A história correu de boca em boca e de jornal em jornal. Noutros periódicos foi notícia. Por hoje ficamos pelo Diário de Coimbra, de 16 de Abril de 1934, cujo texto transcrevemos integralmente:
"Há dias, um operário de escavações encontrou subitamente um rico veio minério, quando trabalhava numa mina de água que anda a ser explorada pela Câmara de Penacova.
Na honrada Ignorância de tal achado, o humilde e honesto trabalhador participou o estranho caso a quem de direito - que vem a ser às respectivas autoridades camarárias. Estas, por sua vez, e como lhe competia a sua situação de zeladores do município que representam mandaram colher as necessárias amostras dos minérios encontrados ao abandono.
Perante a incógnita que se levantara do solo, foram ouvidos os técnicos e consultados os entendidos. Todos se pronunciaram em que a escondida mina era rica de prata e de mais outros minérios.
A boa nova correu veloz por toda a parte. E' que depois de falarem os sabedores e os especializados mais ninguém poderia opor duvidas e ficar a esmoer incredulidades. Tanto não era licito a quem destas coisas não percebe patavina.
Grande mal foi este. Como se tratava de minas, e de mais a mais de prata, logo uns certos cavalhelros viram ali «uma rica mina, - gíria de dizer-se de negócio entre mãos, que deixa muito dinheiro com pouco dispêndio de trabalho ...
Negócio graúdo a dar à vontade para cinco. Eis porque de repente cinco indivíduos - todos honrados, pelo visto - se peitaram em sociedade sem cotas, com o intuito de enriquecerem em pouco tempo, negociando a prata alheia ... E não olharam a mais nada, senão aos seus premeditados interesses.
E' certo que o trabalhador - este, coitado, ficou de fora da tal sociedade - era pago pela Câmara, o os próprios terrenos fertilizados de minérios são pertença da mesma soberana entidade. Mas isto em nada influi para a ganância de arranjar prata às mãos cheias e de graça. O que é preciso é chegar a nababo com pouco ou nenhum esforço. Conjecturas grandiosas que levaram o Sr. presidente da Comissão Administrativa, o tesoureiro da Câmara, de mistura com mais três outros que tais indivíduos, a constituírem-se em donos, mandões e senhores de tu-do aquilo, por intermédio da sociedade anónima, feita para explorações de conta própria.
O abuso é comentado com áspera acrimónia, dada a extorsão de dinheiros e de direitos que representa para a edilidade de Penacova. Não há munícipe que não esbraveje suas cóleras contra tal excesso de autoridade destes amigos do povo. E os protestos andam no ar assoprados por todos.
Fiados não sabemos em que, os cinco componentes deste grandioso “achado” a tudo e a todos fazem ouvidos moucos. Nada os incomoda e perturba. Nem a voz do povo, que neste assunto é bem a voz de Deus, nem a voz intima da consciência em rebates de sinceridade, que o diabo tenta empolgar definitivamente. E tanto os azedos comentários os não incomodam que estes mesmos cinco cavalheiros societários já registaram em seu nome o grande e precioso “achado”. E o registo fez-se na Secretaria da Câmara da mesma Câmara a que pertence o terreno onde o minério foi descoberto, em que o sr. tesoureiro é empregado e o outro seu sócio exerce funções de presidente.
Ate aqui tudo tem sido bem encaminhado pela esperteza interesseira de todos. Mas o sr. Governador Civil do Distrito, a quem cabe dizer a última palavra, vai por certo pronunciar-se. E o seu despacho de pronuncia, disso estamos convencidos, e fazer entrar na alçada da Câmara o que à mesma Câmara pertence de direito e de facto. E' que o lema de sua Ex.a consiste em obrigar a governar com honestidade e probidade todos os que estão directamente sob as suas ordens. Ao seu carácter íntegro não o seduzem e corrompem achados deste ou de qualquer outro quilate ... " fim de citação

ResponderEliminarSempre Penacova no seu melhor.