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28 julho, 2026

Palmira Lopes e a Arte dos Palitos: um recorte de jornal (2011) :

Recordamos uma reportagem de Carina Leal, publicada no Diário de Coimbra de 13 de Fevereiro de 2011. Hoje, com 84 anos, Palmira Lopes, da Ronqueira, já passou o testemunho à filha, Fátima Lopes, que é, igualmente, o centro de muitas notícias, entrevistas, reportagens...não só nos jornais como na televisão e redes sociais. "Artes que resistem" - como refere o antetítulo.

Escreve Carina Leal: 

"Uma tradição de família. Palmira Lopes tem 69 anos. Mora em Ronqueira, tão perto de Penacova. É lá que, com a filha, trabalha os dias. Fazem, na oficina que partilham, palitos de pluma e de flor. São palitos que, trabalhados, são o ponto de partida para verdadeiras obras de arte dobadouras, moinhos, presépios. Tantas peças mais.

Palmira não conheceu a avó de quem veio a herdar o ofício. «O meu pai aprendeu com ela e eu com ele», diz em palavras vestidas de muito orgulho. «Pertencia à nossa família, portanto não quis deixar». E tanto não deixou como ainda o transmitiu.

A avó contava que os palitos surgiram em Lorvão. «Havia lá os reis, naquele convento. Um dia, tiveram um banquete e as empregadas precisaram de uns palitos. Mandaram os criados lá fora fazer uns bicos numas estacas. As pessoas que lá estavam viram. Pensaram que podiam fazer aquilo. Então, os palitos nasceram ali». 

Natural de Vila Nova de Poiares, a avó Ernestina foi «buscar a tradição» a Lorvão. Dos palitos de dentes, apareceram os palitos em flor. «Nasceram, das mãos da minha avó, de quem tenho muito orgulho», afirma.

Com que idade começou Palmira? -  «Se eu disser ninguém acredita. Com 6 anos. Não por querer, mas para ajudar a casa», Diz que chorou «tanto, tanto, tanto». Contudo, trabalhar era uma necessidade. Foi ao observar o pai que aprendeu. «Comecei afazer os dos dentes. Mal. A minha mãe nunca dizia que estavam mal feitos. Queria era que fizesse muitos». Aos 11 anos, chegou aos trabalhados. «Aí já gostava. Já queria ser alguém. Com grande sacrifício, comecei a copiar pelo meu pai». Pediu-lhe que a ensinasse a fazer as outras peças: dobadouras, moinhos. Todavia, ele não queria que ela aprendesse. «Não havia quem comprasse», conta. Por isso, incentivava-a a que se ficasse pelos palitos. Mas Palmira não desistiu. «Abri os olhos. Reparava como é que ele fazia. Como ele gostava muito de anedotas, aprendia umas. Ia-lhas contar e via o que ele estava a fazer. E aprendeu mesmo.

Uma questão de inspiração. Aos 15 anos iniciou-se em feiras, «Rosa Mota, Estoril, FIL». «Comecei aí a ter muito orgulho no meu artesanato». Apercebeu-se que, se as outras artes tinham vários artesãos a concretizá-las, a sua era mesmo pertença da família. Também natural de Vila Nova de Poiares, cedo percebeu que o seu futuro passava por Penacova. «Toca em vir para cá».E foi.

 Palmira está sentada sobre uma almofada. Encosta-se noutra. Envolvem-na tantas aparas ou «raspas» como gosta de lhes chamar. Nota-se que está confortável e quente, confirma-o. A janela oferece uma vista privilegiada. A serenidade do verde imenso, que se avista, parece entrar por ali adentro. Cria «à imitação» do que vai vendo. Quis, em tempos idos, fazer um castiçal. «Andei dois anos para o fazer», partilha. «Ele não saía. Não é em todas as alturas que a peça sai», constata. Uma vez, fui à igreja, fiz um desenho. Vim para casa e comecei». Esperou a altura certa. A inspiração chegou. Fê-lo. «Tem de sair de dentro», explica, ao tocar com a mão no peito.

Gosta do que faz. Gosta de participar em feiras. «Aquilo faz-me nova». Ri. «Não é só o dinheiro que conta, mas também a nossa convivência, alegria, satisfação». E há que trabalhar. «Se o fizermos, damos ânimo à feira». Aprecia quando sente que dão valor ao seu trabalho. «As nossas mãos é que nos dão o valor», dizem jeito de quem quer fugir à pergunta que a levaria a comentar os prémios que já recebeu.

Trabalha o salgueiro. «A madeira tem de ser cortada em Dezembro ou no início de Janeiro. Temos de a deixar estar até vir bom tempo para a debulharmos». Depois, há que cortá-la e secá-la. É, entretanto, guardada. «Daí trabalhamos o ano todo».

Confirma que os tempos são outros. «Como nós aprendemos a viver foi sempre bom. Mas, como se vive agora é mais difícil».

Acrescenta, no seu jeito despachado e simpático, que «quem não souber fazer os palitos de pluma ou os de flor, não pode passar para as outras peças, nunca vai saber fazer nada de jeito». Porquê? «E preciso saber enfeitar bem». E é num ápice que faz um palito em flor. Segue-se um em pluma. Conhecer a arte? E porque não?