[Fotomontagem: Luís Filipe e Manuel em visita a Lorvão]
Consta que certo dia os filhos do rei D. Carlos, Luís Filipe (1887-1908) e Manuel (1889-1932), vieram a Lorvão. O automóvel em que viajavam não passou de Penacova, dado que não havia estrada para o vale do Mosteiro. Recorde-se que só em 1911, depois de aberta a estrada via Sernelha, é que aquela terra viu chegar ali o primeiro automóvel, pertença de Evaristo Lopes Guimarâes.
Para lá, foram a pé, passando pela Cheira, calcorreando, depois, rudimentares caminhos. No regresso, valeu-lhes um burro, emprestado por um moleiro lá da terra.
O relato desta peripécia chegou até nós através de uma das crónicas jornalísticas de "Zé do Mirante", que sabemos tratar-se de José Augusto Ribeiro, um influente penacovense que nos deixou valiosos testemunhos sobre pessoas e factos da Penacova de finais do século XIX.
Com o título "A caminho de Lorvão" (rubrica "In Illo Tempore"), o texto que a seguir transcrevemos do jornal "Notícias de Penacova" dá-nos uma ideia do grande isolamento destas terras, comparando com outras, que já na época eram servidas por razoáveis vias de comunicação. A Penacova restava-lhe a navegabilidade do Mondego...
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"Um dia (não nos recorda o ano) chega a Penacova um automóvel com dois misteriosos passageiros, novatos, imberbes, irrepreensivelmente vestidos e de óculos fumados. Um aparentava ter 12 e outro 15 anos. Naquele tempo um automóvel era um fenómeno em Penacova; de forma que foi logo rodeado por inúmeros curiosos.
Os meninos apearam-se, atiraram um passageiro olhar, que não deixava de ser investigador, pelo Vale do Mondego e pelas cristas do Penedo da Carvorira; respiraram fundo e à farta o ar puríssimo e embalsamado da serra, e dirigiram se ao povoléu embasbacado para lhes indicar o caminho para Lorvão. Os mapas assinalavam o riquíssimo, histórico e fidalgo mosteiro, mas omitiam caminhos acessíveis. Os circunstantes desconfiaram dos fedelhos, talvez fugidos do colégio ..
Um mais diligente prontificou--se a acompanhar os passeantes. Marcharam os três, a pé, atravessando a Cheira, por um tapete de tojos com os cheiros característicos das estrumeiras, e subiram pelo carreirito íngreme e pedregoso do Vale de Bravo.
Aqui escorregava um na fagulha; acolá atropelava outro e num graveto e ... zás, estatelava-se na poeira. Lá iam seguindo, com as mãos enluvadas, a segurar-se aos tojeiros; as fatiotas caiadas de pó e as aristocráticas botas numa lástima, todas esfoladas! Assim palmilharam 7 quilómetros aquelas alminhas.
No trajecto, o cicerone que era o Zé Alberto, muito intrigado queria conversa e procurava manhosamente tirar nabos ... mas os meninos fugiam com a púcara.
Depois de minuciosamente admirarem o convento, o cicerone de Lorvão, um velhote, mas boa pessoa, bateu na luzidia careca e reconheceu que faltava uma coisa a mostrar aos criançolas - o livro dos visitantes.
O cicerone Zé Alberto, que nos 7 quilómetros andados não pôde descobrir a identidade dos companheiros, não só pela linguagem arrevesada que efes usavam e pelas perguntas que lhes fazia, cujas respostas falhavam, viu o momento de descobrir o enigma.
Que iriam eles escrever no livro? Qual não foi o seu espanto ao ver traçar rápido e legível “Luiz Felipe. Manuel, infante!”
Perdeu a cor, cobriu-se lhe a fronte de suores frios e teria caído no chão, se o Príncipe Real o não tivesse amparado. O nosso homem ainda sonhou no desmaio, que era a comunidade toda, do mais fidalgo mosteiro de Portugal, que o rodeava de carinhos, e que a abadessa lhe oferecia um copo de água fresquinha numa linda salva de prata!...Tremia ainda, mas não de maleitas, quando o futuro rei de Portugal (rei de minutos), lhe pedia o favor (!) de lhes ir arranjar
meios de transporte, pois que as forças estavam esgotadas e o que fol o mais pomposo e rico dos mosteiros da península, não dispunha de cómodos - tudo em ruínas!
E lá vai o Zé Alberto à procura... de um avião de transporte, um Cliper, um transatlântico, um Buick, ou mesmo um Ford... e aparece com um burro (autêntico) para os dois filhos de D. Carlos e de D. Amélia, reis de Portugal!
Suas Altezas não deixaram de rir com mais esta aventura. Lá vêm eles, um a pé, calcorreando o agressivo tapete de mato, e o outro mais novito e magrizela escarranchado na albarda roída dos ratos por onde saía palha, tendo por chairel um grosseiro lençol de estopa a cheirar a farinha triga, sem estribos e por rédeas uma nodosa corda!
O burro era dum moleiro, bem tratado, mas o caminho escalavrado de tal forma, que o principezinho vinha com as pernas a badalar, «tóc, tóc, tóc., pela serra acima.
O Zé Alberto, cada vez mais intrigado, não encontrava na sua bagagem linguística termos para conversar com o futuro rei de Portugal; por dentro sentia-se um magnate da corte mas no falar um pigmeu serrano.
Revezam-se na cavalgada incómoda (é o cúmulo do pitoresco Suas Altezas encarrapitadas no lombo de um burro de moleiro) e chegam finalmente ao local onde estacionava o automóvel.
As suas curiosidades satisfeitas e os seus reais ossos desarticulados, encontram nas fofas almofadas do seu luxuoso carro aquilo porque há poucas horas suspiravam: descanso e comodidade.
Abalaram com um adeusinho amigo ao Zé Alberto e deixaram-no envolto em uma grossa coluna de poeira!...
Se não estou em erro, esta aventura já foi resumidamente escrita, mas com o rodar do tempo caiu no esquecimento. Seria interessante qualquer historiador, monárquico ou não, conversar com o Zé Alberto, ainda vivo e são, e em folheto ou em notas íntimas dos infortunados reis, escrever este episódio muito verídico e o oferecesse à Rainha D. Amélia, mãe dos dois mártires da política."
ZÉ DO MIRANTE / 22 de Julho de 1945
in NP 4 AGO 45










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