25 abril, 2026
...e Livres Habitamos a Substância do Tempo...
24 abril, 2026
Recorte de jornal: Tragédia na Barragem da Aguieira
Em 1978, quando se construía a Ponte do Chamadouro, morreram 5 trabalhadores. No ano seguinte, 1979, outro trágico acidente ocorreu quando os andaimes de uma das torres (tomadas de água) desabaram provocando a morte de mais 4 operários e ferimentos, alguns graves, em outros doze. Faleceram Manuel Esteves Gouveia, de Lisboa, António Costa Pereira, de Travanca do Mondego, e Manuel Rodrigues e Joaquim Novo, de S. Pedro de Alva. Foi em Março de 1978, mais precisamente no dia 6, à tarde. A história da construção da barragem da Aguieira fica marcada por outras mortes, como a de 1 jovem da Rebordosa.
Guardamos ainda o “Diário de Coimbra” de 7 de Março de 1979, que noticia o trágico acidente:
“Quatro mortos e doze feridos - alguns deles com gravidade, mas já livres de perigo - é o balanço de novo desastre ocorrido ontem à tarde nas obras da Barragem da Aguieira. O desprendimento de um andaime colocado a cerca de noventa (90) metros de altura arrastou atrás de si os dezasseis operários que ali trabalhavam e se viram de um momento para o outro envolvidos numa queda espectacular, estatelando-se no solo uns em cima dos outros à mistura com ferros retorcidos e outro material do andaime desprendido.
«Não sabemos como aquilo aconteceu» - dizia-nos ontem na sala de Raios X dos Hospitais da Universidade um dos acidentados, António Jorge Baltasar - que muito a custo nos deu uma ligeira explicação do acidente. «Estávamos a passar material para baixo e de repente aquilo começou a desandar. Não sei mais nada».
O acidente ocorreu por volta das 16 horas e em Coimbra e na região logo se soube que algures ocorrera grave acidente, já que o alarme das várias ambulâncias perspectivava algo de anormal que fazia interrogar quem o ouvia. Dado o modo como ocorreu, logo se pensou tratar-se de um desastre de gravíssimas consequências, pelo que rapidamente foram accionados todos os meios de socorro disponíveis: nada menos que onze corporações de bombeiros, num total superior a vinte viaturas, incluindo algumas particulares.
Enquanto umas ambulâncias procediam ao transporte dos feridos para os hospitais mais próximos - Coimbra, Penacova, Santa Comba Dão e Viseu - outros bombeiros empenharam-se no retirar dos feridos envolvidos nos materiais do andaime, para o que foi necessário recorrer à utilização de vários maçaricos. Esta tarefa de socorro foi extremamente dificultada pela natureza do local onde os infelizes operários caíram, pelo que só cerca de uma hora depois do acidente era retirado o último ferido, conduzido a toda a velocidade para o hospital mais próximo. Dos dezasseis sinistrados, três chegaram já mortos ao hospital de Penacova, enquanto que um quarto, conduzido para Coimbra, não viria também a resistir aos ferimentos, sucumbindo pelo caminho."
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SABER + SOBRE A BARRAGEM DA AGUIEIRA
A Barragem da Aguieira foi construída nos anos de 1973 a 1981, tendo como principais objectivos a produção e fornecimento de energia hidroeléctrica, a irrigação agrícola e o controlo de cheias, sobretudo na região do Baixo Mondego.
E uma barragem do tipo “abobadas múltiplas”, em betão. Possui 3 abóbadas de dupla curvatura e 2 contrafortes centrais que constituem, simultaneamente, dois descarregadores de cheia. Alem destes descarregadores principais de superfície, apresenta ainda uma descarga de fundo. Entre os dois contrafortes encontra-se a central eléctrica.
Imagens da fase de construção da barragem da Aguieira (Fonte: RTP)
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Veja também AQUI, o Penacova Online de 2008
22 abril, 2026
Lugares, monumentos e sítios de Penacova (13): mais elementos sobre a Quinta da Ribeira
Em Dezembro de 2022 falámos aqui desta Quinta do século XVIII (ou XVII, na opinião de antigos donos). De acordo com pesquisas que efectuámos, a casa pertenceu ao casal José Cardoso, nascido em 1718, e Maria Assunção dos Santos, que era natural de Palmazes. Ali nasceu em 1736 José Cardoso dos Santos, que viria a ser capitão e avô materno de David Ubaldo Leitão.
Em 1952 a Quinta foi comprada pelo Dr. Amílcar Leitão. Na ocasião, o Notícias de Penacova noticiou esse facto, salientando, não tanto a parte residencial, mas em especial o arroteamento da área rústica, o que conferiu ao conjunto da Quinta uma mais-valia para Penacova.
"A velhíssima quinta da ribeira que pertenceu a uma antiga família ilustre, a família Taborda, que como rodar dos anos foi desaparecendo, como todas as coisas, restando só netos e bisnetos, foi ultimamente adquirida pelo Ex. mo Sr. Dr. Amílcar Leitão, filho ilustre desta vila e ainda aparentado da família Taborda.
Anda o seu novo proprietário em completa transformação na parte rústica e grandes melhoramentos na urbana. A parte rústica, os matagais já se vão transformando em terras de cultura. Dá satisfação ver, cá de cima da vila um autêntico formigueiro de umas boas dezenas de homens e mulheres no arroteamento das terras, transformação dos telhados que vão já dando a sua cor avermelhada da telha nova.
A casa de residência que é um regular exemplar de tipo português antigo alpendrado, terraço e pátio não lhe faltando o tradicional arco a dar passagens a outras dependências térreas.
Não o parecendo é um melhoramento para a terra, não só por que vai valorizar grande extensão que estava praticamente inculta, indo assim dar renovos que tão necessários são como por estar a dar o pão a ganhar a muitas famílias. Que o seu novo dono chegue a ver o que deseja é o que lhe desejamos." NP 1952
Pouco depois da publicação, Mário Augusto de Mendonça Taborda, precisamente um dos herdeiros interveniente na venda da Quinta, dirigiu ao director do jornal uma carta onde acrescenta alguns aspectos importantes que nos ajudam a perceber quem foram sendo os donos e mesmo moradores daquela casa, onde se destacam David Ubaldo Leitão, que ali faleceu a 25 de Abril de 1879, e depois António Manuel Ferreira Taborda Pignatelli, que foi Juíz e Delegado do Procurador Régio, em Penacova, onde casou com Maria Columbina de Souza Leitão, filha de David Ubaldo.
Escreve Mário Taborda:
"(...) Como assinante que sou do jornal que V. Ex.ª muito dignamente dirige, acabo de ler no seu último número uma noticia acerca da Quinta da Ribeira, à qual peço licença para fazer umas ligeiras rectificações.
A família Taborda não foi desaparecendo com o rodar dos anos. Sucedeu-lhe mesmo o contrário, como é normal: Proliferou de mais. E por esse motivo a Quinta foi vendida. Só existem hoje netos e bisnetos, como ontem e como em todos os tempos.
Mas é por meio deles que as famílias se continuam. Os herdeiros da Quinta da Ribeira eram nada menos de onze. A família continua, pois, e é hoje representada pelo membro mais velho do ramo primogénito: este criado de V. Ex.ª.
A Quinta, cuja casa remonta ao século XVII, foi realmente vendida ao meu parente Dr. Amílcar Leitão. E a sua alienação trouxe-nos, a par do desgosto que ela constituiu, o contentamento de a vermos continuar dentro da família e na posse dum casal que com o seu gosto artístico vai restituir-lhe o antigo esplendor.
Também não pertencia a Quinta aos Tabordas, oriundos da Beira Baixa e onde têm ainda hoje a sua casa tradicional. Era pertença do meu bisavô (e do Dr. Amílcar) o Morgado David Ubaldo da Silva Leitão Cardoso e Oliveira, de Paredes, onde ainda hoje existe o seu solar na posse de estranhos. Foi por este senhor deixada a seu filho o Dr. Alberto de Sousa que a trocou com sua irmã e minha avó D. Maria Colombina de Sousa Leitão, pela Quinta de Belide que lhe tinha cabido por morte de seu pai. Veio a Quinta à posse dos Tabordas pelo casamento desta senhora, falecida em 1941 com 104 anos, com meu avô Dr. António Manuel Ferreira Taborda Pignatelli.
Ali estivemos quase todos os herdeiros nos últimos dias de Setembro a fazer a entrega da casa e Quinta ao seu novo proprietário. E fidalgamente hospedados tanto eu como minha mulher e filhos pelo Dr. Amílcar e sua Ex.ma Esposa, muito me apraz tributar-lhe aqui o testemunho do nosso reconhecimento. Se V. Ex.ª entender por bem publicar estas ligeiras rectificações e o meu agradecimento aos novos proprietários da Quinta, muito grato lhe fica quem se confessa com a maior consideração e respeito.
Algés, 3-11-952 | Mário Augusto de Mendonça Taborda"
20 abril, 2026
Autores penacovenses contemporâneos | Ficção e Poesia (10): Luís Pais Amante
Referimos, ao longo destes meses, se bem se recordam os leitores: António M.T. Catela, António Luís, Jorge Figueiredo, Mariana Assunção, Paulo Cunha Dinis, Pedro Leitão Couto, Ricardo Santos, Sónia Marques Carvão e Ulisses Baptista.
A terminar, falamos hoje de Luís Pais Amante, bem conhecido dos penacovenses, seja pelos seus artigos de opinião, seja pelos inúmeros poemas sobre as mais diversas temáticas. Trabalhos compilados em livro, versando temas da actualidade nacional e internacional e, de um modo especial e em formato poético, tratando temáticas relacionadas com a sua terra natal.
Luís Manuel Pais Amante
Nasceu na Vila de Penacova - onde é conhecido como "O Poeta da Casa Azul" - a 15 de Janeiro de 1954. É advogado (licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa) e Gestor (com trabalho de relevo na área da consultoria nacional e internacional e da gestão). É, igualmente, diplomado pelo MCE (Management Center Europe) Bruges-Bélgica e especializado em Técnicas de Negociação pela Universidade Complutense de Madrid e, também na área da Gestão Empresarial Estratégica.
O seu primeiro trabalho literário, Poemas a Recordar, foi publicado, em edição de autor, no ano de 2012. Posteriormente, deu à estampa os seguintes livros:
Conexões (2016); Reflexos (2017); Poesia [das Circunstâncias] do Tempo (2018); Poesia e Pensamento em Tempo de Inquietude (2021); Penacova (In)temporal (2021); A Liberdade Actual - em poesia e opiniões (2023). Em 2024 (em co-autoria com Ana Lito e ilustrado por Mara Silva), publicou o livro infantil O Clube da Netaria, integrado n'Os Contos da Casa Azul. Muito em breve, na Feira do Livro de Lisboa, será lançado Da minha janela ...Acontece (poesia e pensamento).
Em 2019 participou na Colectânea de Poesia "Conversos". Tem participado em actividades ligadas à escrita, trabalhando com a Calçada das Letras. Também tem participado em Actividades e Tertúlias de Poesia: "Pérgola Raúl Lino", em Penacova, Encontro de Autores Regionais "Vale a Pena", em Tarouca, "Sainhas em Poesa", em Vagos, e recentemente, na Tertúlia de Poesia subordinada ao tema "Alma de Penacova".
Obra Literária: opiniões e testemunhos
Recolhemos algumas opiniões / testemunhos de leitores e de divulgadores, a maioria deles, registados nas capas / badanas dos diversos livros publicados:
"Estes poemas (...) representam a alma de quem sabe amar e esperar, que protege e que cuida com paixão." - Ana Marques Lito in Poemas a Recordar
"O selo da responsabilidade social parece tê-lo cunhado desde sempre nas paisagens do Mondego que quer preservar (...). Adivinham-se nestes poemas as paisagens, os aromas, as tradições e as épocas de um Portugal interior (...) Refiro-me a Penacova, terra onde nasceu. É preciso conhecê-la e respirá-la através da mão do poeta." - Maria José Vera, in prefácio do livro Conexões.
"Palavra a palavra, em comunicação secreta, escreveu um amante o que lhe ia na alma: não há cultura sem afectos." - Joana Bonifácio, in blogue O estranho mundo dos livros.
"Impossível de escrever aqui fielmente a revelação efectuada sobre todas as qualidades e virtudes (...) designadamente como excelente pessoa, experimentado e ilustre profissional, poeta talentoso." - Leonor, in blogue Tudo e mais alguma coisa.
"É devido a este magnetismo natural, a esta incondicional paixão, que o autor deste livro (re)ergueu a sua casa (...) aquela que possui uma, não menos nostálgica, gárgula de feição medieval, virada para a Rua da Costa do Sol, lugar onde brincou, namorou e dançou no fecundo período da sua adolescência. Luís Pais Amante é o poeta da Casa Azul" - José Fernando Tavares, in prefácio de Penacova Intemporal.
"Foi nesse "Reino Maravilhoso" que germinou a ideia de publicar um livro de feição infantil, dedicado aos netos dos autores e a todos os meninos do "Fundo da vila"." - David Almeida, in blogue Penacova Online.
As “tonalidades e formas caleidoscópicas da sua escrita transformam-se em poesia, opinião e prosa, que espelham o seu ser intuitivo, buscando-se noutros horizontes (...) e até na transcendência. (...). A partir dos títulos dos livros já publicados apreende-se o lugar de observador / testemunha e protagonista da co-construção de realidades alternativas do mundo paradoxalmente mais livre, estreito e fechado que nos submete a escravaturas.” - Ana Marques Lito, na apresentação do livro A Liberdade Actual.
17 abril, 2026
Autores penacovenses contemporâneos | Ficção e Poesia (9): Jorge Figueiredo
Tal como se refere na contracapa de um dos seus livros, as paisagens e a beleza que Penacova e o Rio Mondego oferecem, foram os motivos de inspiração” que o levaram a escrever "Brumas do Mondego".
No livro de 2010 coexistem, além da temática da Natureza, temas relacionados com as relações entre as pessoas, os afectos e questões existenciais.
15 abril, 2026
Histórias de Penacova (2): quando os príncipes para visitar Lorvão foram de Penacova a pé e regressaram de burro
[Fotomontagem: Luís Filipe e Manuel em visita a Lorvão]
Consta que certo dia os filhos do rei D. Carlos, Luís Filipe (1887-1908) e Manuel (1889-1932), vieram a Lorvão. O automóvel em que viajavam não passou de Penacova, dado que não havia estrada para o vale do Mosteiro. Recorde-se que só em 1911, depois de aberta a estrada via Sernelha, é que aquela terra viu chegar ali o primeiro automóvel, pertença de Evaristo Lopes Guimarâes.
Para lá, foram a pé, passando pela Cheira, calcorreando, depois, rudimentares caminhos. No regresso, valeu-lhes um burro, emprestado por um moleiro lá da terra.
O relato desta peripécia chegou até nós através de uma das crónicas jornalísticas de "Zé do Mirante", que sabemos tratar-se de José Augusto Ribeiro, um influente penacovense que nos deixou valiosos testemunhos sobre pessoas e factos da Penacova de finais do século XIX.
Com o título "A caminho de Lorvão" (rubrica "In Illo Tempore"), o texto que a seguir transcrevemos do jornal "Notícias de Penacova" dá-nos uma ideia do grande isolamento destas terras, comparando com outras, que já na época eram servidas por razoáveis vias de comunicação. A Penacova restava-lhe a navegabilidade do Mondego...
𝔸 𝕔𝕒𝕞𝕚𝕟𝕙𝕠 𝕕𝕖 𝕃𝕠𝕣𝕧ã𝕠
"Um dia (não nos recorda o ano) chega a Penacova um automóvel com dois misteriosos passageiros, novatos, imberbes, irrepreensivelmente vestidos e de óculos fumados. Um aparentava ter 12 e outro 15 anos. Naquele tempo um automóvel era um fenómeno em Penacova; de forma que foi logo rodeado por inúmeros curiosos.
Os meninos apearam-se, atiraram um passageiro olhar, que não deixava de ser investigador, pelo Vale do Mondego e pelas cristas do Penedo da Carvorira; respiraram fundo e à farta o ar puríssimo e embalsamado da serra, e dirigiram se ao povoléu embasbacado para lhes indicar o caminho para Lorvão. Os mapas assinalavam o riquíssimo, histórico e fidalgo mosteiro, mas omitiam caminhos acessíveis. Os circunstantes desconfiaram dos fedelhos, talvez fugidos do colégio ..
Um mais diligente prontificou--se a acompanhar os passeantes. Marcharam os três, a pé, atravessando a Cheira, por um tapete de tojos com os cheiros característicos das estrumeiras, e subiram pelo carreirito íngreme e pedregoso do Vale de Bravo.
Aqui escorregava um na fagulha; acolá atropelava outro e num graveto e ... zás, estatelava-se na poeira. Lá iam seguindo, com as mãos enluvadas, a segurar-se aos tojeiros; as fatiotas caiadas de pó e as aristocráticas botas numa lástima, todas esfoladas! Assim palmilharam 7 quilómetros aquelas alminhas.
No trajecto, o cicerone que era o Zé Alberto, muito intrigado queria conversa e procurava manhosamente tirar nabos ... mas os meninos fugiam com a púcara.
Depois de minuciosamente admirarem o convento, o cicerone de Lorvão, um velhote, mas boa pessoa, bateu na luzidia careca e reconheceu que faltava uma coisa a mostrar aos criançolas - o livro dos visitantes.
O cicerone Zé Alberto, que nos 7 quilómetros andados não pôde descobrir a identidade dos companheiros, não só pela linguagem arrevesada que efes usavam e pelas perguntas que lhes fazia, cujas respostas falhavam, viu o momento de descobrir o enigma.
Que iriam eles escrever no livro? Qual não foi o seu espanto ao ver traçar rápido e legível “Luiz Felipe. Manuel, infante!”
Perdeu a cor, cobriu-se lhe a fronte de suores frios e teria caído no chão, se o Príncipe Real o não tivesse amparado. O nosso homem ainda sonhou no desmaio, que era a comunidade toda, do mais fidalgo mosteiro de Portugal, que o rodeava de carinhos, e que a abadessa lhe oferecia um copo de água fresquinha numa linda salva de prata!...Tremia ainda, mas não de maleitas, quando o futuro rei de Portugal (rei de minutos), lhe pedia o favor (!) de lhes ir arranjar
meios de transporte, pois que as forças estavam esgotadas e o que fol o mais pomposo e rico dos mosteiros da península, não dispunha de cómodos - tudo em ruínas!
E lá vai o Zé Alberto à procura... de um avião de transporte, um Cliper, um transatlântico, um Buick, ou mesmo um Ford... e aparece com um burro (autêntico) para os dois filhos de D. Carlos e de D. Amélia, reis de Portugal!
Suas Altezas não deixaram de rir com mais esta aventura. Lá vêm eles, um a pé, calcorreando o agressivo tapete de mato, e o outro mais novito e magrizela escarranchado na albarda roída dos ratos por onde saía palha, tendo por chairel um grosseiro lençol de estopa a cheirar a farinha triga, sem estribos e por rédeas uma nodosa corda!
O burro era dum moleiro, bem tratado, mas o caminho escalavrado de tal forma, que o principezinho vinha com as pernas a badalar, «tóc, tóc, tóc., pela serra acima.
O Zé Alberto, cada vez mais intrigado, não encontrava na sua bagagem linguística termos para conversar com o futuro rei de Portugal; por dentro sentia-se um magnate da corte mas no falar um pigmeu serrano.
Revezam-se na cavalgada incómoda (é o cúmulo do pitoresco Suas Altezas encarrapitadas no lombo de um burro de moleiro) e chegam finalmente ao local onde estacionava o automóvel.
As suas curiosidades satisfeitas e os seus reais ossos desarticulados, encontram nas fofas almofadas do seu luxuoso carro aquilo porque há poucas horas suspiravam: descanso e comodidade.
Abalaram com um adeusinho amigo ao Zé Alberto e deixaram-no envolto em uma grossa coluna de poeira!...
Se não estou em erro, esta aventura já foi resumidamente escrita, mas com o rodar do tempo caiu no esquecimento. Seria interessante qualquer historiador, monárquico ou não, conversar com o Zé Alberto, ainda vivo e são, e em folheto ou em notas íntimas dos infortunados reis, escrever este episódio muito verídico e o oferecesse à Rainha D. Amélia, mãe dos dois mártires da política."
ZÉ DO MIRANTE / 22 de Julho de 1945
in NP 4 AGO 45
12 abril, 2026
Dia Nacional dos Moinhos: uma poesia infantil de Lúcia Namorado
OS MOINHOS
Poisados lá nos píncaros
Dos montes caprichosos,
Que bonitos, e airosos,
Os moinhos! Não são?
Num labutar contínuo,
Com a ajuda do vento,
Só tem um pensamento:
Tornar em pó o grão.
As velas muito pálidas
São as irmãs ligeiras,
Amáveis, prazenteiras,
Que, mal nasce a manhã,
Principiam, simpáticas,
Abraçadas, bailando
Só à roda; e cantando
Numa alegria sã.
Moinhos solitários!
Beijados pela aragem,
Dominando a paisagem
Ficam sempre tão bem!
Olhados à distância,
Ao cair das tardinhas,
Fazem lembrar velhinhas
Dizendo adeus a alguém...
E à luz do luar alvíssimo,
Quietinhos, sossegados,
Lá no alto agachados
E perto dos casais,
Os moinhos poéticos
De vulto airoso e breve,
São pombas cor de neve
Fugidas aos pombais.
Maria Lúcia Vassalo Namorado
in Notícias de Penacova, 30 Jul 1932, Secção Infantil Qui-Quiriqui
Nota: No início dos anos trinta, durante cerca de meia dúzia de anos, Lúcia Namorado viveu em Penacova, dado que o seu marido Joaquim Jerónimo da Silva Rosa, funcionário público, natural de Lorvão onde nasceu em 1900, foi colocado naquela vila. Maria Lúcia Vassalo Namorado era sobrinha de Maria Lamas e foi uma escritora e jornalista de renome. Curiosamente, essa carreira jornalística começou no Notícias de Penacova onde deixou muitos escritos. Refira-se que o marido foi também um dos fundadores deste periódico. Lúcia Namorado criou passado algum tempo e dirigiu durante muitos anos a também afamada revista OS NOSSOS FILHOS, onde apareceram muitas referências a Penacova, inclusivamente fotografias de bebés/crianças da vila. Existem estudos académicos detalhados sobre Lúcia Namorado e a sua relação com a nossa terra.
09 abril, 2026
Histórias de Penacova (1): ℙÁ𝕊𝕊𝔸ℝ𝕆𝕊 𝔼𝕊𝕋ℝ𝔸ℕℍ𝕆𝕊 ...
Vem este título a propósito de um recorte do antigo jornal Gazeta de Coimbra. A “notícia” tem um pormenor algo chocante. O texto alude, igualmente, a uma outra história que se terá passado em Penacova, há muitos anos e que, curiosamente, em 2023, abordámos na rubrica “Ecos de Vozes Distantes” do Penacova Actual (cf AQUI)
O recorte da Gazeta de Coimbra (13 out 1921) com o título “Aves: um belo exemplar” diz o seguinte:
“Foi oferecido a um nosso amigo uma grande ave, cujas asas abertas medem 1,50 m, morta há dias por uma mulher num pequeno pinhal de Gondelim, concelho de Penacova. Ignora-se o nome da ave que deu trabalho bastante a quem a matou à bordoada. As penas são lindíssimas, pesando a carne dessa ave nada menos de 3 kilos. Dizem os que a comeram ser magnífica.
Vem a propósito recordar que em Penacova, no reinado de D. José, uma grande ave desceu junto duma capela que ali existe no cimo dum monte e tomando no bico uma criança de peito que ali estava fugiu com ela, indo deixá-la noutro ponto e junto doutra capela, sem que causasse mal à criança. Na mesma ocasião deram os jornais estrangeiros notícia dum caso idêntico sucedido numa terra de França, com a diferença de que a criança ai nunca mais tornou a aparecer.”
Por sua vez, a outra situação que se verificou no "reinado de D. José” * foi noticiada na Gazeta de Lisboa no dia 3 de Julho de 1749, difundindo-se por todo o país. A veracidade dos acontecimentos não foi questionada, na medida em que o jornal afiançou que tinha sido “uma pessoa de grande crédito, moradora na mesma vila” que dera a informação.
Escreveu a GL:
“Junto ao Castelo da vila de Penacova, três léguas distante da cidade de Coimbra, andava no dia 2 de Junho, do presente ano, assoalhando uma pouca de lã, Isabel Francisca, viúva de Manuel de Brito, morador que foi da mesma vila, e tendo pouco distante de si um menino de um mês, que havia parido póstumo, chamado António, saiu das abóbadas de um magnífico templo, que naquele distrito se acha por acabar, destinado para a imagem de Nossa Senhora da Guia, uma ave de rapina de extraordinária grandeza, a que uns dão o nome de bufo, outros de guincho, e se costuma sustentar de gados e aves que apanha; e levando o menino nas garras voou para uma montanha chamada de Penedos, por passar por entre eles o rio Mondego. A lastimada mãe, vendo tão deplorável fatalidade, começou a invocar com ânsia o socorro de Santo António, de quem se venera a Imagem em uma ermida, que fica defronte daquele sítio. Passando a ave pela quinta de Bernardo Cabral de Castelo Branco, mística com a montanha para onde continuava o seu voo, pousou junto a uma fonte, em que está outra imagem do mesmo Santo: e concorrendo a gente, que andava trabalhando naquela fazenda, fugiu, deixando ao pé da mesma imagem o menino, sem mais lesão que umas leves feridas das garras, com que o apertava. Este prodígio, que admiraram muitos circunstantes, fez aumentar em todos a devoção do milagroso Santo Lisbonense; e para consolação dos seus devotos o mandou comunicar ao Reino por meio da Gazeta uma pessoa de grande crédito, moradora na mesma vila.”
Histórias de Penacova...
* Na realidade o reinado de D. José apenas se iniciou no ano seguinte.
08 abril, 2026
Crónicas do Avô Luís (9): Negligência?
Negligência significa a falta de cuidado, atenção, zelo ou aplicação no cumprimento de um dever ou de uma tarefa, resultando em desleixo, omissão ou descuido.
No sentido jurídico, é uma conduta omissiva (não agir quando deveria), que deixa de tomar precauções necessárias para evitar danos, sendo considerada uma forma de “culpa”.
E porquê tratar este tema nesta Rubrica (Crónica)? - perguntarão os Leitores e os Seguidores;
Pelas razões seguintes:
1. Em casa e também nas Escolas, devemos “investir” na criação de mulheres e homens responsáveis, habilitados para dar sequência a uma “Sociedade Sã”;
2. Devemos concentrar a nossa energia “no fazer passar uma ideia de respeito”;
3. Na observância de regras que dignifiquem o Ser, independentemente da sua idade;
4. E devemos levar essa mensagem para o exercício da Liberdade, através do Voto.
*
O que se está a passar, hoje em dia, é que quem abraça a “causa pública”, por eleição, concurso ou nomeação, na maior parte dos casos, são pessoas mal formadas, que se estão a "marimbar" para os outros.
Pretendem, isso sim, “tratar da vidinha" e o mais depressa possível…
Temos inúmeros exemplos dessas situações, nos cargos públicos normalissimos, nos cargos autárquicos , nos cargos governamentais e, até, nos cargos de exigência elevada, como o são os das Polícias e das Magistraturas Judiciais.
Ou é o Técnico da Segurança Social que dá informações erradas; ou o da ACT , que “desajuda” o utente; o funcionário municipal que aponta caminhos incorretos (por exemplo nos licenciamentos); os titulares dos cargos electivos que se arrogam donos da verdade e que “empregam” pessoas sem currícula; os Órgãos Policiais que se sucedem nas análises dos caso erroneamente; os Políticos (titulares de cargos públicos) que se sentem “donos da quinta” e fazem muitas asneiras; os Magistrados que erram e erram e erram…
Isto para não falar dos Deputados (Presidente da AR incluído e do próprio Presidente da República).
!… Eu acho que esta minha sensação é aquela que graça no País Real …!
Eu recebo no meu Escritório Pessoas portadoras de “coisas” de bradar os céus…
Muitas com qualificação de “negligência” pura e dura!
Ora bem,
Falando para a nossa Juventude:
a) assumam que os vossos direitos devem ser todos respeitados a tempo e horas; exijam que o sejam;
b) desconfiem quando vos dizem que não; procurem informações credíveis e rebatam, com argumentos sérios;
c) não votem nos amigos só porque o são; votem nos que dão garantias de serem Pessoas de bem e, preferencialmente, nos que não precisam da política para viver;
d) não alimentem “máquinas” que (nesta ou naquela situação) já falharam;
e) habituem-se a reclamar, por escrito, nos Livros próprios, porque os há para tudo!
O exercício destes conselhos simples, ajudarão, paulatinamente, a mudar a nossa Sociedade.
Como exemplos normalizados de negligência no exercício de cargos públicos, para não complicar, temos os elencados na Lei n. 34/87, de 16 de Julho, do tempo de Mário Soares -vejam bem - com um manancial de alterações feitas no sentido da sua descaracterização, donde destaco os crimes:
- de prevaricação;
- denegação de justiça;
- restrição ou violação ilícita do exercício de direitos, liberdades e garantias;
- recebimento indevido de vantagens;
- corrupção activa e/ou passiva;
- violação de regras urbanísticas e orçamentais;
- e peculato.
Ainda que negligentes, todas estas ações, não deixam de ser crimes.
É preciso é todos (mas todos) estarmos atentos, para construirmos um País diferente, para melhor!
Como as coisas têm vindo a estar, é muito mau, mesmo…
Ou seja,
A Juventude é quem nos pode valer!
Luís Pais Amante
Casa Azul
06 abril, 2026
Segunda-feira da Páscoa de 1932 e a (já) célebre fotografia do Enterro do Bacalhau
Esta fotografia vai sendo conhecida dos penacovenses. Há poucas semanas, graças à IA (Inteligência Artificial) até foi apresentada nas redes sociais com animação, onde parte dos figurantes se moviam. Ora, o Notícias de Penacova noticiou com algum pormenor aquele Cortejo (Enterro do Bacalhau) que se realizou naquela Segunda-feira de Páscoa de 1932, dia 28 de Março. Deixamos aqui a transcrição:
"Alguns rapazes - uns já descriados, outros casados e muitos solteiros, mas todos alegres lembraram-se de levar a efeito uma festa burlesca, comemorativa do fim da quaresma - o enterro do bacalhau.
Para esse fim, foi constituída uma comissão, composta dos srs. Armando Pimentel, Augusto Pimentel, Alípio Pimentel, Heliodoro da Costa, António Luís, Augusto Luís, Alberto da Costa, António Viseu, Américo Leitão, António Alvarinhas, Mário Carvalho, Fernando Alvarinhas, José Alvarinhas, José Alberto Alvarinhas, Jaime Barbosa, Júlio Ferreira da Silva, António da Cruz Assunção, José de Assunção, Eduardo Miguel, José Alves Coimbra, José Augusto Ribeiro, Lusitano Alexandre Ribeiro, José Ferreira da Silva, Jorge da Costa e Álvaro Martins Coimbra, que, depois de aturados mas profícuos trabalhos, conseguiu realizar uma festa engraçada e decente, o que é motivo para os felicitarmos vivamente.
A festa dos rapazes devia ter-se realizado no sábado de aleluia, mas, por motivo independente da sua vontade e que não importa saber, teve de ser adiada para segunda-feira.
Saiu o vistoso e numerosíssimo cortejo de casa do sr. Armando Pimentel, seriam 22 horas, e foi acolhido por francas gargalhadas da multidão que o aguardava na rua e que nele se incorporou.
Em andores bizarramente enfeitados viam-se um enorme bacalhau, uma bacalhoa e uma cavala ... em pano pintado; à frente um grande pendão, ornamentado com bacalhaus, alhos, cebolas, grelos, facas, garfos, etc.; dentro de uma camioneta, os oradores e seus acólitos; dois automóveis e um barco, conduzindo aficcionados; e o todo ladeado e acompanhado por muitos rapazes e raparigas, portadores de lanternas de papel de varias cores, com letreiros apropriados. O efeito era soberbo!
Seguia o cortejo muita gente da vila e dos arredores, rindo abandeiras despregadas das facécias dos oradores, que, em vários pontos do trajecto, fizeram o elogio... fúnebre do bacalhau.
Depois de percorrer as ruas da vila, sempre no meio da maior alegria e em boa ordem, o cortejo regressou ao ponto de partida, onde dispersou.
Seguiu-se um baile em casa do sr. Armando Pimentel, dançando-se animadamente até muito tarde.
A festa foi abrilhantada pelo gaiteiro, que executou valentemente um ruidoso repertório. Os oradores, que conseguiram manter as numerosas pessoas que escutaram, em constante hilaridade, foram os srs. Eduardo Soares, Jorge da Costa, Jacinto Alvarinhas, José de Castro Pita e Mário Carvalho.
Todos os trabalhos de pintura foram executados pelos artistas pintores desta vila srs. Fernando e António Alvarinhas.
Decorreu a festa sem que houvesse a menor nota discordante, o que mostra que os nossos rapazes não são tão maus como por vezes os pintam, e os torna dignos dos nossos louvores.
Mostraram que sabem divertir-se, sem exageros irritantes de verduras de mocidade. Bem hajam!
Acompanhava o cortejo um grupo de crianças transportando uma coberta onde se recolhia dinheiro, destinado a ser distribuído pelas crianças pobres da vila. Rendeu 25$45, quantia que foi logo entregue a autoridade administrativa.
Foi realmente pouco, sendo para lamentar que a generosa ideia dos alegres rapazes não fosse melhor compreendida.
Bem o mereciam as horas risonhas que eles a todos proporcionaram. Mas os tempos correm tão bicudos ... Não queremos fechar esta notícia sem mais uma vez louvar os briosos rapazes pela forma ordeira como decorreu toda a sua festa, felicitando ao mesmo tempo a comissão a que acima fizemos referência pela feliz execução que teve a sua iniciativa." NP 9 Abril 1932
05 abril, 2026
Um recorte poético de 1948: Domingo de Páscoa, por Oliveira Cabral
(Letra de Manuel de Oliveira Cabral, com ilustração do pintor portuense Carlos Carneiro)
Domingo de Páscoa!...
O Sol, neste dia,
que graças semeia!
Domingo de Páscoa!...
Que doce alegria
que vai pela aldeia !
Domingo de Páscoa!...
Os sinos vão rindo
na torre velhinha.
Domingo de Páscoa!...
Que dia tão lindo,
que lindo, ó Mãezinha!
Domingo de Páscoa!...
No adro da igreja
crianças brincando.
Domingo de Páscoa!...
E ao Sol que as bafeja
velhinhas rezando.
Domingo de Páscoa!...
Nas sebes floridas
há frémitos de asas.
Domingo de Páscoa!...
E há flores garridas
em todas as casas !
Domingo de Páscoa!...
Remoça-se o mundo,
rebrilham os céus.
Domingo de Páscoa
…………………………….
Silêncio profundo ...
Repousam os meus.
Domingo de Páscoa!...
Quem fora rapaz
como era outrora!
Domingo de Páscoa!..
Saudades me traz
e penas agora.
Domingo de Páscoa!...
As almas 'stão cheias
de imensa bondade.
Domingo de Páscoa!...
E há pelas aldeias
AMOR - FELICIDADE
04 abril, 2026
Penacova e as tradições pagãs na Quaresma: 𝑶 𝑬𝒏𝒕𝒆𝒓𝒓𝒐... 𝒅𝒂 𝑺𝒂𝒓𝒅𝒊𝒏𝒉𝒂
Enterro da Sardinha? Ou Enterro do Bacalhau? Em Penacova, até aos inícios da década de trinta, com mais ou menos interrupções, era tradição do Sábado de Aleluia organizar o cortejo do Enterro do Bacalhau. Em 1932 o Administrador Concelhio não terá autorizado a sua realização na véspera do Domingo de Páscoa. Então, (crê-se, com base em notícias de jornais) uma nova comissão levou a efeito, mas no dia posterior à Páscoa, um Cortejo com um programa algo diferente. Será este que aparece em fotografias da época, onde vemos a camioneta de Heliodoro Costa acompanhada de todo o aparato típico do momento.
Ainda não conseguimos reconstituir cabalmente a história dos acontecimentos, mas tudo leva a crer que (estamos em 1932, sublinhe-se) dois grupos, onde se terá metido política e religião, se terão demarcado na vila. Estariam em causa duas facções, uma afecta ao "Jornal de Penacova" e outra, mais simpatizante do recém aparecido "Notícias de Penacova".
Certo dia, ao analisar alguns "papéis" antigos, do arquivo pessoal do meu amigo José Alberto Costa, encontrei um interessante folheto de 1932. Curiosamente, em vez do Enterro do Bacalhau fala do Enterro da Sardinha! Tudo leva a crer que seria este o programa que acabou por ser proibido. É que ao ler uma notícia que relata Enterro do Bacalhau da segunda feira da Páscoa de 1932 não se verifica coincidência com os elementos que o pequeno cartaz, impresso a vermelho, nos fornece.
Este curioso documento, não só, por se referir à Sardinha (e não do Bacalhau, como seria de esperar), mas também pelo fino e mordaz humor que nele perpassa (o que era característico) merece ser recordado. Aqui fica a sua transcrição integral, na grafia original. Leva uns minutos a ler...mas valerá a pena.
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Piramidais festejos em Penacova
1932 - No dia em que os judeus se enforcam – 1932
SEPULTARUM SARDINHORUM ET RESSURRESCIT CARNORUM
Para os que não sabem latim: Enterro da Sardinha e Ressurreição da Carne
Programa imprevisto. Não tem graça. Não ofende
Logo após o último “Gaudet», ao raiar das 22 horas, a multidão, com comichão, vai a calcão para o Luiz Brandão de lampeão na mão. No local já dito, os pais com os filhos e os filhos sem pai, empalmam uma vela, riscam um forfo, acendem a dita e encorporam-se na bicha do préstito (os homens vão á frente das mulheres) uns á mão direita e outros ao pé esquerdo. A Canastra (da Sardinha) vai a trás, debaixo do pálido, arreada por 4 valientes comilões. As bandeiras e os pendões, vão amarrados aos bordões. A guarda vai à frente da honra. As borlas e corôas, são confiadas aos Carinhas.
O itenerário do enterro é o de todos, isto é: de cima para baixo e vice-versa. Nas ruas haverá luminárias luminosas e nas janelas caras feias e formosas. O Cruz leva a Cruz. A chave do caixão (da Canastra) é confiada ao Ex." Sr. A. Pimentel.
Quando todo o mundo chegar ao Cruzeiro, junto ao chafariz do Sr. A. Cabral, cada qual chega a brasa à sua sardinha. Um orador apiteirado dirá larachas com graça e sem ela; e no último adeus á Sardinha, haverá cheliques e flatos. Espera-se que ao abrir o sarcófago, para lá enterrar a Sardinha, a multidão proteste, por haver quem goste mais do rabo e poucos da cabeça; pelo que a maioria acordará em enterrar só a cabeça (da Sardinha) ficando o rabo de fora.
Serenados os ânimos, dão-se as descargas do estilo, e enquanto o diabo esfrega o olho, Ressuscita a Carne !!
Estoiram bombas! Há cheiro a pólvora queimada e indícios de tempestade baixa! Alegria sem par! Aleluia! Aleluia! Novo cortejo segue o mesmo caminho, isto é: debaixo para cima, podendo as mulheres irem á frente dos homens. E a Carne, saltitante, sanguínea, quente, é levada em triunfo pelos gulosos para a Cova da Barro. Ali, cada lambareiro tira à sua fêvera e lambe os beiços por mais!
O cortejo é dirigido pelo mestre de cerimónias sr. A. Carvalho
REPRESENTAÇÕES
Fazem-se representar pelos Ex. Srs.:
A. Cabral - A Verónica. (Este Ex."' Sr. também de bom agrado se encarregou de regular o passo do enterro).
F. Tintim - A arquitectura médica e a engenharia cirúrgica
Silva (estageário) - Os mártires do trabalho.
E. Silva - Os mecheriqueiros internacionais (jornalistas) e a "Voz" ... de Dcmo ... nio
J. Cabral - A comarca de Penacova e múmias do Egito.
A. Guedes - Os códigos de Confúcio.
F. Miguel - Os sábios da Grécia e as Musas do Alcorão.
Américo L. - Os mártires do descanço.
D. M. Coimbra - O diabo em fralda de camisa.
J. Ribeiro - O Mirante e as ciências da Patagonia.
A. Leitão - A Universidade de Salamanca e o deserto de Sahará.
X. Z. - O "ludra-se" do Jornal de Penacova.
F. A. V. A. (fava) - A acreditada agência do Bacalhau.
O instrutor dos B. V. de P. faz-se representar pela farda do 2." comandante.
FESTA DE CARIDADE
As bondosas damas de Penacova, levam a efeito, no Domingo de Páscoa, um peditório em favor dos pobres, o que lhe acarretará as maiores simpatias. O Secretário Geral do Céu enviou-lhes o Rádio seguinte:
"S. Martinho enviou a capa que vós lhe ofertásteis, as mães pobresinhas, para dela fazerem camisas para os filhos. S. Sebastião vai mandar-lhes também os calções. Para decôro do Ceu, ide falar ao Revcrendo Pinto e Domingo de Páscoa tirai o folar para os que têm fome c frio " - Pedro
Os Doutores da Igreja também enviaram no Ex."° Sr. Dr. Albino, o seguinte telegrama: "Doutores Penacova - Secundem missão caridosa folar pobres - Jerónimo.
NOTA - A chefe do correio deturpou o telegrama e escreveu : Mentores Pinóca -Fecundem missão maldosa esfolar pobres. - Jeremias.
SARAU DE GALA NO CINE-TEATRO-CLUB
1ª PARTE
Poesias e prosas (recitado ao cavaqainho) - A. Pinto
História dos amarguras de um piolho (em harpa) - J. Barreto
Cataratas do Mondego com garfadas de grelos (discurso inédito) - A. Casimiro
Tretas e pêtos (solo de pífaro em si b. m. - F. Redondo
O amor em sonetos - pelo soprano lírico - M. Carvalho
2ª PARTE
Tango Argentino e Sonho de valsa (à guitarra). - J. Nunes
Música de D. Faustino ... e um violino - J. Cabral
Filosofias de pataco e a canção do grilo (com ferrinhos - J. Ribeiro
Rapsódia política (piano a 4 mãos) - J. Leitão - E. Pinto
Fado choradinho (assobio em dó menor) - S. Rosa
3ª PARTE
Um drama ... em cuécas (Peça em 3 actos pelo autor) - J. Gouveia
Sonata-Pacata (ao fagote, em lá maior) - J. Alves
Minuête do perdalário (gaita de loiro com sardina) - A. Cabral
Profecias dos Planetas (com pandeireta e berimbau) - Mendes C.
Piruetas no trapésio do amor (com castanholas) - F. S. Guedes
APOTEOSE
Luta à Portuguesa. Sôco à inglesa. Coice à hespanhola, pelo respeitável público.
NOTA IMPORTANTE
Para que as criancinhas pobres compartilhem desta festa, roga-se às almas caridosas que atirem com o seu óbulo para a colcha que será conduzida pelas crianças, no cortejo. A importância recolhida será escrupulosamente entregue à Autoridade Administrativa, que no Domingo de Páscoa a distribuirá pelas CRIANCAS MAIS POBRES da Vila.
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Bacalhau, Enterro do - Representação popular que tinha lugar em sábado de aleluia ou domingo de Páscoa, simulando o enterro de um rabo de bacalhau para simbolizar o fim do jejum quaresmal de carne. Em certas localidades, organizava-se um cortejo "fúnebre", em que o bacalhau seguia à frente, pendurado num pau. Quase sempre havia testamento. Não se conhece prática musical específica a acompanhar. Hoje em dia são raras as povoações que conservam esta tradição, a qual ainda se mantém, por exemplo, em Soutocico, Leiria.
N. B. - OS TEXTOS DESTA ENCICLOPÉDIA DAS TRADIÇÕES POPULARES ESTÃO SUJEITOS A DIREITOS DE AUTOR,PELO QUE A SUA REPRODUÇÃO, AINDA QUE PARCIAL, DEVERÁ INDICAR O NOME DO SEU AUTOR, JOSÉ ALBERTOSARDINHA.
02 abril, 2026
O meu nome é Constituição
O meu nome é Constituição
O meu nome é Constituição
Da República Portuguesa
E o meu sobrenome Paciência
Para com os que não me querem
De certeza
Nasci hoje
Há cinquenta anos atrás
E sou mesmo muito jovem
Quando comparada
Com outras anteriores de tez
audaz
A idade só significa maturidade
Sou fruto de um trabalho consistente
De um grupo de Portugueses
Com muito discernimento
E de consciência na mente
Para encontrar um consenso
Agora dizem que já estou velha
Que, de vez em quando, me dá
telha
Que não estou adaptada
Muito menos actualizada
E eu acho isso bem natural
Sou um Documento casuístico
E devia sê-lo mais generalista
Mas deram-me regras para mudar
Para me poder adaptar
Aos tempos que o tempo tem
Regras, nunca imposição de ninguém
O meu papel nesta Sociedade
doente
Ainda é ter bem presente
Que não se apoia o dissidente
Mas sim o Povo
Aquele que me quis, de novo
O tempo do obscurantismo
Já se foi, não vai voltar mais
Porque a “paralisia” é dura
E a Democracia custa muito
Talvez, até demais
O Povo reivindicou-me nas ruas
Exigiu-me nas urnas de voto
Para integrar com sã sabedoria
Normas contra o Estado Novo
… sem vida em Democracia!
Luís Pais Amante
Casa Azul
Nos 50 anos da Constituição da República Portuguesa.
31 março, 2026
"Sons do Mondego" organizaram Tertúlia de Poesia
Realizou-se no dia 28 de Março uma Tertúlia de Poesia, subordinada ao tema "Alma de Penacova", com a participação dos poetas penacovenses António Simões, José Pisco e Luís País Amante. A declamação coube a Ricardo Coelho e aos próprios autores. Os apontamentos musicais foram de Luís Neves, projectando na sala o melodioso som da gaita galega.
O evento, organizado pela Associação Musical Sons do Mondego, contou com o apoio da Câmara Municipal e do Grupo Place. Integrou-se no programa do VIII Encontro de Gaiteiros de Penacova (que decorreu no mesmo fim de semana), promovido igualmente por aquela Associação.
Para a Organização, tratou-se de “uma noite de excelência, com o auditório da Casa das Artes Martins da Costa cheio, com o evento e os autores a serem bastante aplaudidos no final”.
Por sua vez, na opinião de alguns dos participantes, público e autores, publicada nas redes sociais, tratou-se de “um excelente evento, muito interessante”, que merece ser “repetido por muitas vezes”. Outro interveniente referiu: “Foi muito gratificante. Obrigado à organização, ao público pela partilha e entusiasmo e ao Luís Neves pelo momento musical. Fantástico!”. Mais um testemunho: “Foi uma noite em que os que ainda pensam ter Penacova na Alma disseram presente e participaram: da Riba de Baixo a Figueira, Gavinhos, Casal, etc. Obrigado aos que estiveram connosco e ao Sons do Mondego pela impecável organização. O Ricardo Coelho mereceu a vénia de todos nós.”
A tertúlia foi moderada por Paulo Rodrigues, elemento da organização. No momento de apresentação inicial, António Simões referiu que escrevia desde sempre, "porque gosta, porque pensa", não tendo nenhuma pretensão de publicar livros. José Pisco recordou que em 2007 começara a levar a sério a poesia, escrevendo sobre o Mosteiro de Lorvão, sobre Penacova e sobre a Natureza. Luís Pais Amante, reafirmando o mote que tem vindo a sublinhar ultimamente “Eu sou de cá”, anunciou que vai sair em breve o seu 10º livro, a ser lançado na Feira do Livro de Lisboa. Ricardo Coelho, sublinhou que “nestes tempos escuros, difíceis, a poesia faz falta”.
A primeira série de poemas, declamados por Ricardo Coelho, incluiu os temas “Barqueiro do Mondego” de António Simões, “Alma do Mosteiro de Lorvão” de José Pisco, “Penacova Intemporal” de Luís Pais Amante, “O Vimieiro” de António Simões, “O Sublime e o Mosteiro de Lorvão” de José Pisco, “Remoçar na Praia” de Luís Pais Amante e “Livraria” de António Simões. Por sua vez, para declamar o tema “Cruzeiro de Penacova”, de Luís Pais Amante, foi convidado Álvaro Coimbra, um dos “meninos do Fundo da Vila”, referidos no poema, e hoje Presidente da Câmara.
No momento seguinte, foi lançado o repto aos autores no sentido de serem eles próprios a dizer mais alguns dos seus poemas. Assim, a introduzir, Paulo Rodrigues, autor de dezenas de letras de marchas populares, declamou o tema “Hino a Penacova”, tema este que em 2020 venceu um concurso da CIM (Comunidade Intermunicipal). Seguiu-se “Tenho uma terra”, por António Simões, “Sossego na praia do Mondego” por José Pisco e “Penacova” por Luís Pais Amante.
De entre o público presente, declamaram temas da respectiva autoria, a jovem Eva Cruz e a Professora Helena Marques. A propósito da intervenção dos jovens, Luís Pais Amante salientou que os mesmos merecem ser apoiados na divulgação dos seus temas pois “fazer poesia e não a ver publicada é uma inibição brutal para a continuidade do trabalho. Ser poeta também é passar mensagem.”
Outros poemas foram surgindo. Luís Pais Amante leu “Rua Principal” e José Pisco disse “Mar Sublime”. O novo hotel em construção foi tema: António Simões trouxe o poema “O Hotel” e Luís Pais Amante “O Hotel anda por aí”, poema inédito, mas a partir daquele momento, publicado na página do Facebook "Penacova Acontece". A terminar, “Anamor” e “Os Cantos do Amor e do Tempo” foram outros textos ditos, respectivamente, por Luís Pais Amante e José Pisco, seus autores.
No final foi projectado o vídeo de Óscar Trindade e Ricardo Coelho, relativo ao poema “Remoçar na Praia”.
19 março, 2026
Novo livro de Paulo Cunha: À 𝘉𝘦𝘪𝘳𝘢 𝘥𝘰 𝘛𝘦𝘮𝘱𝘰 - 𝘤𝘰𝘯𝘵𝘰𝘴 𝘥𝘢 𝘵𝘦𝘳𝘳𝘢 𝘦 𝘥𝘢 𝘨𝘦𝘯𝘵𝘦
No dia 7 de Março, integrada no Programa do 2º Festival Literário de Penacova, teve lugar a apresentação do livro de Paulo Cunha À Beira do Tempo - contos da terra e da gente. A sessão, que decorreu na Biblioteca Municipal, contou com a presença de Álvaro Coimbra, presidente da Câmara.
Apresentou a obra, Marta Ceia, especialista em assuntos globais, desenvolvimento sustentável e diplomacia. No prefácio, por si assinado, podemos ler o seguinte:
“À Beira do Tempo não começa onde começa. Começa antes, entre o som e o silêncio. Os passos que já não se ouvem na escada, o eco de um sino antigo, a lembrança da voz do avô misturada com o crepitar da forja e o baque do latão a ser moldado. Aqui o silêncio não é espaço vazio, mas identidade a desfazer-se e a refazer-se. É nesse momento de suspensão entre o silêncio do espaço e o som da memória que o livro existe. Paulo Cunha escreve como quem regressa depois de ter fugido e encontra tudo igual e, ao mesmo tempo, irreconhecível. Há tensão nestas vinte histórias, fruto da hesitação entre o desejo de desapego e a fidelidade à terra, às gentes, à história. A Laurinda, o Sacristão, o José Aquino, o Silvério e a Marquitas, são gente concreta, vozes dessa terra, testemunhas de vidas inteiras concentradas em gestos repetidos, portadoras de saberes não escritos e de ofícios que morreram sem cerimónia com os corpos que as sustentavam. Ao evocá-las, o autor não as cristaliza no passado, mas devolve-lhes a dignidade, inscrevendo-os num presente que as há de reconhecer.”
E, a terminar, sublinha:
“Ler À Beira do Tempo é caminhar pela terra, onde cada passo levanta sonoramente o pó que julgávamos assente. No fim, voltamos ao avô, ao silêncio do patamar vazio, à saudade que ainda anima, à ressonância do que deixou. Talvez apenas seja isso que o livro nos pede. Que nos sentemos no patamar, que ouçamos o que resta, e que, ao contarmos quem fomos, consigamos compreender melhor quem somos."
Na contracapa, podemos ler igualmente um texto do Presidente da Câmara, onde, a dado passo afirma que “a presente obra de Paulo Cunha é um presente para a memória futura. Um contributo inestimável para a nossa vida em comunidade, um legado para as futuras gerações. É acima de tudo um retrato fiel das tradições, modo de vida, hábitos, ofícios tradicionais, escrito com a sensibilidade de quem, realmente, ama a sua terra e as suas raízes.”
Como nota biográfica, transcrevemos o texto publicado no livro:
“PAULO CUNHA nasceu em 1972, em Cabinda - Angola. A maioria dos seus familiares pertence a São Pedro de Alva. A ocupação profissional está em Lisboa. Parte do tempo restante é passada em Hombres. Começou por escrever diversas crónicas no jornal Nova Esperança, tendo já publicado dois projetos de ficção, uma coletânea de pequenos contos, intitulada "Lapsos de Tempo", uma crónica satírica, intitulada Ensaio sobre a Praça, e, também, vários contos sobre a temática do natal na coletânea intitulada Lugares e palavras de natal, organizada pela editora Lugar da Palavra. No livro À Beira do Tempo, Contos da terra e da gente, o autor reitera o registo das relações familiares e sociais da gente que o viu crescer e contribuiu para o sentido de captação das particularidades do quotidiano, passado e presente, da região de Mondalva.”
Na página 28, a Feira de S. Pedro de Alva é o mote para um original olhar do autor. Um excerto:
São recordações. Já só existem recordações! Surgem num jeito envolto. Pouco mais vejo além delas. Vagueio num género de drone que sobrevoa o espaço, que rodopia nas linhas curvas das diversas perspetivas.
Lá em baixo, remonta-se o dia de feira. A vila reconstitui-se no lugar de todos os preços. Torna-se o grande bazar coberto por imensos toldos brancos. Espeta-se estaca a estaca. Ouve-se o tilintar dos ferros caídos, das marteladas secas sobre os calhaus da calçada. Afinam-se as vozes ensonadas! As cordas esticadas delineiam cada pedaço de chão alugado por um dia. A brisa matinal sopra na crista das tendas semelhantes a águas calmas protetoras do burburinho vivo. Cruzam-se residentes e vizinhos. Abrem-se caixas, rulotes e baús. Soltam-se conversas discretas e indiscretas. Mistura-se claridade com sombras vivas. Encontram-se vidas próximas, alheias... vidas suspensas, invejadas, escondidas e até esquecidas. Espalha-se pela vila uma estrondosa necessidade de troca. O chafariz de quatro torneiras espreita por cima do mar de toldos. Testemunha a libertação dos cheiros da pimenta e do colorau. Como invasores do recinto. A terra húmida da manhã é expulsa das narinas!


















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