra ) que produziu algumas palavras de saudade pelos valorosos soldados que tombaram para sempre no campo da honra e do dever, devendo ser recordados como mártires de um ideal de Justiça, no qual, sacrificando-se, evidenciaram as belas virtudes que constituem a alma da Raça. Em palavras bem sentidas, evoca a memória do saudoso e valoroso militar José Barbosa dos Santos Leite, pedindo um minuto de silêncio pela sua alma, o que foi religiosamente respeitado.

O sr. tenente Fernando Oliveira Leite exaltou os sentimentos patrióticos do exército português, frisando que, da hecatombe que tanto mal causou e para que seguiu no cumprimento do dever, nem todos os soldados voltaram, prestando assim a sua homenagem aos que tombaram no campo da batalha.

Digna é de aplauso - diz a câmara daquele concelho, por ter prestado tão justa homenagem, e termina por se referir também à memória do major Santos Leite, espirito arrojado e amigo do seu amigo, que andou na guerra e onde saiu ferido, vindo a encontrar a morte num estúpido desastre.

Como representantes da agência, em Coimbra, da Liga dos Combatentes da Grande Guerra, compareceram os oradores antecedentes e ainda os srs. Alferes Antônio Leitão e sargento António Bravo, chefe da secretaria daquela corporação, fazendo-se acompanhar do respectivo estandarte.

A lápide tem inscritos os seguintes nomes de soldados mortos na guerra:

Eduardo Pereira Vizeu, de Penacova; João dos Santos, da Carvoeira; António Couceiro, da Ronqueira; Alípio da Cruz, de Riba de Baixo; Domingos Serafim Henriques, de Carregal; António Carvalho, da Rebordosa; Daniel Alves, da Aveleira; Artur Branco e Manuel da Costa, de Cácemes, e Manuel Alves, de Palheiros.

E, destacada, a seguinte inscrição:

Azas gloriosas de Portugal, que tombaram para sempre numa hora fatal do dia 30-11-28 - Major Santos Leite, militar valoroso, penacovense ilustre, amigo dos maiores da sua terra.

_____

(1) 

Elegia aos Dois Irmãos

Ó pedra antiga, fiel guardiã,
dos nomes que o tempo quis lembrar,
por que trocaste, em frio engano,
quem partiu de quem soube voltar?

 

Não foi Manuel Alves, soldado valente,

nas terras de França a combater,

que a morte levou na Grande Guerra —

esse voltou para viver.

 

Também António vestiu a farda,

também à Pátria soube servir;

mas foi nas águas de Moçambique,

na praia da Beira, que o viste partir.

 

Ali, sem glória de campo de batalha,

sem clarim nem voz a anunciar,

foi o mar quem selou o destino

do soldado que não pôde regressar.

 

E contudo, aqui jaz gravado

o nome do que à terra voltou,

enquanto o outro, digno e ausente,

no esquecimento se perdeu.

 

Ó memória, levanta-te firme,

corrige a pedra, desfaz o engano:

dá ao vivo o lugar dos vivos,

e ao morto, enfim, repouso humano.

 

Que a verdade floresça no tempo,

como flor que insiste em nascer —

pois só na justiça do nome

a honra dos dois pode viver. 

 

Óscar Trindade

EM MEMÓRIA DO MEU AVÔ E TIO AVÔ - Soldados na Grande Guerra



26 abril, 2026

Opinião: Serviço Nacional de Saúde é humildade e dedicação




Estive na inauguração das actuações de requalificação levadas a efeito no Centro de Saúde de Penacova.

Esteve presente a Senhora Ministra da Saúde, Ana Paula Martins.

Como as pessoas se recordarão, eu fui muito, muito crítico das intervenções em saúde que os Governos anteriores levaram a efeito, muito especificamente sobre aquelas catadupas de alterações estruturais que, efectivamente, o que pretenderam foi retirar responsabilidades aos Ministros…

E, igualmente, fui muito crítico relativamente a uma ministra em particular, Marta Temido.

Cujo impacto das ineficiências arrogantes estão em apreciação, na sede própria, nomeadamente sobre a questão das vacinas e dos tempos da pandemia.

Penso conhecer relativamente bem a problemática da saúde em Portugal: com um aumento significativo da esperança de vida (que já analisei aqui); com a modificação objectiva (e bem) dos anseios de uma vida diferente, por parte dos novos Profissionais de Saúde e com a pressão significativa do sector privado da saúde, que se enquadra na legitimidade da estrutura concorrencial do nosso Estado de Direito e que tem adesão de mais de 4.000.000 de portugueses beneficiários de seguros de saúde.

Governos que tiveram condições para tratar bem o SNS, os Utentes, as Intalações e os Profissionais, preferiram não o fazer, por estratégia política -e pessoal dos Responsáveis- que agora se encontram “no bem bom dos cargos europeus de conforto”!

Convenceram-se que o Povo ia suportar o que queriam fazer, só por se arrogarem “donos do SNS”…

Mas enganaram-se!

O Povo que admitiam ter cativo percebeu que criar estruturas atrás de estruturas -para colocação sucessiva de afilhados- e a não resolução dos pontos de que acima falei, só podia fazer colapsar o SNS, e correu com eles.

Entrou em cena a Senhora Ministra actual (a que esteve em Penacova, hoje), que tem sido muito criticada por aqueles que levaram o SNS ao ponto em que ele está, como reconhecem Políticos com conhecimentos específicos (alguns ex-ministros da mesma cor política).

As apreciações dos desempenhos políticos devem ser feitos no “tempo da prestação de contas”.

E, até agora, devagarinho, a Senhora Ministra tem vindo a ultrapassar as situações, surpreendentemente, com uma humildade extremamente “fora da caixa ministeriável!

Claro que o terreno continua minado; claro que lhe têm pregado algumas rasteiras; claro que tem falhado nalgumas estratégias.

Mas importa realçar que a tal postura humilde (até serena) que eu hoje constatei (junta a uma simpatia extraordinária, a um FairPlay não usado nas nossas estruturas de Poder e a uma afabilidade natural) indicia que a Senhora Ministra está bem ciente das obrigações que tem e, sobretudo, ciente de que os Utentes e os Profissionais precisam de Pessoas, mesmo de pessoas humildes…

!… Tudo isto porque lhe é reconhecida competência para o cargo que exerce …!

Ademais, conformou a sua intervenção à do Presidente Álvaro Coimbra que defendeu exemplarmente o nosso Concelho, como poderão verificar se  ouvirem  atentos ambas as intervenções. 

Luís Pais Amante



25 abril, 2026

...e Livres Habitamos a Substância do Tempo...


Esta célebre estrofe  pertence ao poema "25 de Abril" de Sophia de Mello Breyner Andresen, escrito para celebrar a Revolução dos Cravos. O poema descreve a madrugada de 25 de abril de 1974 como "o dia inicial inteiro e limpo", simbolizando a emergência da liberdade e o fim da ditadura. 

Sophia de Mello Breyner Andresen (no livro O Nome das Coisas) evoca o nascimento da democracia, onde a "noite e o silêncio" da censura terminam, permitindo que "livres habitemos a substância do tempo".

Em 2024, a cantora Bárbara Tinoco lançou uma canção com o mesmo título, baseada no poema, em celebração dos 50 anos do 25 de Abril. 

O poema é um ícone da literatura portuguesa de resistência e da liberdade conquistada na Revolução.

“Esta é a madrugada que eu esperava /O dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo” Fonte: pesquisa em "Modo IA"

E também um poema de Luís Pais Amante:



24 abril, 2026

Recorte de jornal: Tragédia na Barragem da Aguieira



A Barragem da Aguieira e todo o conjunto de obras complementares (barragens, rodovias, pontes) alterou a vida das pessoas, principalmente do Alto Concelho de Penacova, mexeu com as relações sociais e laborais, gerou expectativas de progresso e de desenvolvimento, deixou memórias, umas felizes, outras muito trágicas. 

Em 1978, quando se construía a Ponte do Chamadouro, morreram 5 trabalhadores. No ano seguinte, 1979, outro trágico acidente ocorreu quando os andaimes de uma das torres (tomadas de água) desabaram provocando a morte de mais 4 operários e ferimentos, alguns graves, em outros doze. Faleceram Manuel Esteves Gouveia, de Lisboa, António Costa Pereira, de Travanca do Mondego, e Manuel Rodrigues e Joaquim Novo, de S. Pedro de Alva. Foi em Março de 1978, mais precisamente no dia 6, à tarde.  A história da construção da barragem da Aguieira fica marcada por outras mortes, como a de 1 jovem da Rebordosa. 

Guardamos ainda o “Diário de Coimbra” de 7 de Março de 1979, que noticia o trágico acidente: 

“Quatro mortos e doze feridos - alguns deles com gravidade, mas já livres de perigo - é o balanço de novo desastre ocorrido ontem à tarde nas obras da Barragem da Aguieira. O desprendimento de um andaime colocado a cerca de noventa (90) metros de altura arrastou atrás de si os dezasseis operários que ali trabalhavam e se viram de um momento para o outro envolvidos numa queda espectacular, estatelando-se no solo uns em cima dos outros à mistura com ferros retorcidos e outro material do andaime desprendido.

«Não sabemos como aquilo aconteceu» - dizia-nos ontem na sala de Raios X dos Hospitais da Universidade um dos acidentados, António Jorge Baltasar - que muito a custo nos deu uma ligeira explicação do acidente. «Estávamos a passar material para baixo e de repente aquilo começou a desandar. Não sei mais nada».

O acidente ocorreu por volta das 16 horas e em Coimbra e na região logo se soube que algures ocorrera grave acidente, já que o alarme das várias ambulâncias perspectivava algo de anormal que fazia interrogar quem o ouvia. Dado o modo como ocorreu, logo se pensou tratar-se de um desastre de gravíssimas consequências, pelo que rapidamente foram accionados todos os meios de socorro disponíveis: nada menos que onze corporações de bombeiros, num total superior a vinte viaturas, incluindo algumas particulares. 

Enquanto umas ambulâncias procediam ao transporte dos feridos para os hospitais mais próximos - Coimbra, Penacova, Santa Comba Dão e Viseu - outros bombeiros empenharam-se no retirar dos feridos envolvidos nos materiais do andaime, para o que foi necessário recorrer à utilização de vários maçaricos. Esta tarefa de socorro foi extremamente dificultada pela natureza do local onde os infelizes operários caíram, pelo que só cerca de uma hora depois do acidente era retirado o último ferido, conduzido a toda a velocidade para o hospital mais próximo. Dos dezasseis sinistrados, três chegaram já mortos ao hospital de Penacova, enquanto que um quarto, conduzido para Coimbra, não viria também a resistir aos ferimentos, sucumbindo pelo caminho."



___________________

SABER + SOBRE A BARRAGEM DA AGUIEIRA


A Barragem da Aguieira foi construída nos anos de 1973 a 1981, tendo como principais objectivos a produção e fornecimento de energia hidroeléctrica, a irrigação agrícola e o controlo de cheias, sobretudo na região do Baixo Mondego. 

E uma barragem do tipo “abobadas múltiplas”, em betão. Possui 3 abóbadas de dupla curvatura e 2 contrafortes centrais que constituem, simultaneamente, dois descarregadores de cheia.  Alem destes descarregadores principais de superfície, apresenta ainda uma descarga de fundo. Entre os dois contrafortes encontra-se a central eléctrica.

Imagens da fase de construção da barragem da Aguieira (Fonte: RTP)

_______

Veja também AQUI, o Penacova Online de 2008


22 abril, 2026

Lugares, monumentos e sítios de Penacova (13): mais elementos sobre a Quinta da Ribeira

Em Dezembro de 2022 falámos aqui desta Quinta do século XVIII (ou XVII, na opinião de antigos donos). De acordo com pesquisas que efectuámos, a casa pertenceu ao casal José Cardoso, nascido em 1718, e Maria Assunção dos Santos, que era natural de Palmazes. Ali nasceu em 1736 José Cardoso dos Santos, que viria a ser  capitão e avô materno de David Ubaldo Leitão.

Em 1952 a Quinta foi comprada pelo Dr. Amílcar Leitão. Na ocasião, o Notícias de Penacova noticiou esse facto, salientando, não tanto a parte residencial, mas em especial o arroteamento da área rústica, o que conferiu ao conjunto da Quinta uma mais-valia para Penacova.

"A velhíssima quinta da ribeira que pertenceu a uma antiga família ilustre, a família Taborda, que como rodar dos anos foi desaparecendo, como todas as coisas, restando só netos e bisnetos, foi ultimamente adquirida pelo Ex. mo Sr. Dr. Amílcar Leitão, filho ilustre desta vila e ainda aparentado da família Taborda.

Anda o seu novo proprietário em completa transformação na parte rústica e grandes melhoramentos na urbana. A parte rústica, os matagais já se vão transformando em terras de cultura. Dá satisfação ver, cá de cima da vila um autêntico formigueiro de umas boas dezenas de homens e mulheres no arroteamento das terras, transformação dos telhados que vão já dando a sua cor avermelhada da telha nova.

A casa de residência que é um regular exemplar de tipo português antigo alpendrado, terraço e pátio não lhe faltando o tradicional arco a dar passagens a outras dependências térreas.

Não o parecendo é um melhoramento para a terra, não só por que vai valorizar grande extensão que estava praticamente inculta, indo assim dar renovos que tão necessários são como por estar a dar o pão a ganhar a muitas famílias. Que o seu novo dono chegue a ver o que deseja é o que lhe desejamos." NP 1952

Pouco depois da publicação, Mário Augusto de Mendonça Taborda, precisamente um dos herdeiros interveniente na venda da Quinta, dirigiu ao director do jornal uma carta onde acrescenta alguns aspectos importantes que nos ajudam a perceber quem foram sendo os donos e mesmo moradores daquela casa, onde se destacam David Ubaldo Leitão, que ali faleceu a 25 de Abril de 1879, e depois  António Manuel Ferreira Taborda Pignatelli, que foi Juíz e Delegado do Procurador Régio, em Penacova,  onde casou com Maria Columbina de Souza Leitão, filha de David Ubaldo. 

Escreve Mário Taborda:

"(...) Como assinante que sou do jornal que V. Ex.ª muito dignamente dirige, acabo de ler no seu último número uma noticia acerca da Quinta da Ribeira, à qual peço licença para fazer umas ligeiras rectificações. 

A família Taborda não foi desaparecendo com o rodar dos anos. Sucedeu-lhe mesmo o contrário, como é normal: Proliferou de mais. E por esse motivo a Quinta foi vendida. Só existem hoje netos e bisnetos, como ontem e como em todos os tempos.

Mas é por meio deles que as famílias se continuam. Os herdeiros da Quinta da Ribeira eram nada menos de onze. A família continua, pois, e é hoje representada pelo membro mais velho do ramo primogénito: este criado de V. Ex.ª. 

A Quinta, cuja casa remonta ao século XVII, foi realmente vendida ao meu parente Dr. Amílcar Leitão. E a sua alienação trouxe-nos, a par do desgosto que ela constituiu, o contentamento de a vermos continuar dentro da família e na posse dum casal que com o seu gosto artístico vai restituir-lhe o antigo esplendor.

Também não pertencia a Quinta aos Tabordas, oriundos da Beira Baixa e onde têm ainda hoje a sua casa tradicional. Era pertença do meu bisavô (e do Dr. Amílcar) o Morgado David Ubaldo da Silva Leitão Cardoso e Oliveira, de Paredes, onde ainda hoje existe o seu solar na posse de estranhos. Foi por este senhor deixada a seu filho o Dr. Alberto de Sousa que a trocou com sua irmã e minha avó D. Maria Colombina de Sousa Leitão, pela Quinta de Belide que lhe tinha cabido por morte de seu pai. Veio a Quinta à posse dos Tabordas pelo casamento desta senhora, falecida em 1941 com 104 anos, com meu avô Dr. António Manuel Ferreira Taborda Pignatelli.

Ali estivemos quase todos os herdeiros nos últimos dias de Setembro a fazer a entrega da casa e Quinta ao seu novo proprietário. E fidalgamente hospedados tanto eu como minha mulher e filhos pelo Dr. Amílcar e sua Ex.ma Esposa, muito me apraz tributar-lhe aqui o testemunho do nosso reconhecimento. Se V. Ex.ª entender por bem publicar estas ligeiras rectificações e o meu agradecimento aos novos proprietários da Quinta, muito grato lhe fica quem se confessa com a maior consideração e respeito.

Algés, 3-11-952 | Mário Augusto de Mendonça Taborda"


20 abril, 2026

Autores penacovenses contemporâneos | Ficção e Poesia (10): Luís Pais Amante




Sob a rubrica “Autores penacovenses contemporâneos | Poesia e Ficção” publicámos, desde Novembro de 2025, um conjunto de notas breves sobre a vida e a obra de diversas pessoas que ao longo dos últimos anos publicaram em livro os seus romances, contos, crónicas e poesias.  Considerámos nesta rubrica as obras que apresentam  um carácter mais literário, no seu sentido estrito, deixando para outros contextos os trabalhos igualmente editados, versando história local ou memórias pessoais e colectivas. 

Referimos, ao longo destes meses, se bem se recordam os leitores: António M.T. Catela, António Luís, Jorge Figueiredo, Mariana Assunção, Paulo Cunha Dinis, Pedro Leitão Couto, Ricardo Santos, Sónia Marques Carvão e Ulisses Baptista. 

A terminar, falamos hoje de Luís Pais Amante, bem conhecido dos penacovenses, seja pelos seus artigos de opinião, seja pelos inúmeros poemas sobre as mais diversas temáticas.  Trabalhos compilados em livro, versando temas da actualidade nacional e internacional e, de um modo especial e em formato poético, tratando temáticas relacionadas com a sua terra natal.

Luís Manuel Pais Amante

Nasceu na Vila de Penacova - onde é conhecido como "O Poeta da Casa Azul" - a 15 de Janeiro de 1954. É advogado (licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa) e Gestor (com trabalho de relevo na área da consultoria nacional e internacional e da gestão). É, igualmente, diplomado pelo MCE (Management Center Europe) Bruges-Bélgica e especializado em Técnicas de Negociação pela Universidade Complutense de Madrid e, também na área da Gestão Empresarial Estratégica.

O seu primeiro trabalho literário, Poemas a Recordar, foi publicado, em edição de autor, no ano de 2012. Posteriormente, deu à estampa os seguintes livros: 

Conexões (2016); Reflexos (2017); Poesia [das Circunstâncias] do Tempo (2018); Poesia e Pensamento em Tempo de Inquietude (2021); Penacova (In)temporal (2021); A Liberdade Actual - em poesia e opiniões (2023). Em 2024  (em co-autoria com Ana Lito e ilustrado por Mara Silva),  publicou o livro infantil O Clube da Netaria, integrado n'Os Contos da Casa Azul. Muito em breve, na Feira do Livro de Lisboa, será lançado  Da minha janela ...Acontece (poesia e pensamento).

Em 2019 participou na Colectânea de Poesia "Conversos". Tem participado em actividades ligadas à escrita, trabalhando com a Calçada das Letras. Também tem participado em Actividades e Tertúlias de Poesia:  "Pérgola Raúl Lino", em Penacova,  Encontro de Autores Regionais "Vale a Pena", em Tarouca,  "Sainhas em Poesa", em Vagos, e recentemente, na Tertúlia de Poesia subordinada ao tema "Alma de Penacova". 

Obra Literária: opiniões e testemunhos 

Recolhemos algumas opiniões / testemunhos de leitores e de divulgadores, a maioria deles, registados nas capas / badanas dos diversos livros publicados: 

"Estes poemas (...) representam a alma de quem sabe amar e esperar, que protege e que cuida com paixão." - Ana Marques Lito in Poemas a Recordar

"O selo da responsabilidade social parece tê-lo cunhado desde sempre nas paisagens do Mondego que quer preservar (...). Adivinham-se nestes poemas as paisagens, os aromas, as tradições e as épocas de um Portugal interior (...)  Refiro-me a Penacova, terra onde nasceu.  É preciso conhecê-la e respirá-la através da mão do poeta." - Maria José Vera, in prefácio do livro Conexões.

"Palavra a palavra, em comunicação secreta, escreveu um amante o que lhe ia na alma: não há cultura sem afectos." - Joana Bonifácio, in blogue  O estranho mundo dos livros.

"Impossível de escrever aqui fielmente a revelação efectuada sobre todas as qualidades e virtudes (...) designadamente como excelente pessoa, experimentado e ilustre profissional, poeta talentoso." - Leonor, in blogue Tudo e mais alguma coisa.

"É devido a este magnetismo natural, a esta incondicional paixão, que o autor deste livro (re)ergueu a sua casa (...)  aquela que possui uma, não menos nostálgica, gárgula de feição medieval, virada para a Rua da Costa do Sol, lugar onde brincou, namorou e dançou no fecundo período da sua adolescência. Luís Pais Amante é o poeta da Casa Azul" - José Fernando Tavares, in prefácio de Penacova Intemporal.

"Foi nesse "Reino Maravilhoso" que germinou a ideia de publicar um livro de feição infantil, dedicado aos netos dos autores e a todos os meninos do "Fundo da vila"." - David Almeida, in blogue  Penacova Online. 

As “tonalidades e formas caleidoscópicas da sua escrita transformam-se em poesia, opinião e prosa, que espelham o seu ser intuitivo, buscando-se noutros horizontes (...)  e até na transcendência. (...).  A partir dos títulos dos livros já publicados apreende-se o lugar de observador / testemunha e protagonista da co-construção de realidades alternativas do mundo paradoxalmente mais livre, estreito e fechado que nos submete a escravaturas.” - Ana Marques Lito, na apresentação  do livro A Liberdade Actual. 

17 abril, 2026

Autores penacovenses contemporâneos | Ficção e Poesia (9): Jorge Figueiredo

Jorge Figueiredo é natural do Caneiro, onde vive. Publicou “Poesia à Beira do Mondego” em 2010 e “Brumas do Mondego” em 2011, edições de autor, com o apoio de instituições locais.

Tal como se refere na contracapa de um dos seus livros, as paisagens e a beleza que Penacova e o Rio Mondego oferecem, foram os motivos de inspiração” que o levaram a escrever "Brumas do Mondego".

No livro de 2010 coexistem, além da temática da Natureza, temas relacionados com as relações entre as pessoas, os afectos e questões existenciais.

Deixamos aos leitores alguns dos seus poemas:

Moinho de Vento

Moinho de vento
Perdido no tempo
No cimo da serra!
À chuva e ao sol,
Contada num rol
Quanta história encerra?

Velas do moinho
De pano branquinho
Rodando com graça!
E as mós moendo!
E as velas gemendo
Ao vento que passa!

E o burro do moleiro
Subindo o carreiro
Que graça que tinha!
Levando consigo,
O milho e o trigo
Para fazer farinha!

E neste quadro,
Pelo pintor pintado
Com tanto amor!
Do pó da farinha,
Eis a moleirinha,
Branca rosa em flor!

2011-03-15



Barca do Mondego 
(Barca Serrana)


Oh da roda!
Oh da barca!

De Penacova desce a barca o Mondego,
Saudando cada um de seu recanto!
Vai deixando para trás paz e sossego,
E leva para Coimbra ainda mais encanto!

Mondego!

Quanto sal do suor dos teus barqueiros,
Levaram as tuas águas para o mar?
Homens rudes, mas valentes timoneiros,
Rio abaixo e rio acima a navegar!

Barca do Mondego! (Barca Serrana)

Recordação que guardamos na memória,
Desta Barca tão altiva e imponente!
Dela, só ficou o retrato para a história,
E um passado que ficará sempre presente!

2011-01-20


Brumas do Mondego 

Mondego! Tuas brumas teimam em esconder
Tudo aquilo que de bonito ainda tens!

Mas jamais algum de nós se irá esquecer
O que já foste, o que és, e donde vens!

Beijando fráguas, tuas águas vão para o mar
Levam lembranças de Penacova e sua gente!

E em nosso peito vai teimando em ficar,
A saudade, ditando o que a nossa alma sente!

Águas tristes vão correndo melancólicas
Neste rio de silêncio e de sossego!

E estes recantos e paisagens tão bucólicas,
Estão envoltas nestas Brumas do Mondego!

2011-05-27


15 abril, 2026

Histórias de Penacova (2): quando os príncipes para visitar Lorvão foram de Penacova a pé e regressaram de burro

[Fotomontagem: Luís Filipe e Manuel em visita a Lorvão]


Consta que certo dia os filhos do rei D. Carlos,  Luís Filipe (1887-1908) e Manuel (1889-1932), vieram a Lorvão. O automóvel em que viajavam não passou de Penacova, dado que não havia estrada para o vale do Mosteiro. Recorde-se que só em 1911, depois de aberta a estrada via Sernelha, é que aquela terra viu chegar ali o primeiro automóvel, pertença de Evaristo Lopes Guimarâes. 

Para lá, foram a pé, passando pela Cheira, calcorreando, depois,  rudimentares caminhos. No regresso, valeu-lhes um burro, emprestado por um moleiro lá da terra. 

O relato desta peripécia chegou até nós através de uma das crónicas jornalísticas de "Zé do Mirante", que sabemos tratar-se de José Augusto Ribeiro, um influente penacovense que nos deixou valiosos testemunhos sobre pessoas e factos da Penacova de finais do século XIX.  

Com o título "A caminho de Lorvão" (rubrica "In Illo Tempore"), o texto que a seguir transcrevemos do jornal "Notícias de Penacova" dá-nos uma ideia do grande isolamento destas terras, comparando com outras, que já na época eram servidas por razoáveis vias de comunicação. A Penacova restava-lhe a navegabilidade do Mondego...


𝔸 𝕔𝕒𝕞𝕚𝕟𝕙𝕠 𝕕𝕖 𝕃𝕠𝕣𝕧ã𝕠

"Um dia (não nos recorda o ano) chega a Penacova um automóvel com dois misteriosos passageiros, novatos, imberbes, irrepreensivelmente vestidos e de óculos fumados. Um aparentava ter 12 e outro 15 anos. Naquele tempo um automóvel era um fenómeno em Penacova; de forma que foi logo rodeado por inúmeros curiosos.

Os meninos apearam-se, atiraram um passageiro olhar, que não deixava de ser investigador, pelo Vale do Mondego e pelas cristas do Penedo da Carvorira; respiraram fundo e à farta o ar puríssimo e embalsamado da serra, e dirigiram se ao povoléu embasbacado para lhes indicar o caminho para Lorvão. Os mapas assinalavam o riquíssimo, histórico e fidalgo mosteiro, mas omitiam caminhos acessíveis. Os circunstantes desconfiaram dos fedelhos, talvez fugidos do colégio ..

Um mais diligente prontificou--se a acompanhar os passeantes. Marcharam os três, a pé, atravessando a Cheira, por um tapete de tojos com os cheiros característicos das estrumeiras, e subiram pelo carreirito íngreme e pedregoso do Vale de Bravo.

Aqui escorregava um na fagulha; acolá atropelava outro e num graveto e ... zás, estatelava-se na poeira. Lá iam seguindo, com as mãos enluvadas, a segurar-se aos tojeiros; as fatiotas caiadas de pó e as aristocráticas botas numa lástima, todas esfoladas! Assim palmilharam 7 quilómetros aquelas alminhas.

No trajecto, o cicerone que era o Zé Alberto, muito intrigado queria conversa e procurava manhosamente tirar nabos ... mas os meninos fugiam com a púcara.

Depois de minuciosamente admirarem o convento, o cicerone de Lorvão, um velhote, mas boa pessoa, bateu na luzidia careca e reconheceu que faltava uma coisa a mostrar aos criançolas - o livro dos visitantes.

O cicerone Zé Alberto, que nos 7 quilómetros andados não pôde descobrir a identidade dos companheiros, não só pela linguagem arrevesada que efes usavam e pelas perguntas que lhes fazia, cujas respostas falhavam, viu o momento de descobrir o enigma.

Que iriam eles escrever no livro? Qual não foi o seu espanto ao ver traçar rápido e legível “Luiz Felipe. Manuel, infante!”

Perdeu a cor, cobriu-se lhe a fronte de suores frios e teria caído no chão, se o Príncipe Real o não tivesse amparado. O nosso homem ainda sonhou no desmaio, que era a comunidade toda, do mais fidalgo mosteiro de Portugal, que o rodeava de carinhos, e que a abadessa lhe oferecia um copo de água fresquinha numa linda salva de prata!...Tremia ainda, mas não de maleitas, quando o futuro rei de Portugal (rei de minutos), lhe pedia o favor (!) de lhes ir arranjar

meios de transporte, pois que as forças estavam esgotadas e o que fol o mais pomposo e rico dos mosteiros da península, não dispunha de cómodos - tudo em ruínas!

E lá vai o Zé Alberto à procura... de um avião de transporte, um Cliper, um transatlântico, um Buick, ou mesmo um Ford... e aparece com um burro (autêntico) para os dois filhos de D. Carlos e de D. Amélia, reis de Portugal!

Suas Altezas não deixaram de rir com mais esta aventura. Lá vêm eles, um a pé, calcorreando o agressivo tapete de mato, e o outro mais novito e magrizela escarranchado na albarda roída dos ratos por onde saía palha, tendo por chairel um grosseiro lençol de estopa a cheirar a farinha triga, sem estribos e por rédeas uma nodosa corda!

O burro era dum moleiro, bem tratado, mas o caminho escalavrado de tal forma, que o principezinho vinha com as pernas a badalar, «tóc, tóc, tóc., pela serra acima.

O Zé Alberto, cada vez mais intrigado, não encontrava na sua bagagem linguística termos para conversar com o futuro rei de Portugal; por dentro sentia-se um magnate da corte mas no falar um pigmeu serrano.

Revezam-se na cavalgada incómoda (é o cúmulo do pitoresco Suas Altezas encarrapitadas no lombo de um burro de moleiro) e chegam finalmente ao local onde estacionava o automóvel.

As suas curiosidades satisfeitas e os seus reais ossos desarticulados, encontram nas fofas almofadas do seu luxuoso carro aquilo porque há poucas horas suspiravam: descanso e comodidade.

Abalaram com um adeusinho amigo ao Zé Alberto e deixaram-no envolto em uma grossa coluna de poeira!...

Se não estou em erro, esta aventura já foi resumidamente escrita, mas com o rodar do tempo caiu no esquecimento. Seria interessante qualquer historiador, monárquico ou não, conversar com o Zé Alberto, ainda vivo e são, e em folheto ou em notas íntimas dos infortunados reis, escrever este episódio muito verídico e o oferecesse à Rainha D. Amélia, mãe dos dois mártires da política."

ZÉ DO MIRANTE / 22 de Julho de 1945

in NP 4 AGO 45


12 abril, 2026

Dia Nacional dos Moinhos: uma poesia infantil de Lúcia Namorado


OS MOINHOS


Poisados lá nos píncaros

Dos montes caprichosos,

Que bonitos, e airosos,

Os moinhos! Não são?


Num labutar contínuo,

Com a ajuda do vento,

Só tem um pensamento:

Tornar em pó o grão.


As velas muito pálidas

São as irmãs ligeiras,

Amáveis, prazenteiras,

Que, mal nasce a manhã,


Principiam, simpáticas,

Abraçadas, bailando

Só à roda; e cantando

Numa alegria sã.


Moinhos solitários!

Beijados pela aragem,

Dominando a paisagem

Ficam sempre tão bem!


Olhados à distância,

Ao cair das tardinhas,

Fazem lembrar velhinhas

Dizendo adeus a alguém...


E à luz do luar alvíssimo,

Quietinhos, sossegados,

Lá no alto agachados

E perto dos casais,


Os moinhos poéticos

De vulto airoso e breve,

São pombas cor de neve

Fugidas aos pombais.


Maria Lúcia Vassalo Namorado

in Notícias de Penacova, 30 Jul 1932, Secção Infantil Qui-Quiriqui


NotaNo início dos anos trinta, durante cerca de meia dúzia de anos, Lúcia Namorado viveu em Penacova, dado que o seu marido Joaquim Jerónimo da Silva Rosa, funcionário público, natural de Lorvão onde nasceu em 1900, foi colocado naquela vila. Maria Lúcia Vassalo Namorado era sobrinha de Maria Lamas e foi uma escritora e jornalista de renome. Curiosamente, essa carreira jornalística começou no Notícias de Penacova onde deixou muitos escritos. Refira-se que o marido foi também um dos fundadores deste periódico. Lúcia Namorado criou passado algum tempo e dirigiu durante muitos anos a também afamada revista OS NOSSOS FILHOS, onde apareceram muitas referências a Penacova, inclusivamente fotografias de bebés/crianças da vila.   Existem estudos académicos detalhados sobre Lúcia Namorado e a sua relação com a nossa terra. 






09 abril, 2026

Histórias de Penacova (1): ℙÁ𝕊𝕊𝔸ℝ𝕆𝕊 𝔼𝕊𝕋ℝ𝔸ℕℍ𝕆𝕊 ...

Vem este título a propósito de um recorte do antigo jornal Gazeta de Coimbra. A “notícia” tem um pormenor algo chocante. O texto alude, igualmente, a uma outra história que se terá passado em Penacova, há muitos anos e que, curiosamente, em 2023, abordámos na rubrica “Ecos de Vozes Distantes” do Penacova Actual (cf AQUI)  

O recorte da Gazeta de Coimbra (13 out 1921) com o título “Aves: um belo exemplar” diz o seguinte:

“Foi oferecido a um nosso amigo uma grande ave, cujas asas abertas medem 1,50 m, morta há dias por uma mulher num pequeno pinhal de Gondelim, concelho de Penacova. Ignora-se o nome da ave que deu trabalho bastante a quem a matou à bordoada. As penas são lindíssimas, pesando a carne dessa ave nada menos de 3 kilos. Dizem os que a comeram ser magnífica.

Vem a propósito recordar que em Penacova, no reinado de D. José, uma grande ave desceu junto duma capela que ali existe no cimo dum monte e tomando no bico uma criança de peito que ali estava fugiu com ela, indo deixá-la noutro ponto e junto doutra capela, sem que causasse mal à criança. Na mesma ocasião deram os jornais estrangeiros notícia dum caso idêntico sucedido numa terra de França, com a diferença de que a criança ai nunca mais tornou a aparecer.”

Por sua vez, a outra situação que se verificou no "reinado de D. José” * foi noticiada na Gazeta de Lisboa no dia 3 de Julho de 1749, difundindo-se por todo o país. A veracidade dos acontecimentos não foi questionada, na medida em que o jornal afiançou que tinha sido  “uma pessoa de grande crédito, moradora na mesma vila” que dera a informação.

Escreveu a GL: 

“Junto ao Castelo da vila de Penacova, três léguas distante da cidade de Coimbra, andava no dia 2 de Junho, do presente ano, assoalhando uma pouca de lã, Isabel Francisca, viúva de Manuel de Brito, morador que foi da mesma vila, e tendo pouco distante de si um menino de um mês, que havia parido póstumo, chamado António, saiu das abóbadas de um magnífico templo, que naquele distrito se acha por acabar, destinado para a imagem de Nossa Senhora da Guia, uma ave de rapina de extraordinária grandeza, a que uns dão o nome de bufo, outros de guincho, e se costuma sustentar de gados e aves que apanha; e levando o menino nas garras voou para uma montanha chamada de Penedos, por passar por entre eles o rio Mondego. A lastimada mãe, vendo tão deplorável fatalidade, começou a invocar com ânsia o socorro de Santo António, de quem se venera a Imagem em uma ermida, que fica defronte daquele sítio. Passando a ave pela quinta de Bernardo Cabral de Castelo Branco, mística com a montanha para onde continuava o seu voo, pousou junto a uma fonte, em que está outra imagem do mesmo Santo: e concorrendo a gente, que andava trabalhando naquela fazenda, fugiu, deixando ao pé da mesma imagem o menino, sem mais lesão que umas leves feridas das garras, com que o apertava. Este prodígio, que admiraram muitos circunstantes, fez aumentar em todos a devoção do milagroso Santo Lisbonense; e para consolação dos seus devotos o mandou comunicar ao Reino por meio da Gazeta uma pessoa de grande crédito, moradora na mesma vila.”

Histórias de Penacova...

* Na realidade o reinado de D. José apenas se iniciou no ano seguinte. 

08 abril, 2026

Crónicas do Avô Luís (9): Negligência?



NEGLIGÊNCIA 

Negligência significa a falta de cuidado, atenção, zelo ou aplicação no cumprimento de um dever ou de uma tarefa, resultando em desleixo, omissão ou descuido.

No sentido jurídico, é uma conduta omissiva (não agir quando deveria), que deixa de tomar precauções necessárias para evitar danos, sendo considerada uma forma de “culpa”.

E porquê tratar este tema nesta Rubrica (Crónica)? - perguntarão os Leitores e os Seguidores;

Pelas razões seguintes:

1. Em casa e também nas Escolas, devemos “investir” na criação de mulheres e homens responsáveis, habilitados para dar sequência a uma “Sociedade Sã”;

2. ⁠Devemos concentrar a nossa energia “no fazer passar uma ideia de respeito”;

3. ⁠Na observância de regras que dignifiquem o Ser, independentemente da sua idade;

4. ⁠E devemos levar essa mensagem para o exercício da Liberdade, através do Voto. 

                                   *

O que se está a passar, hoje em dia, é que quem abraça a “causa pública”, por eleição, concurso ou nomeação, na maior parte dos casos, são pessoas mal formadas, que se estão a "marimbar" para os outros.

Pretendem, isso sim, “tratar da vidinha" e o mais depressa possível…

Temos inúmeros exemplos dessas situações, nos cargos públicos normalissimos, nos cargos autárquicos , nos cargos governamentais e, até, nos cargos de exigência elevada, como o são os das Polícias  e das Magistraturas Judiciais.

Ou é o Técnico da Segurança Social que dá informações erradas; ou o da ACT , que “desajuda” o utente; o funcionário municipal que aponta caminhos incorretos (por exemplo nos licenciamentos); os titulares dos cargos electivos que se arrogam donos da verdade e que “empregam” pessoas sem currícula; os Órgãos Policiais que se sucedem nas análises dos caso erroneamente; os Políticos (titulares de cargos públicos) que se sentem “donos da quinta” e fazem muitas asneiras; os Magistrados que erram e erram e erram…

Isto para não falar dos Deputados  (Presidente da AR incluído e do próprio Presidente da República).

!… Eu acho que esta minha sensação é aquela que graça no País Real …!

Eu recebo no meu Escritório Pessoas portadoras de “coisas” de bradar os céus…

Muitas com qualificação de “negligência” pura e dura!

Ora bem,

Falando para a nossa Juventude:

a) assumam que os vossos direitos devem ser todos respeitados a tempo e horas; exijam que o sejam;

b) desconfiem quando vos dizem que não; procurem informações credíveis e rebatam, com argumentos sérios;

c) não votem nos amigos só porque o são; votem nos que dão garantias de serem Pessoas de bem e, preferencialmente, nos que não precisam da política para viver;

d) não alimentem “máquinas” que (nesta ou naquela situação) já falharam;

e) habituem-se a reclamar, por escrito, nos Livros próprios, porque os há para tudo!

O exercício destes conselhos simples, ajudarão, paulatinamente, a mudar a nossa Sociedade.

Como exemplos normalizados de negligência no exercício de cargos públicos, para não complicar, temos os elencados na Lei n. 34/87, de 16 de Julho, do tempo de Mário Soares -vejam bem - com um manancial de alterações feitas no sentido da sua descaracterização, donde destaco os crimes:

- de prevaricação;

- denegação de justiça;

- restrição ou violação ilícita do exercício de direitos, liberdades e garantias;

- recebimento indevido de vantagens;

- corrupção activa e/ou passiva;

- violação de regras urbanísticas e orçamentais;

- e peculato.

Ainda que negligentes, todas estas ações, não deixam de ser crimes.

É preciso é todos (mas todos) estarmos atentos, para construirmos um País diferente, para melhor!

Como as coisas têm vindo a estar, é muito mau, mesmo…

Ou seja,

A Juventude é quem nos pode valer!

Luís Pais Amante

Casa Azul

06 abril, 2026

Segunda-feira da Páscoa de 1932 e a (já) célebre fotografia do Enterro do Bacalhau


Esta fotografia vai sendo conhecida dos penacovenses. Há poucas semanas, graças à IA (Inteligência Artificial) até foi apresentada nas redes sociais com animação, onde parte dos figurantes se moviam. Ora, o Notícias de Penacova noticiou com algum pormenor aquele Cortejo (Enterro do Bacalhau) que se realizou naquela Segunda-feira de Páscoa de 1932, dia 28 de Março. Deixamos aqui a transcrição:

"Alguns rapazes - uns já descriados, outros casados e muitos solteiros, mas todos alegres lembraram-se de levar a efeito uma festa burlesca, comemorativa do fim da quaresma - o enterro do bacalhau.

Para esse fim, foi constituída uma comissão, composta dos srs. Armando Pimentel, Augusto Pimentel, Alípio Pimentel, Heliodoro da Costa, António Luís, Augusto Luís, Alberto da Costa, António Viseu, Américo Leitão, António Alvarinhas, Mário Carvalho, Fernando Alvarinhas, José Alvarinhas, José Alberto Alvarinhas, Jaime Barbosa, Júlio Ferreira da Silva, António da Cruz Assunção, José de Assunção, Eduardo Miguel, José Alves Coimbra, José Augusto Ribeiro, Lusitano Alexandre Ribeiro, José Ferreira da Silva, Jorge da Costa e Álvaro Martins Coimbra, que, depois de aturados mas profícuos trabalhos, conseguiu realizar uma festa engraçada e decente, o que é motivo para os felicitarmos vivamente.

A festa dos rapazes devia ter-se realizado no sábado de aleluia, mas, por motivo independente da sua vontade e que não importa saber, teve de ser adiada para segunda-feira.

Saiu o vistoso e numerosíssimo cortejo de casa do sr. Armando Pimentel, seriam 22 horas, e foi acolhido por francas gargalhadas da multidão que o aguardava na rua e que nele se incorporou.

Em andores bizarramente enfeitados viam-se um enorme bacalhau, uma bacalhoa e uma cavala ... em pano pintado; à frente um grande pendão, ornamentado com bacalhaus, alhos, cebolas, grelos, facas, garfos, etc.; dentro de uma camioneta, os oradores e seus acólitos; dois automóveis e um barco, conduzindo aficcionados; e o todo ladeado e acompanhado por muitos rapazes e raparigas, portadores de lanternas de papel de varias cores, com letreiros apropriados. O efeito era soberbo!

Seguia o cortejo muita gente da vila e dos arredores, rindo abandeiras despregadas das facécias dos oradores, que, em vários pontos do trajecto, fizeram o elogio... fúnebre do bacalhau.

Depois de percorrer as ruas da vila, sempre no meio da maior alegria e em boa ordem, o cortejo regressou ao ponto de partida, onde dispersou.

Seguiu-se um baile em casa do sr. Armando Pimentel, dançando-se animadamente até muito tarde.

A festa foi abrilhantada pelo gaiteiro, que executou valentemente um ruidoso repertório. Os oradores, que conseguiram manter as numerosas pessoas que escutaram, em constante hilaridade, foram os srs. Eduardo Soares, Jorge da Costa, Jacinto Alvarinhas, José de Castro Pita e Mário Carvalho.

Todos os trabalhos de pintura foram executados pelos artistas pintores desta vila srs. Fernando e António Alvarinhas.

Decorreu a festa sem que houvesse a menor nota discordante, o que mostra que os nossos rapazes não são tão maus como por vezes os pintam, e os torna dignos dos nossos louvores. 

Mostraram que sabem divertir-se, sem exageros irritantes de verduras de mocidade. Bem hajam!

Acompanhava o cortejo um grupo de crianças transportando uma coberta onde se recolhia dinheiro, destinado a ser distribuído pelas crianças pobres da vila. Rendeu 25$45, quantia que foi logo entregue a autoridade administrativa. 

Foi realmente pouco, sendo para lamentar que a generosa ideia dos alegres rapazes não fosse melhor compreendida.

Bem o mereciam as horas risonhas que eles a todos proporcionaram. Mas os tempos correm tão bicudos ... Não queremos fechar esta notícia sem mais uma vez louvar os briosos rapazes pela forma ordeira como decorreu toda a sua festa, felicitando ao mesmo tempo a comissão a que acima fizemos referência pela feliz execução que teve a sua iniciativa."          NP 9 Abril 1932

05 abril, 2026

Um recorte poético de 1948: Domingo de Páscoa, por Oliveira Cabral

(Letra de Manuel de Oliveira Cabralcom ilustração do pintor portuense Carlos Carneiro)


Domingo de Páscoa!...

O Sol, neste dia,

que graças semeia!

Domingo de Páscoa!...

Que doce alegria

que vai pela aldeia !


Domingo de Páscoa!...

Os sinos vão rindo

na torre velhinha.

Domingo de Páscoa!...

Que dia tão lindo,

que lindo, ó Mãezinha!


Domingo de Páscoa!...

No adro da igreja

crianças brincando.

Domingo de Páscoa!...

E ao Sol que as bafeja

velhinhas rezando.


Domingo de Páscoa!...

Nas sebes floridas

há frémitos de asas.

Domingo de Páscoa!...

E há flores garridas

em todas as casas !


Domingo de Páscoa!...

Remoça-se o mundo,

rebrilham os céus.

Domingo de Páscoa 

…………………………….

Silêncio profundo ...

Repousam os meus.


Domingo de Páscoa!...

Quem fora rapaz

como era outrora!

Domingo de Páscoa!..

Saudades me traz

e penas agora.


Domingo de Páscoa!...

As almas 'stão cheias

de imensa bondade.

Domingo de Páscoa!...

E há pelas aldeias

AMOR - FELICIDADE


in Notícias de Penacova, 27 de Março de 1948