O texto que se transcreve é a introdução de uma das crónicas de João Augusto Simões Barreto (1877-1933) no Jornal de Penacova, intituladas “Regionalismo - Bairrismo. Penacova progressiva - O passado, o presente e o futuro”, publicadas em 1929. Pelo realismo da descrição e pelo curioso “retrato” que faz duma época, achamos pertinente voltar a ler este excerto:
“Debruçado sobre as grades da Pérgola, eu olhava o vale do Mondego, um fio de água, quase parada, que o verde negro dos pinheirais dos montes tornava sombria.
No remanso do Reconquinho as lavadeiras cantavam em coro, batendo o compasso com a roupa sobre as pedras.
Mais adiante, no caneiro da Várzea, a roda desandava devagar, gemendo cantando, toda aureolada do brilho das gotas de água que tombavam dos púcaros de barro negro. Um barco descia o rio lentamente, reflectindo na água quieta o seu perfil esguio de graciosas linhas curvas.
Ó da roda! Ó da roda !
Abre-se a comporta do caneiro e a água represa precipita-se em cascata luminosa pela abertura. O barco segue veloz a corrente, empinando a ré, a que o leme dá a forma de um cutelo.
Depois tudo recai em silêncio, ouvindo-se apenas o gemer lamentoso e soluçado da roda do caneiro.
Em frente do Penedo da Carvoeira, duas raparigas atravessam o rio, mergulhando os pés na água baixa do rio e erguendo as saias mais do que seria preciso.
Ao cimo, na minha frente, o sol poente doira a penedia escura de formas caprichosas. Em baixo, um automóvel risca de negro a estrada branca e sinuosa levantando um turbilhão de poeira: O dia esteve quente, abafadiço. Só agora, perto da noite, começa a soprar o vento fresco do norte. A temperatura agora está deliciosa.”
