sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Quando na Raiva se juntavam trinta e seis barcas serranas e duzentos carros de bois ...

Pintura de Joana Santana
Em 1954, no jornal “Notícias de Penacova”, o Padre Manuel Marques (que assinava Manuel do Freixo) publicou na crónica “Casos & Coisas” um artigo sobre o Porto da Raiva

Referindo-se aos tempos áureos deste “notável entreposto”, recorda-nos que “ali chegavam os carros de bois carregadinhos de milho da Beira" , milho que ali se vendia "todas as quintas-feiras, num mercado que esses carros abasteciam juntamente com compridas comboiadas de barcos de feijão, sal, fazendas, mercearias” e outros produtos.

Nesses tempos [até finais do século XIX] “todo o concelho de Penacova afluía ao mercado da Raiva, principalmente para a compra de cereais” e os armazéns, já em 1954 em ruínas, “enchiam-se de tudo o que crescia dum mercado e que esperava ali o mercado da semana seguinte.”

CAPELA DE NOSSA SENHORA DA BOA VIAGEM (2019)
Refere o Padre Manuel Marques que “no dizer dos velhos” com quem conversou, chegavam a juntar-se ali “duzentos carros de bois e trinta e seis barcas grandes carregadas de sal e outros produtos”.

Curiosa é também a origem da Capela da Boa Viagem. Escreve aquele cronista: “Quando lá em cima, junto da capelinha da Senhora da Boa Viagem olhei para o rio, e quando da estrada, para cá da Raiva, disse o meu adeus à branca ermidinha da Senhora, compreendi então a razão por que os barqueiros da há cem ou duzentos anos ali foram construir aquele padrão da sua fé cristã, expressão da sua devoção a Nossa Senhora da Boa Viagem, fora do lugar, na encosta do monte: era pela mesma razão por que os barqueiros da freguesia de Penacova, queriam, por mais tempo, contemplar e saudar de longe, a Senhora da Guia como um farol a brilhar no Monte do Castelo, do Castelo de Penacova.”

Notícias de Penacova (1954)

PORTO DA RAIVA (2019)
PORTO DA RAIVA NA ACTUALIDADE
Foto:
 http://estradanacional2chavesfaro.blogspot.com/2012/02/en-2-1-etapa-chaves-peso-da-regua.html

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

O Porto da Raiva na segunda metade do século XIX

PORTO DA RAIVA
FOTO: SITE DO MUNICÌPIO DE PENACOVA

São frequentes as referências ao Porto da Raiva, geralmente associadas ao estudo da navegação comercial do Mondego. Também na literatura de viagens e de costumes podemos encontrar alguns relatos, muitas vezes pitorescos, de viagens ao longo do curso navegável do Mondego. 

“A região de Penacova e a Navegação Comercial no Mondego – Subsídios para a História da Navegação”, da autoria da penacovense Maria Adelina de Jesus Nogueira Seco, bem como "Ó da Barca!... Memória da Barca Serrana do Mondego”, do Arq. Fernando Simões Dias, serão duas das principais obras que conhecemos sobre esta temática. Outros estudos têm sido feitos. Podíamos referir o extenso artigo de Edgar Lameiras “Contributo para o estudo da navegação comercial e dos sistemas primitivos de transporte e carga do Mondego a montante de Coimbra”, publicado na volume nº 6 da Revista Antropologia Portuguesa (1988), a partir do qual o Município de Penacova elaborou para o seu “site” o apontamento “Porto da Raiva e Barca Serrana”. 

Em 1911, Augusto d’Oliveira Cardoso Fonseca publicou “Outros Tempos ou Velharias de Coimbra - 1850 a 1880”. Nesse livro com cerca de duzentas páginas encontramos uma interessante descrição de uma viagem entre o Porto da Raiva e Coimbra, onde nos aparecem referências não só ao ambiente da viagem, mas também aos lugares por onde o barco ia passando durante aquele percurso.

A páginas tantas podemos ler: 

“(…) Preferiam as famílias de Coimbra fazer essa viagem [Coimbra-Figueira] pelo rio, para o que havia sempre abundância de barcos que vinham da Foz Dão ou da Raiva [1], assim como do próximo lugar das Torres, e que nos meses próprios se ocupavam unicamente no transporte de famílias. 

Os barcos eram de fundo raso; e, à ré, costumavam os barqueiros formar um amplo toldo, que construíam com um encerado sobre arcos de salgueiro. Era sob esse toldo que qualquer família se instalava, sendo o resto do barco destinado á arrumação de baús com roupa, loiças, etc. Os colchões eram sempre colocados sob o toldo, não só para não se enxovalharem, mas também porque, sucedendo às vezes, a viagem levar quase dois dias, serviam para cama dos passageiros.” 

E mais adiante o relato de uma viagem em 1875 de Coimbra até Cerdeira (Arganil), pela estrada da Beira com regresso pela via fluvial a partir da Raiva: 

“No quarto dia regressámos a Coja, e daqui, seguimos o anterior itinerário até à Catraia dos Poços, donde, deixando a estrada que vai para Coimbra, tomámos o ramal da direita, que vai até à Raiva, porto de embarque na margem esquerda do Mondego e fronteiro à vila de Penacova. 

A povoação da Raiva é pequena, mas o seu porto muito movimentado, por ser nele que se faz o embarque dos diversos géneros que de vários concelhos da Beira para ali são conduzidos e depois transportados, em barcos, para Coimbra e outras povoações até à Figueira da Foz. 

Por isso a maior parte de seus habitantes são barqueiros, entregando-se outros ao comércio de cereais e de sal, de que aí têm depósitos, para embarcarem por conta própria.” 

À semelhança do que hoje acontece nas descidas de canoa, as paisagens ribeirinhas deslumbravam os viajantes, em especial no trecho Penacova-Coimbra. 

“Havia muito que desejávamos fazer esta viagem da Raiva a Coimbra, pelo Mondego, e dessa vez assim fizemos, do que não nos arrependemos. É uma viagem esplêndida, cujos variados panoramas nos deleitam. 

Aqui, navega-se entre penedias que orlam as margens do rio, mais adiante flanqueado de encostas cobertas de viçosas oliveiras, e que, depois de passar a Cabeça de Frade [2], segue por entre ínsuas fertilíssimas. 

Nesta viagem de rio tivemos por companheiro o padre Manuel da Benfeita, o qual com sua ama Maria Correia ia para a Figueira da Foz. Quem vai para o mar aparelha-se em terra, diz o velho ditado; — pois quem, pelo rio, vai da Raiva à Figueira da Foz, faz outro tanto. Assim pensava o padre Manuel, e não fazia mal, porque essa viagem durava, pelo menos, umas vinte horas, em consequência do Mondego, nos meses de Verão, ter pontos, em que, pela pouca água, se torna quase inavegável.”
____________________
 [1] “A Raiva é um pequeno lugarejo, com porto de embarque e desembarque, situado na margem esquerda do rio Mondego, fronteira á vila de Penacova. A população da Raiva compõe-se exclusivamente de barqueiros e negociantes de sal.”
[2]  "Este penedo que fica na margem esquerda do Mondego, a meia légua da foz do rio Ceira, seu afluente, é conhecido por Cabeça de Frade, por ser escalvado e em forma d'um crânio colossal."
--------------------------------------
FONTES: 

  • Augusto Oliveira Cardoso Fonseca, “Outros tempos ou velharias de Coimbra - 1850 a 1880” 
Livraria Tabuense, Lisboa. 1911 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Apontamentos para a história da Pérgola no centenário da sua construção


No início do século XX, a Sociedade de Propaganda de Portugal inscreveu Penacova no conjunto das 17 localidades portuguesas dignas de serem visitadas. O triângulo Coimbra-Penacova-Luso/Bussaco foi, nos primórdios do turismo no nosso país, um dos circuitos mais divulgados por aquela Sociedade. A conclusão da estrada que liga Penacova ao Luso, a "estrada dos Emídios", assim designada porque à história da sua construção ficaram ligados quer Emídio Navarro, quer Emídio da Silva, permitiu que a Penacova afluíssem muitos mais visitantes. Na época, a Câmara de Penacova, "em testemunho do reconhecimento, resolveu colocar na sala nobre dos Paços do Concelho os retratos daqueles dois beneméritos".

Sobre a relação de Emídio da Silva com Penacova, o Diário de Notícias viria a escrever que “em matéria de turismo deve-lhe ainda, por exemplo, a vila de Penacova, uma das mais pitorescas do país, larga campanha em seu favor. Em troca, a um mirante que ali se erigiu e de onde se descortina sobre o Mondego uma paisagem deliciosa, deu a vila o nome de Manuel Emídio da Silva. Dos "Emídios" se chama também a estrada que liga os vértices Luso-Penacova-Coimbra, do chamado triângulo turístico do centro do país, em louvor popular do seu nome e de Emídio Navarro, o primeiro que deu fundos para a sua construção."
A Sociedade de Propaganda de Portugal, também conhecida por Touring Club de Portugal, foi fundada em 1906. Tinha como objectivo geral colocar o país no “mapa de turismo do mundo”, tal como acontecia noutros países, pela propaganda e pela promoção do mapa excursionista português. Na sequência da participação desta Sociedade, quer no II Congresso de Turismo (San Sebastian, 1909) quer no III Congresso (Toulouse, 1910) - onde apresentaram comunicações Manuel Emídio da Silva e Luiz Fernandes – coube-lhe a responsabilidade da organização do IV Congresso (Lisboa, 1911).
A Comissão de Honra foi presidida por António José de Almeida, Ministro do Interior, incluindo também o ministro das Finanças, José Relvas, e o ministro do Fomento, Brito Camacho. Por sua vez, a Comissão Organizadora tinha como presidente Bernardino Machado, ministro dos Negócios Estrangeiros. Nesta comissão, enquanto secretário‑geral, vamos encontrar Manuel Emídio da Silva, presidente do Conselho de Administração da Companhia de Caminhos de Ferro Portugueses. Como secretários, figuraram José Lino Júnior, engenheiro, irmão do arquiteto Raul Lino e diretor do Automóvel Club de Portugal, Alfredo da Cunha, diretor do jornal Diário de Notícias, Fernando Emídio da Silva (filho de Emídio da Silva) diretor da Sociedade de Propaganda de Portugal e Luiz Fernandes, vice‑presidente de secção de Hotéis da Sociedade de Propaganda de Portugal. Recorde-se que estas personalidades tinham estado em 1908 na inauguração do Mirante. José Lino Júnior e Luiz Fernandes voltarão a Penacova em Julho de 1918 para apreciar o andamento das obras de construção da Pérgola.(1)
Sede da SPP em  Lisboa (Rua Garrett)
Reconhecendo Penacova como “região caracteristicamente de turismo pelas belezas naturais que encaixilham o Mondego e pelos horizontes que do largo da povoação se desfrutam”, a SPP decidiu mandar construir na vila uma Pérgola (ou latada). Refere o Relatório de 1916 que aquela Sociedade,  pelos motivos enunciados e por “constituir um centro de turismo de certa importância”, decidira “aformosear o largo” com a construção de uma Pérgola projectada pelo “distinto arquitecto Raul Lino”. É, ainda, aquele documento que revela o custo da obra: 500 escudos.
Entretanto Luiz Duarte Sereno, passara a ser o representante daquela associação em Penacova. Em Março de 1917, este Juiz penacovense (que chegou, mais tarde, a ser Governador Civil) em entrevista ao Jornal de Penacova  deu conta do andamento do projecto. Apesar de ter sublinhado que o custo da obra se devia à Sociedade de Propaganda de Portugal, fez questão de realçar “a mais dedicada cooperação” por parte da Câmara. Na ocasião, anunciou para início do mês de Abril o arranque das obras e apontou o dia 31 de Maio para a inauguração, conforme seria desejo de Emídio da Silva. Note-se que nesse dia se assinalariam 10 anos da inauguração do Mirante.
Este calendário não se cumpriu e as obras só acabariam por ser concluídas em Dezembro de 1918. Entretanto, em Julho desse ano, tinham vindo a Penacova apreciar os trabalhos, José Lino Júnior e Luiz Fernandes e outras pessoas da capital.
Sobre a relação de Emídio da Silva com Penacova, é o próprio que, mais tarde, escreverá numa carta dirigida ao director do jornal recentemente criado “Notícias de Penacova” (10 de Setembro de 1931) o seguinte:
“Há um quarto de século que venho a Penacova e desde o primeiro dia tenho sido um entusiástico propagandista das belezas pitorescas desta linda vila. A minha propaganda não tem sido, porém, tão desinteressada como muita gente crê, pois sou pago de cada vez que volto aqui pelo deslumbramento desta sublime paisagem que me inebria de prazer espiritual! … E sou ainda generosamente gratificado pelo acolhimento carinhoso e pelas distinções que ao mesmo tempo recebo dos Penacovenses entre os quais logrei criar amizades certas e duradouras."
É também aquele jornal que recorda que Emídio da Silva, “vindo a esta vila de passagem para visitar o Convento de Lorvão, [acompanhado por Augusto Simões de Castro] ficou de tal maneira extasiado com as paisagens de Penacova que poucos dias depois iniciava no Diário de Notícias uma intensíssima propaganda em favor delas. Por influência sua, incluiu a Sociedade de Propaganda de Portugal a vila de Penacova no número das terras do país que mereciam ser visitadas."
É de salientar que Raúl Lino pertencia ao círculo de pessoas ligadas à Sociedade de Propaganda de Portugal. A título de exemplo, a revista Ocidente (Abril de 1910) dá conta de uma “soirée de récita e baile” em casa de Alfredo da Cunha, onde foi apresentada, entre outras, uma peça de teatro escrita e representada por Raúl Lino. Terá sido nesse contexto que aquele arquitecto estivera já na inauguração do Mirante em 1908. O Diário de Notícias de 31 de Maio daquele ano noticia o acontecimento com grande destaque. No artigo “Festejos em Penacova” podemos ler que “a convite do Sr. Presidente da Câmara Municipal, o dr. José Albino Ferreira (…) partiram ontem para ali muitas pessoas de Lisboa e Coimbra, que vão assistir à inauguração do belveder (…). Entre essas pessoas de Lisboa, que ontem ali chegaram, figuram os Srs. Raúl Lino e esposa D. Alda dos Santos Lino (…) “.
Assim se compreenderá melhor a marca deixada por Raúl Lino em Penacova, que não se terá limitado à Pérgola. Sabemos que também a lápide do Penedo do Castro foi por ele desenhada, mas consta que a vivenda mandada construir por Joaquim Correia de Almeida Leitão, na Cova do Barro, terá tido também a mão daquele famoso arquitecto.
Junto à Pérgola existe uma placa [colocada numa parede que na época não existia, pois o actual edifício da Câmara é muito posterior] com os seguintes dizeres: “Esta ramada delineada pelo arquitecto Raul Lino, de Lisboa, foi mandada construir pela Sociedade de Propaganda de Portugal e oferecida pela mesma ao povo de Penacova a quem é confiada a sua guarda e conservação – Ano MCMXVIII”.

----------------------------------------------
(1) O dicionário Porto Editora regista o termo pérgula, mas não traz pérgola. Diz que pérgula vem «do latim pergula-, "varanda exterior"», tratando-se de «espécie de passeio com cobertura em forma de ramada decorativa» ou «terraço coberto». O dicionário eletrónico Houaiss acolhe a palavra pérgola, embora nos remeta para pérgula, o que significa que este é o termo preferível; e considera que é uma «espécie de galeria coberta de barrotes espacejados assentados em pilares, geralmente guarnecida de trepadeiras». Também o dicionário on-line Priberam admite como sinónimo geral o termo pérgola.

Fontes: Jornal de Penacova, Notícias de Penacova e Blogue PenacovaOnline
Consultámos também o trabalho de Seminário “Largo Alberto Leitão em Penacova – a Pérgula Raúl Lino e o Busto de António José de Almeida” elaborado por Alda Celeste Frias Morgado Santos (Fac. Letras UC-2009)

domingo, 4 de novembro de 2018

Penacova na pintura de Eugénio Moreira


Penacova - Vista do Rio Mondego
1905
De acordo com Abel Salazar, Eugénio Moreira foi um dos maiores paisagistas portugueses. Penacova ocupou um importante lugar no conjunto das suas obras. Fernando Ferrão Moreira, seu sobrinho, escreveu que Eugénio Moreira se "empenhou no estudo da paisagem e dos tipos portugueses, principalmente o vale de Penacova” e que “foi nessas terras do Mondego onde mais demoradamente se deteve". 

"Ferreirinha "
retrato a óleo 73 x 93
Museu Nacional Soares dos Reis
“Ferreirinha-Tricana de Penacova” é um dos quadros emblemáticos deste pintor. Em 1902 esta obra já esteve presente na exposição da Sociedade Nacional de Belas Artes, ombreando com os trabalhos de muitos outros pintores. Uma referência curiosa: nesta exposição o quadro esteve à venda por quinhentos mil réis, o que na época e em comparação com quadros de outros pintores de renome já era uma importância avultada. “Vale da Ribeira de Penacova no Outono” e “Luar no Mondego, Penacova” foram outras das obras expostas. 

Auto-retrato [Eugénio Moreira]
Museu Soares dos Reis
O retrato “Ferreirinha”, ficamos a saber, com as dimensões 73x93, tornou-se famoso e é hoje pertença do Museu Nacional Soares dos Reis. Este museu possui ainda um auto-retrato inacabado, bem como a segunda das suas obras mais elogiadas (a par da “Ferreirinha”) a paisagem “Vale de Penacova”, considerada a sua obra prima. Este quadro, esteve patente na Grande Exposição do Norte de Portugal de 1933 e na 1.ª Exposição de Arte Retrospectiva (1880-1933) da Sociedade Nacional de Belas Artes em 1937; o retrato “Ferreirinha” foi também exposto em Lisboa, em 1937. 

A propósito do retrato da “tricana de Penacova” e referindo-se ao testemunho da paisagem envolvente, as casas, os montes graníticos “que, para lá dos elevados cumes, fazem adivinhar os planos que se sucedem, escreveu Ferrão Moreira que aquela “perspectiva magnífica” nos dá “numa profundidade que permite aos nossos olhos atravessar o vale, depois de passar o rio, penetrar na pequena aldeia e subir as encostas cheias de socalcos e pinheiros, onde leves sombras, são dadas pelos reflexos das pequenas nuvens que passam." Refere também a "harmonia cromática” da paisagem, “que pouco ultrapassa o castanho, o azul e o verde” e forma um “ conjunto directo e harmónico, favorecido por uma subtil luz fluídica que abrange céu e terra". 

Eugénio Moreira, na sua vida um pouco errante, deteve-se algum tempo por Penacova. Em 1907, por ocasião do primeiro aniversário da morte prematura do Conselheiro Artur Ubaldo Correia Leitão, a Câmara deliberou colocar o seu retrato na Sala de Sessões. Na acta respectiva diz-se que o retrato "fora feito a óleo pelo notável pintor Eugénio Moreira, residente nesta Vila". Um parentesis: que paradeiro terá tido este quadro, exposto em 1907 no salão da Câmara (onde mais tarde foi instalado o Tribunal)?

Catálogo  SNBA 1902
Eugénio Moreira nasceu no Porto em 1871. Frequentou a Escola Médico Cirúrgica daquela cidade e a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Aqui, conviveu com o grupo da Boémia Nova, mantendo relações de amizade com os escritores portuenses António Nobre, Alberto de Oliveira  e, em especial, com Agostinho de Campos. Regressou ao Porto sem ter concluído o curso, matriculando-se na Academia Portuense de Belas Artes. Porém, não chegou a diplomar-se. Viveu alguns anos em Paris, onde foi discípulo de Jean Paul Laurens e de Benjamin Constant e recebeu influências de pintores dos movimentos impressionista, fauvista e Nabis. Visitou museus e templos italianos, registando as suas impressões em guias de viagem. De regresso a Portugal, estudou paisagem e figuras portuguesas. Percorreu o Minho, em especial a zona de Vila Praia de Âncora, e o Vale de Penacova. Morreu em Fevereiro de 1913, com 42 anos de idade, vítima de doença mental.


"Vale de Penacova"
Museu Soares dos Reis

Quadro de Eugénio Moreira 1906
Coleção Particular [Penacova]
Autógrafo do quadro acima

sábado, 20 de outubro de 2018

Lorvão e Alcobaça no Registo da Memória do Mundo


Passados três anos após a inscrição no Registo da Memória do Mundo dos manuscritos “Apocalipse do Lorvão” e “Comentário ao Apocalipse do Beato de Liébana”, do Mosteiro de Alcobaça, realizou-se hoje em Lorvão o colóquio “Lorvão e Alcobaça no Registo da Memória do Mundo”.
Na sessão de abertura usaram da palavra Humberto Oliveira, Presidente da Câmara, Ana Fátima Pagará, diretora do Mosteiro de Alcobaça, Silvestre Lacerda, diretor-geral da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas e Nelson Correia Borges, Presidente da Associação Pró-Defesa do Mosteiro de Lorvão.
Depois de uma intervenção de Silvestre Lacerda, Severiano Hernández Vicente, Subdiretor Geral dos Arquivos Estatais de Espanha, apresentou o tema “El Registro de la Memoria del Mundo de UNESCO como herramienta de difusión del patrimonio cultural ibérico y modelo de cooperación internacional: Comentarios al Libro del Apocalipsis (Beato de Liébana) de la tradición ibérica; las copias medievales del Liber Sancti Iacobi: los orígenes ibéricos de la tradición Jacobea en Europa y el Tratado de Tordesillas”.

“Cien años cuidando del Beato de Tábara del Archivo Histórico Nacional”, foi apresentado por Juan Ramón Romero Fernandez-Pacheco, Director do Arquivo Histórico Nacional de Espanha.
Ainda na parte da manhã, Alfonso Sanchez Mairena, chefe das Relações Institucionais da Subdirecção Geral dos Arquivos Estatais, dissertou sobre o tema “Cartularios y tumbos como ventanas hacia los Archivos medievales: el caso de la Iglesia de Astorga (León, España)”.
Por sua vez, e já na parte da tarde, Maria Alegria Marques, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, apresentou “O mosteiro de Lorvão na sua inserção regional. O caso das terras de Santa Comba ao tempo do abade Eusébio (1086-1117)”.
Por último, “O livro das Aves de Lorvão: uma leitura de monges” foi o tema desenvolvido por Aires A. Nascimento, da Academia das Ciências de Lisboa. Encerrou o colóquio o Vereador da Cultura e Vice-Presidente da Câmara, João Azadinho.

Conheça os documentos da Torre do Tombo já registados pela UNESCO como “Memória do Mundo” e a candidatura de 2014.
https://www.youtube.com/watch?v=GkdcWI0BGsk&feature=youtu.be


sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Casa onde nasceu António José de Almeida vai dar lugar a Museu da República

A Câmara Municipal de Penacova assinou hoje um Protocolo de Colaboração com o Centro de Estudos Disciplinares Século XX (CEIS 20). A relação com o CEIS20 vem de 2004, com o lançamento da biografia “António José de Almeida e a República”, passando também pelas comemorações do Centenário da Implantação da República (2010) e mais recentemente, pelo programa do Centenário da Pérgula Raúl Lino (2018).
Em 2019 Penacova vai assinalar o centenário
da eleição de António José de Almeida
 para Presidente da República
A parceria hoje formalizada visa dois objetivos: a celebração do centenário da eleição de António José de Almeida para Presidente da República e a elaboração de um projeto de reabilitação urbanística da casa onde em 1866 nasceu aquele estadista e respetiva musealização, no sentido de aí, em Vale da Vinha, freguesia de S. Pedro de Alva, ser criado o “Museu da República António José de Almeida”. 

Assim, o protocolo prevê a realização de uma série de conferências ou mesmo de um colóquio em Penacova, organizado pelo CEIS 20 e ainda, um conjunto de sessões de formação para professores e alunos do Agrupamento de Escolas, versando a figura de António José de Almeida e o tema da República. Àquele Centro de Estudos caberá também a apresentação do projeto para o referido Museu. 
Assinatura do Protocolo entre o Município e o CEIS 20
Usando da palavra, o Coordenador do CEIS 20, António Rochette, destacou a importância deste protocolo, não só porque o Centro defende que a Ciência deve ser com e para o cidadão, mas também porque tem a ver com o conceito de res publica e se relaciona com a Escola, com a formação das novas gerações. A criação de uma Casa-Museu da República representa um desafio: a transformação de uma simples casa em museu, num espaço de mais-valia cultural que se venha a enquadrar numa rede de casas museu que existem ou possam existir nestes territórios de baixa densidade. Apesar de só agora se formalizar o protocolo, os estudos para o projeto de arquitetura e musealização já estão a decorrer, revelou. 

António Rochette, depois de considerar António José de Almeida como “uma personagem fundamental” da nossa história de “finais do século XIX e inícios do século XX”, disse que o CEIS 20 se sente “extremamente sensibilizado e honrado com este protocolo”, acrescentando, no entanto, que estas estas palavras só se justificam se de hoje a um ano sensivelmente, puder estar na inauguração daquele Museu. 

Por sua vez, o Presidente do Município, Humberto Oliveira, salientou a importância de “valorizar as nossas figuras, a nossa história e dignificar, o máximo possível, o centenário da eleição de António José de Almeida, como Presidente da República”. Considerou que se trata de uma tarefa que o município, por si só, não conseguirá realizar cabalmente, apelando por isso, ao contributo de outros parceiros, sejam pessoas individuais, sejam instituições. Daí considerar que o “CEIS 20 é o parceiro certo”. 

Recordando que no dia 5 de Outubro de 2014 fora assinada a escritura de aquisição da Casa de Vale da Vinha, disse que “agora é preciso, literalmente, por mãos à obra”. Humberto Oliveira destacou o facto de se tratar de um “projecto fundamental para a coesão territorial do município”, acrescentando economia, conhecimento e atractividade ao território. Tendo em conta a estratégia de valorização de espaços, depois do Museu do Mosteiro de Lorvão e da Casa das Artes no antigo edifício do tribunal em Penacova, a Casa-Museu, na freguesia de S. Pedro de Alva, pode ser considerada a “terceira perna desta trempe”. 

A sessão comemorativa do 5 de Outubro, foi antecedida do hastear da bandeira ao som do Hino Nacional e a tradicional deposição de coroa de flores no busto de António José de Almeida, tendo terminado com um apontamento musical apresentado pela Escola de Artes de Penacova.

Apontamento musical da Escola de Artes de Penacova 

sábado, 8 de setembro de 2018

Penacova e a Senhora do Mont'Alto

Gravura publicada no século passado
 na imprensa local
O nascimento de Nossa Senhora ou a Natividade de Maria é uma festa litúrgica celebrada no dia 8 de Setembro, precisamente nove meses depois da festa da Imaculada Conceição. 

Muitas vilas e cidades de Portugal têm neste dia o seu feriado municipal, associado a importantes festas marianas correspondendo a uma grande diversidade de invocações. Aquando da instituição do feriado municipal de Penacova, as opiniões dividiram-se entre o dia 8 de Setembro e o dia 17 de Julho dada a importância que a romaria do Mont'Alto assume para as gentes da região. Com feriado ou sem feriado a tradição mantém-se. Se coincidir com um sábado ou domingo, tanto melhor. É o que acontece hoje. A romaria promete. 

Recordemos o que escreveu em 1987 o Professor Nelson Correia Borges na obra “Coimbra e Região” sobre a Senhora do Mont’Alto: 

“O Mont’Alto avulta na paisagem, a norte de Penacova, como formidável mole defensável, uma das derradeiras manifestações da Serra do Buçaco. As ribeiras de Penacova e de Selga delimitam as suas vertentes escarpadas, onde trepam carreiros milenários que conduzem ao santuário da Senhora. O acesso é, no entanto, também possível a carros, não sem algumas dificuldades. A estrada conduz-nos do Casal à Chã; a partir daí o caminho é florestal. 

O excelente miradouro é prejudicado pelo arvoredo circundante. A capelinha, todavia, é um encanto, na sua singeleza de ermidinha bem portuguesa. Antecede-a um alpendre de seis colunas toscanas do século XVII e em toda a volta tem um banco corrido, para os romeiros se sentarem a saborear os farnéis. 

Ocorria aqui, em tempos idos, uma das mais concorridas romarias da região. Segundo as informações paroquiais de 1721, nesse tempo “os moradores da Vila de Botão e de S. João de Figueira” vinham todos os anos em procissão à Senhora do Mont’Alto, em cumprimento de um “voto antiquíssimo”, trazendo as suas ofertas em tabuleiros à cabeça de donzelas “ como tradição antiga”. 

Hoje a festa continua a realizar-se no dia 8 de Setembro, a que o povo dá o nome de Dia das Sete Senhoras, mas os romeiros já não vêm de tão longe, nem cantam no terreiro da capela as modas de outros tempos: 
A senhora do Mont’Alto
Mandou-me agora chamar,
Que tem o seu manto roto,
Que que eu lho vá remendar! 
A senhora do Mont’Alto
Lá vai pelo monte acima,
Leva a cestinha no braço
Para Fazer a vindima. 
Se nesta época se preparam as vindimas, também se faz a mudança de ritmo da vida quotidiana. Agora, muda-se a hora dos relógios. Não vão lá muitos anos, começava o serão e acabava a sesta. Tudo isto se pode comungar com a entidade que se cultua, em tocante familiaridade. 
Ó senhora do Mont’Alto,
Eu não volto à vossa festa,
Que me tirais a merenda
E mai-la hora da sesta! 
O único habitante do Mont’Alto foi, em outros tempos, um ermitão que tomava conta da capela e a franqueava aos devotos. As mesmas informações paroquiais de 1721 dão a propósito a seguinte nota curiosíssima: 
Fotos de Varela Pècurto, inícios dos anos oitenta

“Ao pé deste monte, contam os naturais, que nascem umas pedras redondas como seixos, as quais partidas se lhe acha dentro outra pedrinha do tamanho e redondeza de uma noz, que com pouca violência se desfaz em pó, e este aplicado à enfermidade da asma é singular remédio, e tanto que por ser singular e único de muitas partes deste Reino são procuradas, e como se fossem milagrosas saram os asmáticos, e ficam de todo livres” 

Como se aplicava o pó não o diz o padre informador, porém, atendendo mais ao valor estratégico do monte do que às suas virtudes salutares, o general Wellington mandou colocar junto à capela algumas peças de artilharia, por ocasião da batalha do Buçaco. 

Hoje em dia já ninguém se lembra dos episódios da batalha, mas quem subir ao santuário pelos caminhos tortuosos pode encontra ainda alguns dos tais seixos e , se quiser, verificar a veracidade da informação… "

In Novos Guias de Portugal, Coimbra e Região - Nelson Correia Borges – Editorial Presença, 1987 

UM RECORTE DE 1912...


OUTRO RECORTE: AGORA DE 1920 (JP)


quinta-feira, 23 de agosto de 2018

História da Casa do Povo de S. Pedro de Alva é o tema de novo livro de Alfredo Fonseca

No dia 15 de Julho teve lugar a apresentação de mais um livro de Alfredo Santos Fonseca. É o oitavo título que publica, desta vez sobre a Casa do Povo de S. Pedro de Alva. Recordemos os sete volumes anteriores: Memórias do Sofrimento na Guerra de Moçambique (2001); Pegadas dos meus Pés (2006) ; A História do Batalhão de Artilharia 1885 (2010) ; Farinha Podre- S. Pedro de Alva (2011) ; Os Sãopedralvenses da Diáspora (2012); Divagação sobre a Génese das Nossas Gentes (2015) e Memórias Imperfeitas de um Ex-autarca (2016). 
A partir das Actas existentes desde 1939, ano em que nasceu a Casa do Povo, e de outras fontes escritas e orais o autor procurou, segundo as suas palavras "agregar areias (entenda-se palavras), algumas bem pequeninas e de pouca importância", na convicção de que "algum dia estas agregações poderão ser úteis a quem desejar edificar com mestria" a história da Casa do Povo de S. Pedro de Alva. O livro é também ilustrado - e assim, enriquecido - com um número bastante significativo de fotografias que retratam pessoas e factos que ao longo dos anos marcaram a vida desta Instituição.
A Comarca de Arganil, jornal sempre atento às dinâmicas das nossas terras, noticiou, pela mão do dedicado jornalista José Carlos Vasconcelos, o lançamento deste livro.



[clique nas imagens para ampliar]


quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Cartas brasileiras: a milagrosa imagem de Nossa Senhora da Moita (Gondelim)



Sabia eu do que contam, história ou lenda, mas, até então, não havia encontrado registro. Por sorte, ou o que mais possa ser, encontrei relatos em um livro publicado em 1712. 

Os princípios e origem desta Santa Imagem são mais por tradições do que por escrituras, são dos “ tempos imemoriais”, não se sabe o tempo do aparecimento. 

Contam, em um vale distante de Gondelim, a um “tiro de mosquete”, perto de uma ribeira que desagua no Mondego, havia uma mata de carvalhos muito fechada, com tojos, urzes, silvas, e outros matos semelhantes. Metida no tronco de um carvalho, encontrou-se a Imagem da Senhora, um sino, e uma campainha. Não se sabe quem foi o venturoso ou os venturosos que encontraram o tesouro, consta apenas que trouxeram a notícia, ou a ouviram de moradores de Gondelim para que fosse buscá-la.

Imagem que se venera em
 Gondelim-Penacova
Por não ter onde guardá-la, a colocaram na casa de algum venturoso Obede-Edom. Porém, dizem, a Senhora deveria gostar mesmo muito do lugar onde estava anteriormente, pois fugiu repetidas vezes para a mesma árvore, ou mata de carvalhos, para aquela tosca concha em que se manifestou. 

Os devotos de Gondelim não querendo mais contrariá-la, resolveram a edificar uma ermida junto ao lugar do seu aparecimento, e a colocaram no altar mor, no meio de um retábulo de madeira dourada, com “asseio assistida, conforme os cabedais, e possibilidades daqueles moradores, com ornamentos, e ornatos necessários para assim se dizer missa”. 

Tem mordomos anuais, que se elegem, e estes são os que festejam a Senhora, o que fazem na primeira Quarta-Feira depois da Páscoa, dia da sua manifestação. Neste dia é muito grande o concurso das romagens e nele concorrem várias procissões, é o dia dos perdões, assim chamam. 

A sagrada Imagem é uma escultura formada em pedra, a altura é pouco mais de dois palmos, tem sobre o braço esquerdo o Menino Deus, com as roupas formadas na mesma pedra; ambas as Imagens pela sua rara perfeição, dizem, só pode ser obra dos Anjos, por não haver entre os homens artífices capazes. 

A Imagem encontra-se sobre uma peanha de madeira dourada, e com umas roupas de seda, e desde que se manifestou nunca foi pintada, está em uma encarnação tão bela, e tão rica, que parece encarnada de poucos dias. 

Tem os enfermos grande fé e devoção na Santíssima Imagem, são inumeráveis os milagres, existindo na ermida muitas memórias oferecidas para perpetuar a lembrança das mercês, sem que os moradores tenham tido o cuidado de fazer os registros. 

Estes, os moradores e devotos, somente se contentam por tê-la por sua singular protetora, sendo a Senhora da Moita, e ela em si, com sua beleza e formosura é um contínuo milagre. 

Santuário Mariano e História das Imagens Milagrosas de Nossa Senhora... (Lisboa,1712)
Tomo IV Livro II Título XCII pg. 645 a 647



sábado, 30 de dezembro de 2017

Votos de Bom Ano 2018


Apesar de, nos últimos tempos, o Penacova Online ter registado menor actividade, contamos, a partir de Janeiro, recuperar o ritmo habitual, naquele que será o Ano Europeu do Património Cultural.

Para todos os leitores deste blogue os nossos melhores votos de um Bom 2018!
David Almeida