Sempre terá chamado a atenção dos penacovenses e daqueles que nos visitam o Memorial que se encontra ao fundo da Pérgola Raúl Lino. Pintada recentemente a parede ao redor, em cores mais quentes, o bloco de mármore que serve de base à inscrição, continua, no entanto, a reclamar algum restauro, problema que já em 1999 Martins da Costa alertou numa das suas crónicas no Jornal de Penacova. Para este pintor, esta é, aliás "uma das peças artísticas mais bonitas que a vila possui". E acrescentava o Mestre: "Ao chamarmos a atenção dos penacovenses, que superintendem na autarquia, para este monumento queremos fazer aqui uma chamada de atenção para e seu estado, actual e futuro, de conservação. É que o monumento foi construído em pedra que, pelo seu grau de fragilidade, pode de um momento para o outro sofrer ruína irreparável (o que em parte já está a acontecer)."
Este memorial padece de um lapso que nunca foi corrigido: Manuel Alves, soldado que serviu em França, não tombou, felizmente, em combate. Quem de facto morreu quando prestava serviço militar na mesma época, em Moçambique, foi o seu irmão António Alves, cujo nome não figura. Sobre este equívoco, Óscar Trindade, neto de um dos visados, publicou há dias na sua página do Facebook uma interessante poesia. (1)
Mas passemos ao relato da inauguração do memorial. Não estando datado, muito poucas pessoas saberão que foi descerrado no dia 29 de Julho de 1934, no mesmo dia da inauguração do Preventório e do Hospital da Misericórdia.
A imprensa local e regional registou aquele dia memorável. O Notícias de Penacova anunciou, uns dias antes, nos seguintes termos:
"No dia 29 do corrente, nesta vila de Penacova - poiso de êxtase e paragem de sonho, altar de maravilhas que nos descobre uma das mais surpreendentes belezas da terra portuguesa terá lugar a inauguração oficial:
Da lápide que contém os nomes gloriosos dos MORTOS da Grande Guerra, naturais do concelho, o nome saudosíssimo e por toda a vida imensamente querido, de aquele que foi dos maiores e melhores amigos da sua terra, militar valente - o grande aviador SANTOS LEITE;
Do Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Penacova;
Do abastecimento de água a esta vila e do fornecimento de energia eléctrica para iluminação pública e particular.
Nos Paços do Concelho, na sala do Julgado Municipal, haverá sessão solene, de boas-vindas às entidades oficiais que se dignarem visitar-nos, e será conferida posse á Comissão Política da UNIÃO NACIONAL, ultimamente proposta e nomeada.
A recepção terá lugar no largo Dr. Alberto Leitão, pelas 15 horas, seguindo-se imediatamente a sessão solene a que se faz referência; depois a inauguração da lápide na presença de um representante da heroica plêiade dos Combatentes, e finda esta, nas salas do Casino de Penacova, será servido aos nossos ilustres hóspedes um «Porto de honra».
Seguir-se-á a inauguração do Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Penacova.
Para todos estes actos está assegurado o valioso concurso da «Filarmónica Fraternidade Poiarense», que gentilmente se ofereceu à sua congênere de esta vila para, em conjunto, executarem os trechos que estabeleceram e firmaram a sua união e afecto indestrutíveis".
Por sua vez, A Comarca de Arganil, do dia 31 de Julho, publicou notícia desenvolvida sobre todos aqueles actos solenes, destacando, igualmente, a "Homenagem aos mortos da Guerra":
"Na frontaria dos Paços do Concelho, realizou-se a seguir - pelas 19 horas - o descerramento da lápida aos mortos da Grande Guerra, cerimonia a que procedeu o sr. Mário Augusto Barbosa dos Santos Leite, aluno do Colégio Militar e filho do saudoso aviador Santos Leite, natural daquele concelho.
Discursou o sr. capitão Cunha Oliveira, presidente da agência da L. C. G. G (Liga dos Combatentes da Grande Guerra ) que produziu algumas palavras de saudade pelos valorosos soldados que tombaram para sempre no campo da honra e do dever, devendo ser recordados como mártires de um ideal de Justiça, no qual, sacrificando-se, evidenciaram as belas virtudes que constituem a alma da Raça. Em palavras bem sentidas, evoca a memória do saudoso e valoroso militar José Barbosa dos Santos Leite, pedindo um minuto de silêncio pela sua alma, o que foi religiosamente respeitado.
O sr. tenente Fernando Oliveira Leite exaltou os sentimentos patrióticos do exército português, frisando que, da hecatombe que tanto mal causou e para que seguiu no cumprimento do dever, nem todos os soldados voltaram, prestando assim a sua homenagem aos que tombaram no campo da batalha.
Digna é de aplauso - diz a câmara daquele concelho, por ter prestado tão justa homenagem, e termina por se referir também à memória do major Santos Leite, espirito arrojado e amigo do seu amigo, que andou na guerra e onde saiu ferido, vindo a encontrar a morte num estúpido desastre.
Como representantes da agência, em Coimbra, da Liga dos Combatentes da Grande Guerra, compareceram os oradores antecedentes e ainda os srs. Alferes Antônio Leitão e sargento António Bravo, chefe da secretaria daquela corporação, fazendo-se acompanhar do respectivo estandarte.
A lápide tem inscritos os seguintes nomes de soldados mortos na guerra:
Eduardo Pereira Vizeu, de Penacova; João dos Santos, da Carvoeira; António Couceiro, da Ronqueira; Alípio da Cruz, de Riba de Baixo; Domingos Serafim Henriques, de Carregal; António Carvalho, da Rebordosa; Daniel Alves, da Aveleira; Artur Branco e Manuel da Costa, de Cácemes, e Manuel Alves, de Palheiros.
E, destacada, a seguinte inscrição:
Azas gloriosas de Portugal, que tombaram para sempre numa hora fatal do dia 30-11-28 - Major Santos Leite, militar valoroso, penacovense ilustre, amigo dos maiores da sua terra.
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(1) Elegia aos Dois Irmãos
Ó pedra antiga, fiel guardiã,
dos nomes que o tempo quis lembrar,
por que trocaste, em frio engano,
quem partiu de quem soube voltar?
Não foi Manuel Alves, soldado valente,
nas terras de França a combater,
que a morte levou na Grande Guerra —
esse voltou para viver.
Também António vestiu a farda,
também à Pátria soube servir;
mas foi nas águas de Moçambique,
na praia da Beira, que o viste partir.
Ali, sem glória de campo de batalha,
sem clarim nem voz a anunciar,
foi o mar quem selou o destino
do soldado que não pôde regressar.
E contudo, aqui jaz gravado
o nome do que à terra voltou,
enquanto o outro, digno e ausente,
no esquecimento se perdeu.
Ó memória, levanta-te firme,
corrige a pedra, desfaz o engano:
dá ao vivo o lugar dos vivos,
e ao morto, enfim, repouso humano.
Que a verdade floresça no tempo,
como flor que insiste em nascer —
pois só na justiça do nome
a honra dos dois pode viver.
Óscar Trindade
EM MEMÓRIA DO MEU AVÔ E TIO AVÔ - Soldados na Grande Guerra

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