“ (...) As ruas de Penacova, que triste vergonha! O visitante de Penacova pela primeira vez cai nestas paragens, vindo em auto do Luso ou de Coimbra, por estradas intransitáveis, depois duma tragédia de alguns quilómetros de encontrões aos parceiros e de gritar centenas de vezes - é isto turismo?
Chega ao Terreiro, põe o pé em terra e fica boquiaberto... Aparece-lhe um garoto, sujo, maltrapilho, andrajoso, que se aproxima do carro, à laia de cicerone, a quem ele pergunta:
-Olha lá, rapaz, que palácio é este?
- Este? É a Casa do Povo - que era, mas já não é - e que vai ser agora a casa da Cambra.
O visitante puxou duas fumaças, arrebitou o nariz e comentou:
- Deve ser rico, este concelho!...
- Olha lá, meu rapaz, onde é o Preventório ?
- O Prumentório? E' acolá naquela ponta.
- E o caminho para lá?
- Por aí.
E o nosso visitante toma seu caminho por ruas sujas e tortuosas, fazendo prodígios de equilíbrio para não quebrar as pernas ou as costelas nos buracos que se escancaram na sua passagem, por ruas cujo leito mais parece pulmão de tísico em último grau, do que ruas duma vila do século XX, cantada e admirada por tantos poetas e artistas...
O nosso visitante sente-se nauseado, enjoado e resolve um passeio pelos arrabaldes, onde o Criador espalhou tantas belezas que os homens não sabem aproveitar. Vai a pé e toma pela Costa do Frio e que se lhe depara? Lixo e mais lixo, um cheiro nauseabundo.
Vai para a Costa do Sol, lixo. Sobe para os lados da Cheira, mais lixo . Foge para os lados de S. João e ainda mais lixo ...
E o visitante aborrecido, quase indignado, grita nervosamente:
- Então nesta terra de tantas belezas, onde tanta gente se julga superior, não há quem olhe e mande remover estas porcarias?
E então já colérico, retoma o auto, acelera precipitadamente e deita a fugir murmurando entre dentes:
- Que vila, tão linda por fora, tão suja por dentro ...”
Texto do NP de 1 de Outubro de 1938, assinado por "JAP"

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