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17 fevereiro, 2026

A enxurrada de Lorvão (1774), o ciclone (1941) e as inundações de Penacova (1960)


Muitas devastações causadas por fortes ventos e chuvas torrenciais atingiram, ao longo dos tempos, o nosso concelho. O ciclone de 1941, o dilúvio em Lorvão, um ano antes do terramoto de 1755 e as enxurradas das Ribeiras de Selgã e do Casal, em 1960, são alguns dos episódios que ilustram tais situações, muitas vezes trágicas, para a vida das populações. 

"Dizem os mais antigos, que não há memória..." 

O episódio de 1960 foi relatado, com algum pormenor, pelo Notícias de Penacova de 29 de Outubro:

"Foi a nossa região assolada na tarde da última segunda-feira [dia 24],  com tanta violência que dizem os mais antigos, que não há memória. 

Começou a tarde desse dia forrada de grossas nuvens e a certa altura a meio da tarde mal se via. Em breve começou a chover torrencialmente de forma que as ruas da vila tornaram-se em autênticas levadas de água e só não houve inundações graças ao grande desnível de todas as ruas. 

Não tardou a ouvir-se a sirene a chamar os bombeiros e a caminho do Casal lá partiram pois tinham desses lados sido requisitados. 

A chuva continuava cada vez mais grossa e não tardou a ouvirem-se gritos aflitivos de alguns lados e uma zurrada medonha começou a ouvir-se. Eram as águas das ribeiras de Selgã e Casal com uma ferocidade aterradora tudo derrubavam levando à sua frente o que encontravam deixando um verdadeiro mar de água barrenta. Entretanto ouviam-se mais gritos principalmente vindos do lugar da Ponte, Azenha do Rio e de todos os sítios onde há vivendas ribeirinhas. 

A confusão foi grande pois foi tudo tão rápido, a velocidade das águas era tão grande e tão volumosa, que tudo gritava sem saber o que fazer. Parece até ser milagre não haver vítimas pois algumas casas ficaram parcialmente inundadas, como a casa e azenha do sr. António da Conceição, moleiro que praticamente perdeu o recheio da sua casa e na Ponte, a casa do sr. Joaquim Pereirinha que ficou, o rés-do-chão completamente inundado. 

Também no lugar da Galiana ficaram algumas casas bloqueadas bem como a rua do fundo do lugar. Também dos lados da ribeira de Selgã se ouviam gritos, pois nessa altura estavam lá algumas lavadeiras da vila que bastante cuidado deram aos seus familiares c a todos afinal. O volume das águas dessa ribeira e inclinação da mesma e os pedregulhos de que o seu leito quase totalmente composto, deu tamanha força às águas que inundaram os poiais do fundo dessa quinta chamada a Quinta dos Penedos que ficou coberta de enormes pedras, tudo esbarracado e inutilizado pois só com muita despesa poderá voltar ao que era. 

Todas as terras marginais das ribeiras que são amparadas por grossas paredes num comprimento de alguns quilómetros ficou derrubado e os terrenos na sua maior parte levados pela corrente, estando tudo de aspecto desolador. 

Dizem, os que melhor entendem deste assunto que só para levantar as paredes ao longo da ribeira, principalmente a que vem de Palmazes e passa pelo Casal não chegam seiscentos contos. Também nos informaram que as águas galgaram o pontão da Galiana que é de grande altura. 

Foi uma tarde trágica no entanto há a felicidade de não haver vítimas, só de alguns animais que a água levou. 

Os nossos Bombeiros foram incansáveis e muito, muitíssimo fizeram na medida do possível, a bem de quem naquelas horas precisava do seu auxílio e amparo moral.

O aspecto de toda esta região mais atingida é desolador e muitas, muitas terras estão estragadas o que entre nós vai ser um grande golpe pois estas terras geralmente são das melhores, de melhor produção pois são todas de regadio. 

No entanto ainda há muitas graças a dar pois pelo que os jornais relataram e se tem ouvido dizer, noutros concelhos ao redor do nosso foi muito pior. Isto é o que de momento podemos saber pois dia a dia mais prejuízos vão surgindo na medida em que as águas vão baixando. E se tudo acontece de noite, nem é bom lembrar (…).

Outras zonas da região foram atingidas. O jornal NP, de 5 de Novembro, refere o apoio da Cáritas Nacional, não só às zonas de Penacova, mas também a Mortágua, Ançã e Portunhos.

"Um mar de água, e pedras..."

A  2 do mesmo [Setembro], entre uma, e duas horas da tarde, se descobriu em Lorvão todo o horizonte com uma cortina de densas, e tenebrosíssimas nuvens, que rompendo em uma horrorosa trovoada, fez sair dela um mar de água, e pedras, que havendo inundado todo aquele vale de fora, arrombou as duas portas do muro da Cerca da famoso Convento do Lorvão, e subindo nove palmos o meio, entrou nas celas dos dormitórios de baixo, levando delas as cadeiras, arcas, armários, e tudo o mais que nelas havia ;inundou a Sacristia, e tudo mais, escapando só o dormitório de cima. Avaliou-se a perda do que padeceu o Mosteiro nesta ocasião, entre o comum, e particular, em trinta mil cruzados. (in Gabinete Histórico, frei Cláudio da Conceição, Tomo XII, Imprensa Nacional, 2ª edição). A Gazeta de Lisboa, refere o dia 25 do mesmo mês. [ver aqui]

"Efeitos desastrosos do ciclone"

Também no concelho de Penacova, o “Ciclone” de 15 de Fevereiro de 1941, ficou marcado por um rasto de destruição e, inclusivamente, pela morte de um bombeiro, Franklim Feitor de Noronha, vítima dum acidente de viação, na zona da Raiva, quando o pronto-socorro se dirigia para o alto concelho para acudir “aos efeitos desastrosos do ciclone”.

Os fortes ventos (cujas rajadas máximas atingiram, em 15 de Fevereiro, no Porto 130km / h, em Coimbra 133km / h, nas Penhas Douradas, 148 km / h, em Lisboa 127km / h e em Portimão / Tavira 150 km / h que assolaram o território português no dia 15 de Fevereiro de 1941 poderão ser considerados os mais violentos desde que há recolha de registos meteorológicos (finais do século XIX), causando um elevado número de vítimas humanas e avultados danos materiais – referem Adélia Nunes, João Pinho e Nuno Ganho, in “O ‘Ciclone’ de fevereiro de 1941: análise histórico-geográfica dos seus efeitos no município de Coimbra". 

Quanto a danos causados, “a nível nacional, destaca-se o elevado número de vítimas mortais, superior a uma centena, (muitas, em especial, em Lisboa, Alhandra, Sesimbra, Alhos Vedros terão sido por afogamento devido a inundações que ocorreram nas áreas ribeirinhas).