sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

A Lenda dos Três Rios









Muitas das compilações existentes sobre lendas portuguesas a referem, atribuindo-a à tradição oral da zona de Pombeiro da Beira, mas muito raramente é feita referência à versão do Visconde Sanches de Frias na monografia sobre aquela localidade publicada em 1896.


“Mondego, Alva e Zêzere, nascidos da mesma mãe, serpeando pelas vertentes da serra da Estrela, em santa irmandade, amigos e camaradas, viviam tranquilos e alegres, mirando-se cada qual na limpidez das suas águas, e escondendo-se nas gargantas, furnas e sorvedoiros da gigantesca serra. Umas tardes, já quase à boca da noite, envolveram-se em azeda conversa, porque se arrogaram valentias, ao que parece prometeram romper as prisões, que os detinham, trovejaram rivalidades, e acabaram por desafiar-se para uma corrida vertiginosa, cuja meta seria o corpo enormíssimo do mar. O primeiro, que lá esbarrasse...
- Qual dos três saberia melhormente o caminho? — Qual desenvolveria maior tafularia e força? — Quem seria o primeiro a oferecer as suas águas dulcíssimas às salsas águas do mar?
Era o que ia ver-se.
O Mondego, astuto, forte e madrugador, levantou-se cedo, e começou a correr brandamente, para não fazer barulho e não levantar suspeitas, é de crer, desde as vizinhanças da Guarda nos territórios de Celorico, Gouveia, Manteigas, Canas de Senhorim, e dirigiu se, depois de se ter robustecido com a ajuda de colegas, que vieram cumprimentá-lo, à Raiva, na direcção de Coimbra, depois de ter atravessado ofegante as duas Beiras. O Zêzere, que também estava alerta, entrou de mover-se ao mesmo tempo que o Mondego, ocultando-se até certa distância nas anfractuosidades do seu leito penhascoso; foi direito propriamente a Manteigas, onde perdeu de vista o colega, passou também nos terrenos da Guarda, correu para o Fundão, desnorteou, obliquando para Pedrogão Grande; e finalmente, depois de ter atravessado três províncias, deu consigo em Constância, na Estremadura, abraçando-se ao Tejo, a que ofereceu as suas águas, já cansado de caminhar umas 40 léguas e desesperançado de alcançar o mar.

O Alva, dorminhoco e poeta, embora esses atributos não sejam sinónimos, entreteve-se a contemplar as estrelas, mais do que era prudente, adormeceu confiado no seu génio insofrido e nervoso; e, quando despontou, alto dia, estremunhado, em sobressalto, avistou os colegas a correr sobre distâncias a perder de vista. Um desastre, não havia que ver! uma imprevidência, que era forçoso remediar. O Alva atirou consigo de roldão pelos campos fora, rasgou furiosamente montanhas e rochedos, galgou despenhadeiros, bradou vingança temerosa, rugiu ; e, quando julgou que estava a dois passos do triunfo, foi esbarrar com o seu principal antagonista, o Mondego, que lá ia, havia horas, campos de Coimbra fora, em cata da Figueira, onde se lançaria jubiloso no seio volumoso do Oceano, ao ganhar a porfiada contenda.
O Alva esbravejou, como atleta sanhudo, atirou-se ao adversário, a ver se o lançava fora do leito, espumou de raiva; mas... o outro, que deslizava sereno e forte, riu-se, e engoliu-o de um trago.
Ao lugar da contenda e foz do Alva chamou-se propositadamente Raiva, em memória da sua atitude raivosa e do caso tremebundo.”
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FRIAS, David Correia Sanches de; VASCONCELOS, Carolina Michaelis de; VASCONCELOS, Joaquim de - Pombeiro da Beira: memória histórica, descritiva e crítica. Lisboa: Tip.de João Romano Torres, 1896


quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Memórias da Beira Serra: gravuras do boletim “A Acção Regional” 1931-1934




De 1931 a 1934 publicou-se em Lisboa um boletim trimestral que tinha como título “A Acção Regional”. Dirigido por José Maria Dias Ferrão, assumia-se como órgão do Grémio Regionalista da Comarca de Arganil. Esta publicação teve a particularidade de apresentar um número significativo de fotografias de lugares e de actividades das gentes da região da Beira Serra com destaque para Arganil mas, abrangendo também Tábua, Vila Nova de Poiares, Pampilhosa da Serra, Oliveira do Hospital e Penacova.  
Seleccionámos algumas delas. Muitas dizem respeito à freguesia de S. Pedro de Alva. Destacaríamos a que retrata o Vimieiro e a que regista uma festa da catequese naquela vila. Também as do Preventório de Penacova (boletim de Outubro de 1934) se revestem de algum interesse. Todas as restantes apresentam também uma ou outra particularidade que, no nosso entender, justifica o seu resgate e a nossa análise e apreciação crítica.

































sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Quando na Raiva se juntavam trinta e seis barcas serranas e duzentos carros de bois ...

Pintura de Joana Santana
Em 1954, no jornal “Notícias de Penacova”, o Padre Manuel Marques (que assinava Manuel do Freixo) publicou na crónica “Casos & Coisas” um artigo sobre o Porto da Raiva

Referindo-se aos tempos áureos deste “notável entreposto”, recorda-nos que “ali chegavam os carros de bois carregadinhos de milho da Beira" , milho que ali se vendia "todas as quintas-feiras, num mercado que esses carros abasteciam juntamente com compridas comboiadas de barcos de feijão, sal, fazendas, mercearias” e outros produtos.

Nesses tempos [até finais do século XIX] “todo o concelho de Penacova afluía ao mercado da Raiva, principalmente para a compra de cereais” e os armazéns, já em 1954 em ruínas, “enchiam-se de tudo o que crescia dum mercado e que esperava ali o mercado da semana seguinte.”

CAPELA DE NOSSA SENHORA DA BOA VIAGEM (2019)
Refere o Padre Manuel Marques que “no dizer dos velhos” com quem conversou, chegavam a juntar-se ali “duzentos carros de bois e trinta e seis barcas grandes carregadas de sal e outros produtos”.

Curiosa é também a origem da Capela da Boa Viagem. Escreve aquele cronista: “Quando lá em cima, junto da capelinha da Senhora da Boa Viagem olhei para o rio, e quando da estrada, para cá da Raiva, disse o meu adeus à branca ermidinha da Senhora, compreendi então a razão por que os barqueiros da há cem ou duzentos anos ali foram construir aquele padrão da sua fé cristã, expressão da sua devoção a Nossa Senhora da Boa Viagem, fora do lugar, na encosta do monte: era pela mesma razão por que os barqueiros da freguesia de Penacova, queriam, por mais tempo, contemplar e saudar de longe, a Senhora da Guia como um farol a brilhar no Monte do Castelo, do Castelo de Penacova.”

Notícias de Penacova (1954)

PORTO DA RAIVA (2019)
PORTO DA RAIVA NA ACTUALIDADE
Foto:
 http://estradanacional2chavesfaro.blogspot.com/2012/02/en-2-1-etapa-chaves-peso-da-regua.html

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

O Porto da Raiva na segunda metade do século XIX

PORTO DA RAIVA
FOTO: SITE DO MUNICÌPIO DE PENACOVA

São frequentes as referências ao Porto da Raiva, geralmente associadas ao estudo da navegação comercial do Mondego. Também na literatura de viagens e de costumes podemos encontrar alguns relatos, muitas vezes pitorescos, de viagens ao longo do curso navegável do Mondego. 

“A região de Penacova e a Navegação Comercial no Mondego – Subsídios para a História da Navegação”, da autoria da penacovense Maria Adelina de Jesus Nogueira Seco, bem como "Ó da Barca!... Memória da Barca Serrana do Mondego”, do Arq. Fernando Simões Dias, serão duas das principais obras que conhecemos sobre esta temática. Outros estudos têm sido feitos. Podíamos referir o extenso artigo de Edgar Lameiras “Contributo para o estudo da navegação comercial e dos sistemas primitivos de transporte e carga do Mondego a montante de Coimbra”, publicado na volume nº 6 da Revista Antropologia Portuguesa (1988), a partir do qual o Município de Penacova elaborou para o seu “site” o apontamento “Porto da Raiva e Barca Serrana”. 

Em 1911, Augusto d’Oliveira Cardoso Fonseca publicou “Outros Tempos ou Velharias de Coimbra - 1850 a 1880”. Nesse livro com cerca de duzentas páginas encontramos uma interessante descrição de uma viagem entre o Porto da Raiva e Coimbra, onde nos aparecem referências não só ao ambiente da viagem, mas também aos lugares por onde o barco ia passando durante aquele percurso.

A páginas tantas podemos ler: 

“(…) Preferiam as famílias de Coimbra fazer essa viagem [Coimbra-Figueira] pelo rio, para o que havia sempre abundância de barcos que vinham da Foz Dão ou da Raiva [1], assim como do próximo lugar das Torres, e que nos meses próprios se ocupavam unicamente no transporte de famílias. 

Os barcos eram de fundo raso; e, à ré, costumavam os barqueiros formar um amplo toldo, que construíam com um encerado sobre arcos de salgueiro. Era sob esse toldo que qualquer família se instalava, sendo o resto do barco destinado á arrumação de baús com roupa, loiças, etc. Os colchões eram sempre colocados sob o toldo, não só para não se enxovalharem, mas também porque, sucedendo às vezes, a viagem levar quase dois dias, serviam para cama dos passageiros.” 

E mais adiante o relato de uma viagem em 1875 de Coimbra até Cerdeira (Arganil), pela estrada da Beira com regresso pela via fluvial a partir da Raiva: 

“No quarto dia regressámos a Coja, e daqui, seguimos o anterior itinerário até à Catraia dos Poços, donde, deixando a estrada que vai para Coimbra, tomámos o ramal da direita, que vai até à Raiva, porto de embarque na margem esquerda do Mondego e fronteiro à vila de Penacova. 

A povoação da Raiva é pequena, mas o seu porto muito movimentado, por ser nele que se faz o embarque dos diversos géneros que de vários concelhos da Beira para ali são conduzidos e depois transportados, em barcos, para Coimbra e outras povoações até à Figueira da Foz. 

Por isso a maior parte de seus habitantes são barqueiros, entregando-se outros ao comércio de cereais e de sal, de que aí têm depósitos, para embarcarem por conta própria.” 

À semelhança do que hoje acontece nas descidas de canoa, as paisagens ribeirinhas deslumbravam os viajantes, em especial no trecho Penacova-Coimbra. 

“Havia muito que desejávamos fazer esta viagem da Raiva a Coimbra, pelo Mondego, e dessa vez assim fizemos, do que não nos arrependemos. É uma viagem esplêndida, cujos variados panoramas nos deleitam. 

Aqui, navega-se entre penedias que orlam as margens do rio, mais adiante flanqueado de encostas cobertas de viçosas oliveiras, e que, depois de passar a Cabeça de Frade [2], segue por entre ínsuas fertilíssimas. 

Nesta viagem de rio tivemos por companheiro o padre Manuel da Benfeita, o qual com sua ama Maria Correia ia para a Figueira da Foz. Quem vai para o mar aparelha-se em terra, diz o velho ditado; — pois quem, pelo rio, vai da Raiva à Figueira da Foz, faz outro tanto. Assim pensava o padre Manuel, e não fazia mal, porque essa viagem durava, pelo menos, umas vinte horas, em consequência do Mondego, nos meses de Verão, ter pontos, em que, pela pouca água, se torna quase inavegável.”
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 [1] “A Raiva é um pequeno lugarejo, com porto de embarque e desembarque, situado na margem esquerda do rio Mondego, fronteira á vila de Penacova. A população da Raiva compõe-se exclusivamente de barqueiros e negociantes de sal.”
[2]  "Este penedo que fica na margem esquerda do Mondego, a meia légua da foz do rio Ceira, seu afluente, é conhecido por Cabeça de Frade, por ser escalvado e em forma d'um crânio colossal."
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FONTES: 

  • Augusto Oliveira Cardoso Fonseca, “Outros tempos ou velharias de Coimbra - 1850 a 1880” 
Livraria Tabuense, Lisboa. 1911 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Apontamentos para a história da Pérgola no centenário da sua construção


No início do século XX, a Sociedade de Propaganda de Portugal inscreveu Penacova no conjunto das 17 localidades portuguesas dignas de serem visitadas. O triângulo Coimbra-Penacova-Luso/Bussaco foi, nos primórdios do turismo no nosso país, um dos circuitos mais divulgados por aquela Sociedade. A conclusão da estrada que liga Penacova ao Luso, a "estrada dos Emídios", assim designada porque à história da sua construção ficaram ligados quer Emídio Navarro, quer Emídio da Silva, permitiu que a Penacova afluíssem muitos mais visitantes. Na época, a Câmara de Penacova, "em testemunho do reconhecimento, resolveu colocar na sala nobre dos Paços do Concelho os retratos daqueles dois beneméritos".

Sobre a relação de Emídio da Silva com Penacova, o Diário de Notícias viria a escrever que “em matéria de turismo deve-lhe ainda, por exemplo, a vila de Penacova, uma das mais pitorescas do país, larga campanha em seu favor. Em troca, a um mirante que ali se erigiu e de onde se descortina sobre o Mondego uma paisagem deliciosa, deu a vila o nome de Manuel Emídio da Silva. Dos "Emídios" se chama também a estrada que liga os vértices Luso-Penacova-Coimbra, do chamado triângulo turístico do centro do país, em louvor popular do seu nome e de Emídio Navarro, o primeiro que deu fundos para a sua construção."
A Sociedade de Propaganda de Portugal, também conhecida por Touring Club de Portugal, foi fundada em 1906. Tinha como objectivo geral colocar o país no “mapa de turismo do mundo”, tal como acontecia noutros países, pela propaganda e pela promoção do mapa excursionista português. Na sequência da participação desta Sociedade, quer no II Congresso de Turismo (San Sebastian, 1909) quer no III Congresso (Toulouse, 1910) - onde apresentaram comunicações Manuel Emídio da Silva e Luiz Fernandes – coube-lhe a responsabilidade da organização do IV Congresso (Lisboa, 1911).
A Comissão de Honra foi presidida por António José de Almeida, Ministro do Interior, incluindo também o ministro das Finanças, José Relvas, e o ministro do Fomento, Brito Camacho. Por sua vez, a Comissão Organizadora tinha como presidente Bernardino Machado, ministro dos Negócios Estrangeiros. Nesta comissão, enquanto secretário‑geral, vamos encontrar Manuel Emídio da Silva, presidente do Conselho de Administração da Companhia de Caminhos de Ferro Portugueses. Como secretários, figuraram José Lino Júnior, engenheiro, irmão do arquiteto Raul Lino e diretor do Automóvel Club de Portugal, Alfredo da Cunha, diretor do jornal Diário de Notícias, Fernando Emídio da Silva (filho de Emídio da Silva) diretor da Sociedade de Propaganda de Portugal e Luiz Fernandes, vice‑presidente de secção de Hotéis da Sociedade de Propaganda de Portugal. Recorde-se que estas personalidades tinham estado em 1908 na inauguração do Mirante. José Lino Júnior e Luiz Fernandes voltarão a Penacova em Julho de 1918 para apreciar o andamento das obras de construção da Pérgola.(1)
Sede da SPP em  Lisboa (Rua Garrett)
Reconhecendo Penacova como “região caracteristicamente de turismo pelas belezas naturais que encaixilham o Mondego e pelos horizontes que do largo da povoação se desfrutam”, a SPP decidiu mandar construir na vila uma Pérgola (ou latada). Refere o Relatório de 1916 que aquela Sociedade,  pelos motivos enunciados e por “constituir um centro de turismo de certa importância”, decidira “aformosear o largo” com a construção de uma Pérgola projectada pelo “distinto arquitecto Raul Lino”. É, ainda, aquele documento que revela o custo da obra: 500 escudos.
Entretanto Luiz Duarte Sereno, passara a ser o representante daquela associação em Penacova. Em Março de 1917, este Juiz penacovense (que chegou, mais tarde, a ser Governador Civil) em entrevista ao Jornal de Penacova  deu conta do andamento do projecto. Apesar de ter sublinhado que o custo da obra se devia à Sociedade de Propaganda de Portugal, fez questão de realçar “a mais dedicada cooperação” por parte da Câmara. Na ocasião, anunciou para início do mês de Abril o arranque das obras e apontou o dia 31 de Maio para a inauguração, conforme seria desejo de Emídio da Silva. Note-se que nesse dia se assinalariam 10 anos da inauguração do Mirante.
Este calendário não se cumpriu e as obras só acabariam por ser concluídas em Dezembro de 1918. Entretanto, em Julho desse ano, tinham vindo a Penacova apreciar os trabalhos, José Lino Júnior e Luiz Fernandes e outras pessoas da capital.
Sobre a relação de Emídio da Silva com Penacova, é o próprio que, mais tarde, escreverá numa carta dirigida ao director do jornal recentemente criado “Notícias de Penacova” (10 de Setembro de 1931) o seguinte:
“Há um quarto de século que venho a Penacova e desde o primeiro dia tenho sido um entusiástico propagandista das belezas pitorescas desta linda vila. A minha propaganda não tem sido, porém, tão desinteressada como muita gente crê, pois sou pago de cada vez que volto aqui pelo deslumbramento desta sublime paisagem que me inebria de prazer espiritual! … E sou ainda generosamente gratificado pelo acolhimento carinhoso e pelas distinções que ao mesmo tempo recebo dos Penacovenses entre os quais logrei criar amizades certas e duradouras."
É também aquele jornal que recorda que Emídio da Silva, “vindo a esta vila de passagem para visitar o Convento de Lorvão, [acompanhado por Augusto Simões de Castro] ficou de tal maneira extasiado com as paisagens de Penacova que poucos dias depois iniciava no Diário de Notícias uma intensíssima propaganda em favor delas. Por influência sua, incluiu a Sociedade de Propaganda de Portugal a vila de Penacova no número das terras do país que mereciam ser visitadas."
É de salientar que Raúl Lino pertencia ao círculo de pessoas ligadas à Sociedade de Propaganda de Portugal. A título de exemplo, a revista Ocidente (Abril de 1910) dá conta de uma “soirée de récita e baile” em casa de Alfredo da Cunha, onde foi apresentada, entre outras, uma peça de teatro escrita e representada por Raúl Lino. Terá sido nesse contexto que aquele arquitecto estivera já na inauguração do Mirante em 1908. O Diário de Notícias de 31 de Maio daquele ano noticia o acontecimento com grande destaque. No artigo “Festejos em Penacova” podemos ler que “a convite do Sr. Presidente da Câmara Municipal, o dr. José Albino Ferreira (…) partiram ontem para ali muitas pessoas de Lisboa e Coimbra, que vão assistir à inauguração do belveder (…). Entre essas pessoas de Lisboa, que ontem ali chegaram, figuram os Srs. Raúl Lino e esposa D. Alda dos Santos Lino (…) “.
Assim se compreenderá melhor a marca deixada por Raúl Lino em Penacova, que não se terá limitado à Pérgola. Sabemos que também a lápide do Penedo do Castro foi por ele desenhada, mas consta que a vivenda mandada construir por Joaquim Correia de Almeida Leitão, na Cova do Barro, terá tido também a mão daquele famoso arquitecto.
Junto à Pérgola existe uma placa [colocada numa parede que na época não existia, pois o actual edifício da Câmara é muito posterior] com os seguintes dizeres: “Esta ramada delineada pelo arquitecto Raul Lino, de Lisboa, foi mandada construir pela Sociedade de Propaganda de Portugal e oferecida pela mesma ao povo de Penacova a quem é confiada a sua guarda e conservação – Ano MCMXVIII”.

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(1) O dicionário Porto Editora regista o termo pérgula, mas não traz pérgola. Diz que pérgula vem «do latim pergula-, "varanda exterior"», tratando-se de «espécie de passeio com cobertura em forma de ramada decorativa» ou «terraço coberto». O dicionário eletrónico Houaiss acolhe a palavra pérgola, embora nos remeta para pérgula, o que significa que este é o termo preferível; e considera que é uma «espécie de galeria coberta de barrotes espacejados assentados em pilares, geralmente guarnecida de trepadeiras». Também o dicionário on-line Priberam admite como sinónimo geral o termo pérgola.

Fontes: Jornal de Penacova, Notícias de Penacova e Blogue PenacovaOnline
Consultámos também o trabalho de Seminário “Largo Alberto Leitão em Penacova – a Pérgula Raúl Lino e o Busto de António José de Almeida” elaborado por Alda Celeste Frias Morgado Santos (Fac. Letras UC-2009)

domingo, 4 de novembro de 2018

Penacova na pintura de Eugénio Moreira


Penacova - Vista do Rio Mondego
1905
De acordo com Abel Salazar, Eugénio Moreira foi um dos maiores paisagistas portugueses. Penacova ocupou um importante lugar no conjunto das suas obras. Fernando Ferrão Moreira, seu sobrinho, escreveu que Eugénio Moreira se "empenhou no estudo da paisagem e dos tipos portugueses, principalmente o vale de Penacova” e que “foi nessas terras do Mondego onde mais demoradamente se deteve". 

"Ferreirinha "
retrato a óleo 73 x 93
Museu Nacional Soares dos Reis
“Ferreirinha-Tricana de Penacova” é um dos quadros emblemáticos deste pintor. Em 1902 esta obra já esteve presente na exposição da Sociedade Nacional de Belas Artes, ombreando com os trabalhos de muitos outros pintores. Uma referência curiosa: nesta exposição o quadro esteve à venda por quinhentos mil réis, o que na época e em comparação com quadros de outros pintores de renome já era uma importância avultada. “Vale da Ribeira de Penacova no Outono” e “Luar no Mondego, Penacova” foram outras das obras expostas. 

Auto-retrato [Eugénio Moreira]
Museu Soares dos Reis
O retrato “Ferreirinha”, ficamos a saber, com as dimensões 73x93, tornou-se famoso e é hoje pertença do Museu Nacional Soares dos Reis. Este museu possui ainda um auto-retrato inacabado, bem como a segunda das suas obras mais elogiadas (a par da “Ferreirinha”) a paisagem “Vale de Penacova”, considerada a sua obra prima. Este quadro, esteve patente na Grande Exposição do Norte de Portugal de 1933 e na 1.ª Exposição de Arte Retrospectiva (1880-1933) da Sociedade Nacional de Belas Artes em 1937; o retrato “Ferreirinha” foi também exposto em Lisboa, em 1937. 

A propósito do retrato da “tricana de Penacova” e referindo-se ao testemunho da paisagem envolvente, as casas, os montes graníticos “que, para lá dos elevados cumes, fazem adivinhar os planos que se sucedem, escreveu Ferrão Moreira que aquela “perspectiva magnífica” nos dá “numa profundidade que permite aos nossos olhos atravessar o vale, depois de passar o rio, penetrar na pequena aldeia e subir as encostas cheias de socalcos e pinheiros, onde leves sombras, são dadas pelos reflexos das pequenas nuvens que passam." Refere também a "harmonia cromática” da paisagem, “que pouco ultrapassa o castanho, o azul e o verde” e forma um “ conjunto directo e harmónico, favorecido por uma subtil luz fluídica que abrange céu e terra". 

Eugénio Moreira, na sua vida um pouco errante, deteve-se algum tempo por Penacova. Em 1907, por ocasião do primeiro aniversário da morte prematura do Conselheiro Artur Ubaldo Correia Leitão, a Câmara deliberou colocar o seu retrato na Sala de Sessões. Na acta respectiva diz-se que o retrato "fora feito a óleo pelo notável pintor Eugénio Moreira, residente nesta Vila". Um parentesis: que paradeiro terá tido este quadro, exposto em 1907 no salão da Câmara (onde mais tarde foi instalado o Tribunal)?

Catálogo  SNBA 1902
Eugénio Moreira nasceu no Porto em 1871. Frequentou a Escola Médico Cirúrgica daquela cidade e a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Aqui, conviveu com o grupo da Boémia Nova, mantendo relações de amizade com os escritores portuenses António Nobre, Alberto de Oliveira  e, em especial, com Agostinho de Campos. Regressou ao Porto sem ter concluído o curso, matriculando-se na Academia Portuense de Belas Artes. Porém, não chegou a diplomar-se. Viveu alguns anos em Paris, onde foi discípulo de Jean Paul Laurens e de Benjamin Constant e recebeu influências de pintores dos movimentos impressionista, fauvista e Nabis. Visitou museus e templos italianos, registando as suas impressões em guias de viagem. De regresso a Portugal, estudou paisagem e figuras portuguesas. Percorreu o Minho, em especial a zona de Vila Praia de Âncora, e o Vale de Penacova. Morreu em Fevereiro de 1913, com 42 anos de idade, vítima de doença mental.


"Vale de Penacova"
Museu Soares dos Reis

Quadro de Eugénio Moreira 1906
Coleção Particular [Penacova]
Autógrafo do quadro acima