sábado, 20 de agosto de 2016

Umas Férias em Penacova (III): as grutas da Riba de Cima

Temos vindo a publicar excertos de um conjunto de crónicas que em 1857 Alves Mendes publicou no jornal O Conimbricense. Já em Outubro de 2013, neste blogue, fizemos referência a um desses textos que relata a visita a umas grutas existentes a cerca de uma légua da vila. Apesar de, na altura, Alves Mendes andar apenas pelos vinte anos, a leitura dos seus escritos,  -neste caso, “Umas Férias em Penacova” - não deixa de nos surpreender. Magníficas descrições do ambiente natural de Penacova, profundas reflexões sobre a Vida e o Universo, apontamentos históricos sobre locais emblemáticos da vila, o palácio dos Duques de Cadaval, a capela de S. Pedro que nunca foi concluída dando lugar em 1783 à da Sra da Guia, o presumível casamento de Vasco da Gama nesta vila… um nunca mais acabar de curiosas e pertinentes revelações. De tudo isso iremos dando conta. Falaremos, por exemplo,  da estreita relação de Alves Mendes com Camilo Castelo Branco, na fase final da vida daquele escritor...
Por hoje convidamos os leitores a revisitar as “galerias subterrâneas”  da Riba de Cima.


VIsta da Riba de Cima (Penacova Online, 2013)
(...) Longos anos havia que com grande pasmo e admiração ouvia falar numas galerias subterrâneas a uma légua em distância de minha pátria (estão junto à Riba de Cima, lugar que ainda fica nos limites da freguesia de Penacova) sem que o desejo me excitasse a verificar a verdade de tão apregoada narração. Tinha por fabulosa esta crença a que via pasmosamente entregue o vulgo ignorante, escutando friamente novas bocas que centenares de vezes repetiam o mesmo conto, até que por fim, tamanha foi a impressão em mim causada pelo seu entusiasmo, que me resolvi ir visitar esta localidade.
Dispostos alguns companheiros (o Reverendo José d’Almeida Coimbra e Lemos e os Srs. Francisco José Mendes e António Pimentel de Sande) que me seguissem, convencionamos ser a visita da manhã, devendo partir logo ao romper da aurora para fugirmos aos ardores da crescença do dia.
Assim foi. Já o sol esplêndido e radioso se erguia majestosamente no horizonte e o frio orvalho tinha desaparecido da verdejante folhagem das plantas, quando nos achávamos a pequena distância do sítio que demandáramos. A estrada, apesar de escabrosa e áspera e sepultada no fundo de duas altas montanhas, era contudo menos penosa pelo contínuo refresco das árvores que a copavam e pela agradável melodia das aves que por todo a parte nos seguiam.
Tudo nos sensibilizava, tudo nos comovia, tudo nos extasiava: a preciosidade que procurávamos tinha escapado da nossa lembrança com a presença deleitosa do delicioso vale que trilhávamos. Por fim acabou e só ao longe divisávamos sumidamente uma colina de encantadora posição. Diante de nós se desenrolava uma planície descoberta e ilimitada onde os raios do sol dardejavam fortemente sobre nossas cabeças; porém o seu calor era modificado pela fresca brisa que suavemente enxugava o suor que nos regava as frontes.
Caminhámos, caminhámos por esta viçosa chã, até que avizinhámos um formoso oiteirinho juncado de verdes arbustos. Era o termo da nossa viagem e o lugar da nossa pretensão. Trepámos então por uma pequena vereda que, segundo o conselho de um venerando que encontrámos, nos dava direcção para a entrada do subterrâneo.
Na verdade, assim sucedeu: em breve deparámos com uma profunda cova, cercada por um lado duma agigantada penedia, que no sopé apresentava uma abertura pouco mais de dois palmos de largura e em direcção perpendicular. Eis aí a entrada das galerias (se assim dizê-lo posso) – exclamaram os companheiros. Eu tomado de susto hesitei logo em atravessar tão estreita garganta e estive quase prestes a abandoná-los, que impacientes me excitavam a empreender semelhante passagem.
No meio destes colóquios, que de nada aproveitavam, um deles se levanta com um semblante grave e corajoso e em tom alto e expressivo assim fala: Ânimo! Ânimo!... Ao ouvir estas palavras doces e penetrantes, em mim se produziu nova alegria e novo brio: minha juventude e minhas forças não me permitiram fraqueza: desapareceu de repente aquele receio que me ouriçava os cabelos e coalhava o sangue nas veias, e levantando-me com coragem e valor me arremeço impetuosamente à boca da profunda caverna e comigo os meus companheiros.
Com efeito depois de uma longa e aturada dificuldade com que tivemos de lutar passando através da rocha por uma cavidade que a custo nos podia abranger, chegámos à majestosa entrada do subterrâneo. A espessa escuridão que continuadamente aí reina, era aumentada com a rápida passagem que fizemos da claridade do dia. Foi-nos então forçoso o recorrer à luz de algumas velas que com antecedência havíamos levado. Apenas estas horrorosas trevas foram substituídas pelo clarão sepulcral de nossos círios, oh! que belo contraste era ver uma espaçosa sala eternamente habitada por um jamais interrompido silêncio!
Depois dos primeiros lances de olhos sobre tão mágica e curiosa cena, entregues às mais fortes comoções nos dirigíamos como magneticamente atraídos a uma pequena altura levantada no meio deste aposento, para daí com mais exactidão e liberdade contemplarmos a magnífica abóbada, que à luz ainda que pálida de nossas velas, soltava sobre todo o pavimento um tão forte clarão, que como os raios abrasadores do meio-dia deslumbrava fortemente a nossa vista. Era na realidade aquele um dos melhores momentos que havíamos passado no mundo! O pasmo em que estávamos não nos podia deixar com precisão fazer o analítico exame que mais impressionaria o nosso entusiasmo. Conservávamo-nos hirtos e calados, e só os olhos correndo velozes por todo o recinto, mutuamente indicavam o prazer interno de cada um.
Pelo meio de tão precioso esmalte passam alguns veios de pedra de cor diversa da do assento e que com toda a graça e simetria dividem em gomos a vasta extensão da abóbada e que estão por tal modo brincados com lavores, que mais parecem ter merecido a atenção do delicado cinzel do escultor.Fomos então pouco a pouco caminhando junto das soberbas colunas embutidas nas pedras laterais que sustentam a grandiosa massa da abóbada, e fazendo uns aos outros reflexões sobre tão rara obra da natureza. A parte superior da sala,(se assim se pode chamar) que com as paredes colaterais perfazem uma só pedra, é dum assento geralmente branco como o puro cristal. Por toda a superfície da abóbada se acham em certa e determinada distância acanudados fios, nascentes da mesma pedra, no meio das quais aparecem delicadas estrelinhas, que com as sumidades cheias de água de que se conjectura serem formados, apresentavam aos raios flagrantes de nossas luzes uma vista maravilhosa.
Já nas paredes laterais se não divisa o mesmo bordado da coberta superior, mas (coisa pasmosa!) embutidos por entre as colunas, donde nascem as inarcadas fachas de pedra, que simetricamente dispostas dividem toda a extensa cobertura, se encontram formados pela natureza diversos lavores em grandes e pequenas pedras, que tem semelhança com alguns dos membros humanos! Eu mesmo toquei com meus dedos uma cara e um braço – que pela sua exactidão me causaram o maior espanto!
Mas ainda isto não é tudo: de espaço a espaço saem alguns bocados de uma pedra que sem ofenderem a perspectiva geral, nem tão pouco encobrirem o delicado da renda derramada por toda a superfície donde estão aderentes, dão pelo contrário ao observador um considerável aspecto; e ainda mais excitam a atenção pela rara saliência de tangerem com qualquer movimento, e apresentarem um timbre como o do mais fino metal!
Desprendidos os olhos de tão cuidadoso exame, com que minuciosamente analisávamos cada uma das particularidades encontradas num sítio eternamente deserto e desamparado, de repente vimos dois arcos de elegante delicadeza formados de pedra lavada e transparente, nos dois lados da parede e em oposta posição. Moveu-nos logo a curiosidade de os demandarmos, a fim de examinarmos se por ventura dariam comunicação para algum vácuo, em que tivéssemos de admirar o mesmo embelezamento do da sala em que estávamos.
Com efeito não nos desmentiram. Depois que entramos aquele, cuja perspectiva vasta e altíssima perfazia o adorno mais rico e sublime, e que se achava logo imediato à nossa direita, não sabíamos em que fitar a atenção: ela não ficou logo cativa na contemplação daquele todo, mas errante por aqui e ali era já empregada  na variedade das brilhantes cores, já no maravilhoso efeito que faziam as diversas rendas engraçadamente estendidas nas paredes e abóbadas. Ainda ali havia a descortinar um horizonte mais vasto do que o do grandioso painel que acabávamos de visitar.
A acção da natureza excitada pouco a pouco pela mão do tempo, tinha feito diluir o exterior da lisa pedra que servia de remate àquela abóbada, e assim os raios do sol dando de encontro com a pedra fina e transparente, introduziam dentro um clarão basso e sepulcral, que reflectindo misteriosamente sobre todo o aposento, tornava aos olhos do expectador os objectos quase distintos.
Enfim, aí se encontrava a mesma sublime simplicidade que vínhamos de observar e nem a pedra é de diferente natureza, mas em tudo idêntica, apresentando assim os mesmos primores de ornato. O outro conduzia a um esquisito vácuo, onde apenas se encontra uma pedra encostada, e como que servindo de sustentáculo a uma colossal penedia que sobre ela repousava; mas que apenas mostrava um grosseiro adorno.
A beleza porém de tão magnífico subterrâneo está de dia para dia em considerável diminuição, devida sem dúvida à dolorosa incúria e desleixo em que se acha.
Lamento com amargor as grandes mutilações que aí se acham, determinadamente feitas, e que desfiguram essencialmente uma obra tão rara na natureza. Por toda a parte se vêem rendas de pedra quebradas violentamente a martelo, e colunas de que só restam simples fragmentos que ainda indicam a sua primitiva elegância. Quanto se aproveitaria com a proibição de semelhante abuso!
Tal é a traços largos a descrição do subterrâneo que tão vivamente impressionava os ânimos dos povos circunvizinhos, descrição que a nós não pertencia, mas a pena que mais enérgica do que a nossa a fizesse com mais graça e extensão, e que só a triste recordação de até hoje jazer no esquecimento nos comoveu apresentá-la."
Penacova, 17 de Setembro de 1857
António Alves Mendes da Silva Ribeiro


terça-feira, 16 de agosto de 2016

Umas férias em Penacova (II): meditações de Alves Mendes

Publicámos há dias o excerto de uma crónica de Alves Mendes onde este grande vulto da cultura nacional nos falava de Penacova, da Quinta de Carrazedos e de todo o ambiente que a circunda.
O texto de hoje, mais centrado na reflexão filosófica, confirma aquilo que dissemos na postagem anterior: a sua propensão para o questionamento filosófico-teológico que viria a fazer dele um dos maiores Oradores Sagrados, reconhecido pelas mais altas instâncias culturais, literárias, políticas e sociais da segunda metade do século XIX. Um nome penacovense porventura muito mal conhecido na sua própria pátria, termo que utilizava para se referir à sua Penacova.

(…) Era numa dessas manhãs deestio, quando a natureza, adornada de todos os seus esmaltes encantadores, convidou a minha alma triste e melancólica à sua insondável contemplação.
Apenas o relógio da minha pátria [Penacova] acabava de bater com som pousado as três da manhã, já um variado e nobre canto do rouxinol ressoava majestosamente pela janela entreaberta do meu quarto. Acordei a esta melodia e um invencível impulso me agitou a aplicar-lhe mais de perto o ouvido. Oh! Misteriosa cena era a visão do firmamento! Já não era o gorjeio do rouxinol que me prendia a atenção: cousa mais nobre e sublime comovia o meu pensar.
Saio repentinamente e vou ver se, no silêncio melancólico da aurora que ia despontando,  encontro com que saciar um não sei quê de prodigioso que me embriagava os seios indecifráveis da alma.
O ar estava límpido e sereno: as estrelas raras e desmaiadas ainda esmaltavam o azul firmamento-e a lua quase a esconder na imensa superfície do oceano acabava de lançar os seus pálidos raios sobre as sombras da natureza. Toda enfim, toda essa fábrica grandiosa do universo dava o meu espírito lugar para a meditação.
Deus! Grande Deus! (dizia eu a sós comigo) concede-me que fite os olhos n’essa massa extraordinária, obra admirável do teu poder!
Deixa-me percorrer com espanto por todos esses mundos que giram no grande espaço! Deixa-me admirar a tua omnipotência!...
Mas...não, não quero tanto...assaz me contento com a terra que me sustenta! Essa só será objecto de meus pensamentos!
Terra, oh terra?! Mas que, nada fala! Tudo é silêncio, tudo mistério!...cinco horas não tem passado depois que me rodeavam tantos mortais, mas agora, agora nada vejo! Os vales, que me circundam estão sepultados no sono da eternidade, e só serras e mais serras orlam com toda a graça o oriente...
Então só eu vivo? Só eu existo?!...
Oh! sim eu! Quem sou eu! Mísero pó animado! Ludíbrio de minhas próprias reflexões! Reflicto sobre mim e que acho?! Acho sombras, acho sei que...Mas não, ainda outra vez, não sou eu só que povoo o universo, não sou eu só que existo, não...não...Este silêncio acaba, esta tranquilidade vai em pouco ter fim...os enfraquecidos membros do agrícola ainda não estão alentados: mas que disse? Pois só o agrícola vive? Não, de certo, não...
E o filósofo, o comerciante, e o...Ah! a maior parte destes estão velando certamente... esta é a hora empregada pelo sábio na meditação no seio do gabinete.... Oh! quantos, quantos estarão neste momento decifrando problemas, aprofundando mistérios, e formulando leis capazes de reger o mundo inteiro?! Quantos oh! Quantos se estarão entretendo à luz moribunda do candeeiro em pensar talvez no mesmo, do que me ocupo? Quantos oh! E quantos entregues a loucos divertimentos, a prazeres estúpidos e insípidos estarão desprezando as graças do Eterno, ou, não direi tanto, um sono seguro e tranquilo?!
Em fim é mundo! Tudo forma um contraste...uns pensam, outros dormem, uns riem, outros choram, uns mendigam outros enriquecem, uns se pervertem, outros louvam o criador...!
Então, uma vez só, para que vive o homem? Para que vivo eu? Para que existe o universo?...
Ah! Meditação, meditação, e nunca acaba a meditação...Existe o homem, existe o universo! Existe quem medite, existe em que meditar... (…)
António Alves Mendes, 1857



terça-feira, 9 de agosto de 2016

Umas férias em Penacova: um texto de Alves Mendes com cerca de 160 anos



Quinta de Carrazedos, não como Alves Mendes a viu
há 160 anos, mas segundo um cartaz recente
Com apenas 19 anos, o futuro Cónego da Sé do Porto, eminente Orador Sagrado e Arcediago de Oliveira, António Alves Mendes da Silva Ribeiro (Penacova, 1838 - Porto, 1904) publicou num jornal de Coimbra um conjunto de crónicas a que chamou “Umas Férias em Penacova” dedicadas ao “amigo A. M. C. de Bastos Pina”, que seria um dos irmãos do futuro Bispo de Coimbra, Manuel de Bastos Pina. Nestas crónicas, a par da descrição da sua “Pátria” [Penacova], Alves Mendes tece algumas reflexões metafísicas, que prenunciam já a alta craveira eclesiástica e a grande projecção nacional que este penacovense haveria de atingir.
Por hoje, prometendo voltar ao assunto,  deixamos aos nossos leitores um excerto dos referidos escritos. Um retrato da Quinta de Carrazedos, emoldurado pelas paisagens de Penacova. Estamos em 1857.

(...) Ainda os rosados dedos da aurora não tinham aberto as portas do oriente, quando me achava passeando numa formosa colina , donde com toda a graça e exactidão avistava por entre as espessas e formosas oliveiras que as circundam as elevadas sumidades de seus edifícios. Sentei-me então sobre a relva juncada de mimosas flores que, com seu delicado odor,  incensavam toda aquela vasta paisagem.
Não se via aí mais do que uma simplicidade rústica e natural, capaz de fazer atrair o encanto do génio mais indiferente: não se notava naquele ponto o precioso do ouro e da prata, a rareza dos mármores e diamantes e o encantador dos quadros e pinturas: nada mais havia do que uma natural singeleza; um aposento talhado em rocha viva, por tal forma, que excedia o maior apuro da arte humana. Uma, enfim,  quase que gruta, a quem uma abóbada de interlaçadas e tenras vides forrava com seus ramos flexiveis.
Os brandos zefiros conservavam aí - contra os ardores do sol, que explêndido e radioso se erguia magestosamente - uma frescura deliciosa; e inumeráveis levadas giravam com suave murmúrio por entre o milho que com uma folhagem do verde mais vivo tornava o prado de cintilante luzir, sendo este tanto mais vistoso quanto claro e puro era o cristal derramado por toda a superfície.
Numa palavra, flores de considerável estima e rareza, e de paízes os mais remotos, destilavam o mais delicado de todos os aromas, tornando com suas cores diversas o esmalte mais precioso que haver pode. Vizinho e em não interrompida continuação havia um pomar de copadas laranjeiras que com seus pomos de oiro faziam à luz do sol uma vista tal que a pena jamais pode descrever. Parecia ele estar coroando toda aquela campina que no píncaro apresentava uma casa encascada por tal forma com soberbos limoeiros que parecia uma só árvore. Não se ouvia aí mais do que o gorgeio variado dos rouxinóis e o ruído dum fresco regato que a grossos e rápidos borbotões corria pelo meio de tão bela paisagem.
Do meu assento no encosto da colina(1) se avistava o Mondego, que já quase moribundo, corria a passos lentos jaspeado como o cristal por entre os gigantescos álamos, já no vigor da sua força se arrostava contra as rochas que me serviam de sustentáculo e bramia com horrível estrondo. Também daí se divisavam em solta cortina duas grandes serranias, que parecendo querer furar o azul da abóbada etérea, davam a meus olhos um lindo horizonte. As encostas vizinhas estavam juncadas de verdes pâmpanos, donde outrora (!) a uva mais lustrosa do que o ouro encurvava com graça as parras que as sustinham, e por fim, o olivedo que cerca a minha pátria tornava este país da  mais graciosa contemplação. (...)

(1)    É denominada esta bela extensão de terra Carrazedos, que sem dúvida estando no meio de um monte árido e pedregoso, onde apenas por entre as rochas se encontram pobres pastagens de que o gado se mantém, é contudo uma das paisagens mais férteis de Penacova. Observa-se no cimo desta chantada uma sombria floresta de monstruosos carvalhos donde em grossos jorros saem levadas da água mais límpida e fresca que vão regar todo o terreno até às margens do Mondego. Também há em 2000 passos em distância desta, uma fonte de água férrea, que presentemente é bem concorrida. É notabilíssimo este ponto pela sanguinolenta batalha que pouco mais ou menos pelos anos de 1104 a 1105 houve entre os habitantes da vila e os monges de Lorvão. Foi ela tão cruenta que (diz a tradição) o sangue das vítimas lavou toda a superfície da colina(...)

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

CARTAS BRASILEIRAS: Jogo: pingar os is e cortar os tês



A expressão vem lá dos bancos escolares. Não só essa.  Quem sabe, fará lembrá-los da recomendação da professora do começo da andança escolar. Por exemplo:
- Quero parágrafo de pelo menos 2 dedos!    
Para os pedagogos da época não era coação, era dever. Nada tão claro, regra era regra.
Já hoje, a correção não é o melhor dos mundos. A razão: a ação professoral pode constranger o aluno. É voz corrente: qual o problema quando nos deparamos com a vogal magra e de poucas curvas despojada da pequena bola sobre ela? Ou, que erro há caso vejamos a 20ª do ABCD sem o caco formando a cruz?
- Se o aluno compreender, não pare o andor! É dez! Parabéns!
É verdade, o velho conselho pode ser empregado em mundo fora da sala de aula, como quando clamamos pelo zelo aos pormenores, para esclarecer algo, ou quando não queremos nada obscuro.  
Alguma luz?  Ou o obscuro sou eu! Esclareço, essa conversa mole, esse lero-lero, é um jogo. Mesmo não querendo confusão ou encrenca, não fujo da querela. Faço uma ponderação, ou melhor, peço: olhos bem abertos nas nuances.
Com a solução nas mãos, não me condenem, nem me chamem de abusado. Convenhamos, um esforço descomunal. E não é para menos, a cabeça ordena, e por compulsão, os dedos querem palavras com a vogal e com a não vogal que desdenho apenas para escapar da velha regra, querendo provocá-los.       
E para quê, se ao cabo, não mereço nada além de um ah! nossa! verdade!
Pura bobagem. Melhor acabar com o tititi, pondo fim à escolha inútil de palavras somente com “a”, “e” “o” e “u” e sem “t”. Quero mais é pingar deliciosamente os “is” e cortar gostosamente os “tês”, como em tatibitate.     

P.T.Juvenal Santos – ptjsantos@bol.com.br
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NR: Imagem da responsabilidade do Penacovaonline  

           


segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Foi há 107 anos: Comício Republicano juntou em S. Pedro de Alva cerca de 3000 pessoas

Imagem de um dos muitos comícios republicanos que
de Norte a Sul antecederam a Revolução de 5 de Outubro
O Centro Republicano de S. Pedro de Alva (com direcção provisória, presidida por José de Almeida Coimbra, promoveu a realização de um Comício nesta localidade na tarde do dia 1 de Agosto de 1909. Foi precedido da publicação de um  Manifesto no Jornal de Penacova  de 24 de Julho, onde se criticavam os ''caciques e galopias servidores da monarquia'' que, em Penacova,  ''por todos os modos e processos, os mais vergonhosos e desonestos” vinham “ entravado a marcha do ideal republicano''.
Aquele periódico local, na sua edição de 31 de Julho,  escreve: ''Um comício republicano em S. Pedro de Alva! Quem pensava em tal há três ou quatro anos?'' Nesses tempos – prossegue o jornal – ''os republicanos contavam-se pelos dedos. Se mais havia, e havia com certeza, fechavam as suas ideias a sete chaves, não fossem elas passar do domínio das suas consciências.''
Referindo-se “ao bom povo desta região”, lembra que “já muito poucos se arreceiam de dizer alto e bom som as suas ideias, sem que pese e barafuste o progressismo e o franquismo indígenas''. 
A tribuna, em forma de pavilhão, foi montada ''num terreno particular, junto ao lugar onde se costuma realizar a feira dos bois''. O acontecimento foi abrilhantado pela Filarmónica de Vale de Remígio (Mortágua) e animado com o estralejar de foguetes.
Começa por discursar o Dr. Fernandes Costa. De seguida, usa da palavra o Dr. Feio Terenas, e o dr. Alfredo de Magalhães. Vindo de Coimbra,''o jovem propagandista democrático'', José Cardoso, antecede a intervenção de António José de Almeida, louvando a iniciativa da realização do  Comício e da  criação do Centro Republicano.
António José de Almeida proferiu um ''belo e empolgante discurso'' – na opinião do Jornal de Penacova. Esclarecendo a sua posição naquele comício, disse: “O orador veio falar à sua terra porque cá o chamaram. Não vem pedir nem votos, nem influências, nem importância. Nada precisa da República, como nada aceita da Monarquia. Vem junto dos homens da sua terra para os ajudar a redimir e salvar. Não é um galopim que venha pedir votos, é um combatente que vem oferecer o seu braço, o seu cérebro e o seu esforço. Para ele, a sua terra natal é muito, mas a pátria é mais, porque é tudo.”  
Na sua intervenção, falou da ''miséria do concelho, sem estradas, sem escolas, sem hospitais, cheio de fome e varado de miséria, sob a pressão implacável dos caciques, que transformaram esta fecunda região num feudo quasi maldito''.

Para  o local haviam sido destacadas tropas de Coimbra. Pouco depois de começarem as intervenções, verificou-se alguma perturbação da ordem. Um grupo de pessoas terá começado a dar ''vivas'' a Oliveira Matos, à monarquia e a Jesus Cristo. Os militares viram-se obrigados a intervir e tudo terá acalmado.Antes do Comício, pelas "duas horas da tarde", António José de Almeida, acompanhado por Feio Terenas, Alfredo de Magalhães, Fernandes Costa e outros, dirigiu-se à Praça  José António de Almeida, para inaugurar  o Centro Republicano, no edifício onde hoje se situa o Talho Abranches.
Da intervenção de António José de Almeida é de salientar uma afirmação que, a poucos dias da Revolução, reflecte a determinação dos republicanos em avançar para o derrube da monarquia ''não só pelas palavras mas também pelas armas''.
O Jornal de Penacova de 8 de Agosto, em artigo de primeira página, registou:  ''Comício Republicano de S. Pedro de Alva mais de 3 000 pessoas aclamam com entusiasmo os oradores republicanos ''. 
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Bibliografia: Penacova e a República na Imprensa Local, Edição do Município de Penacova, 2011

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Pintor Martins da Costa homenageado em Penacova


“Martins da Costa – Contos Vividos” é o título do livro que no passado dia 23 foi apresentado em Penacova, no Mirante Emídio da Silva.
A obra tem coordenação editorial do jornalista penacovense Álvaro Coimbra. É composta por muitos dos textos escritos pelo pintor nas décadas de oitenta e noventa na imprensa local (quando residia em Penacova), bem como por inúmeras reproduções de alguns dos seus quadros e ainda parte do seu espólio fotográfico.

“Martins da Costa – Contos Vividos” é uma edição do município de Penacova e tem prefácio do escritor, investigador e cronista Hélder Pacheco. A Escola de Artes de Penacova participou com alguns apontamentos musicais.

Um dia grande para Penacova: "a vida, mais do que viver, é recordar" - escreveu Martins da Costa. Um cumprimento especial de reconhecido agradecimento, enquanto penacovense que sou, a todos aqueles que tornaram possível quer a publicação do livro, (rico de conteúdo e com excelente apresentação gráfica) quer a realização do momento de alto valor cultural junto ao Mirante, destacando obviamente Álvaro Coimbra, Executivo da Câmara e Família Martins da Costa.




segunda-feira, 25 de julho de 2016

Luís Reis Torgal distinguido com Medalha de Mérito Científico

O Professor Doutor Luís Reis Torgal foi distinguido recentemente com a Medalha de Mérito Científico, atribuída pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. A cerimónia teve lugar no dia 4 de Julho, integrada no Encontro Ciência 2016 que se realizou em Lisboa.
O galardão foi  atribuído a 12 investigadores portugueses considerando as suas “elevadas qualidades profissionais e de cumprimento do dever”, e sobretudo “por se terem distinguido por um valioso e excepcional contributo para o desenvolvimento da ciência ou da cultura científica em Portugal”. Além de Reis Torgal a Medalha de Mérito Científico foi atribuída às seguintes personalidades: Arsélio Pato de Carvalho - Neurociência, Carlos Bernardo - engenharia de Polímeros,  Claudina Pousada – Área da Genómica, João Lopes Baptista -  ciência dos Materiais , João Sentieiro - Robótica,  Miriam Halpern Pereira  -  História , Nuno Portas - Arquitectura , Odete Santos Ferreira - investigação sobre SIDA e Pedro Guedes de Oliveira - Eletroencefalografia. Luís Reis Torgal distinguiu-se na sua carreira de historiador “com contribuições significativas para a investigação em história contemporânea.”
Profundamente ligado ao concelho de Penacova, podemos ler na página electrónica do Município uma breve resenha do seu percurso académico: “Professor Catedrático aposentado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, pertenceu ao Instituto de História e Teoria das Ideias, tendo dirigido, entre outras publicações, a Revista de História das Ideias e a revista Estudos do Século XX. Coordenador de investigação do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra (CEIS20), de que foi fundador, e membro de numerosas sociedades científicas, Reis Torgal, dedica-se, enquanto historiador a vários temas do séc. XX português, destacando-se o Estado Novo e a República. Autor de inúmeras publicações, foi vencedor do Prémio Joaquim de Carvalho da Imprensa da Universidade de Coimbra pela obra Estados Novos, Estado Novo e Prémio de História Contemporânea da Academia Portuguesa de História pela Fotobiografia António José de Almeida e a República, editada em parceria com o município de Penacova."
Felicitamos o Professor Doutor Luís Reis Torgal por esta Honrosa Distinção e regozijamo-nos com mais este importante reconhecimento  do seu trabalho de investigador e historiador.


Fontes:



segunda-feira, 18 de julho de 2016

No rescaldo da razão de ser do Feriado Municipal

PENACOVA E ANTÓNIO JOSÉ D'ALMEIDA

A figura de António José de Almeida terá constituído o principal fio condutor do movimento republicano em Penacova. A força da sua influência começa a sentir-se  enquanto jovem estudante em Coimbra e prolongar-se-á até à sua morte (e para além dela) sendo sempre acarinhado e admirado por um largo sector de republicanos que fizeram a apologia intransigente do seu percurso político. Figura tutelar das movimentações republicanas em Penacova, sem ele, estamos convictos, o republicanismo não teria alcançado, também neste concelho, a dimensão e a projecção que todos conhecemos.
1890: o seu pai, José António de Almeida,  à época presidente da Câmara de Penacova, adere ao Partido Republicano. Com o filho preso na cadeia de Coimbra declarou em plena sessão camarária que “nunca tinha pensado que na idade de setenta anos e que tendo empregado na maior parte deles” as suas forças ”na sustentação e defesa da monarquia e liberdades pátrias”, se havia de fazer Republicano. E justifica: “Realizou-se este pacto desde que, no dia vinte e cinco de Junho último, vi que uma sentença injustificadamente rigorosa condenava em três meses de prisão o meu filho António José d’Almeida, arrancando-mo dos braços e aferrolhando-o na cadeia pública”.
João Gama Correia da Cunha, que fora professor de António José de Almeida na escola primária de S. Pedro de Alva, escreveu uma carta, datada de 24 de Julho de 1890, no momento em que o seu ex-pupilo se encontrava preso. Foi publicada no jornal de Coimbra ”A Oficina”. Aí afirmava: ''muito há a esperar da ilustração e boa vontade deste rapaz (...) Homens como ele não aparecem todos os dias. O tempo se encarregará de mostrar que isto não é lisonja, nem ilusões dum insensato.''
1907: Alípio Barbosa Coimbra (republicano convicto, médico e fundador da Cerâmica Estrela de Alva), na edição de 20 de Julho de 1907 do Jornal de Penacova, pergunta: ''Que melhor patrono poderíamos ter, que esse patrício ilustre, grande pelo coração e ainda maior pela energia da sua vontade e pelo fulgor da sua inteligência? Damos-lhe a ele, o grande tribuno republicano dr. António José d'Almeida a satisfação íntima de ver a sua terra natal caminhar na vanguarda das hostes republicanas''.
O dia 1 de Agosto de 1909 ficou marcado pelo grande comício em S. Pedro de Alva. Apesar do alheamento de alguns sectores políticos locais e até da afronta dos monárquicos mais radicais, a presença de António José de Almeida marcou as gentes desta região. Cerca de três mil pessoas terão estado naquela manifestação republicana onde usou da palavra, a par de outras proeminentes figuras republicanas.
A sua carreira política, designadamente o cargo de Ministro do Interior no Governo Provisório, foi largamente noticiada no Jornal de Penacova. “Orgulho do nosso concelho que só agora começa a fazer-lhe a devida justiça, apóstolo acérrimo e defensor máximo da Liberdade” – escreve aquele periódico a 29 de Outubro de 1910.
Durante o ano de 1912, o mesmo jornal irá dar grande ênfase à criação do Partido Evolucionista, em ruptura clara com o partido de Afonso Costa. A iniciar o ano de 1914, António José de Almeida que habitualmente escreve para o Jornal de Penacova, questiona a governação do Partido Democrático (Afonsista): ''Esta República como no actual momento se encontra é má? Sem dúvida. Podemos mesmo, leitor, sem forçar a expressão do vocábulo, chamar-lhe péssima.” Deixa também o apelo: ”Não te fiques nirvanicamente nas queixas e nos lamentos. Trabalha, mexe-te, congrega-te, conjura-te e anda para a frente''.
A exaltação da figura de António José António de Almeida continuará a ser  uma constante nas páginas do Jornal de Penacova. Sobre o comício que teve lugar no Teatro Avenida em 1914, na edição de 4 de Julho de 1914, afirma-se que a "jornada de Domingo" constituiu  "um verdadeiro dia de triunfo para o Partido Republicano Evolucionista".
O sentido patriótico e a assumpção das responsabilidades governativas de António José de Almeida nunca passaram ao lado dos republicanos penacovenses. O facto de este ter assumido a Presidência do Ministério e a pasta das Colónias no governo da ''União Sagrada'', foi largamente noticiado no jornal Ecos de S. Pedro de Alva de 1 de Abril de 1916. Este periódico preenche a totalidade da sua primeira página com fotografia de Bernardino Machado, ladeado por António José de Almeida e Afonso Costa. A encimar, o título: ''Em defesa da Pátria – Unidos pelo Dever''.
Em 1919, António José de Almeida é eleito Presidente da República. Tal facto foi motivo de orgulho ainda maior para Penacova: “Foi eleito Presidente da República o sr. dr. António José d’Almeida, nosso ilustre conterrâneo! Ele é a alma da Pátria! Ele é a Vida da República! Ele é a honra de um povo! Viva o sr. dr. António José d’Almeida!- regista em grandes parangonas de capa  o Jornal de Penacova.  Eleito pelo Congresso   em 6 de Agosto,  exercerá o cargo até ao dia 5 de Outubro de 1923. Foi o único Presidente que, na I República, levou até ao fim o seu mandato.
Morreu a 31 de Outubro de 1929. O quinzenário A Voz de S. Pedro de Alva prenche integralmente a capa da edição de 16 de Novembro com a notícia: ''A Pátria e a República em Crepes: morreu o Dr. António José de Almeida”.
O mesmo jornal não se cansará de enaltecer este seu ilustre conterrâneo, recordando que este grande "apóstolo da Democracia tinha um altar em todos os corações portugueses''. A morte de António José de Almeida também é notícia na edição de 2 de Novembro do Jornal de Penacova.  Eduardo Silva, que era, à data, o redactor deste periódico, escreverá: “O dr. António José de Almeida era nosso conterrâneo. Nasceu além, na freguesia de S. Pedro de Alva, num lugarzito, lindo e pitoresco, que se chama Vale da Vinha. Lá está o seu solar que nos desperta lembranças da sua mocidade indómita de combatente pelo ideal republicano, desde os seus mais verdes anos.[…] Foi um grande português, homem de uma honestidade intransigente, a sua vida não teve mancha a diminuir o seu valor e o seu prestígio, o seu carácter de fino e puro quilate esteve sempre de pé”.
Com o 25 de Abril, depois ter sido, durante muitos anos, directa ou indirectamente silenciada, a figura de António José de Almeida é novamente exaltada. A devida homenagem ocorreu em Penacova no dia 5 de Outubro de 1974 e passados exctamente dois anos, foi descerrado um busto (da autoria de Cabral Antunes) junto à Pérgola Raul Lino. No mesmo dia, mas em 1997, foi inaugurada uma estátua de António José de Almeida na sede da freguesia da sua naturalidade, S. Pedro de Alva.

Em 28 de Maio de 1976 a Assembleia Municipal de Penacova votou, por unanimidade, a instituição a 17 de Julho do Feriado Municipal, de forma a evocar a vida e a obra deste ilustre penacovense, que a ser vivo, teria completado ontem 150 anos. 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Foi há oitenta anos: a 15 de Julho morreu em Lisboa Manuel Emídio da Silva

Retrato de Manuel Emídio da Silva (1904)
Columbano Bordalo Pinheiro

 [Amigo de infância de Columbano, Manuel
Emídio da Silva,
deputado e crítico de arte, sob o
pseudónimo de El Mano,
escreveu artigos elogiosos das obras do artista]
Manuel Emídio da Silva faleceu em Lisboa há oitenta anos, em 15 de Julho de 1936.  
Por vontade expressa, só no dia do funeral (que se realizou às 11 horas do dia seguinte), os jornais da manhã tornaram pública a sua morte. A Emissora Nacional apenas deu a notícia às 12.30. O Presidente da Câmara, (e director do Notícias de Penacova) José de Gouveia Leitão, mandou içar a bandeira em sinal de luto nos Paços do Concelho. 
Sobre a relação de Emídio da Silva com Penacova, o Diário de Notícias escreveu o seguinte: 
“Em matéria de turismo deve-lhe ainda, por exemplo, a vila de Penacova, uma das mais pitorescas do país, larga campanha em seu favor. Em troca, a um mirante que ali se erigiu e de onde se descortina sobre o Mondego uma paisagem deliciosa, deu a vila o nome de Manuel Emídio da Silva. Dos "Emídios" se chama também a estrada que liga os vértices Luso-Penacova-Coimbra, do chamado triângulo turístico do centro do país, em louvor popular do seu nome e de Emídio Navarro, o primeiro que deu fundos para a sua construção."
"Manuel Emídio da Silva - regista o jornal Notícias de Penacova, de 25 de Julho, nº 210- era inteiramente desconhecido em Penacova há pouco mais de trinta anos. Vindo a esta vila de passagem para visitar o Convento de Lorvão ficou de tal maneira extasiado com as paisagens de Penacova que poucos dias depois iniciava no Diário de Notícias uma intensíssima propaganda em favor delas. Por influência sua,  incluiu a Sociedade de Propaganda de Portugal a vila de Penacova no número das terras do país que mereciam ser visitadas."
Adianta ainda este periódico: "Promoveu ele a abertura de uma  subscrição entre os Penacovenses para a construção do Mirante que projectara. Foi o principal subscritor e ofereceu ainda a planta para a construção que foi elaborada a seu pedido pelo notável arquitecto Nicola Bigaglia."
Mais tarde, em 1916 veio do Luso a Penacova acompanhado do engº Vasconcelos Correia, então director da Sociedade de Propaganda de Portugal. Esta visita estará relacionada com o facto de, algum tempo depois, vir a Penacova o grande arquitecto Raul Lino escolher o local para a construção da Pergola "que a expensas daquela benemérita sociedade foi construída no largo Alberto Leitão e inaugurada em 1918."
Sobre a influência de Emídio da Silva, recorda o Notícias de Penacova,  no Governo Provisório (1910), sendo Brito Camacho Ministro das Obras Públicas, foi dotada com verba de 3 000 escudos a estrada de Penacova para Corta Montes. "Sempre a instâncias de Emídio da Silva esta obra foi sendo dotada e quando se deu o golpe de 1926 faltavam apenas construir cerca de dois quilómetros. A parte do concelho da Mealhada já estava construída a instâncias de Emídio Navarro." A título de curiosidade acrescente-se que a Câmara Municipal "em testemunho do reconhecimento resolveu colocar na sala nobre dos Paços do Concelho os retratos daqueles dois beneméritos" - Emídio da Silva e Emídio Navarro. 

sábado, 9 de julho de 2016

Combatentes de Penacova: morto em combate em 1973 só em 1988 foi sepultado

Tenente Coronel Almeida Brito
José Fernando de Almeida Brito nasceu a 27 de Março de 1933 em Lisboa. Filho de Serafim Oliveira Brito (Tenente) e de Maria Teresa Almeida Brito, naturais de Quintela, S. Pedro de Alva. Completou o Curso Liceal em Coimbra e ingressou na Escola do Exército, completando, aos 20 anos, o Curso da Academia Militar. No ramo da Força Aérea serviu na Base da Ota, em Monte Real, em Luanda e em Bissau.

Atingiu o posto de Tenente Coronel. Em 28 de Março de 1973, [um dia depois de ter feito 40 anos] sendo Comandante do Corpo Operacional da Guiné,  o avião que pilotava foi atingido por um míssil. Só passados 15 anos foram encontrados os restos mortais. Em 27 de Maio de 1988 teve lugar o funeral, com honras militares, para o cemitério de S. Pedro de Alva.
O seu nome encabeça a lista de combatentes no Memorial erigido em Penacova. 
Diário de Notícias (31/3/1973); Comarca de Arganil
(3/4/1973) e Nova Esperança ( 25/7/1988)


Em cima, o míssil terra-ar Strella que abateu avião e piloto.

Em baixo,o que restou do Fiat G91-R4 nº 5419 

Do blogue "especialistasdaba12":

Notícia publicada no jornal "Diário de Notícias" do dia 31.3.1973
"O comandante-chefe das Forças-Armadas na Guiné anunciou que um avião "Fiat G-91"foi ontem abatido em combate,por um foguetão terra-ar lançado da Republica da Guiné,quando sobrevoava território português em missão de reconhecimento,no sul da província. O aparelho,pilotado pelo Ten.Cor.Pilav.José Fernando de Almeida Brito,explodiu no ar.O Piloto pareceu.O Ten.Cor.Almeida Brito,nascido a 27 de Março de 1933 em Lisboa,concluiu,em 1953,o curso de aeronáutica militar na Escola do Exército.Em todos os cursos que depois,ao longo da sua carreira militar,alcançou as mais elevadas classificações.Alferes em 1954,tenente em 1956,capitão em 1958 e major em 1963,foi promovido ao posto actual em 1968.Era condecorado com duas medalhas de Serviços Distintos com palma,por feitos em combate,com a medalha de Mérito Militar de 3ªClasse e com a medalha comemorativa das campanhas das Forças Armadas Portuguesas em Angola e na Guiné.
Da sua folha de serviços constam ainda numerosos louvores e referências elogiosas.Estava proposto,pelo comando-chefe das Forças Armadas da Guiné,para a medalha de oiro de Valor Militar,com palma,pelo"relevante contributo prestado para o êxito do esforço de guerra no teatro de operações da Guiné,onde executou centenas de acções operacionais sempre evidenciando extrema perícia,grande coragem,energia e desprezo pelo perigo,sobretudo em duas,ao prosseguir com a maior serenidade o cumprimento das suas missões,apesar das aeronaves que pilotava terem sido seriamente atingidas pelo fogo inimigo."
Profundo conhecedor das características técnicas dos modernos aviões,marcou gerações e gerações de pilotos que instruiu e comandou.
Na Guiné Portuguesa,onde há cerca de três anos servia,no comando de acções independentes da Força Aérea e,ainda,em operações conjuntas coa as forças de superfície,muitas vezes com risco da própria vida."


Eu tinha chegado à Guiné havia quatro dias,quando no dia 28 de Março da parte da manhã,em conjunto com o colega Lopes,dado sermos os mecânicos de serviço à linha da frente,demos saída a uma parelha de aviões preparados com bombas. Num seguia o Cap.Pilav.Pinto Ferreira e no outro o Ten.Cor.Pilav Almeida Brito,comandante do Grupo Operacional.
Esperamos pelo regresso das aeronaves, quando já um pouco com atraso para o tipo de missão ouvimos e vimos surgir um dos aviões, o outro viria a seguir,  pensamos nós... Quando recebemos o avião perguntamos ao piloto se o outro demorava muito, a resposta surgiu tipo bomba:
- O outro não vem mais!...
Dadas as características da zona e a intensificação dos combates, não foram feitas tentativas de encontrar os destroços, quer por parte das forças terrestres quer da FAP.  

Arnaldo Sousa

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OBS: A título de curiosidade: lembramo-nos dos voos rasantes que por vezes fazia sobre Quintela, porventura como cortesia aos seus conterrâneos,  nos anos 60,  o que nos provocava um misto de admiração e de profundo medo, ali bem perto, nos Covais de Travanca.