sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Casa onde nasceu António José de Almeida vai dar lugar a Museu da República

A Câmara Municipal de Penacova assinou hoje um Protocolo de Colaboração com o Centro de Estudos Disciplinares Século XX (CEIS 20). A relação com o CEIS20 vem de 2004, com o lançamento da biografia “António José de Almeida e a República”, passando também pelas comemorações do Centenário da Implantação da República (2010) e mais recentemente, pelo programa do Centenário da Pérgula Raúl Lino (2018).
Em 2019 Penacova vai assinalar o centenário
da eleição de António José de Almeida
 para Presidente da República
A parceria hoje formalizada visa dois objetivos: a celebração do centenário da eleição de António José de Almeida para Presidente da República e a elaboração de um projeto de reabilitação urbanística da casa onde em 1866 nasceu aquele estadista e respetiva musealização, no sentido de aí, em Vale da Vinha, freguesia de S. Pedro de Alva, ser criado o “Museu da República António José de Almeida”. 

Assim, o protocolo prevê a realização de uma série de conferências ou mesmo de um colóquio em Penacova, organizado pelo CEIS 20 e ainda, um conjunto de sessões de formação para professores e alunos do Agrupamento de Escolas, versando a figura de António José de Almeida e o tema da República. Àquele Centro de Estudos caberá também a apresentação do projeto para o referido Museu. 
Assinatura do Protocolo entre o Município e o CEIS 20
Usando da palavra, o Coordenador do CEIS 20, António Rochette, destacou a importância deste protocolo, não só porque o Centro defende que a Ciência deve ser com e para o cidadão, mas também porque tem a ver com o conceito de res publica e se relaciona com a Escola, com a formação das novas gerações. A criação de uma Casa-Museu da República representa um desafio: a transformação de uma simples casa em museu, num espaço de mais-valia cultural que se venha a enquadrar numa rede de casas museu que existem ou possam existir nestes territórios de baixa densidade. Apesar de só agora se formalizar o protocolo, os estudos para o projeto de arquitetura e musealização já estão a decorrer, revelou. 

António Rochette, depois de considerar António José de Almeida como “uma personagem fundamental” da nossa história de “finais do século XIX e inícios do século XX”, disse que o CEIS 20 se sente “extremamente sensibilizado e honrado com este protocolo”, acrescentando, no entanto, que estas estas palavras só se justificam se de hoje a um ano sensivelmente, puder estar na inauguração daquele Museu. 

Por sua vez, o Presidente do Município, Humberto Oliveira, salientou a importância de “valorizar as nossas figuras, a nossa história e dignificar, o máximo possível, o centenário da eleição de António José de Almeida, como Presidente da República”. Considerou que se trata de uma tarefa que o município, por si só, não conseguirá realizar cabalmente, apelando por isso, ao contributo de outros parceiros, sejam pessoas individuais, sejam instituições. Daí considerar que o “CEIS 20 é o parceiro certo”. 

Recordando que no dia 5 de Outubro de 2014 fora assinada a escritura de aquisição da Casa de Vale da Vinha, disse que “agora é preciso, literalmente, por mãos à obra”. Humberto Oliveira destacou o facto de se tratar de um “projecto fundamental para a coesão territorial do município”, acrescentando economia, conhecimento e atractividade ao território. Tendo em conta a estratégia de valorização de espaços, depois do Museu do Mosteiro de Lorvão e da Casa das Artes no antigo edifício do tribunal em Penacova, a Casa-Museu, na freguesia de S. Pedro de Alva, pode ser considerada a “terceira perna desta trempe”. 

A sessão comemorativa do 5 de Outubro, foi antecedida do hastear da bandeira ao som do Hino Nacional e a tradicional deposição de coroa de flores no busto de António José de Almeida, tendo terminado com um apontamento musical apresentado pela Escola de Artes de Penacova.

Apontamento musical da Escola de Artes de Penacova 

sábado, 8 de setembro de 2018

Penacova e a Senhora do Mont'Alto

Gravura publicada no século passado
 na imprensa local
O nascimento de Nossa Senhora ou a Natividade de Maria é uma festa litúrgica celebrada no dia 8 de Setembro, precisamente nove meses depois da festa da Imaculada Conceição. 

Muitas vilas e cidades de Portugal têm neste dia o seu feriado municipal, associado a importantes festas marianas correspondendo a uma grande diversidade de invocações. Aquando da instituição do feriado municipal de Penacova, as opiniões dividiram-se entre o dia 8 de Setembro e o dia 17 de Julho dada a importância que a romaria do Mont'Alto assume para as gentes da região. Com feriado ou sem feriado a tradição mantém-se. Se coincidir com um sábado ou domingo, tanto melhor. É o que acontece hoje. A romaria promete. 

Recordemos o que escreveu em 1987 o Professor Nelson Correia Borges na obra “Coimbra e Região” sobre a Senhora do Mont’Alto: 

“O Mont’Alto avulta na paisagem, a norte de Penacova, como formidável mole defensável, uma das derradeiras manifestações da Serra do Buçaco. As ribeiras de Penacova e de Selga delimitam as suas vertentes escarpadas, onde trepam carreiros milenários que conduzem ao santuário da Senhora. O acesso é, no entanto, também possível a carros, não sem algumas dificuldades. A estrada conduz-nos do Casal à Chã; a partir daí o caminho é florestal. 

O excelente miradouro é prejudicado pelo arvoredo circundante. A capelinha, todavia, é um encanto, na sua singeleza de ermidinha bem portuguesa. Antecede-a um alpendre de seis colunas toscanas do século XVII e em toda a volta tem um banco corrido, para os romeiros se sentarem a saborear os farnéis. 

Ocorria aqui, em tempos idos, uma das mais concorridas romarias da região. Segundo as informações paroquiais de 1721, nesse tempo “os moradores da Vila de Botão e de S. João de Figueira” vinham todos os anos em procissão à Senhora do Mont’Alto, em cumprimento de um “voto antiquíssimo”, trazendo as suas ofertas em tabuleiros à cabeça de donzelas “ como tradição antiga”. 

Hoje a festa continua a realizar-se no dia 8 de Setembro, a que o povo dá o nome de Dia das Sete Senhoras, mas os romeiros já não vêm de tão longe, nem cantam no terreiro da capela as modas de outros tempos: 
A senhora do Mont’Alto
Mandou-me agora chamar,
Que tem o seu manto roto,
Que que eu lho vá remendar! 
A senhora do Mont’Alto
Lá vai pelo monte acima,
Leva a cestinha no braço
Para Fazer a vindima. 
Se nesta época se preparam as vindimas, também se faz a mudança de ritmo da vida quotidiana. Agora, muda-se a hora dos relógios. Não vão lá muitos anos, começava o serão e acabava a sesta. Tudo isto se pode comungar com a entidade que se cultua, em tocante familiaridade. 
Ó senhora do Mont’Alto,
Eu não volto à vossa festa,
Que me tirais a merenda
E mai-la hora da sesta! 
O único habitante do Mont’Alto foi, em outros tempos, um ermitão que tomava conta da capela e a franqueava aos devotos. As mesmas informações paroquiais de 1721 dão a propósito a seguinte nota curiosíssima: 
Fotos de Varela Pècurto, inícios dos anos oitenta

“Ao pé deste monte, contam os naturais, que nascem umas pedras redondas como seixos, as quais partidas se lhe acha dentro outra pedrinha do tamanho e redondeza de uma noz, que com pouca violência se desfaz em pó, e este aplicado à enfermidade da asma é singular remédio, e tanto que por ser singular e único de muitas partes deste Reino são procuradas, e como se fossem milagrosas saram os asmáticos, e ficam de todo livres” 

Como se aplicava o pó não o diz o padre informador, porém, atendendo mais ao valor estratégico do monte do que às suas virtudes salutares, o general Wellington mandou colocar junto à capela algumas peças de artilharia, por ocasião da batalha do Buçaco. 

Hoje em dia já ninguém se lembra dos episódios da batalha, mas quem subir ao santuário pelos caminhos tortuosos pode encontra ainda alguns dos tais seixos e , se quiser, verificar a veracidade da informação… "

In Novos Guias de Portugal, Coimbra e Região - Nelson Correia Borges – Editorial Presença, 1987 

UM RECORTE DE 1912...


OUTRO RECORTE: AGORA DE 1920 (JP)


quinta-feira, 23 de agosto de 2018

História da Casa do Povo de S. Pedro de Alva é o tema de novo livro de Alfredo Fonseca

No dia 15 de Julho teve lugar a apresentação de mais um livro de Alfredo Santos Fonseca. É o oitavo título que publica, desta vez sobre a Casa do Povo de S. Pedro de Alva. Recordemos os sete volumes anteriores: Memórias do Sofrimento na Guerra de Moçambique (2001); Pegadas dos meus Pés (2006) ; A História do Batalhão de Artilharia 1885 (2010) ; Farinha Podre- S. Pedro de Alva (2011) ; Os Sãopedralvenses da Diáspora (2012); Divagação sobre a Génese das Nossas Gentes (2015) e Memórias Imperfeitas de um Ex-autarca (2016). 
A partir das Actas existentes desde 1939, ano em que nasceu a Casa do Povo, e de outras fontes escritas e orais o autor procurou, segundo as suas palavras "agregar areias (entenda-se palavras), algumas bem pequeninas e de pouca importância", na convicção de que "algum dia estas agregações poderão ser úteis a quem desejar edificar com mestria" a história da Casa do Povo de S. Pedro de Alva. O livro é também ilustrado - e assim, enriquecido - com um número bastante significativo de fotografias que retratam pessoas e factos que ao longo dos anos marcaram a vida desta Instituição.
A Comarca de Arganil, jornal sempre atento às dinâmicas das nossas terras, noticiou, pela mão do dedicado jornalista José Carlos Vasconcelos, o lançamento deste livro.



[clique nas imagens para ampliar]


quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Cartas brasileiras: a milagrosa imagem de Nossa Senhora da Moita (Gondelim)



Sabia eu do que contam, história ou lenda, mas, até então, não havia encontrado registro. Por sorte, ou o que mais possa ser, encontrei relatos em um livro publicado em 1712. 

Os princípios e origem desta Santa Imagem são mais por tradições do que por escrituras, são dos “ tempos imemoriais”, não se sabe o tempo do aparecimento. 

Contam, em um vale distante de Gondelim, a um “tiro de mosquete”, perto de uma ribeira que desagua no Mondego, havia uma mata de carvalhos muito fechada, com tojos, urzes, silvas, e outros matos semelhantes. Metida no tronco de um carvalho, encontrou-se a Imagem da Senhora, um sino, e uma campainha. Não se sabe quem foi o venturoso ou os venturosos que encontraram o tesouro, consta apenas que trouxeram a notícia, ou a ouviram de moradores de Gondelim para que fosse buscá-la.

Imagem que se venera em
 Gondelim-Penacova
Por não ter onde guardá-la, a colocaram na casa de algum venturoso Obede-Edom. Porém, dizem, a Senhora deveria gostar mesmo muito do lugar onde estava anteriormente, pois fugiu repetidas vezes para a mesma árvore, ou mata de carvalhos, para aquela tosca concha em que se manifestou. 

Os devotos de Gondelim não querendo mais contrariá-la, resolveram a edificar uma ermida junto ao lugar do seu aparecimento, e a colocaram no altar mor, no meio de um retábulo de madeira dourada, com “asseio assistida, conforme os cabedais, e possibilidades daqueles moradores, com ornamentos, e ornatos necessários para assim se dizer missa”. 

Tem mordomos anuais, que se elegem, e estes são os que festejam a Senhora, o que fazem na primeira Quarta-Feira depois da Páscoa, dia da sua manifestação. Neste dia é muito grande o concurso das romagens e nele concorrem várias procissões, é o dia dos perdões, assim chamam. 

A sagrada Imagem é uma escultura formada em pedra, a altura é pouco mais de dois palmos, tem sobre o braço esquerdo o Menino Deus, com as roupas formadas na mesma pedra; ambas as Imagens pela sua rara perfeição, dizem, só pode ser obra dos Anjos, por não haver entre os homens artífices capazes. 

A Imagem encontra-se sobre uma peanha de madeira dourada, e com umas roupas de seda, e desde que se manifestou nunca foi pintada, está em uma encarnação tão bela, e tão rica, que parece encarnada de poucos dias. 

Tem os enfermos grande fé e devoção na Santíssima Imagem, são inumeráveis os milagres, existindo na ermida muitas memórias oferecidas para perpetuar a lembrança das mercês, sem que os moradores tenham tido o cuidado de fazer os registros. 

Estes, os moradores e devotos, somente se contentam por tê-la por sua singular protetora, sendo a Senhora da Moita, e ela em si, com sua beleza e formosura é um contínuo milagre. 

Santuário Mariano e História das Imagens Milagrosas de Nossa Senhora... (Lisboa,1712)
Tomo IV Livro II Título XCII pg. 645 a 647



sábado, 30 de dezembro de 2017

Votos de Bom Ano 2018


Apesar de, nos últimos tempos, o Penacova Online ter registado menor actividade, contamos, a partir de Janeiro, recuperar o ritmo habitual, naquele que será o Ano Europeu do Património Cultural.

Para todos os leitores deste blogue os nossos melhores votos de um Bom 2018!
David Almeida

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Cartas brasileiras: Uma Coisa Leva a Outra


Estando um dia a pesquisar sobre Gondelim encontrei “Portugal Antigo e Moderno”,  livro publicado em 1886, tendo como autor Augusto Soares de Azevedo Barbosa Pinho Leal.

Curioso, deixando de lado o que me levara até ele, passei a folheá-lo ao acaso, quando me deparei com a Rebelião no Convento de Santa Clara, tema da minha última Carta Brasileira.

Fazendo as folhas correrem encontrei o grande incêndio de Lisboa, as penúrias vividas pela corte, o atentado contra o Rei D. José I, em 1758, e por consequência a desgraça dos Távoras; uma família de nobres executada em praça pública, no mesmo dia, por terem, supostamente, participado do atentado. A Marquesa de Távora, D. Leonor, que foi decapitada, teria dado um pito em seu algoz, reclamou, quando ele tentou afastar o colar que ela trazia no pescoço.

Para saber um pouco mais sobre o rei, um link me levou ao Museu da Torre do Tombo, e após a leitura do que me interessava, vi em uma das abas do site uma chamada sobre a Inquisição em Portugal. Na sequência encontrei o processo contra Hyppólito José da Costa; pela minha ignorância, até então, um ilustre desconhecido.

Logo fiquei sabendo, o brasileiro tinha ido para o cárcere por ser “pedreiro livre”, como se intitulam os maçons. A curiosidade ficou mais aguçada porque um grande amigo pertence a essa confraria. Fui então saber que o “réu” vem a ser o patrono da imprensa brasileira.

Para mostrar por completo o achado ao amigo, me meti a transcrever os 156 arquivos digitalizados do processo, e nisso estou até agora metido.

O português utilizado em 1811, ano em que acontece o julgamento, bem como as caligrafias dos escrivães são dificuldades que enfrenta quem se mete a buscar encrenca, na base de uma coisa leva a outra. E, muitas vezes, nem quebrando a cabeça consegui decifrar o que escreveram.

P.T.Juvenal Santos

Notas:
1)    O arquivo do processo contra Hyppólito José da Costa pode ser visto através do link: http://digitarq.dgarq.gov.pt/viewer?id=4522454
2)      Por exigência da fonte, o desenho da execução, de autor desconhecido, foi obtido em


        

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

... e a nossa beleza ardeu


O Penacova Online tem na sua linha editorial a divulgação do património natural e belezas paisagísticas do nosso concelho. Nesta hora de luto, concelhio e nacional, em que jamais esqueceremos o que vimos naquela manhã de segunda-feira passada, autêntico  "day after" apocalíptico, ao percorrer o alto concelho, tragicamente atingido, dizíamos, nesta hora difícil, associamo-nos ao sentimento de Luís Pais Amante, aqui expresso neste texto intitulado "...e a nossa beleza ardeu".
Foi ontem, num dia trágico
Daqueles que não foi Deus que nos deu
Que nas nossas serras e outeiros verdes
Nas nossas encostas florescentes
O inferno aconteceu
Veio travestido de fogo
Intenso
Em bolas
Empurrado por ventos de maré
Suspenso
Monstruoso
Medonho
Desgovernado
Este incêndio malvado
Corria voraz atrás do tempo da paz
Sacrificando-o
Alimentava-se de tudo quanto lhe aparecia à frente
E, num repente
Cortou-nos o cabelo da beleza natural
Sorveu-nos o sangue bom do suor rural
Empertigou-se como se tivesse vida forte
De estupor
E matou-nos gente amiga com nome sem sorte
Nossos conterrâneos, amigos
Causando-nos muita dor
Consternação
E estupefação
O rasto deste abalo intenso e brutal
Que cheirará por aí a massacre sobrenatural
Não pode ficar escondido sozinho no nosso tempo
Nem esquecido na parte mais íntima do nosso pensamento
Terá que ser sempre lembrado como se fosse um desgraçado
... até porque ele nos ofendeu!

Luís Pais Amante
Telheiras Residence
16Out17, 21h30

Horrorizado com o que se passou na minha terra, Penacova


domingo, 8 de outubro de 2017

Pintor João Martins da Costa: depois de Penacova a homenagem em Matosinhos


A primeira exposição retrospetiva sobre a obra do pintor Martins da Costa foi inaugurada ontem em Matosinhos. Até finais de Janeiro pode ser visitada no Museu Quinta de Santiago.


Também o livro “Contos Vividos” foi apresentado ao público “portuense”, depois de ter sido lançado em Penacova em Julho de 2016. Na cerimónia esteve presente Humberto Oliveira, presidente da Câmara de Penacova, entidade que editou a obra, e Álvaro Coimbra, que a partir das crónicas de Martins da Costa publicadas, quer no “Jornal de Penacova”, quer no jornal “Nova Esperança”, idealizou este livro, cuja publicação  contou com o apoio da Família Martins da Costa e a concepção gráfica de Diogo Rocha (OMdesign), neto do artista.

Conforme referiu Helder Pacheco, a obra (e o exemplo de vida deste “homem luminoso”) não pode ficar confinada às colecções particulares, a esta exposição e a este livro. É muito, mas é muito pouco. Deu o exemplo de Júlio Resende e de Nadir Afonso, à volta dos quais existem Fundações e Pólos Culturais, em Gondomar e em Chaves, respectivamente. Neste sentido,  lançou mesmo o desafio para que um projecto semelhante fosse concretizado, precisamente, em Penacova.

Descobrimos nesta exposição João Martins da Costa nascido em Coimbra, habitando no Porto, viajando pelo Mundo, e refugiando-se em Penacova, local onde terá vivido uma infância feliz e cujo abrigo procurou e encontrou, aproveitando as coisas simples da vida, vivendo genuinamente todos os momentos, respirando a beleza pura da natureza.”- escreve  Cláudia Almeida -Museóloga no Museu Quinta de Santiago - no excelente catálogo da exposição que, refira-se, inclui também um texto inédito de Maria Leonor Barbosa Soares sobre a vida e a obra de Martins da Costa.




















quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Desterritorialização e filiação ao lugar: Aldeia da Luz, Vilarinho das Furnas, Foz do Dão…

Ana Maria Cortez Vaz dos Santos Oliveira apresentou em 2011 à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra uma Dissertação de mestrado em Geografia Humana (Ordenamento do Território e Desenvolvimento), onde estuda os processos de desterritorialização e filiação ao lugar. O seu estudo incide na Aldeia da Luz (Alqueva) mas dedica também um capítulo à Foz do Dão.

Escreve esta investigadora na introdução que “a problemática do processo de desterritorialização é pertinente e actual. “ Salienta também que “o vínculo, a filiação, o apego, o laço que nos une a determinado território está sujeito a riscos que podem ter origem em múltiplos factores e circunstâncias como, entre outros, a guerra, a crise económica, o desemprego, qualquer tipo de confinamento espacial, cheias, sismos, movimentos de vertente ou, como no caso que se analisará neste trabalho, a construção de grandes infra-estruturas, como barragens."
Referindo-se à Aldeia da Luz, afirma que “apesar da velha aldeia ter desaparecido na paisagem, esta continua presente na memória e na identidade das populações.”

O mesmo poderíamos dizer da aldeia da Foz do Dão. Nesse sentido, transcrevemos um excerto, aconselhando a leitura integral e o estudo deste trabalho académico.

“A aldeia de Foz do Dão pertencia à freguesia da Óvoa, município de Santa Comba Dão e foi submersa aquando a construção da barragem da Aguieira. Com Foz do Dão, também as localidades de Breda, Senhora da Ribeira e Barra da Asna ficaram submersas pela albufeira da barragem da Aguieira.
A aldeia de Foz do Dão marcava, como o próprio nome indica, o local onde o rio Dão desaguava no rio Mondego. A sua população tinha como principais actividades a agricultura de subsistência, a extracção de areia e a pesca, principalmente de lampreia e sável.
A barragem da Aguieira fechou as comportas em Junho de 1980, dando-se início ao enchimento da respectiva albufeira e posterior submersão das aldeias.
Figura 16- Foz do Dão, aquando a visita do Professor António Salazar à aldeia.
De salientar que a única infra-estrutura que não foi destruída para a submersão da aldeia foi a ponte.
Fonte: fozdodao.blogspot.com, consultado em Maio de 2010.
[Gravura publicada na  pág. 54 desta Dissertação de Mestrado]
Este processo de quebra da topofilia ocorre na década de (19)80, num período politico bastante diferente do vivido no processo de desterritorialização da população de Vilarinho da Furna, embora ambos se caracterizem por serem ex-situ, colectivos e totais. Isto é, os processos implicaram a deslocação da população, atingiram a comunidade, a sociedade das aldeias, e em ambos os casos, houve uma quebra total do vínculo com o território, dado que as aldeias ficaram submersas. No entanto, também não se registaram intervenções de cariz psicológico ou de auxílio e assistência social às populações desterritorializadas.
Uma nota importante e de bastante valor para as populações sujeitas a processos de desterritorialização é a transladação dos corpos que se encontram nos cemitérios destas povoações que serão submersas. Enquanto que em Vilarinho da Furna não houve transladação do cemitério, em Foz do Dão foi autorizado que os indivíduos que quisessem transladar os corpos dos seus entes para cemitérios mais próximos, o poderiam fazer. Houve assim uma mudança também dos territórios simbólicos.

A população que residia em Foz do Dão procurou assim novos territórios e a reterritorialização passou pelos concelhos vizinhos de Penacova, Mortágua e outras localidades no município de Santa Comba Dão. Foi criado entretanto o Bairro Nova Foz do Dão, em Óvoa, que será o lugar com maior concentração de pessoas naturais e antigos residentes de Foz do Dão.
Ao contrário de Vilarinho da Furna, sobretudo da divulgação através das obras de Jorge Dias e de Miguel Torga, Foz do Dão não serviu de representação para escritores ou realizadores, daí que a informação sobre a aldeia, que está submersa seja muito escassa."

 Aceda à obra integral através do link:

Obra de Martins da Costa vai estar exposta em Matosinhos

Mar Sagrado – Tragédia marítima de 2 de Dezembro de 1947”
 é um das mais de quatro dezenas de obras que compõem a exposição.
No próximo dia 7, pelas 17 horas, vai ser inaugurada, no Museu da Quinta de Santiago, em Leça da Palmeira, a exposição “Martins da Costa… [d]aquilo que fica”. O evento, promovido pela Câmara Municipal de Matosinhos, inclui também, pelas 18 horas, a apresentação do livro “Martins da Costa, Contos Vividos”, obra lançada em 23 de Julho de 2016 em Penacova.
“Mar Sagrado – Tragédia marítima de 2 de Dezembro de 1947” é um das mais de quatro dezenas de obras que compõem a exposição.
O site do Município de Matosinhos adianta que a exposição tem um carácter retrospectivo e abarca cerca de cinco décadas da produção artística de Martins da Costa, entre a década de 1940 e o final do século XX.

Refere também que a exposição – que ficará patente até 28 de Janeiro – reúne obras dos acervos do Museu Nacional de Soares dos Reis, do Museu da Faculdade de Belas Artes do Porto, do Museu Municipal de Coimbra, da Câmara Municipal de Matosinhos e de alguns coleccionadores particulares, incluindo trabalhos de pintura e desenho.

Imagens do Penacova Online
publicadas aquando do lançamento do livro em Penacova