sábado, 21 de setembro de 2019

Republicanismo em Penacova na vigência da monarquia

Neste edifício (foto da época) se reuniu (em 1908)  um grupo de republicanos
para formar a 1ª Comissão Republicana de Penacova

Em Penacova, as ideias republicanas foram ganhando força por acção de médicos e juristas, muitos deles formados na academia coimbrã. Também alguns emigrantes regressados do Brasil vieram engrossar as fileiras dos opositores ao regime monárquico.

Ainda na vigência da Monarquia, em 1908, constitui-se, primeiro, a Comissão Municipal Republicana, com sede em Penacova e, de seguida, o Centro Republicano de S. Pedro de Alva. Esta dinâmica culminou com o grande comício nesta freguesia, no dia 1 de Agosto de 1909, com a presença de António José de Almeida.

No dia 8 de Março de 1908 teve lugar uma reunião de republicanos ''no edifício onde funcionavam as fábricas[1] de José Pedro Henriques''[2], com o objectivo de fundar uma Comissão Municipal Republicana. Assim, da primeira comissão concelhia, passaram a fazer parte, como membros efectivos, Rodolfo Pedro da Silva, médico, José Alves de Oliveira Coimbra, comerciante, José Pedro Henriques, industrial e Amândio dos Santos Cabral, proprietário. Como suplentes: Manuel Correia da Silva, farmacêutico, António Maria, ferrador, Joaquim de Almeida Coimbra, comerciante, Joaquim Pereira Castanheira, comerciante, e Augusto Ferreira de Carvalho, farmacêutico.

A 14 de Março, o Jornal de Penacova, que à data já estava nas mãos dos republicanos, noticia aquela reunião e avança com uma relação dos inscritos, à data, no Partido Republicano:

Dr. Alípio Barbosa Coimbra, Dr. Rodolfo Pedro da Silva, José de Almeida Coimbra, Francisco de Almeida, Joaquim Pereira Castanheira, David Cordeiro de Brito, Albino Leonardo, Francisco Rodrigues da Silva, José António de Almeida Júnior[3], José de Matos Vieira, Augusto Ferreira de Carvalho, António Pedro Gonçalves, António de Matos Vieira, António Maria, Joaquim de Almeida Coimbra, João António de Almeida, José Joaquim Duarte Júnior, Vitorino de Almeida, Serafim José de Almeida, Francisco Duarte Almeida, José Pedro Henriques, José Alves de Oliveira Coimbra, Amândio dos Santos Cabral, Eduardo Pedro da Silva, José Augusto Ribeiro, José Esteves Viseu, Joaquim Serra Cardoso (que anunciará a implantação da República na manhã de 6 de Outubro), Manuel Correia da Silva, Luís Pereira de Paiva Pita, Alípio Carvalho, Aníbal Duarte de Vasconcelos, Alípio Lopes Flórido, António Joaquim Dias e Fernando da Assumpção.
Rodolfo Pedro da Silva

Em 1909 realizam-se as eleições para aquela Comissão, onde vamos encontrar nomes já conhecidos. Efectivos: José de Almeida Coimbra, José Alves de Oliveira Coimbra, Manuel Correia da Silva, Luís Pereira de Paiva Pita e Augusto Ferreira de Carvalho. Substitutos: dr. Alípio Barbosa Coimbra, dr. Rodolfo Pedro da Silva, José Pedro Henriques, Eduardo Pedro da Silva e Urbano Ferreira da Natividade.

Por sua vez, S. Pedro de Alva acabou por ser pioneira na criação dos Centros Republicanos a nível do concelho de Penacova. Em Junho de 1909 foi provisoriamente instalado o Centro Republicano naquela localidade. A inauguração oficial fora anunciada para o dia 1 de Agosto, coincidindo com a data do Comício. Da comissão instaladora faziam parte José de Almeida Coimbra, Eduardo Pedro da Silva (ambos cunhados de António José de Almeida), António Henriques da Fonseca Júnior, Francisco da Costa Gonçalves, José Maria Henriques, Joaquim Pereira Castanheira e Joaquim de Almeida Coimbra.

O novo Centro terá sido instalado num antigo edifício pertencente à família de António José de Almeida (onde hoje existe o Talho Abranches). Joaquim António Madeira ofereceu ''um belo quadro da República'', um outro com o ''notável Manifesto do Partido Republicano'' e ainda outro com os ''retratos dos deputados Republicanos''. Também foram oferecidos livros para a biblioteca por António Joaquim dos Santos, António dos Santos e José Madeira Marques. Este ofereceu, entre outras obras, Cartas Políticas de João Chagas e Pró-Pátria de Homem Cristo.

O Centro Republicano de S. Pedro de Alva irá, nos tempos mais próximos, exercer a sua acção política, cultural e cívica. Nesse sentido, achamos particularmente significativo o facto de Eduardo Pedro da Silva ter, em Outubro de 1909, apresentado uma moção, que foi aprovada por unanimidade, contra o assassinato de Francisco Ferrer[4], considerando aquele acto como ''o maior crime do século XX''. Em Abril de 1910 o Centro procedeu à escolha do delegado[5] ao 11.º Congresso do Partido Republicano Português que iria decorrer no Porto nos dias 29 e 30. Foi eleito, por unanimidade, António dos Santos Henriques, residente naquela cidade.[6]
José de Almeida Coimbra

As adesões sucedem-se. Angariadas por João António de Almeida, irmão de António José de Almeida e presidente da Comissão Paroquial Republicana de Paradela da Cortiça, temos: José Henriques Castanheira, comerciante e regedor, Joaquim Henriques Castanheira, proprietário, José Lourenço Rodrigues, barbeiro, José Neves Pinhão, carpinteiro, Joaquim Ferreira, serrador, António das Neves Carvalho, proprietário, todos de Paradela, e ainda Abel Mateus, da Cova do Barro.

Em Penacova, o Centro Democrático António José de Almeida, situado na Avenida 5 de Outubro,  só será inaugurado oficialmente já depois da queda da monarquia, no dia 1 de Dezembro de 1910. Discursou o Dr. Daniel Silva e foi descerrado um retrato de António José de Almeida (pintura a óleo) oferecido por Leonel Lopes Serra. O jantar de confraternização teve lugar ''no hotel da Sr.ª Altina Amaral.'' Foi também inaugurado neste dia, o sistema de iluminação pública a ''acetylene'', o que levou o Jornal de Penacova a reconhecer que ''com vagar embora, o progresso” ia “penetrando na nossa terra."
 . David Almeida
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Bibliografia:
ALMEIDA, David - Penacova e a República na Imprensa Local. Penacova: Câmara Municipal de Penacova, 2011.



[1] Muito provavelmente, ocupava o edifício onde funciona hoje a Escola Beira-Aguieira. Edifício que, segundo fotografias de 1909, já tinha a estrutura actual.
[2] Pedro Henriques & Cª, empresa que era detentora de uma fábrica de conservas e se dedicava também à indústria de palitos. Representou o distrito de Coimbra na Expo 1908, no Rio de Janeiro, conquistando medalhas de ouro e prata, pela qualidade dos seus produtos: palitos e azeite.
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[3] Irmão de António José de Almeida, bem como de João António de Almeida, que também consta da lista.
[4] Francisco Ferrer i Guardia, republicano catalão,  foi o fundador de um movimento de pedagogia libertária que deu origem à Escola Moderna. Os aspectos educacionais que defendia foram considerados "perigosos" para a aceitação social da autoridade e, em 1909, Francisco Ferrer foi preso na Catalunha, Espanha. Depois de julgado por um Conselho de Guerra foi executado em 13 de Outubro de 1909 na Fortaleza de Montjuich.
[5] Em 25 de Abril de 1910.
[6] Cfr. Jornal de Penacova, 30 de Abril de 1910.           

sábado, 7 de setembro de 2019

Algumas notas sobre a Barca (Serrana) no Mondego


Desde tempos muito recuados que o rio Mondego serviu de via de comunicação do litoral para o interior beirão. Romanos, Mouros, Normandos estabeleceram circuitos de navegação ao longo do maior rio português, atingindo a região de Coimbra e cerca de cinquenta quilómetros a montante até à foz do rio Dão. O leito era então muito mais profundo do que actualmente. Até Coimbra chegavam a vir caravelas e outras embarcações vocacionadas para o mar. Nos séculos XV e XVI ainda aportavam pequenos navios nos cais da cidade onde se desenvolvia alguma indústria de construção naval. 

Entretanto, o progressivo assoreamento do rio veio alterar a paisagem ribeirinha. Principalmente no período de estiagem a navegação começou a ser muito difícil. As embarcações de carena deram lugar a barcos de fundo chato, mais adaptados às novas características do rio. O casco sem saliências facilitava a navegação em águas pouco profundas. 

As primeiras referências escritas às barcas aparecem no Foral de Coimbra (1516). Também se encontram alusões ao “mestre barqueiro ou arraes” a quem, a partir do século XVII passou a ser exigida uma carta. 

O tráfego fluvial com ritmos intensos manteve-se até meados do século XIX, verificando-se a partir daí uma progressiva decadência para um século depois se extinguir quase por completo. Foi já no século XX que a designação de Barca Serrana passou a ser utilizada. 

Como sabemos, as barcas transportavam, em direcção a Coimbra e à Figueira da Foz, lenha, madeira, carvão, carqueja, telha, pipas de vinho, produtos agrícolas e também pessoas. Com destino ao interior, circulava o peixe, o sal, o sal e peças de louça. 

As barcas serranas tinham com dimensões muito variadas, podendo ir dos 10 metros até ao máximo de 22 de comprimento. Existiram barcas que permitiam uma carga de cerca de 15 toneladas, com vantagens de rentabilidade económica mas ao mesmo tempo com dificuldades acrescidas de manobra em épocas de cheia e na atracagem. 

Um excelente trabalho sobre estas embarcações típicas do Mondego foi publicado em 2005 pela Câmara Municipal. O livro, da autoria do Arquitecto Fernando Simões Dias intitula-se precisamente “Ó da barca! “ e tem como subtítulo “Memória da Barca Serrana do Mondego”. 
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segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Penacova na Exposição Distrital de 1869: cento e cinquenta anos depois


De 2 a 31 de Julho de 1869 realizou-se em Coimbra a Exposição Distrital de Indústria Agrícola e Fabril e de Arqueologia, organizada pela Associação dos Artistas de Coimbra.

O concelho de Penacova também se fez representar. Na época, era Administrador concelhio o Dr. Joaquim Correia d’Almeida. Este, num ofício dirigido à organização,  comunica a intenção de disponibilizar para a mesma “o foral original”, com uma encadernação antiquíssima,  concedido por D. Manuel,  e um “exemplar do desenho das armas da Câmara". Mas a representação de Penacova não se ficou por aí. Há notícia de muitos outros objectos e produtos agro-florestais e minerais ali apresentados.

Esteve exposto mármore da pedreira de Sazes e “Cal em Pedra”, proveniente do forno de Manuel dos Santos Laço, de Sernelha. Refere o catálogo da exposição, que os fornos de cal do concelho de Penacova eram “muito superiores aos de Coimbra."

De referir também um “tinto de mesa comum de 1868, com força alcoólica de 13, 1”, um “branco de mesa comum” do mesmo ano, com uma graduação de 14,4 e uma “aguardente baixa” com graduação de 16,5.

Azeitona, azeite, cereais (trigo, milho, centeio, cevada), feijão, linho, tremoços, grão de bico, ervilhas, batatas e nozes foram outros tantos produtos apresentados naquele certame.

De Lorvão estiveram patentes amostras de “palitos para os dentes” cedidas por Emídio Maria da Fonseca. António Maria Seabra d’Albuquerque expõs um conjunto de pratos “que a tradição” dizia terem pertencido às “Infantas D. Sancha e D. Teresa”, agora na posse do Marquês de Sousa Holstein.

Especial destaque na exposição mereceram os seguintes produtos de Penacova: uma cesta, conjuntos de varas de castanho, amostras de palitos, amostras de  "pau" de castanho e de pinheiro, de cortiça, de carqueja e também de palha de milho (bandeira, folha e capa).  

A "cesta redonda" fora executada por José Joaquim Carvalho. Utilizava-se a “vara de castanho dos soitos  de talhadia (aproveitamento dos rebentos). Muitas pessoas do concelho se ocupavam na indústria da cestaria. As cestas eram vendidas em Coimbra e noutras localidades da região. As varas de castanho (cortadas de quatro em quatro anos) também expostas, traduziam a existência de muitos soitos no nosso concelho. Além da utilização no fabrico dos cestos entravam na produção de arcos de diversas vasilhas e serviam também para varejar a azeitona e para uso dos “carreiros” com as suas juntas de bois.

Os palitos para os dentes não podiam faltar. Haviam sido premiados na exposição internacional de Paris (1855). No entanto, refere-se no citado relatório que naquele momento se encontrava em decadência aquela indústria, que era “boa” mas podia ser “óptima”, se não fosse” a fraude de alguns paliteiros que a desacreditaram no país e no estrangeiro.” No fabrico dos palitos empregava-se a “vergôntea de salgueiro branco e choupo de dois anos”.

O “pau” de castanho era abundante e era aproveitado para fabricar vasilhas para vinho e na construção de casas. Quanto ao pinheiro “foi este concelho um dos mais abundantes” nesta madeira, mas à data, a “boa madeira” estava quase esgotada, devido à construção de novas casas e de barcas. Também a exportação de madeiras e de lenhas para Lisboa e “para fora” gerara a sua escassez.


A indústria da cortiça dava trabalho a muita gente. Era extraída não só no concelho mas também a grandes distâncias. Era transportada para a “borda do rio”, onde era preparada e daí enviada para o Porto da Figueira nas barcas serranas.

A apresentação de amostras de carqueja poderia parecer de pouca importância. Pelo contrário. Recorde-se que o concelho de Penacova era o principal fornecedor da carqueja e lenha que se consumia nos fornos e nas casas da cidade de Coimbra.

A palha de milho também ocupava um lugar de relevo na economia do concelho. Dizia-se que era aqui que se aproveitavam melhor as palhas do milho. Tirava-se primeiro a “bandeira”, de seguida “desfolhava-se” e ficava apenas a espiga na capa. No final da maturação as espigas eram conduzidas para as eiras onde eram “escamisadas” e deixadas a secar. A “capa” era um “óptimo alimento para o gado e para outras aplicações”.

Através da consulta do catálogo/relatório desta exposição é possível recolher alguns elementos caracterizadores da vida social e económica do nosso concelho (e de todo o distrito de Coimbra) na década de sessenta do século XIX.

A  primeira exposição internacional em Portugal fora em 1865. Teve lugar no Porto, onde, à semelhança do que sucedera em Londres em 1851, se erigiu também, propositadamente, um «Palácio de Cristal». Quatro anos passados sobre a data da realização do nosso primeiro certame internacional da indústria, a Associação dos Artistas de Coimbra, impulsionada por Olímpio Nicolau Rui Fernandes, como acima referido,  realizou  com assinalável sucesso esta  exposição de âmbito distrital, onde o nosso concelho ombreou com os restantes do distrito de Coimbra.

domingo, 25 de agosto de 2019

Para a história do Reconquinho


Desde 2013 que a Praia Fluvial do Reconquinho ostenta dois dos maiores galardões atribuídos às praias fluviais: Bandeira Azul e Praia Acessível. 

O Reconquinho, que integra o Roteiro do Arista, dispõe de óptimas condições de lazer e diversão: bar, apoios de praia, fluvioteca e centro de Trail Running Carlos Sá. Neste Verão foi (apesar de com um ano de atraso) noticiado o facto de o canal National Geographic ter considerado o Reconquinho como uma das nove praias fluviais mais bonitas de Portugal. Em 2016 uma das candidaturas ao Orçamento Participativo (apresentada por Maria Esmeralda Cruz) propunha a criação de Piscinas Flutuantes no local. 

A praia fluvial do Reconquinho, enquanto estrutura municipal, tem já uma longa história. Em 1964 noticiava a imprensa local que já se encontrava “a funcionar a praia do Reconquinho no rio Mondego”, onde todos os dias se vinha notando grande movimento “por parte de aristas” que iam “até ali dar o seu passeio, tomar o seu banho ou dar uma voltinha de barco.” Em 1970 é feita referência ao Parque de Campismo, à Escola de Natação  e â Praia Fluvial como sendo iniciativas da Sociedade de Progresso de Penacova com o apoio da Câmara Municipal. No ano seguinte, no Notícias de Penacova,  falava-se “de muitos milhares de pessoas de todas as classes sociais” que aí afluíam e reconhecia-se o potencial turístico do local, na medida em que se revelava como “um dos bons cartazes propagandísticos de Penacova e um bom fulcro de incentivação ao turismo na região.” 

O parque de Campismo de Penacova , em 1975,  junto á Praia Fluvial do Reconquinho 

Em Novembro de 1976, noticiou-se que a praia fluvial iria, no ano seguinte, “sofrer beneficiações” que passariam por terraplanagem, melhoramento dos acessos, colocação de mais passadeiras e “novas barracas”, bem como construção de instalações sanitárias. 

A vida do rio teve, durante séculos, uma grande importância para as populações dando origem a muitas lendas e narrativas, entre elas “As Bruxas do Reconquinho”. Está referida na obra “Portugal Lendário – Tesouro da Tradição Popular”, de José Viale Moutinho. Também no jornal “Nova Esperança” (1987) o pintor João Martins da Costa nos deixou um excelente reconto desta narrativa (reveja aqui). Segundo a tradição, “certa noite enluarada, as bruxas pegaram uma barca do Reconquinho e foram de abalada até à India.” 

Em 2008 a Unidade de Acompanhamento e Coordenação (UAC) dinamizou uma Feira à Moda Antiga com animação de rua subordinada ao tema “As bruxas do Reconquinho vão à India”. Com o dinamismo que o teatro começa a ter no nosso concelho, quem sabe, um dia possamos assistir no Reconquinho a uma representação encenada desta tão curiosa lenda. Fica a sugestão. 




quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Pintores relacionados com Penacova no museu do Chiado


Um dos núcleos do Museu Municipal de Coimbra é o Edifício Chiado que alberga a Coleção Telo de Morais, uma coleção de Arte que integra pintura portuguesa (séculos. XIX e 1ª metade do séc. XX), mobiliário, cerâmica, escultura, pratas e outros objetos artísticos de carácter decorativo. Aqui podemos ver alguns quadros de pintores que deixaram marca em Penacova, designadamente:

João Martins da Costa (1921-2005), filho de penacovenses, José da Costa e Cacilda Martins. O seu avô materno era industrial de latoaria em Penacova e o paterno, Abílio Costa, era proprietário de um trem que servia de diligência entre Coimbra e Penacova. Formou-se em Pintura na Escola Superior de Belas Artes do Porto. São obras de Martins da Costa que foram Pintura em Penacova e de Penacova: "Penacova – A Ponte" (1945); "O Vale do Mondego" (1982); "Outono na Serra – Penacova" (1984); "Caminhos Paralelos", no Mirante" (1991); "A Persiana – Penacova " (1991); Nuvens sobre o Vale de Penacova I e II" (1945).

José Tagarro (1902-1931), natural do Cartaxo e amigo do pintor Waldemar da Costa, visitou várias vezes no concelho de Penacova, a povoação de Gavinhos, instalando-se em casa de uma tia daquele pintor. Em 2002 a Associação Cultural "Pulsar" do Cartaxo promoveu uma vinda a Gavinhos de um grupo de cerca de 50 pessoas.

José Campas de Sousa Ferreira (1888-1971). Foi autor de vários quadros relacionados com o concelho: "Mirante Emídio da Silva", "Paliteira e Tricana", "Trecho do Mondego", "Entre Penacova e Rebordosa". A Câmara Municipal possui um quadro deste pintor, representando o Mirante, oferecido por Emídio da Silva em 1916.


TRABALHOS DE MARTINS DA COSTA

TRBALHOS DE JOSÉ TAGARRO

TRABALHO DE JOSÉ CAMPAS






sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Impressões de uma viagem a Chelo, Lorvão e Paradela em 1914

[A Firma Barbosa, Fernandes & C.ª,  o Mosteiro de Lorvão e o Prof. Manuel Joaquim da Silva]


O Mosteiro de Lorvão em 1910

Envolto no escuro humedecido do ambiente pesado, Chelo de Penacova adejava-nos, hospitaleiro, com os braços abertos. Foi aí que pudemos tomar conhecimento do estado adiantado da nossa indústria paliteira. A Firma «Barbosa, Fernandes & C.ª" cumulando-nos de gentilezas e satisfazendo-nos as importunas curiosidades, não duvidou patentear-nos os seus aperfeiçoados mecanismos para a confecção das caixas em que apresenta, no mercado, todo o stock de palitos entrado nos seus armazéns.
Como outrora em Roma e ainda hoje nalgumas populações menos cultas, também em Chelo se prescinde, muitas vezes, da moeda para as transacções comerciais. Os palitos-moeda correm ali, entre comerciantes e consumidores, sem grande risco de falsificações. E tem largo curso no estrangeiro. . . 

A pensar em tudo isso, passámos nós momentos descuidados, como descuidada foi a noite, levada dum sono só. Nos tímpanos conservamos, ainda, os últimos sons da Portuguesa, executada com alma por um Zé Pereira de fama, á nossa chegada! Pareceu-nos que era a Portuguesa … 

Percorridos três quilómetros desde Penacova, surge-nos o velho convento «no meio de umas serras mui ásperas», — como diria Bernardo de Brito,— altivo, ainda, apesar dos séculos, com a sua cúpula altaneira e firme, desafiando o porvir com denodo e sobranceria. A sua fundação, em época não fixada exactamente, da qual o autor da Crónica de Cister, apenas, nos diz que o mosteiro é em sua fábrica antiquíssimo », não obstante pretender-se localiza-la na época do seu patrono. 

O convívio dos frades de S. Bento com os mouros tolerantes; o engrandecimento dos monges á custa da sua hábil política em detrimento dos mauritanos, apesar da brandura destes; a decadência moral dos opulentos beneditinos e a sua expulsão dali em 1200, pelo monarca D. Sancho I que entregou o convento a sua filha D. Tereza, rainha de Leão, onde ela professou segundo as regras da ordem de Cister; a transladação em 1715 dos restos mortais de D. Tereza e de sua irmã D. Sancha, fundadora do convento de Celas,canonizadas em 1705, para as urnas de prata que a abadessa do convento de Lorvão, D. Bernarda Teles de Menezes, mandara fazer ao artista portuense Manuel Carneiro da Silva; a extinção do convento, com a morte da sua última freira, no reinado de D. Luiz, e todos os vandalismos cometidos nos seus claustros, mobiliário e ornamentações — tudo isso nos parecia transpirar dos muros envelhecidos do grande monumento, recordando, quiçá com saudade, o seu esplendor, riqueza e vida dos tempos que passaram e não voltam. 

Entramos. E, devemos confessá-lo, experimentamos aqueles sentimentos de admiração e respeito que António Seco, no século passado, dizia serem comuns a quantos transpunham os limiares desse belo monumento. 

Ainda hoje, apesar dos estragos, inspira esses sentimentos. É toda uma preciosidade que o seu interior encerra, maravilhando os detalhes dos seus motivos decorativos. Lino de Assunção não duvidou escrever: «aspecto geral de grandiosidade, opulência, delicadeza e gosto”. 

O seu coro cadeiral, com graciosas talhas de efeito e duas ordens de artísticos assentos, está ao nível do pavimento da igreja, como, no dizer do autor de As Freiras de Lorvão, usavam os cistercienses, sendo separado da capela-mor por um gradeado de bronze, obra de subido valor feita, ao que parece, em 1784. 

Mas, tendo percorrido a única nave do templo, com o seu ar clássico de grandeza, pudemos saciar uma grande parte da nossa curiosidade, observando os seus retábulos e capitéis, os túmulos das filhas de D. Sancho I e os quadros agradáveis de Pascoal Parente, as suas particularidades interessantes e o seu conjunto admirável. 

Subidos 125 degraus que nos conduzem ao circuito da cúpula, descobrimos em volta os restos mutilados do claustro e outras dependências que a incúria, ou a barbárie, dos encarregados da sua conservação deixou vandalizar há uns 10 ou 15 anos. Belas pechinchas o compadrio ali minou. Mas, para que recordar isso cujo remédio é já impossível? Todavia, um facto existe ainda que não abona demasiado o amor pela arte — o estarem arrendadas algumas celas do convento donde irradia com abundância o fumo suficiente para inundar toda a nave do velho convento! 

Foi isso que todos íamos dizendo quando, com saudade, abandonávamos Lorvão e, pela tarde serena e desanuviada, nos dispusemos a fazer o percurso até Paradela. 

Aqui, noite caída já, encontrámos um espírito original, em múltiplos ramos de aptidão artística, alimentando todos os ócios da sua situação de professor aposentado em variados motivos de reconhecida utilidade. Com agrado passamos algumas horas admirando-lhe os recursos de verdadeiro artista. Instrumentos de corda, moveis domésticos, manifestações diversas de talha, assuntos mecânicos, etc., são os. entreténs favoritos do sr. Manuel Joaquim da Silva. 

Mas, ninguém se prestara, naqueles sítios, a manufacturar palitos, à nossa vista, com aquela rapidez e perfeição que se tornou proverbial. Era domingo, dia "de descanso”. Alguém, porem, segreda-nos de lado que, sendo um fraco distante, poderíamos no dia seguinte voltar a Lorvão para satisfazer a nossa curiosidade, pois que, com à maior fatalidade, deveríamos gostar. Era curioso o informador. Declinamos o convite depois de ter agradecido. E, fazendo-nos de abalada, lua clara e amiga seduzindo-nos lá de cima com o seu brilhar de languidez poética, regressámos à cidade das luzes onde nos esperava um sono reparador. A lição foi longa, mas proveitosa.

A. A. DA CAPELA E SILVA
In Gazeta de Coimbra, 1914


terça-feira, 6 de agosto de 2019

Faz hoje 100 anos António José de Almeida foi eleito Presidente da República

António José de Almeida em 5 de Outubro de 1919
Em 1919 procedeu-se a nova eleição para o cargo de Presidente da Republica, de acordo com a lei constitucional de 1911. Esta eleição realizou-se em 6 de Agosto de 1919, para o quatriénio de 1919-1923 em reunião do Congresso, em sessão especial das duas câmaras, Câmara dos Deputados e Câmara dos Senadores, 

A eleição resolveu-se por 3 escrutínios por listas, tendo servido de escrutinadores Alboim Inglês e Lima Duque. Lima Duque que, como sabemos, foi uma figura muito importante na política penacovense e era genro do Conselheiro Alípio Leitão. 

No 1.º escrutínio, verificou-se que António José de Almeida obteve 87 votos, seguido de Manuel Teixeira Gomes com 82 votos, Francisco de Azevedo e Silva com 1 voto, Afonso Costa com 3 votos, Duarte Leite com 1 voto, Correia Barreto com 1 voto, Magalhães Lima com 1 voto e 5 listas em branco. 

Decorrido o 2.º escrutínio verificou-se terem sido votados: António José de Almeida com 93 votos, seguido de Manuel Teixeira Gomes com 83 votos, António Teixeira Gomes com 1 voto e 2 listas em branco. 

Finalmente, realizado o 3.º escrutínio, António José de Almeida obteve 123 votos, seguido de Manuel Teixeira Gomes com 31 votos e 13 listas em branco, sendo declarado, pelo presidente do congresso, eleito para o cargo de Presidente da República o mais votado.

António José de Almeida, foi o primeiro e único Presidente da I República eleito que cumpriu o seu mandato por inteiro. Tomou posse em 5 de Outubro de 1919,




Lima Duque, estava ligado a Penacova pelo casamento (era genro de Alípio Leitão)

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Centro Interpretativo da Primeira República e Casa Museu em Vale da Vinha

João Paulo Avelãs Nunes, do CEIS20, apresentando as linhas embrionárias do projecto

No contexto da celebração do feriado municipal – 17 de Julho – foi apresentado, ainda em fase muito embrionária, na presença do Presidente da República, o projecto de criação de um Centro de Interpretação da I República e Núcleo Museológico em torno da figura de António José de Almeida.

De acordo com as palavras de  João Paulo Avelãs Nunes, do Centro de Estudos Interdisciplinares do Séc. XX (CEIS20), a quem coube a apresentação do projecto, o mesmo terá um carácter “transversal a diversas áreas” e pretende-se que seja “não instrumento de conflito mas, pelo contrário,  de consensualização de valores.” Terá uma vertente de formação cívica, “sem um discurso, uma mensagem ou moral pré-definida, mas com carácter aberto, facilitador do debate de ideias.”

O futuro Centro de Interpretação e Núcleo Museológico, a instalar em Vale da Vinha,  constará de um piso térreo, reservado para a instalação de valências técnicas e de um 2º piso, correspondendo ao espaço nobre da antiga casa. No entanto, não  teremos propriamente a reconstituição do espaço familiar, já que ele foi desaparecendo com a degradação do edifício. 
Edifício que vai ser recuperado para instalação do Centro Interpretativo / Casa Museu

Um dos primeiros núcleos de caracterização será a origem de António José de Almeida, a história familiar e local, a ligação à comunidade de origem. Contará  a história  de  António José de Almeida e de Portugal, desde o final do séc. XIX até aos anos trinta do século XX.

Um segundo espaço versará sobre  o início da actividade profissional de António José de Almeida que, neste caso, permitirá  uma ligação ao Império Colonial da época, com uma outra parcela da realidade portuguesa (S. Tomé).

Seguir-se-á  o período em que António José de Almeida foi um dos principais dirigentes do partido republicano, quer na fase de propaganda, quer na conquista do poder politico. A implantação da República, a fase de governação e o papel de António José de Almeida,  a desagregação da Primeira República, a sua substituição por outro tipo de serão outros aspectos a contemplar.

O investigador do CEIS 20 referiu que o Centro de Estudos fora também  convidado para, além deste projeto,  colaborar  noutros mais a criar na região: “uma espécie de rota de museologia em torno das questões políticas em Portugal  desde finais os séc. XIX até ao final do Estado Novo.”

Mais concretamente, núcleos museológicos ligados a personalidades marcantes: “em primeiro lugar, obviamente António José de Almeida, em Penacova;  em segundo lugar,  “não propriamente António de Oliveira Salazar,  mas um Centro de Interpretação  sobre o Estado Novo”, em Santa Comba Dão. Também no concelho de  Carregal do Sal, um Centro de Interpretação sobre o holocausto e Casa Museu Aristides de Sousa Mendes. Numa fase mais atrasada de negociação, Afonso Costa em Seia, irmãos Lacerda, no Caramulo e eventualmente um novo projeto em torno de escritores, incluindo Mortágua e outros locais.  

“Isto permite criar uma rede que pode ter várias entradas. Uma delas e a mais óbvia seria Coimbra não só por ser Património Mundial da UNESCO, mas também através do Portugal dos Pequenitos, um ícone da memória do Estado Novo.” – adiantou João Paulo Avelãs Nunes.

Este conjunto de projectos  envolve não  apenas as câmaras municipais mas também as comunidades intermunicipais. Além disso, “procurar-se-á  criar um Conselho Consultivo que representará  várias entidades, entre elas o Museu da Presidência, e será o garante da qualidade científica, e do rigor intelectual e ético.”

Projectos que implicam recuperação de património, atividade museológica, formação cívica, educação e  turismo: “Teremos não apenas a divulgação cultural e científica, mas também a turística. Em territórios de chamada baixa densidade podem ser uma estrutura muito positiva e significativa.” - afirmou Avelãs Nunes.





quarta-feira, 17 de julho de 2019

António José de Almeida “o maior estadista da Beira-Serra”

Registo de Baptismo de António José de Almeida


“Pelas nove horas da noite”- refere o registo de baptismo – do dia 17 do mês de Julho de 1866, no lugar de Vale da Vinha, freguesia de S. Pedro de Alva, nasceu António José de Almeida.  Frequentou o ensino primário na sede da freguesia – Farinha Podre - tendo como professor, João Gama Correia da Cunha, que o acompanhará ao longo da sua vida de estudante em Coimbra. Quando em 1890, António José de Almeida se encontrava preso por crime de abuso de liberdade de imprensa, na sequência do artigo “Bragança, o Último”, publicado na folha académica Ultimatum, João Gama escreveu no jornal conimbricense “A Oficina” uma carta em apoio do seu antigo pupilo onde dizia que havia muito a esperar da “ilustração e boa vontade” daquele “rapaz” pois ''homens como ele” não apareciam todos os dias.

Possivelmente, as primeiras influências republicanas dever-se-ão àquele professor das primeiras letras, que era republicano convicto, bem como a outras personalidades daquela freguesia. Não de seu pai, pois, José António de Almeida só aderiu ao Partido Republicano no dia em que o filho entrou na cadeia e quando já era presidente da Câmara de Penacova.

A par da militância republicana em Coimbra, António José de Almeida concluiu o curso de Medicina em 1895. Partiu para S. Tomé no ano seguinte, onde exerceu a profissão de médico.  Regressou a Lisboa em 1903 e ainda nesse ano iniciou  uma viagem de estudo que se estendeu até Março de 1904, passando por França, Itália, Suíça e Holanda.

Em 1906 integrou o Directório do Partido Republicano Português. Neste ano, foram  eleitos os primeiros deputados republicanos: António José de Almeida, Afonso Costa, Alexandre Braga e João de Menezes. Em 28 de Janeiro de 1908, na sequência de uma tentativa de golpe de Estado, foi preso, Em Abril desse ano o Partido Republicano conseguiu eleger sete membros para a Câmara dos Deputados, entre eles António José de Almeida. Em Abril do não seguinte , no congresso daquele partido e por indicação da Carbonária assumiu  a direcção civil do Comité Revolucionário.

António José de Almeida continuou a marcar presença em muitos dos comícios que se foram realizando por todo o país. Viseu no dia 8 de Março de 1908 e Tábua no ano seguinte. Também no dia 1 de Agosto de 1909 que a S. Pedro de Alva acorreram milhares de pessoas: 3000, segundo o Jornal de Penacova, 4000 de acordo com notícia de O Poiarense. Foi a primeira (e única vez)  que António José de Almeida discursou . No discurso que proferiu, fez questão de esclarecer que “veio falar à sua terra porque cá o chamaram.” Acentuou que não vinha “pedir nem votos, nem influências, nem importância” pois “nada precisava da República, como nada aceitava da Monarquia.” Vinha sim “junto dos homens da sua terra, para os ajudar a redimir e salvar”, apresentando-se como “um combatente que vem oferecer o seu braço, o seu cérebro e o seu esforço.” No mesmo dia foi inaugurado o Centro Republicano de S. Pedro de Alva. António José de Almeida, a dois meses do 5 de Outubro, reafirmou que era  preciso acabar com a ideia de que o Partido Republicano não tinha força, e que se impunha uma reação  ''não só pelas palavras mas também pelas armas.''


Proclamada a República, António José de Almeida integrou o Governo Provisório, assumindo a Pasta de Ministro do Interior, cargo que desempenhará até ao dia 3 de Setembro de 1911. Ainda neste ano, verifica-se a cisão do Partido Republicano. Democráticos (liderados por Afonso Costa), Evolucionistas (liderados por António José de Almeida) e Unionistas (liderados por Brito Camacho) irão, até 1919, ocupar o espectro político republicano.

Com a criação do Partido Evolucionista em 1913 a região das Beiras, que já não era indiferente a António José de Almeida, aderiu significativamente, em especial os concelhos pertencentes ao Círculo Eleitoral de Arganil (Arganil, Góis, Miranda do Corvo, Lousã, Oliveira do Hospital, Pampilhosa da Serra, Penacova, Poiares e Tábua).

A carreira política de António José de Almeida registará um novo capítulo em 1916. No contexto da I Guerra Mundial, assumirá as funções de Presidente do Ministério (Primeiro Ministro) (15 de Março de 1916)  e de Ministro das Colónias no Governo da “União Sagrada”, formado por Evolucionistas e por Democráticos.

Em 1919, foi eleito Presidente da República. Apesar de ter enfrentado um dos períodos “mais trágicos da República”, foi o único a cumprir, entre 1910 e 1926, integralmente os quatro anos de mandato presidencial. No período que vai de 5 de Outubro de 1919 a 5 de Outubro de 1923, António José de Almeida, além de muitos outros contratempos, terá que “lidar” com dezassete Governos e terá que enfrentar os trágicos acontecimentos da “noite sangrenta” de Outubro de 1921. No entanto, o sucesso da travessia aérea Lisboa-Rio de Janeiro e, pouco depois, o momento “glorioso” e “triunfal” da sua Visita Presidencial ao Brasil, nos finais do Verão de 1922, serão acontecimentos positivos que marcarão o seu mandato.

É todo este seu percurso que leva João Alves das Neves, eminente jornalista arganilense, a considerar António José de Almeida como “o maior estadista da Beira-Serra”.


Vitimado pela doença, morreu em Lisboa no dia 31 de Outubro de 1929, com 63 anos.
Em 5 de Outubro de 1976 foi inaugurado na vila de Penacova um busto em sua memória, obra escultórica do Mestre Cabral Antunes. Outro acto de homenagem foi a instituição do dia 17 de Julho como Feriado Municipal de Penacova, por deliberação da Assembleia Municipal (28 de Maio de 1976). E, em 1997, no dia 5 de Outubro, foi inaugurada uma estátua em S. Pedro de Alva, sede da freguesia da sua naturalidade.

David Almeida


domingo, 14 de julho de 2019

Penacova viu passar o comboio


Fotomontagem: quem sabe, a estação de Penacova teria sido semelhante a esta,
se o projecto tivesse avançado.

Os estudos foram realizados e na Câmara dos Deputados[1] o assunto foi exaustivamente discutido. Mas não passou do papel. Na época colocavam-se várias hipóteses para o traçado da Linha da Beira Alta: pelo sul do Mondego (Coimbra, Miranda do Corvo, Arganil, Seia, Celorico, Vilar Formoso) e a norte do mesmo rio. O traçado norte propunha três soluções quanto ao local de entroncamento com a linha do Norte: Coimbra, Pampilhosa ou Mogofores. Estas últimas não eram muito diferentes pois, a partir de Trezói, o traçado seria o mesmo. Já a primeira implicava um desenho completamente diferente.

Proposta por Boaventura José Vieira[2] em 1874, partia de Coimbra B, subia o Vale de Coselhas, passava entre o Tovim e Santo António e rumava na direcção das Torres do Mondego, percorrendo diversos túneis. Daí, contornando sempre a margem direita do Mondego, dirigia-se a Penacova, seguia para a zona da Foz do Dão e, pela margem esquerda do Dão, atingia Santa Comba. Esta proposta não foi avante, por diversos motivos, que não apenas financeiros.

As estações localizar-se-iam, além de Coimbra, em Penacova, Almaça e Santa Comba Dão. Seriam construídas nove  casas de guarda, de cinco em cinco  quilómetros. Imagine-se, pois, como a história económica e social de Penacova e a fisionomia do concelho seriam hoje muito diferentes. Teria o caminho de ferro feito concorrência à navegação comercial do Mondego? Ou, pelo contrário,  ficaria comprometida a viabilidade da exploração da linha férrea face ao transporte fluvial? Não sabemos, mas o certo é que o comboio acabou por vencer a embarcação. A  abertura da linha da Beira Alta em 1882 foi uma das causas que conduziram  à decadência do pujante movimento de pessoas e mercadorias, que assegurava  o intercâmbio da Beira Alta com Coimbra e  Figueira da Foz.

Já deixámos as Torres e as ribeiras de Valbom, Silveira e Caneiro para trás. Pontes, viadutos, obedecendo às voltas e voltas que o rio impõe. Ao Km 17, na Ribeira da Peneirada, surge-nos um túnel de 600 metros. Já um outro, a seguir à Ribeira de Lorvão, tem apenas 100. E atingimos Penacova, ao Km 22. Aqui, mais dois túneis. Um de 60 metros e outro, por baixo da vila, com 190 metros. Agora, um viaduto sobre o Vale das Laranjeiras. Para transpor a massa quartzítica de “Entre Penedos” foi necessário construir grandes muros de suporte e cortes de 12 a 15 metros na rocha. O comboio avança na direcção da Raiva. Ao Km 25, mais um viaduto de 30 metros e na Raiva um túnel com 250 metros para passar  à encosta de Gondelim. Outros viadutos sobre a Ribeira de Gondelim e do Penso, para chegar ao Cunhedo, ao km 31.

Foge a luz do dia ao entrar no túnel do Cunhedo. São 225 metros debaixo da terra. Segue-se um viaduto, de 150 metros de extensão e 20 de alto,  que nos leva à estação de Almaça. Gentes de S. Pedro de Alva e Mortágua apanham aqui o comboio. Vale de Porcas, mais um viaduto. Do lado de lá do túnel irá aparecer o vale do Dão. Mais pontes, mais viadutos, mais túneis. Agora, na margem esquerda do Dão, há que transpor cinco viadutos, alguns com 35 m de alto, para chegar a Santa Comba. Contámos as curvas de Coimbra até aqui: 75, o que corresponde a 49% do percurso. Viadutos: 22, com média de altura de 31 metros. Pontes: 15 (mais duas para passagens inferiores). Em 45 quilómetros!

Voltemos ao séc. XXI. Não admira, pois, que se tenha abandonado esta solução, podemos pensar. Mas, feitas as comparações, por exemplo entre a proposta Mogofores e a proposta Vale do Mondego, conclui-se que só quanto aos viadutos aquela leva vantagem. O trajecto por Penacova implicaria 10 túneis, com 2300 metros. Mas, argumentou-se na Câmara dos Deputados, que era preferível  abrir dez pequenos túneis do que um túnel de 1840 metros, com maiores custos de construção e exploração. O traçado pelos Vales do Mondego e Dão implicava 19 pontes. O de Mogofores, 25. Outro argumento esgrimido foi o facto de no Vale do Mondego, o rio ser “um grande auxílio” pois, “todos os materiais de construção podem ser levados de barco” a todos os pontos do trajecto. O custo total da obra (Coimbra-Penacova-Santa Comba)  estava orçado em 2 556 712$620 réis.

 A construção da Linha da Beira Alta *, de Pampilhosa a Vilar Formoso,  foi iniciada em Outubro de 1878 e concluída em Junho de 1882. A sua inauguração ocorreu em 3 de Agosto de 1882, com a presença do rei D. Luís e da Família Real que fez a viagem Figueira da Foz-Vilar Formoso.

E Penacova ficou a ver passar...



[1] Veja-se, por exemplo, a intervenção de António José Teixeira, em Março de 1875.
[2] Coronel Boaventura José Vieira – Militar; Político; Deputado; Governador Civil de Viana do Castelo; Vogal da Junta Consultiva de Obras Públicas e Minas; Engenheiro responsável pela construção das Linhas Ferroviárias do Algarve, do Minho e do Douro – nasceu em Ponte de Lima, em 8 de Novembro de 1825, e morreu em 9 de Agosto de 1887. Engenheiro responsável pela construção das Linhas do Algarve, do Minho e do Douro.
*Manuel Emídio da Silva (1858-1936), técnico ferroviário, trabalhou na Companhia.dos Caminhos de Ferro da Beira Alta e noutras.  Mais tarde , foi presidente do Conselho de Administração da Companhia de Caminhos de Ferro Portugueses. Publicista com vasta colaboração jornalística no «Diário de Notícias». Foi Presidente da Direcção do Jardim Zoológico (1911-36).