Enterro da Sardinha? Ou Enterro do Bacalhau? Em Penacova, até aos inícios da década de trinta, com mais ou menos interrupções, era tradição do Sábado de Aleluia organizar o cortejo do Enterro do Bacalhau. Em 1932 o Administrador Concelhio não terá autorizado a sua realização na véspera do Domingo de Páscoa. Então, (crê-se, com base em notícias de jornais) uma nova comissão levou a efeito, mas no dia posterior à Páscoa, um Cortejo com um programa algo diferente. Será este que aparece em fotografias da época, onde vemos a camioneta de Heliodoro Costa acompanhada de todo o aparato típico do momento.
Ainda não conseguimos reconstituir cabalmente a história dos acontecimentos, mas tudo leva a crer que (estamos em 1932, sublinhe-se) dois grupos, onde se terá metido política e religião, se terão demarcado na vila. Estariam em causa duas facções, uma afecta ao "Jornal de Penacova" e outra, mais simpatizante do recém aparecido "Notícias de Penacova".
Certo dia, ao analisar alguns "papéis" antigos, do arquivo pessoal do meu amigo José Alberto Costa, encontrei um interessante folheto de 1932. Curiosamente, em vez do Enterro do Bacalhau fala do Enterro da Sardinha! Tudo leva a crer que seria este o programa que acabou por ser proibido. É que ao ler uma notícia que relata Enterro do Bacalhau da segunda feira da Páscoa de 1932 não se verifica coincidência com os elementos que o pequeno cartaz, impresso a vermelho, nos fornece.
Este curioso documento, não só, por se referir à Sardinha (e não do Bacalhau, como seria de esperar), mas também pelo fino e mordaz humor que nele perpassa (o que era característico) merece ser recordado. Aqui fica a sua transcrição integral, na grafia original. Leva uns minutos a ler...mas valerá a pena.
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Piramidais festejos em Penacova
1932 - No dia em que os judeus se enforcam – 1932
SEPULTARUM SARDINHORUM ET RESSURRESCIT CARNORUM
Para os que não sabem latim: Enterro da Sardinha e Ressurreição da Carne
Programa imprevisto. Não tem graça. Não ofende
Logo após o último “Gaudet», ao raiar das 22 horas, a multidão, com comichão, vai a calcão para o Luiz Brandão de lampeão na mão. No local já dito, os pais com os filhos e os filhos sem pai, empalmam uma vela, riscam um forfo, acendem a dita e encorporam-se na bicha do préstito (os homens vão á frente das mulheres) uns á mão direita e outros ao pé esquerdo. A Canastra (da Sardinha) vai a trás, debaixo do pálido, arreada por 4 valientes comilões. As bandeiras e os pendões, vão amarrados aos bordões. A guarda vai à frente da honra. As borlas e corôas, são confiadas aos Carinhas.
O itenerário do enterro é o de todos, isto é: de cima para baixo e vice-versa. Nas ruas haverá luminárias luminosas e nas janelas caras feias e formosas. O Cruz leva a Cruz. A chave do caixão (da Canastra) é confiada ao Ex." Sr. A. Pimentel.
Quando todo o mundo chegar ao Cruzeiro, junto ao chafariz do Sr. A. Cabral, cada qual chega a brasa à sua sardinha. Um orador apiteirado dirá larachas com graça e sem ela; e no último adeus á Sardinha, haverá cheliques e flatos. Espera-se que ao abrir o sarcófago, para lá enterrar a Sardinha, a multidão proteste, por haver quem goste mais do rabo e poucos da cabeça; pelo que a maioria acordará em enterrar só a cabeça (da Sardinha) ficando o rabo de fora.
Serenados os ânimos, dão-se as descargas do estilo, e enquanto o diabo esfrega o olho, Ressuscita a Carne !!
Estoiram bombas! Há cheiro a pólvora queimada e indícios de tempestade baixa! Alegria sem par! Aleluia! Aleluia! Novo cortejo segue o mesmo caminho, isto é: debaixo para cima, podendo as mulheres irem á frente dos homens. E a Carne, saltitante, sanguínea, quente, é levada em triunfo pelos gulosos para a Cova da Barro. Ali, cada lambareiro tira à sua fêvera e lambe os beiços por mais!
O cortejo é dirigido pelo mestre de cerimónias sr. A. Carvalho
REPRESENTAÇÕES
Fazem-se representar pelos Ex. Srs.:
A. Cabral - A Verónica. (Este Ex."' Sr. também de bom agrado se encarregou de regular o passo do enterro).
F. Tintim - A arquitectura médica e a engenharia cirúrgica
Silva (estageário) - Os mártires do trabalho.
E. Silva - Os mecheriqueiros internacionais (jornalistas) e a "Voz" ... de Dcmo ... nio
J. Cabral - A comarca de Penacova e múmias do Egito.
A. Guedes - Os códigos de Confúcio.
F. Miguel - Os sábios da Grécia e as Musas do Alcorão.
Américo L. - Os mártires do descanço.
D. M. Coimbra - O diabo em fralda de camisa.
J. Ribeiro - O Mirante e as ciências da Patagonia.
A. Leitão - A Universidade de Salamanca e o deserto de Sahará.
X. Z. - O "ludra-se" do Jornal de Penacova.
F. A. V. A. (fava) - A acreditada agência do Bacalhau.
O instrutor dos B. V. de P. faz-se representar pela farda do 2." comandante.
FESTA DE CARIDADE
As bondosas damas de Penacova, levam a efeito, no Domingo de Páscoa, um peditório em favor dos pobres, o que lhe acarretará as maiores simpatias. O Secretário Geral do Céu enviou-lhes o Rádio seguinte:
"S. Martinho enviou a capa que vós lhe ofertásteis, as mães pobresinhas, para dela fazerem camisas para os filhos. S. Sebastião vai mandar-lhes também os calções. Para decôro do Ceu, ide falar ao Revcrendo Pinto e Domingo de Páscoa tirai o folar para os que têm fome c frio " - Pedro
Os Doutores da Igreja também enviaram no Ex."° Sr. Dr. Albino, o seguinte telegrama: "Doutores Penacova - Secundem missão caridosa folar pobres - Jerónimo.
NOTA - A chefe do correio deturpou o telegrama e escreveu : Mentores Pinóca -Fecundem missão maldosa esfolar pobres. - Jeremias.
SARAU DE GALA NO CINE-TEATRO-CLUB
1ª PARTE
Poesias e prosas (recitado ao cavaqainho) - A. Pinto
História dos amarguras de um piolho (em harpa) - J. Barreto
Cataratas do Mondego com garfadas de grelos (discurso inédito) - A. Casimiro
Tretas e pêtos (solo de pífaro em si b. m. - F. Redondo
O amor em sonetos - pelo soprano lírico - M. Carvalho
2ª PARTE
Tango Argentino e Sonho de valsa (à guitarra). - J. Nunes
Música de D. Faustino ... e um violino - J. Cabral
Filosofias de pataco e a canção do grilo (com ferrinhos - J. Ribeiro
Rapsódia política (piano a 4 mãos) - J. Leitão - E. Pinto
Fado choradinho (assobio em dó menor) - S. Rosa
3ª PARTE
Um drama ... em cuécas (Peça em 3 actos pelo autor) - J. Gouveia
Sonata-Pacata (ao fagote, em lá maior) - J. Alves
Minuête do perdalário (gaita de loiro com sardina) - A. Cabral
Profecias dos Planetas (com pandeireta e berimbau) - Mendes C.
Piruetas no trapésio do amor (com castanholas) - F. S. Guedes
APOTEOSE
Luta à Portuguesa. Sôco à inglesa. Coice à hespanhola, pelo respeitável público.
NOTA IMPORTANTE
Para que as criancinhas pobres compartilhem desta festa, roga-se às almas caridosas que atirem com o seu óbulo para a colcha que será conduzida pelas crianças, no cortejo. A importância recolhida será escrupulosamente entregue à Autoridade Administrativa, que no Domingo de Páscoa a distribuirá pelas CRIANCAS MAIS POBRES da Vila.
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Bacalhau, Enterro do - Representação popular que tinha lugar em sábado de aleluia ou domingo de Páscoa, simulando o enterro de um rabo de bacalhau para simbolizar o fim do jejum quaresmal de carne. Em certas localidades, organizava-se um cortejo "fúnebre", em que o bacalhau seguia à frente, pendurado num pau. Quase sempre havia testamento. Não se conhece prática musical específica a acompanhar. Hoje em dia são raras as povoações que conservam esta tradição, a qual ainda se mantém, por exemplo, em Soutocico, Leiria.
N. B. - OS TEXTOS DESTA ENCICLOPÉDIA DAS TRADIÇÕES POPULARES ESTÃO SUJEITOS A DIREITOS DE AUTOR,PELO QUE A SUA REPRODUÇÃO, AINDA QUE PARCIAL, DEVERÁ INDICAR O NOME DO SEU AUTOR, JOSÉ ALBERTOSARDINHA.

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