05 abril, 2026

Um recorte poético de 1948: Domingo de Páscoa, por Oliveira Cabral

(Letra de Manuel de Oliveira Cabralcom ilustração do pintor portuense Carlos Carneiro)


Domingo de Páscoa!...

O Sol, neste dia,

que graças semeia!

Domingo de Páscoa!...

Que doce alegria

que vai pela aldeia !


Domingo de Páscoa!...

Os sinos vão rindo

na torre velhinha.

Domingo de Páscoa!...

Que dia tão lindo,

que lindo, ó Mãezinha!


Domingo de Páscoa!...

No adro da igreja

crianças brincando.

Domingo de Páscoa!...

E ao Sol que as bafeja

velhinhas rezando.


Domingo de Páscoa!...

Nas sebes floridas

há frémitos de asas.

Domingo de Páscoa!...

E há flores garridas

em todas as casas !


Domingo de Páscoa!...

Remoça-se o mundo,

rebrilham os céus.

Domingo de Páscoa 

…………………………….

Silêncio profundo ...

Repousam os meus.


Domingo de Páscoa!...

Quem fora rapaz

como era outrora!

Domingo de Páscoa!..

Saudades me traz

e penas agora.


Domingo de Páscoa!...

As almas 'stão cheias

de imensa bondade.

Domingo de Páscoa!...

E há pelas aldeias

AMOR - FELICIDADE


in Notícias de Penacova, 27 de Março de 1948

04 abril, 2026

Penacova e as tradições pagãs na Quaresma: 𝑶 𝑬𝒏𝒕𝒆𝒓𝒓𝒐... 𝒅𝒂 𝑺𝒂𝒓𝒅𝒊𝒏𝒉𝒂


Enterro da Sardinha? Ou Enterro do Bacalhau? Em Penacova, até aos inícios da década de trinta, com mais ou menos interrupções, era tradição do Sábado de Aleluia organizar o cortejo do Enterro do Bacalhau. Em 1932 o Administrador Concelhio não terá autorizado a sua realização na véspera do Domingo de Páscoa. Então, (crê-se, com base em notícias de jornais) uma nova comissão levou a efeito, mas no dia posterior à Páscoa, um Cortejo com um programa algo diferente. Será este que aparece em fotografias da época, onde vemos a camioneta de Heliodoro Costa acompanhada de todo o aparato típico do momento. 

Ainda não conseguimos reconstituir cabalmente a história dos acontecimentos, mas tudo leva a crer que (estamos em 1932, sublinhe-se) dois grupos, onde se terá metido política e religião, se terão demarcado na vila. Estariam em causa duas facções, uma afecta ao "Jornal de Penacova" e outra, mais simpatizante do recém aparecido "Notícias de Penacova". 

Certo dia, ao analisar alguns "papéis" antigos, do arquivo pessoal do meu amigo José Alberto Costa, encontrei um interessante folheto de 1932. Curiosamente, em vez do Enterro do Bacalhau fala do Enterro da Sardinha! Tudo leva a crer que seria este o programa que acabou por ser proibido. É que ao ler uma notícia que relata Enterro do Bacalhau da segunda feira da Páscoa de 1932 não se verifica coincidência com os elementos que o pequeno cartaz, impresso a vermelho, nos fornece.  

Este curioso documento, não só, por se referir à Sardinha (e não do Bacalhau, como seria de esperar), mas também pelo fino e mordaz humor que nele perpassa (o que era característico) merece ser recordado. Aqui fica a sua transcrição integral, na grafia original. Leva uns minutos a ler...mas valerá a pena.  

_________________________


Piramidais festejos em Penacova

1932 - No dia em que os judeus se enforcam – 1932

SEPULTARUM SARDINHORUM ET RESSURRESCIT CARNORUM

Para os que não sabem latim: Enterro da Sardinha e Ressurreição da Carne

Programa imprevisto. Não tem graça. Não ofende

Logo após o último “Gaudet», ao raiar das 22 horas, a multidão, com comichão, vai a calcão para o Luiz Brandão de lampeão na mão. No local já dito, os pais com os filhos e os filhos sem pai, empalmam uma vela, riscam um forfo, acendem a dita e encorporam-se na bicha do préstito (os homens vão á frente das mulheres) uns á mão direita e outros ao pé esquerdo. A Canastra (da Sardinha) vai a trás, debaixo do pálido, arreada por 4 valientes comilões. As bandeiras e os pendões, vão amarrados aos bordões. A guarda vai à frente da honra. As borlas e corôas, são confiadas aos Carinhas.

O itenerário do enterro é o de todos, isto é: de cima para baixo e vice-versa. Nas ruas haverá luminárias luminosas e nas janelas caras feias e formosas. O Cruz leva a Cruz. A chave do caixão (da Canastra) é confiada ao Ex." Sr. A. Pimentel.

Quando todo o mundo chegar ao Cruzeiro, junto ao chafariz do Sr. A. Cabral, cada qual chega a brasa à sua sardinha. Um orador apiteirado dirá larachas com graça e sem ela; e no último adeus á Sardinha, haverá cheliques e flatos. Espera-se que ao abrir o sarcófago, para lá enterrar a Sardinha, a multidão proteste, por haver quem goste mais do rabo e poucos da cabeça; pelo que a maioria acordará em enterrar só a cabeça (da Sardinha) ficando o rabo de fora.

Serenados os ânimos, dão-se as descargas do estilo, e enquanto o diabo esfrega o olho, Ressuscita a Carne !!

Estoiram bombas! Há cheiro a pólvora queimada e indícios de tempestade baixa! Alegria sem par! Aleluia! Aleluia! Novo cortejo segue o mesmo caminho, isto é: debaixo para cima, podendo as mulheres irem á frente dos homens. E a Carne, saltitante, sanguínea, quente, é levada em triunfo pelos gulosos para a Cova da Barro. Ali, cada lambareiro tira à sua fêvera e lambe os beiços por mais!

O cortejo é dirigido pelo mestre de cerimónias sr. A. Carvalho

REPRESENTAÇÕES

Fazem-se representar pelos Ex. Srs.:

A. Cabral - A Verónica. (Este Ex."' Sr. também de bom agrado se encarregou de regular o passo do enterro).

F. Tintim - A arquitectura médica e a engenharia cirúrgica

Silva (estageário) - Os mártires do trabalho.

E. Silva - Os mecheriqueiros internacionais (jornalistas) e a "Voz" ... de Dcmo ... nio

J. Cabral - A comarca de Penacova e múmias do Egito.

A. Guedes - Os códigos de Confúcio.

F. Miguel - Os sábios da Grécia e as Musas do Alcorão.

Américo L. - Os mártires do descanço.

D. M. Coimbra - O diabo em fralda de camisa.

J. Ribeiro - O Mirante e as ciências da Patagonia.

A. Leitão -  A Universidade de Salamanca e o deserto de Sahará.

X. Z. - O  "ludra-se" do Jornal de Penacova.

F. A. V. A. (fava) - A acreditada agência do Bacalhau.

O instrutor dos B. V. de P. faz-se representar pela farda do 2." comandante.

FESTA DE CARIDADE

As bondosas damas de Penacova, levam a efeito, no Domingo de Páscoa, um peditório em favor dos pobres, o que lhe acarretará as maiores simpatias. O Secretário Geral do Céu enviou-lhes o Rádio seguinte:

"S. Martinho enviou a capa que vós lhe ofertásteis, as mães pobresinhas, para dela fazerem camisas para os filhos. S. Sebastião vai mandar-lhes também os calções. Para decôro do Ceu, ide falar ao Revcrendo Pinto e Domingo de Páscoa tirai o folar para os que têm fome c frio " -  Pedro

Os Doutores da Igreja também enviaram no Ex."° Sr. Dr. Albino, o seguinte telegrama: "Doutores Penacova - Secundem missão caridosa folar pobres - Jerónimo.

NOTA - A chefe do correio deturpou o telegrama e escreveu : Mentores Pinóca -Fecundem missão maldosa esfolar pobres. - Jeremias.


SARAU DE GALA NO CINE-TEATRO-CLUB

1ª PARTE

Poesias e prosas (recitado ao cavaqainho) - A. Pinto

História dos amarguras de um piolho (em harpa) - J. Barreto

Cataratas do Mondego com garfadas de grelos (discurso inédito)  - A. Casimiro

Tretas e pêtos (solo de pífaro em si b. m.  - F. Redondo

O amor em sonetos - pelo soprano lírico - M. Carvalho


2ª PARTE

Tango Argentino e Sonho de valsa (à guitarra).   - J. Nunes

Música de D. Faustino ... e um violino -  J. Cabral

Filosofias de pataco e a canção do grilo (com ferrinhos - J. Ribeiro

Rapsódia política (piano a 4 mãos)  - J. Leitão - E. Pinto

Fado choradinho (assobio em dó menor) - S. Rosa


3ª PARTE

Um drama ... em cuécas (Peça em 3 actos pelo autor)  - J. Gouveia

Sonata-Pacata (ao fagote, em lá maior) -  J. Alves

Minuête do perdalário (gaita de loiro com sardina)  - A. Cabral

Profecias dos Planetas (com pandeireta e berimbau) - Mendes C.

Piruetas no trapésio do amor (com castanholas) - F. S. Guedes


APOTEOSE

Luta à  Portuguesa. Sôco à inglesa. Coice à hespanhola, pelo respeitável público.


NOTA IMPORTANTE

Para que as criancinhas pobres compartilhem desta festa, roga-se às almas caridosas que atirem com o seu óbulo para a colcha que será conduzida pelas crianças, no cortejo. A importância recolhida será escrupulosamente entregue à Autoridade Administrativa, que no Domingo de Páscoa a distribuirá pelas CRIANCAS MAIS POBRES da Vila.

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Bacalhau, Enterro do - Representação popular que tinha lugar em sábado de aleluia ou domingo de Páscoa, simulando o enterro de um rabo de bacalhau para simbolizar o fim do jejum quaresmal de carne. Em certas localidades, organizava-se um cortejo "fúnebre", em que o bacalhau seguia à frente, pendurado num pau. Quase sempre havia testamento. Não se conhece prática musical específica a acompanhar. Hoje em dia são raras as povoações que conservam esta tradição, a qual ainda se mantém, por exemplo, em Soutocico, Leiria.

N. B. - OS TEXTOS DESTA ENCICLOPÉDIA DAS TRADIÇÕES POPULARES ESTÃO SUJEITOS A DIREITOS DE AUTOR,PELO QUE A SUA REPRODUÇÃO, AINDA QUE PARCIAL, DEVERÁ INDICAR O NOME DO SEU AUTOR, JOSÉ ALBERTOSARDINHA.



02 abril, 2026

O meu nome é Constituição



O meu nome é Constituição 


O meu nome é Constituição 

Da República Portuguesa

E o meu sobrenome Paciência 

Para com os que não me querem

De certeza


Nasci hoje

Há cinquenta anos atrás 

E sou mesmo muito jovem 

Quando comparada 

Com outras anteriores de tez 

audaz


A idade só significa maturidade 


Sou fruto de um trabalho consistente 

De um grupo de Portugueses 

Com muito discernimento 

E de consciência na mente

Para encontrar um consenso 


Agora dizem que já estou velha

Que, de vez em quando, me dá 

telha

Que não estou adaptada

Muito menos actualizada 

E eu acho isso bem natural 


Sou um Documento casuístico 

E devia sê-lo mais generalista 


Mas deram-me regras para mudar

Para me poder adaptar

Aos tempos que o tempo tem

Regras, nunca imposição de ninguém 


O meu papel nesta Sociedade

doente

Ainda é ter bem presente

Que não se apoia o dissidente 

Mas sim o Povo 

Aquele que me quis, de novo


O tempo do obscurantismo 

Já se foi, não vai voltar mais

Porque a “paralisia” é dura

E a Democracia custa muito

Talvez, até demais


O Povo reivindicou-me nas ruas

Exigiu-me nas urnas de voto

Para integrar com sã sabedoria 

Normas contra o Estado Novo

… sem vida em Democracia!


Luís Pais Amante 

Casa Azul

Nos 50 anos da Constituição da República Portuguesa.





31 março, 2026

"Sons do Mondego" organizaram Tertúlia de Poesia


Realizou-se no dia 28 de Março uma Tertúlia de Poesia, subordinada ao tema "Alma de Penacova", com a participação dos poetas penacovenses António Simões, José Pisco e Luís País Amante. A declamação coube a Ricardo Coelho e aos próprios autores. Os apontamentos musicais foram de Luís Neves, projectando na sala o melodioso som da gaita galega.

O evento, organizado pela Associação Musical Sons do Mondego, contou com o apoio da Câmara Municipal e do Grupo Place. Integrou-se no programa do VIII Encontro de Gaiteiros de Penacova (que decorreu no mesmo fim de semana), promovido igualmente por aquela Associação.

Para a Organização, tratou-se de “uma noite de excelência, com o auditório da Casa das Artes Martins da Costa cheio, com o evento e os autores a serem bastante aplaudidos no final”. 

Por sua vez, na opinião de alguns dos participantes, público e autores, publicada nas redes sociais, tratou-se de “um excelente evento, muito interessante”, que merece ser “repetido por muitas vezes”. Outro interveniente referiu: “Foi muito gratificante. Obrigado à organização, ao público pela partilha e entusiasmo e ao Luís Neves pelo momento musical. Fantástico!”. Mais um testemunho: “Foi uma noite em que os que ainda pensam ter Penacova na Alma disseram presente e participaram: da Riba de Baixo a Figueira, Gavinhos, Casal, etc. Obrigado aos que estiveram connosco e ao Sons do Mondego pela impecável organização. O Ricardo Coelho mereceu a vénia de todos nós.”

A tertúlia foi moderada por Paulo Rodrigues, elemento da organização. No momento de apresentação inicial, António Simões referiu que escrevia desde sempre, "porque gosta, porque pensa", não tendo nenhuma pretensão de publicar livros. José Pisco recordou que em 2007 começara a levar a sério a poesia, escrevendo sobre o Mosteiro de Lorvão, sobre Penacova e sobre a Natureza. Luís Pais Amante, reafirmando o mote que tem vindo a sublinhar ultimamente “Eu sou de cá”,  anunciou que vai sair em breve  o seu 10º livro, a ser lançado na Feira do Livro de Lisboa. Ricardo Coelho, sublinhou que “nestes tempos escuros, difíceis, a poesia faz falta”. 

A primeira série de poemas, declamados por Ricardo Coelho, incluiu os temas “Barqueiro do Mondego” de António Simões, “Alma do Mosteiro de Lorvão” de José Pisco,  “Penacova Intemporal” de Luís Pais Amante, “O Vimieiro” de António Simões, “O Sublime e o Mosteiro de Lorvão” de José Pisco, “Remoçar na Praia” de Luís Pais Amante e “Livraria” de António Simões. Por sua vez, para declamar o tema “Cruzeiro de Penacova”, de Luís Pais Amante, foi convidado Álvaro Coimbra, um dos “meninos do Fundo da Vila”, referidos no poema, e hoje Presidente da Câmara.   

No momento seguinte, foi lançado o repto aos autores no sentido de serem eles próprios a dizer mais alguns dos seus poemas. Assim, a introduzir, Paulo Rodrigues, autor de dezenas de letras de marchas populares, declamou o tema “Hino a Penacova”, tema este que em 2020 venceu um concurso da CIM (Comunidade Intermunicipal). Seguiu-se “Tenho uma terra”, por  António Simões, “Sossego na praia do Mondego” por José Pisco e  “Penacova” por Luís Pais Amante. 

De entre o público presente, declamaram temas da respectiva autoria, a jovem Eva Cruz e a Professora Helena Marques. A propósito da intervenção dos jovens, Luís Pais Amante salientou que os mesmos merecem ser apoiados na divulgação dos seus temas pois “fazer poesia e não a ver publicada é uma inibição brutal para a continuidade do trabalho. Ser poeta também é passar mensagem.” 


Outros poemas foram surgindo. Luís Pais Amante leu “Rua Principal” e José Pisco disse “Mar Sublime”. O novo hotel em construção foi  tema: António Simões trouxe o poema “O Hotel” e Luís Pais Amante “O Hotel anda por aí”, poema inédito, mas a partir daquele momento, publicado na página do Facebook "Penacova Acontece".  A terminar,  “Anamor” e “Os Cantos do Amor e do Tempo” foram outros textos ditos, respectivamente, por Luís Pais Amante e José Pisco, seus autores. 

No final foi projectado o vídeo de Óscar Trindade e Ricardo Coelho, relativo ao poema “Remoçar na Praia”. 


19 março, 2026

Novo livro de Paulo Cunha: À 𝘉𝘦𝘪𝘳𝘢 𝘥𝘰 𝘛𝘦𝘮𝘱𝘰 - 𝘤𝘰𝘯𝘵𝘰𝘴 𝘥𝘢 𝘵𝘦𝘳𝘳𝘢 𝘦 𝘥𝘢 𝘨𝘦𝘯𝘵𝘦

No dia 7 de Março, integrada no Programa do 2º Festival Literário de Penacova, teve lugar a apresentação do livro de Paulo Cunha À Beira do Tempo - contos da terra e da gente. A sessão, que decorreu na Biblioteca Municipal, contou com a presença de  Álvaro Coimbra, presidente da Câmara. 

Apresentou a obra, Marta Ceia, especialista em assuntos globais, desenvolvimento sustentável e diplomacia. No prefácio, por si assinado, podemos ler o seguinte:

À Beira do Tempo não começa onde começa. Começa antes, entre o som e o silêncio. Os passos que já não se ouvem na escada, o eco de um sino antigo, a lembrança da voz do avô misturada com o crepitar da forja e o baque do latão a ser moldado. Aqui o silêncio não é espaço vazio, mas identidade a desfazer-se e a refazer-se. É nesse momento de suspensão entre o silêncio do espaço e o som da memória que o livro existe. Paulo Cunha escreve como quem regressa depois de ter fugido e encontra tudo igual e, ao mesmo tempo, irreconhecível. Há tensão nestas vinte histórias, fruto da hesitação entre o desejo de desapego e a fidelidade à terra, às gentes, à história. A Laurinda, o Sacristão, o José Aquino, o Silvério e a Marquitas, são gente concreta, vozes dessa terra, testemunhas de vidas inteiras concentradas em gestos repetidos, portadoras de saberes não escritos e de ofícios que morreram sem cerimónia com os corpos que as sustentavam. Ao evocá-las, o autor não as cristaliza no passado, mas devolve-lhes a dignidade, inscrevendo-os num presente que as há de reconhecer.”

E, a terminar, sublinha: 

“Ler À Beira do Tempo é caminhar pela terra, onde cada passo levanta sonoramente o pó que julgávamos assente. No fim, voltamos ao avô, ao silêncio do patamar vazio, à saudade que ainda anima, à ressonância do que deixou. Talvez apenas seja isso que o livro nos pede. Que nos sentemos no patamar, que ouçamos o que resta, e que, ao contarmos quem fomos, consigamos compreender melhor quem somos."

Na contracapa, podemos ler igualmente um texto do Presidente da Câmara, onde, a dado passo afirma que “a presente obra de Paulo Cunha é um presente para a memória futura. Um contributo inestimável para a nossa vida em comunidade, um legado para as futuras gerações. É acima de tudo um retrato fiel das tradições, modo de vida, hábitos, ofícios tradicionais, escrito com a sensibilidade de quem, realmente, ama a sua terra e as suas raízes.”

Como nota biográfica, transcrevemos o texto publicado no livro:

 “PAULO CUNHA nasceu em 1972, em Cabinda - Angola. A maioria dos seus familiares pertence a São Pedro de Alva. A ocupação profissional está em Lisboa. Parte do tempo restante é passada em Hombres. Começou por escrever diversas crónicas no jornal Nova Esperança, tendo já publicado dois projetos de ficção, uma coletânea de pequenos contos, intitulada "Lapsos de Tempo", uma crónica satírica, intitulada Ensaio sobre a Praça, e, também, vários contos sobre a temática do natal na coletânea intitulada Lugares e palavras de natal, organizada pela editora Lugar da Palavra. No livro À Beira do Tempo, Contos da terra e da gente, o autor reitera o registo das relações familiares e sociais da gente que o viu crescer e contribuiu para o sentido de captação das particularidades do quotidiano, passado e presente, da região de Mondalva.”

Na página 28, a Feira de S. Pedro de Alva é o mote para um original olhar do autor. Um excerto:

São recordações. Já só existem recordações! Surgem num jeito envolto. Pouco mais vejo além delas. Vagueio num género de drone que sobrevoa o espaço, que rodopia nas linhas curvas das diversas perspetivas. 

Lá em baixo, remonta-se o dia de feira. A vila reconstitui-se no lugar de todos os preços. Torna-se o grande bazar coberto por imensos toldos brancos. Espeta-se estaca a estaca. Ouve-se o tilintar dos ferros caídos, das marteladas secas sobre os calhaus da calçada. Afinam-se as vozes ensonadas! As cordas esticadas delineiam cada pedaço de chão alugado por um dia. A brisa matinal sopra na crista das tendas semelhantes a águas calmas protetoras do burburinho vivo. Cruzam-se residentes e vizinhos. Abrem-se caixas, rulotes e baús. Soltam-se conversas discretas e indiscretas. Mistura-se claridade com sombras vivas. Encontram-se vidas próximas, alheias... vidas suspensas, invejadas, escondidas e até esquecidas. Espalha-se pela vila uma estrondosa necessidade de troca. O chafariz de quatro torneiras espreita por cima do mar de toldos. Testemunha a libertação dos cheiros da pimenta e do colorau. Como invasores do recinto. A terra húmida da manhã é expulsa das narinas!

18 março, 2026

Aproveitamento Turístico da Quinta das Lamas: será desta?




A envolvente natural da antiga Quinta das Lamas tem vindo, ao longo dos anos, a suscitar intenções de exploração turística. Esta “península”, desenhada pelos curiosos meandros do Mondego, situa-se na zona entre Oliveira do Mondego e Porto da Raiva. 

Está a circular na internet o seguinte anúncio: 

Herdade à venda Quinta das Lamas s/n Penacova  | 1.800.000 € | 1.200 m² área bruta”.

Acrescenta o anúncio que a Quinta das Lamas “é uma propriedade única com 22 hectares, situada numa localização privilegiada nas margens do Rio Mondego, entre a Barragem da Aguieira e a Barragem do Coiço. A sua envolvente natural proporciona uma paisagem de rara beleza, onde o espelho de água se funde harmoniosamente com a floresta, criando um cenário verdadeiramente inspirador ao longo de todo o ano. No topo da propriedade encontra-se a zona urbanizada, oferecendo vistas panorâmicas absolutamente deslumbrantes sobre o rio e a paisagem envolvente — um enquadramento difícil de traduzir em palavras.”

Avança-se com um “estudo turístico informal, desenvolvido em conformidade com o Plano Diretor Municipal em vigor”.

Será desta? – perguntamos no título. 

Que tenhamos conhecimento, já em 1989, o Presidente da Câmara, Engº Estácio Flórido, em Conferência de Imprensa, convocada para divulgar algumas propostas de investimento previstas para o concelho, anunciava um “importante complexo turístico com um salão de conferências na Quinta das Lamas”. As negociações estariam em curso, envolvendo um empresário suíço. O projecto previa a construção de apartamentos, restaurante, piscina, campos de jogos e “aproveitamento fluvial circundante”. 

Passados 10 anos, em 1999, mais uma vez  foi noticiada a possibilidade de forte investimento na Quinta das Lamas por parte do Grupo Belmiro de Azevedo. Uma delegação desses pretensos investidores terá mesmo reunido com o então assessor da Câmara, Dr. Leitão Couto. 

A história da Quinta das Lamas terá à volta de 150 anos. Sabemos que em 1887 já aí vivia o casal António José Duarte Moreira e Isabel Brazília Moreira. Ele, “capitalista” (como se dizia na época”, filho de Joaquim Duarte Maltez e de Joaquina Maria de Oliveira, proprietários de Hombres. Ela, “governante da sua casa”, filha de António Gonçalves da Silva e de Maria Madalena da Silva, capitalistas da cidade de Santos, no Brasil. Falecida em 20 de Julho de 1907.

Desconhecemos quem habitou o soberbo edifício a partir daí (agradecemos se algum leitor puder acrescentar alguns dados nesse sentido). Apenas sabemos que naquela zona, existe um trilho que parte da povoação do Coiço e se estende até ao cume da “península” onde se situam as actuais ruínas do edifício, que não escapou ao grande incêndio de 2017. Esse percurso pedestre é conhecido por “Trilho do Palácio do Doutor Guilherme Carneiro”. Quem foi esta personalidade? Desde já agradecemos a quem nos possa esclarecer. 


17 março, 2026

𝕆ℙ𝕀ℕ𝕀Ã𝕆 | O Mundo dos Loucos

 



O Mundo dos Loucos


Ainda existem sítios para se “acomodarem” os loucos: os manicómios!

E também ainda existem sítios para guardar os ladrões: as prisões!

E onde “empastelar” os fanfarrões?

Tudo isto são afirmações e perguntas que se colocam, hoje, aos Cidadãos do Mundo.

E que têm destinatários…

Donald e Putin!

Embora existam outros que têm por missão “dar cabo do mundo regulado”, infringindo todas as normas de convivência e bem assim as regras resultantes do post guerra, sobre temáticas diversas, “dadas à ONU” para delas (Normas) ser guardiã.

Putin é um louco que tem como ambição de curto prazo domesticar a Ucrânia, de médio prazo controlar a União Europeia e de longo prazo empoderar-se como “potência mundial”!

… mas refugia-se na primazia das tais normas, desde que seja para os outros …

Donald Trump é outro louco que tem muita pressa em dar cabo de tudo, pura e simplesmente!

E fazê-lo rápido, rápido, antes que o resto do mundo se possa organizar.

… não quer normas, nem maneiras, nem educação, mostrando-se como “ o carrasco da ONU”!

Claro está que existem outros actores disruptivos, com ambições regionais, mas sem qualquer hipótese de “viverem” sem apoio daqueles dois.

Esta gente não suporta - pura e simplesmente - o tipo de vida de nós, Ocidentais/Europeus…

… mete-lhes confusão a Liberdade; também a tendência teórica do caminho para a Igualdade; e muito mais do que tudo, a Paz como prática de convivência …

Ora bem,

Nós Europeus temos, sobretudo, de pensarmos em defender a nossa génese; a nossa maneira de ser; a nossa matriz de Sociedade.

E, para isso, temos de nos convencer que somos nós próprios - e não os outros - que temos de fazer pela vida, gerindo a nossa situação política, económica e organizacional.

Não é mais tolerável que ocupem cargos na Europa (pagos em termos absolutamente obscenos) indivíduos que, nos seus próprios Países deixam muito a desejar, tanto em competência, como em credibilidade.

Ao mandá-los pra lá somos nós todos - os Votantes - que estamos a ser infectados, também, por uma certa loucura …

Na minha Opinião (naturalmente modesta), está na hora de o “Estatuto de Europeu” se agigantar, para ombrear com os actores de que tenho estado a falar.

… e esse desiderato só se alcançará através da evolução da UE (com todas as entropias que se colocam às respostas tardias, contraditórias e ineptas) nestes tempos, para a Federação dos Estados Europeus.

Poderá, até, perder-se alguma soberania, concordo; mas ganhar-se-á muito em capacitação para a acção!


Luís Pais Amante
Casa Azul

10 março, 2026

𝔻𝕚𝕫𝕖𝕣 𝕒𝕤 𝕡𝕒𝕝𝕒𝕧𝕣𝕒𝕤 𝕡𝕠𝕣 𝕚𝕞𝕒𝕘𝕖𝕟𝕤: exposição de João Rebelo no Centro Cultural de Penacova


Dizer as palavras por imagens

Integrada no programa do 2º Festival Literário, a exposição “Dizer as palavras por imagens”, que tem vindo a percorrer o país (durante o mês de Janeiro esteve em Ferreira do Zêzere), veio até Penacova.

Uma viagem “onde a literatura e a memória abandonam o papel para se transformarem em cor e forma”, onde “as palavras, preservadas nos livros, ganham aqui uma nova vida tridimensional e vibrante.”

Nesta exposição (…) temos “rostos que deram voz à nossa língua e cultura, de Portugal ao Brasil, passando pela Galiza e Moçambique.”

Quem é João Rebelo? 

Nascido em Tomar há 69 anos, formou-se em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde iniciou uma longa carreira como professor, lecionando em diversos pontos do país. 

Em paralelo, desenvolveu de forma contínua a sua atividade artística na pintura, realizando exposições individuais por todo o território nacional e também na Galiza. 

Considera a pintura o seu principal meio de expressão e refúgio pessoal. Após a aposentação, fixou residência em Coimbra, onde passou a dedicar-se mais intensamente à criação artística, à realização de conferências sobre a importância da literatura portuguesa e brasileira e ao desenvolvimento de um projeto de artesanato, mantendo uma participação ativa na vida cultural. (Fonte: https://cm-ferreiradozezere.pt/comunicacao/agenda/exposicoes/368-exposicao-de-pintura-na-biblioteca)






























08 março, 2026

Crónicas do Avô Luís (9): Negligência?






NEGLIGÊNCIA 

Negligência significa a falta de cuidado, atenção, zelo ou aplicação no cumprimento de um dever ou de uma tarefa, resultando em desleixo, omissão ou descuido.

No sentido jurídico, é uma conduta omissiva (não agir quando deveria), que deixa de tomar precauções necessárias para evitar danos, sendo considerada uma forma de “culpa”.

E porquê tratar este tema nesta Rubrica (Crónica)? - perguntarão os Leitores e os Seguidores;

Pelas razões seguintes:

1. Em casa e também nas Escolas, devemos “investir” na criação de mulheres e homens responsáveis, habilitados para dar sequência a uma “Sociedade Sã”;

2. ⁠Devemos concentrar a nossa energia “no fazer passar uma ideia de respeito”;

3. ⁠Na observância de regras que dignifiquem o Ser, independentemente da sua idade;

4. ⁠E devemos levar essa mensagem para o exercício da Liberdade, através do Voto. 

                                   *

O que se está a passar, hoje em dia, é que quem abraça a “causa pública”, por eleição, concurso ou nomeação, na maior parte dos casos, são pessoas mal formadas, que se estão a "marimbar" para os outros.

Pretendem, isso sim, “tratar da vidinha" e o mais depressa possível…

Temos inúmeros exemplos dessas situações, nos cargos públicos normalissimos, nos cargos autárquicos , nos cargos governamentais e, até, nos cargos de exigência elevada, como o são os das Polícias  e das Magistraturas Judiciais.

Ou é o Técnico da Segurança Social que dá informações erradas; ou o da ACT , que “desajuda” o utente; o funcionário municipal que aponta caminhos incorretos (por exemplo nos licenciamentos); os titulares dos cargos electivos que se arrogam donos da verdade e que “empregam” pessoas sem currícula; os Órgãos Policiais que se sucedem nas análises dos caso erroneamente; os Políticos (titulares de cargos públicos) que se sentem “donos da quinta” e fazem muitas asneiras; os Magistrados que erram e erram e erram…

Isto para não falar dos Deputados  (Presidente da AR incluído e do próprio Presidente da República).

!… Eu acho que esta minha sensação é aquela que graça no País Real …!

Eu recebo no meu Escritório Pessoas portadoras de “coisas” de bradar os céus…

Muitas com qualificação de “negligência” pura e dura!

Ora bem,

Falando para a nossa Juventude:

a) assumam que os vossos direitos devem ser todos respeitados a tempo e horas; exijam que o sejam;

b) desconfiem quando vos dizem que não; procurem informações credíveis e rebatam, com argumentos sérios;

c) não votem nos amigos só porque o são; votem nos que dão garantias de serem Pessoas de bem e, preferencialmente, nos que não precisam da política para viver;

d) não alimentem “máquinas” que (nesta ou naquela situação) já falharam;

e) habituem-se a reclamar, por escrito, nos Livros próprios, porque os há para tudo!

O exercício destes conselhos simples, ajudarão, paulatinamente, a mudar a nossa Sociedade.

Como exemplos normalizados de negligência no exercício de cargos públicos, para não complicar, temos os elencados na Lei n. 34/87, de 16 de Julho, do tempo de Mário Soares -vejam bem - com um manancial de alterações feitas no sentido da sua descaracterização, donde destaco os crimes:

- de prevaricação;

- denegação de justiça;

- restrição ou violação ilícita do exercício de direitos, liberdades e garantias;

- recebimento indevido de vantagens;

- corrupção activa e/ou passiva;

- violação de regras urbanísticas e orçamentais;

- e peculato.

Ainda que negligentes, todas estas ações, não deixam de ser crimes.

É preciso é todos (mas todos) estarmos atentos, para construirmos um País diferente, para melhor!

Como as coisas têm vindo a estar, é muito mau, mesmo…

Ou seja,

A Juventude é quem nos pode valer!


Luís Pais Amante

Casa Azul