Esta fotografia vai sendo conhecida dos penacovenses. Há poucas semanas, graças à IA (Inteligência Artificial) até foi apresentada nas redes sociais com animação, onde parte dos figurantes se moviam. Ora, o Notícias de Penacova noticiou com algum pormenor aquele Cortejo (Enterro do Bacalhau) que se realizou naquela Segunda-feira de Páscoa de 1932, dia 28 de Março. Deixamos aqui a transcrição:
"Alguns rapazes - uns já descriados, outros casados e muitos solteiros, mas todos alegres lembraram-se de levar a efeito uma festa burlesca, comemorativa do fim da quaresma - o enterro do bacalhau.
Para esse fim, foi constituída uma comissão, composta dos srs. Armando Pimentel, Augusto Pimentel, Alípio Pimentel, Heliodoro da Costa, António Luís, Augusto Luís, Alberto da Costa, António Viseu, Américo Leitão, António Alvarinhas, Mário Carvalho, Fernando Alvarinhas, José Alvarinhas, José Alberto Alvarinhas, Jaime Barbosa, Júlio Ferreira da Silva, António da Cruz Assunção, José de Assunção, Eduardo Miguel, José Alves Coimbra, José Augusto Ribeiro, Lusitano Alexandre Ribeiro, José Ferreira da Silva, Jorge da Costa e Álvaro Martins Coimbra, que, depois de aturados mas profícuos trabalhos, conseguiu realizar uma festa engraçada e decente, o que é motivo para os felicitarmos vivamente.
A festa dos rapazes devia ter-se realizado no sábado de aleluia, mas, por motivo independente da sua vontade e que não importa saber, teve de ser adiada para segunda-feira.
Saiu o vistoso e numerosíssimo cortejo de casa do sr. Armando Pimentel, seriam 22 horas, e foi acolhido por francas gargalhadas da multidão que o aguardava na rua e que nele se incorporou.
Em andores bizarramente enfeitados viam-se um enorme bacalhau, uma bacalhoa e uma cavala ... em pano pintado; à frente um grande pendão, ornamentado com bacalhaus, alhos, cebolas, grelos, facas, garfos, etc.; dentro de uma camioneta, os oradores e seus acólitos; dois automóveis e um barco, conduzindo aficcionados; e o todo ladeado e acompanhado por muitos rapazes e raparigas, portadores de lanternas de papel de varias cores, com letreiros apropriados. O efeito era soberbo!
Seguia o cortejo muita gente da vila e dos arredores, rindo abandeiras despregadas das facécias dos oradores, que, em vários pontos do trajecto, fizeram o elogio... fúnebre do bacalhau.
Depois de percorrer as ruas da vila, sempre no meio da maior alegria e em boa ordem, o cortejo regressou ao ponto de partida, onde dispersou.
Seguiu-se um baile em casa do sr. Armando Pimentel, dançando-se animadamente até muito tarde.
A festa foi abrilhantada pelo gaiteiro, que executou valentemente um ruidoso repertório. Os oradores, que conseguiram manter as numerosas pessoas que escutaram, em constante hilaridade, foram os srs. Eduardo Soares, Jorge da Costa, Jacinto Alvarinhas, José de Castro Pita e Mário Carvalho.
Todos os trabalhos de pintura foram executados pelos artistas pintores desta vila srs. Fernando e António Alvarinhas.
Decorreu a festa sem que houvesse a menor nota discordante, o que mostra que os nossos rapazes não são tão maus como por vezes os pintam, e os torna dignos dos nossos louvores.
Mostraram que sabem divertir-se, sem exageros irritantes de verduras de mocidade. Bem hajam!
Acompanhava o cortejo um grupo de crianças transportando uma coberta onde se recolhia dinheiro, destinado a ser distribuído pelas crianças pobres da vila. Rendeu 25$45, quantia que foi logo entregue a autoridade administrativa.
Foi realmente pouco, sendo para lamentar que a generosa ideia dos alegres rapazes não fosse melhor compreendida.
Bem o mereciam as horas risonhas que eles a todos proporcionaram. Mas os tempos correm tão bicudos ... Não queremos fechar esta notícia sem mais uma vez louvar os briosos rapazes pela forma ordeira como decorreu toda a sua festa, felicitando ao mesmo tempo a comissão a que acima fizemos referência pela feliz execução que teve a sua iniciativa." NP 9 Abril 1932


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