Encontram-se por esse Portugal além numerosos restos de famosos castelos mais ou menos gloriosos na história portuguesa. Do castelo de Penacova, nada. Restara dele unicamente o nome, mais nada.
Era meu pensamento que os materiais dele deveriam ter sido incorporados na alvenaria da capela da Senhora da Guia e nas paredes do cemitério que durante séculos esteve a servir de coroa ao lindo e interessante cone hoje plantado de oliveiras até quase ao cimo.
Um dia porém comecei a olhar mais atentamente para a base do Cruzeiro do fundo da vila e quando notei que cada pedra tinha a sua sigla e que aquelas que a não apresentavam exteriormente é porque voltadas para o interior estavam escondidas na alvenaria, fiquei então convencido que estavam ali finalmente ao menos algumas das venerandas relíquias do castelo de Penacova.
Esse pensamento cheguei a comunicar ao sr. Professor Nunes numas das tardes em que ali nos encontramos e em que chamei a sua atenção para as siglas.
Quando no domingo passado, o notável arqueólogo P.e António Nogueira Gonçalves, conservador do Museu Machado de Castro, esteve nesta terra, a fazer o inventário dos monumentos e objectos artísticos do distrito de Coimbra, ao passar por ali, e deitando os olhos para aquelas pedras reconheceu-as logo. Eram os restos do antigo castelo.
Senti uma enorme alegria por ouvir a confirmação do mestre. E aquilo que eu estava para afirmar com certo receio, venho agora apontá-lo ao respeito dos penacovenses, porque o mestre falou. Não há engano.
Outras pedras certamente do mesmo castelo roqueiro* se encontram ao cimo da ladeira da fonte e talvez os próprios degraus da estrada para peões que passando em fronte da casa do sr. António Cabral leva à dita fonte da Costa do Sol.
Esta pedra lavrada deve ter descido da serra da Atalhada, porque é idêntica àquela com que se fazem as mós para a farinha de segunda, bem como as galgas e pesos para os lagares destas redondezas. É a novidade histórica que hoje trazemos à curiosidade de quantos ainda amam e veneram os elementos que nos legou a tradição dos séculos. Um fragmentozinho da história de Penacova.
MANUEL DO FREIXO
Notícias de Penacova, 25 Set 1958
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*NR: Castelos roqueiros: estruturas amuralhadas defensivas surgidas em Portugal, em zonas dominantes e habitualmente rochosas, construídos por iniciativa das populações para defesa da ameaça constante do inimigo. Sem poder central definido, serviam por isso como refúgio dos povoadores.

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