Há muitas referências escritas sobre a Senhora do Monte Alto de Penacova. A crónica que se segue é, na nossa opinião, um dos melhores e mais pitorescos retratos desta secular romaria. Demora alguns minutos a ler, é verdade. Não é só uma imagem onde se coloca um “like” e se passa à frente. É uma viagem no tempo (finais do século XIX) que convidamos a fazer…
foto: Varela Pècurto (início anos 80)
O Monte Alto em tempos idos
“Naquele tempo toda a noite chiavam os carros de bois, pela ladeira do Monte Alto, com melancias, melões, bojudos barris de vinho e caixas de pirolitos.
Ainda o sol não despontava na serra da Atalhada, e já as tias Vitais subiam a ladeira, com as saias “açoleiadas”, com os cântaros de água fresca; e as tendeiras de Algaça e Santa Maria iam de enfiada com os “açafaites” de quinquilharias, tagarelando futuros lucros.
Ao meio da manhã, antes do calor apertar, aprestavam-se os primeiros ranchos, concentrando-se na Costa do Frio.
Havia muitas semanas que se andava a capitalizar, aos 5 reis, para naquele dia fazer figura. O orçamento era escrupuloso; ai daquele que o excedesse, e na volta não apresentasse um saldozito: era um perdulário! As despesas certas eram: 20 reis para esmola à santinha; 10 reis para o registo com a imagem de Nossa Senhora do Monte Alto, para pôr na fita do chapéu; 5 reis para a limonada do estilo, nas tias Vitais, com acento certo e tão velho como elas, à sombra da figueira; 10 reis para a melancia; 20 reis para o berimbau, para o mano que ficou doente; 5 reis para o anel de chumbo; 25 reis para o anel de coralina, para a menina dos nossos sonhos; 20 reis para o gancho de tartaruga para presentear a mamã; e 15 reis para um bom lápis para o papá; soma 150 reis, com mais 50 reis que nos deu a madrinha – dois tostões!
Uns nababos!
O enorme rancho seguia em fila indiana. As criadas e as pobres mães, iam ajoijadas com os cestos dos farnéis. Pelo cheirinho se adivinhava o que eles continham.Havia três poisos: ao cimo da Quinta, para fazer arruaça aos que ficavam; à Pedra Poisa, para refrescar a garganta e à Cadeirinha, para rezar uma Ave Maria à santinha, no seu altar de pedra. O templo era infinito, tendo por pilares seculares pinheiros, com a cúpula de fagulha verde.
Uns momentos de descanso aproveitados para sacudir o pó das calças e as cachopas corrigirem os seus luxos, para a entrada triunfal no arraial, todos a cantar a canção mais afamada.
A essa hora o Joaquim Catarino e o Benêjo andavam a trote a juntar os farnéis para os carros de bois da família da D. Maria da Pureza, enquanto na casa da D. Joaquina de Melo e D. Natividade se fazia outro tanto.
As famílias mais respeitáveis e numerosas, tinham combinado para nesse dia, às suas mesas, não se servir o almoço; quem quisesse almoçar tinha que ir ao Monte Alto. A tia Zéfa, Josefina e Conceição, tinham ordens terminantes de não darem aos meninos uma fatia.
Mais um garfo, um copo, para o imprevisto, só lá pelas 11 horas é que deslizava a caravana, com os carros cobertos de verdura, para ser mais fresco.
No Cruzeiro já se encontravam os Barbosas e os Andrades; e o velho Luís Pimentel e Cardoso, coçavam as suissas, a reprimir censuras aos retardatários. Eles não se incomodavam, afeitos ao ardor do sol ou às bátegas de água, mas as meninas, uns miminhos ...
O caminho de 4 quilómetros levava três horas a percorrer, enquanto a ladeira levava 20 minutos a subir; de forma que os estômagos faziam as suas reclamações, mas como era da praxe o almoço ser depois da festa ... ai! se ela demorasse ...
Eram mensageiros às dúzias, a inquirir onde vinham os carros com os farnéis; amaldiçoava-se o Barraca e o Alípio da Teresa por não espicaçarem os bois! E os estômagos ao “relanti”, recusavam limonadas: queriam sólidos.
O arraial à cunha. Findava o sermão que o sr. Padre Pedro sabia na ponta da língua. Finalmente: o almoço. Ajeitavam-se assentos de feto, estendiam-se no chão, sobre o mato alvíssimas toalhas, e vá de distribuir pratos de canja, lombo com batatinhas tostadas, tão loiras, que até os olhos as comeriam...
A sombra dos pinheiros ia fugindo; era a hora da corrida aos petiscos. Uma perninha de galinha? Uma isca de presunto? Um pires de arroz doce? Um copo de vinho? Um cálice da “rija” ? Vá um cafezinho... Franqueza de todos até à impertinência; camaradagem e amizade sólidas - uma só família!
Os estômagos bem compostos, é a altura de ir correr o arraial; à sombra espaçosíssima do cedro, os montões de melancias; havia-as de 10 reis a 4 vinténs, mas estas davam talhadas para 20 pessoas; as tendeiras estendiam-se até à portaria da Chã, com bugigangas de mil feitios, anéis de metais baratos e que luziam como oiro, assobios e “flaitas” de lata, etc .; padeiras de Gondelim e S. Paulo, com bolos untados de azeite; aos lados do arraial, as barracas do ti Daniel e Ladroeira, as mais afamadas, porque tinham peixe do rio, frito nessa noite; limonadeiras às dúzias e todas não tendo mãos a medir, num vai-vem a caminho da fonte do Azevinhal. Cada limonadeira teria um só limão mas, louvado Deus, bem espremidinho, dava para uma dúzia de cântaras de água, bem docinha, com açúcar amarelo.
Na capela era grande a azáfama para receber as ofertas de trigo, centeio e milho, alinhando-se os sacos já cheios ao lado dos mesários Arcipreste Leite e João Serra; o Zé Craveiro, num sari- lho, a guardar farnéis e a regular a distribuição da água da pipa; o Joaquim Cabral a ralhar aos garotos que até os figos verdes comiam; o Casimiro a deitar foguetes sem conta; e o Francis-quinho Guedes a comandar, gaiatamente, o gaiteiro. O ti Zé Carvalho a arrebanhar o rancho da vila, para irem dançar no lugar clássico - para o lado da vila. Novos e velhos, pobres e ricos, todos dançavam e cantavam modas apropriadas:
- Senhora do Monte Alto
Quem vos varreu o terreiro?
- Foram mocinhas da vila
Com raminhos de loureiro.
A Senhora do Mont'Alto
Mandou-me agora chamar,
Que não desse trela a rapaz
Que não fosse p'ra casar ...
O Alipinho, exímio no “estalado”, mandava; Henrique de Melo e o Zeca mandavam a «farrapeira» e o Américo e o Quim a «caninha verde». O Manuel Guedes tocava guitarra, o António Augusto cavaquinho e António Dias os ferrinhos. As melhores cantadeiras, Encarnação, Alexandrina, Caetana, Antoninha, Suzana e Emilia, faziam sucesso.
Depois era o ti Albino com o “harmónium” para um «vira» de que tinha o segredo, ao qual ninguém resistia; o Carlitos, o Abel Barbosa, o César, o Alfredo e o Basílio, andavam mascarados de poeira e suor.,.
Já o sol se escondia para lá dos moinhos de Gavinhos e não havia pressa para descer a ladeira. As pobres mães tinham de pedir a intervenção da D. Natividade e D. Maria da Pureza para porem termo aos folguedos – e ninguém desrespeitava tais mensageiras.
Mais uma vénia à Senhora do Monte Alto com uma súplica de lábios emudecidos ... (novos e velhos todos sabiam qual era a pedinchisse) e a promessa da visita para o ano ... mas já casadinhos, pela graça da santinha.
Ao avistarem-se as primeiras casas da vila, era um nunca acabar de saudações de um lado e
de outro. No Largo da Costa do Frio esperavam os romeiros, aqueles que não puderam ir, para receber as prendas, ainda que somente fosse um ramo de cedro ou folha da figueira, para recordação.
Noite alta, ainda no alpendre se fazia ouvir a voz “apiteirada” do Julião, a pregar o sermão do Padre Santo António; e o Daniel e o Ladroeira a despacharem os fregueses maçadores e beberrões, por já não terem mais vinho para misturar na água.
Um dia bem passado
*Zé do Mirante, pseudónimo de José Augusto Ribeiro (1881-1963), alfaiate em Penacova. Chegou também a ser proprietário do "Café Casino". Através das suas crónicas “In Illo Tempore” (apesar de só possuir a instrução primária) transmitiu-nos muitos pormenores sobre as tradições de Penacova, a par de relatos de acontecimentos de finais do século XIX e inícios do século XX, envolvendo pessoas e factos cuja memória se foi perdendo no tempo. Casou em 1904 com Senhorinha Albertina, tendo como padrinhos de casamento Joaquim Augusto de Carvalho e Alípio Oliveira Silva Cardoso. Foram seus filhos: Armando Craveiro de Almeida, Herculano de Almeida Ribeiro, Alexandre Lusitano de Almeida Ribeiro e Lídia de Almeida Ribeiro.
