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08 maio, 2026

Os Barqueiros, por Manuel do Freixo

 


Festa do Barqueiro (Miro) - 2015


OS BARQUEIROS


Quando das janelas do altaneiro Seminário de Coimbra, (...) eu via passar, ao lado do Laranjal, ou lá em cima, em frente da Lapa dos Esteios, os barqueiros do meu concelho, lá bem mais perto da minha aldeia sertaneja, eu consolava-me de os ver e teria vontade de por eles mandar um beijo à minha mãe e um abraço a meu pai...

Habituei-me pois desde pequeno a amar os barqueiros da minha terra, como me diziam os meus companheiros de estudo. Mas a minha estima, a minha admiração e simpatia por eles, tem crescido com os anos, e até com o conhecimento cada vez mais perfeito que eu tenho deles se me perguntassem as razões que eu tenho, de boa mente as enumeraria.

São três as mais fortes razões porque respeito, estimo e admiro os barqueiros, nomeadamente os barqueiros de Penacova. Ao vê-los passar, curvados sobre as suas varas fincadas no fundo do rio, e a extremidade apoiada sobre o coração, com as pernas descobertas, tostadas pela aragem fria, retesadas nos bordos da barca a impulsionarem-na contra a corrente da água, na direcção da sua terra, lembro-me dos nossos argonautas de quinhentos a accionar os remos e as velas dos galeões das descobertas que tornaram tão grande o nosso Portugal!

Habituei-me a associar no meu pensamento estes denodados lutadores de hoje com os antigos, que lá foram mar em fora, a quem não amedrontaram as lendas do Mar Tenebroso...

Eu respeito e admiro os barqueiros, porque ainda são eles que melhor conservam a sua personalidade e o seu amor à família. Raro perdem o norte à sua casa, aos seus deveres de pais, à sua honra de maridos ou de filhos ou de irmãos.

São os barqueiros de além do rio, que ao domingo, formam uma barreira ao arco cruzeiro da igreja matriz e são os primeiros a receber a saudação do seu pároco, na missa paroquial. Ainda são eles que dão a maior percentagem aos sacramentos da Santa Igreja na quaresma.

- "Quando nós chegamos à curva do rio, na Rebordosa, e vemos a torre da nossa igreja, rezamos ao Santíssimo; e em perigos e trabalhos que passamos é que prometemos servir o Santíssimo». É frequente ouvirmos estas palavras da boca desses rudes trabalhadores do rio quando eles se vão inscrever na lista dos Irmãos.

E não tenho por isso razão para estimar e respeitar os nossos barqueiros do Mondego?


MANUEL DO FREIXO (Padre Manuel Marques)
In Notícias de Penacova , 2 Fev 1946