31 janeiro, 2026

Autores penacovenses contemporâneos | Ficção e Poesia (7): Paulo Cunha Dinis


Paulo Cunha Dinis nasceu em 1972 e pertence a uma família de S. Pedro de Alva.  Fez os primeiros estudos em Penacova.  Reparte a sua vida entre Lisboa e Hombres. Escreveu algumas crónicas no jornal Nova Esperança. Depois de vários trabalhos publicados, vai lançar em breve, no Festival Literário de Penacova, um novo livro À Beira do Tempo – Contos da Terra e da Gente.


ENSAIO SOBRE A PRAÇA

Da contracapa:

" (...) Este livro faz parte de um retrato de sentimentos, objetivando incursões na compartimentação das limitações coletivas. Por outro lado, transfere uma mensagem de beleza sincrética, presente na mostra de uma escrita comentada das representações sociais, num estudo sobre as personagens… que traçaram os seus próprios caminhos. No próprio espaço em que nasceu este ensaio, não parece surpreendente a outorga da temporalidade como campo de referência da conciliação entre elementos de racionalização, subjetivação e de recomposição, num processo - não de romantismo da consolação - mas da circularidade própria dos fenómenos sociais. Mais do que um mero esboço, o autor traça na verdade uma caracterização sistemática do Homem, através de tantas figuras, de inúmeros fragmentos indivisíveis entre o visual e o escrito, em trajetórias, por vezes, de grande complexidade. Esta obra não trata de dramatizações como em Tamerlanto ou em Bajazet. E já não se compraz com um cenário extravagante. Mas com o que as palavras compõem, isto é, a triangulação de coloridos do ambiente social.(...) "

Bernardo de Mello Bandeira

Texto igualmente publicado in  https://www.amazon.com


PAULO CUNHA DINIS

Mestre em Estudos Políticos de Área – vertente Relações Internacionais no Cáucaso do Sul, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa, com a dissertação “A Geórgia e a Política Externa Russa. Uma análise do Cáucaso à luz da Teoria da Regionalização”; Licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa. Principais Áreas de Investigação: Política Externa Russa; Regionalismo Caucasiano; Diplomacia; Diásporas dos Estados ex-soviéticos; Defesa; Relações Internacionais.

Participação em Projectos: Estudo sobre a População do Concelho de Penacova de 1970 a 2011 apoiado pela Fundação Mário da Cunha Brito, Câmara Municipal de Penacova e Junta de Freguesia de São Pedro de Alva.

Publicações: “Ensaio sobre a Praça”, Editora Lugar da Palavra, publicado em 2010; “Lapsos de Tempo”, Editora Papiro, publicado em 2008.

Fonte: https://www.observatoriopolitico.pt/

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Ensaio sobre a Praça / Paulo Cunha. - Rio Tinto: Lugar da Palavra Editora, 2010. - 51 p.  ISBN 978-989-825-533-4

Lapsos de tempo / Paulo Cunha. - Porto : Papiro, 2008. - 72, [6] p. ; 23 cm. - ISBN 978-989-636-210-2

Penacova: visto pela demografia / Paulo Cunha Dinis, Filipa de Castro Henriques. – 1ª ed. – Rio Tinto :Lugar da Palavra Editora, 2015. – 115 p. : il. ; 21 cm.  – ISBN 978-989-731-098-0


26 janeiro, 2026

Autores penacovenses contemporâneos | Ficção e Poesia (6): António M. T. Catela


Foi apresentado no dia 13 de Outubro de 2012, no auditório do Centro Cultural de Penacova o livro de António Catela, Tudo num Momento

Contou com a presença do Presidente da Câmara, Humberto Oliveira e a Vereadora da Cultura, Fernanda Veiga, bem os ex-presidentes do Município, Estácio Flórido e Maurício Marques. Presentes  também muitos amigos e familiares do autor. 

Como o subtítulo do livro sugere - do blog ao livro -  esta publicação (edição de autor) engloba uma selecção dos textos que desde 2007 foram sendo publicados no blogue com o mesmo nome. 

De acordo com o autor, esta obra vem "concretizar um sonho de menino nunca cumprido". A escrita, e em especial a escrita romântica, sempre foi a sua paixão. 

Conforme se pode ler no Prefácio e numa das Notas Introdutórias "recorrendo a pinceladas de cores fortes e expressivas, fala do amor, da amizade, das relações, dos valores, de si próprio, da família e das (des)ilusões". Por outras palavras, o livro remete para "o melhor e o pior do quotidiano; os valores éticos, morais ou a falta deles; os sentimentos nobres, puros e belos que habitam o ser humano e, acima de tudo, a beleza de uma alma sonhadora" levando-nos a "questionar os nossos próprios sentimentos e a nossa forma de ser e de estar neste mundo." 

Para o autor, este livro pretende "ser um tributo ao amor", a esse sentimento que "mais faz sofrer e alegrar o mundo", que "enlouquece, que faz chorar, que magoa, mas que também faz sorrir e sonhar".

In Blogue Penacova Online, 15 de Outubro de 2012

ANTÓNIO MANUEL TEIXEIRA CATELA

António Manuel Teixeira Catela, "nasceu na Maternidade da Sagrada Família na cidade de Luanda, em Angola, em 1961! Ano em que começou a Guerra do Ex-Ultramar, ou melhor a revolta que iria dar início à independência de Angola." 

Frequentou o 5º ano geral de eletricidade. Estudou em algumas províncias de Angola, mais tarde na Lousã e terminando na Escola Avelar Brotero, em Coimbra. 

"Desde miúdo, que sempre se inclinou para a área das letras mas, por motivos vários, acabou por entrar num curso tecnológico, onde as suas melhores notas. nas diversas cadeiras, foram sempre as Línguas e a História de Portugal. Sempre gostou muito de escrever e dedica muito do seu tempo à escrita romântica, área onde se sente melhor."

É casado e tem duas filhas. Reside em S. Paio de Mondego, no concelho de Penacova, onde é Presidente da Junta de Freguesia, há 26 anos. Lado a lado com este cargo, tem desempenhado funções diversas na área do associativismo, em várias Associações do concelho. A nível profissional desempenhou várias funções, entre as quais se destaca a de electricista e a de agente de segurança. Actualmente é encarregado geral de equipamento, numa Associação de Desenvolvimento Regional, sendo responsável por todo o parque de máquinas. 

"Esteve também durante toda a sua vida, ligado à religião que não renega, tendo sido inclusive catequista. Pertence ainda hoje à Fábrica da Igreja da sua Paróquia e a uma Irmandade." 

"Não sendo escritor na verdadeira acepção da palavra, acaba por publicar este primeiro livro que é um tributo ao amor, às pessoas simples e humildes e uma forma de provar a si próprio que, "tudo é possível quando o homem sonha"! 

Fonte: "Biografia", publicada na badana do livro


"SONHADOR - Hoje, de olhar cansado, rugas marcadas, um rosto temperado pelo tempo, cabelos grisalhos, pelos a surgirem, dia após dia, onde não os desejamos e a desaparecerem para sempre de onde os queríamos, barriga proeminente, curvatura nas costas, à semelhança do corcunda de Notre Dame, vai assistindo ao seu "declinar", impávido e sereno, o rapaz bonito, de cabelos aos caracóis, que nem o vento movia. 

A cerveja esfregada, todas as manhãs, nos caracóis, na inexistência de gel, permitia que os mesmos não se estragassem. De olhos esverdeados brilhantes, que, ainda hoje, mantêm a sua cor ao sol e mudam para castanho ao luar, este rapaz, metido a "engatatão", muito tímido, que pedia namoro por bilhete e não conseguia "levar uma tampa" num baile, por isso não pedia às moças para dançar, foi, no fundo, sempre um romântico. Falava com a lua, com as estrelas e escrevia-lhes quadras, poemas que lançava no ar sem preocupações de métrica, no tempo em que as calças de que mais gostava, a mãe lavava à noite e, quantas vezes, ainda as vestia meia molhadas, no outro dia pela manhã. 

Tempos em que era vulgar uma vinda de Coimbra a pé e em que a chegada a casa, cansado mas feliz por ter vivido mais um dia, era o mais importante. 

Não esqueço o deitar no beliche, que chiava por todos os lados, ali bem juntinho ao rio. Jamais adormecia sem um beijo da mãe e envolvia-me em sonhos, que me traziam novas aventuras  para o dia seguinte. Sempre fui um romântico, um sonhador!

Terça-feira, 27 de Outubro de 2009"

Texto publicado na contracapa do livro


REGISTO NA BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL




24 janeiro, 2026

Lembremos...





Lembremos


Lembremos Carlos Paredes
E o trinar das suas Guitarras
Que nos ensinou a escutar

Recordemos
O Ser humilde que ele foi
Muito grande em Liberdade
Sem nunca esquecer a Cidade
De Coimbra

[… Paredes de Coimbra são
Guitarras de cá também
Violas a acompanhá-las
O manter do Fado vão …]

Acordemos
E juntemos com ovações
Os cantares com vocação
Mesmo que sejam Baladas

Antecipemos
Que as gerações vão manter
Com saudade as Guitarras
Que nos tocam o coração



Luís Pais Amante
Casa Azul

Em homenagem a Carlos Paredes.

Recorte de jornal satírico: "Há muitos anos que isto aconteceu em Lorvão..."


O ZÉ, sucessor do jornal O Xuão – semanário de caricaturas e humorístico, publicou-se em Lisboa  entre 1 de Novembro de 1910 e 1 de Março de 1919. Trocado no título o invocativo de João (Xuão) Franco pelo do Zé Povinho, o jornal era o mesmo, feito pelas mesmas pessoas: Estêvão de Carvalho (1881-1935), diretor e editor, Ricardo de Sousa, administrador e Silva e Sousa, caricaturista.

Numa época de exacerbado anticlericalismo, “O Zé” lembrou-se de publicar, em Fevereiro de 1912, sob o título “É padre e basta…” uma história que se terá passado em terras de Lorvão. 

Conta o jornal satírico-homorístico:

“Há muitos anos que isto aconteceu em Lorvão, próximo de Penacova. Havia lá um padre que desde a sua chegada àquela localidade notou a beleza de uma sua devota. Fez todos os possíveis para se aproximar dela o mais assiduamente que podia ser e um belo dia confessou-lhe o que sentia por ela. A mulher, primeiro zangou-se, mais tarde sorriu-se, até que por fim já trocava impressões com o cura.

O padreca estava todo enlevado pela conquista feminina que tinha feito, mas o que ele não imaginava por vislumbres sequer era que a mulher antes do último sorriso tinha contado tudo ao marido lá em casa e por conselho deste é que ela tinha continuado com tanta familiaridade… O carola caguinchas estava todo baboso e estava ansioso pelo momento feliz de estar a sós com ela… O momento desejado apresentou-se e o papa-hóstias do inferno já todo se inchava de prazer, de uma satisfação desmedida que o forçava.

Na povoação já havia mais pessoas que tinham notado a anormalidade do padre e essas pessoas espreitaram-lhes os passos até que ficaram sabendo o motivo daquele seu novo modo de ser. Inteirados do que conseguiram saber foram contar ao marido da devota cobiçada que se pôs a sorrir quando lhe expuseram o facto que pra ele não era segredo. Contou tudo aos indivíduos que se lhe dirigiram, depois de lhes agradecer a boa intenção com que o procuravam e combinou-se fazer-lhe uma partida.

Estavam no Carnaval e o marido da devota fez-se saído da terra para dar ocasião a que o engole partículas entrasse em sua casa… Assim aconteceu por antecipada combinação feita pelo padre e pela crente e sabida pelo marido pseudo-ofendido. Os amigos deste último também entravam como actores na peça que se ia representar e por isso estavam a postos por trás dum muro que pertencia ao quintal da casa onde morava a mulher traidora… O marido saiu de casa e com a sua saída chegou a noite, que na sua escuridão ocultava o vulto do padre. A beata, a medo, abriu a porta ao padre-cura e este, todo jubiloso, entrou na alcova conjugal.

O marido bateu à porta… e o padre em lugar de vestir a sua camisa, vestiu por engano a da mulher e não pôde vestir mais nada. Como não pudesse sair pela porta da rua serviu-se da porta traseira, a do quintal, e ao saltar o muro os outros homens que o esperavam correram após o padre, gritando: - Cerquem! Cerquem a alma do outro mundo! Realmente com aquela camisa tão grande de mulher parecia um fantasma…

O padre teve a sorte de chegar a sua casa depois de ter apanhado com um cacete pelas pernas… Assim é que em todas as aldeias haviam de proceder contra os padres insolentes, mas tendo o maior cuidado possível em lhes aplicar bem as doses de cacete, porque aquela gente sagrada, como são do céu, não lhes dói nada!

20 janeiro, 2026

As obras dos pintores/douradores de Farinha Podre na Sé e na Diocese de Viseu


Nos estudos relativos às obras de talha dourada e policromada (período Barroco) destinadas às igrejas e capelas da diocese de Viseu, são identificados alguns artistas e artífices intervenientes neste tipo de obras.

Nesta diocese, as oficinas locais de talha, existentes na primeira metade do século XVIII, não eram suficientes para dar resposta à procura. Assim, os artistas, na sua maioria, eram oriundos de outras regiões do país, desde concelhos mais próximos, como Carregal do Sal, Santa Comba Dão e Penacova, até outros do norte do país.

“A deslocação de alguns destes artistas para a diocese de Viseu não se confinou à sua contratação para uma única empreitada, acabando alguns deles por prolongar a sua permanência neste espaço geográfico para corresponderem as sucessivas obras que foram arrematando. Um dos exemplos que nos merece especial destaque é o dos mestres pintores/douradores Manuel de Miranda Pereira e José de Miranda Pereira, pai e filho respectivamente, oriundos de Farinha Podre, concelho de Penacova, que entre 1732 e 1753 adjudicaram várias obras de pintura e douramento no espaço diocesano”, sublinha Maria de Fátima Eusébio, especialista em património e actual directora do Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja.

 
Neste quadro, apresentado na publicação acima destacada, mais concretamente na comunicação de Maria de Fátima Eusébio “A mobilidade espacial e estética do entalhador Manuel Vieira da Silva” podemos verificar, em pormenor, as obras executadas por Manuel de Miranda Pereira e José de Miranda Pereira.

 

O site da Direcção Geral do Património Cultural, ao referir o conjunto arquitectónico e artístico da Sé de Viseu, menciona, no conjunto dos diversos artistas, os “pintores-douradores” de Farinha Podre, José de Miranda Pereira  e Manuel de Miranda Pereira (séc. XVIII).

Fala-se do “douramento dos retábulos de Nossa Senhora do Rosário e Santa Ana, por Manuel de Miranda Pereira e Baltazar Pinto da Mota bem como a assinatura (28 de Dezembro de 1733) do “contrato para a douragem do retábulo principal com o dourador José de Miranda Pereira, morador em Farinha Podre, em Penacova”. Também que “os frontais dos altares de Nossa Senhora do Rosário e Santa Ana” foram “dourados” por Manuel de Miranda Pereira e Baltasar Pinto da Mota.

Igreja de S. Pedro - Oliveira do Conde
 

19 janeiro, 2026

"Trezena do Glorioso S. António de Lisboa, para o uso dos Irmãos da Irmandade do mesmo Santo da Vila de Penacova "


As Irmandades e Confrarias, associações de fiéis, nasceram na Idade Média com o objectivo de promoverem o culto religioso público do seu santo padroeiro (orago) e de prestarem auxílio aos seus irmãos nas cerimónias fúnebres e em situações difíceis.

No século XVIII, em Portugal, as irmandades eram associações de leigos de grande importância social, religiosa e económica.

Um dos seus principais objectivos era congregar fiéis em torno da devoção a um santo padroeiro. Organizavam festas religiosas, missas e sufrágios pelas almas dos irmãos falecidos.

O "Inventário Artístico de Portugal", vol IV, 1953, refere que a capela de Santo António (Penacova)  é detentora de um cálice de prata, onde, no listel de base, se lê: “ESTE CALIX HE DA IRMANDADE DE SANTO ANTONIO FOI FEITO ERA D. 1664 a.” 

Este facto, entre outros, atesta a antiguidade desta devoção a Santo António em Penacova. 

Em 1778 a Imprensa da Universidade de Coimbra deu à estampa uma brochura de 55 páginas intitulada “Trezena do Glorioso S. António de Lisboa, para o uso dos Irmãos da Irmandade do mesmo Santo da Vila de Penacova”.  

Uma Trezena é um momento de oração realizado durante treze dias consecutivos (ou em 13 terças-feiras seguidas) uma espécie de novena, só que ao contrário da novena que é rezada em nove dias, é rezada em treze dias, em homenagem a Santo António (por ser o dia treze o seu dia). Neste caso, iniciava-se no dia 1 de Junho com a Exposição do SS (Santíssimo Sacramento) e entoava-se um cântico. Seguia-se uma oração e depois cantava-se um Hino. Incluia igualmente uma meditação, uma ladainha e uma antífona.

Nos restantes dias pontificava a meditação sobre as diversas virtudes (Fé, Esperança, Caridade, Prudência, Temperança, Fortaleza, Justiça, Paciência, Castidade, Humilde, Discrição, Sobriedade).








Capela de Santo António em Penacova

17 janeiro, 2026

O topónimo Penacova em Terras de Santa Cruz


No artigo “A Saudade Portuguesa na Toponímia Brasileira”, escreve  Antenor Nascentes (1886 -1972), filólogo, linguista e lexicógrafo brasileiro, que “os navegadores portugueses, que a partir do século XVI começaram a explorar os mares nunca dantes navegados à procura de novas terras para dilatar a fé e o império, levavam consigo a saudade da terra natal e para mitigá-la, muitas vezes, davam às povoações fundadas nomes dos lugares onde nasceram”. 

“Essa transplantação quase sempre se operou espontaneamente, graças ao concurso dos povoadores anónimos, saudosos da pátria distante” – salienta. 

No entanto, “algumas vezes se deu por influência oficial, com o intuito de fazer desaparecer o topónimo aborígene, como aconteceu no Pará em 1758. O capitão-general Francisco Xavier de Mendonça Furtado ordenou que se substituíssem por topónimos portugueses os de origem tupi, visando assim dissimular a origem indígena dos povoados em que se transfiguraram os aldeamentos organizados pelos jesuítas”, mal vistos então pelo marquês de Pombal.

Antenor Nascentes não refere uma outra personalidade que terá, em contexto semelhante, conferido um topónimo português a um lugar do Pará.

Referimo-nos a  José de Nápoles Telles de Menezes (c.1747-c.1795),  Governador do Pará no final do século XVIII, filho de Luís Xavier de Nápoles Lemos e Menezes, Senhor do Morgado de Penacova. 

No livro “Belém do Pará sob o domínio português-1616 a 1823” de Jorge Harley, encontramos na pág. 78 a seguinte nota:

    
      "Fundou Tello de Menezes o lugar Penacova abaixo do Igaparé Una, 
povoando-o de aborígenes catequisados e "homens, segundo Baena,
de cor de mista qualidade e mulheres de prazer de fácil colheita no
mesmo sítio em que teve existência a Aldea de nome igual ao referido 
igarapé".
     Tello de Menezes aplicou ao lugar que creara o nome Pena Cóva
recordando a pitoresca vila Pena-Cóva, freguesia do Douro* em Portugal,
de onde talvez fosse filho.

 

O autor refere que Tello de Menezes “talvez” fosse filho de Penacova, desconhecendo que na realidade pertencia à família dos Nápoles, muito influente em Penacova, sendo filho do referido Luís Xavier e de Francisca Macedo. Quer os pais, quer os avós eram, pois, reputados elementos da nobreza beirã (Viseu, Penacova…). 

José de Nápoles, nascido em Viseu, foi Fidalgo da Casa Real, Cavaleiro da Ordem de Cristo e Tenente de Cavalaria em Almeida. Em 1779 passou a Governador e Capitão Geral do Estado do Grão Pará e Rio Negro. 

“No dia 26 de fevereiro de 1780, a bordo da charrua “Águia Real e Coração de Jesus” (navio de três mastros e um grande porão, mas de pequena capacidade para armamentos) chega ao Pará o governador e capitão general do Estado do Grão Pará e Rio Negro José de Nápoles Telles de Menezes, acompanhado de membros da Comissão de Demarcação de Limites entre os domínios de Portugal e Espanha.”- escreve Hoje na História

Depois de meritória acção no cargo, acabou por cair em desgraça, afastando-se em 1783. Veio a falecer em Lisboa. Solteiro e sem filhos deixou os bens ao sobrinho Luís Augusto de Nápoles Bourbon de Menezes. 

Mas temos mais referências: os Anais da Biblioteca e Arquivo Público do Pará (1902), ao falarem do Hospício construído pelos Capuchos de Santo  de Santo António, regista que “em torno do hospício grupou-se uma aldeia indígena, a que, em 1782, o governador e capitão general do Pará, José de Nápoles Tello de Menezes pôs a denominação de Penacova, e tentou reanimar, aumentando-lhe o número de habitantes”. 

Outra menção ao lugar “Penacova” aparece-nos na História do Pará (pág. 238 do vol. I) quando são referidas as “Agitações Políticas de 1823 a 1834”, designadamente a “Revolta de Outubro: Prisão do Cónego Batista de Campos”. Refere-se o seguinte: “Arrojados os corpos na lancha do navio, foram levados para a margem do rio, no sítio chamado “Penacova” e aí sepultados em grande vala que para isso se abriu”. 

Ficamos então a saber que existiu em Terras de Vera Cruz uma localidade chamada Penacova. O nome não terá vingado, já que nenhuma das pesquisas que fizemos nos confirmaram a existência deste topónimo nos nossos dias, ao contrário do que acontece, por exemplo, com Coimbra, nome de um município brasileiro no interior do estado de Minas Gerais. 

* De 1835 a 1936, a Província do Douro incluía os distritos do Porto, Aveiro e Coimbra. VER https://audaces.blogs.sapo.pt/2585.html

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QUER SABER MAIS SOBRE TOPÓNIMOS BRASILEIROS DE INFLUÊNCIA PORTUGUESA?


1. Ainda, pela leitura do artigo A SAUDADE PORTUGUESA NA TOPONIMIA BRASILEIRA, de  Antenor Nascentes,  ficamos a conhecer muitos outros exemplos: 

No Amazonas encontram-se: Borba, Silves, Barcelos, Badajoz, S. Paulo de Olivença (Olivença, então portuguesa). No Pará: Alcobaça, Alenquer, Alter do Chão (antigo Borani), Almeirim (antigo Paru), Aveiro, Arraiolos, Bragança, Chaves, Colares, Esposende (antiga Tuaré), Faro, Mazagão, Melgaço (antiga Cuaricuru), Monsaraz, Monte Alegre (antiga Curupatuba), Óbidos (antiga Pauxis), Oeiras (antiga Araticu), Ourém, Portei (antiga Arucará), Porto de Moz, Santarém (antiga Tapajós), Sintra, hoje Maracanã, Soure, Tentúgal, Viseu, Mazagão, antiga Vila Nova de Mazagão. 

No Maranhão: Alcântara, Viana (talvez a do Castelo, que não a do Alentejo),Guimarães, Caxias (igualmente no Estado do Rio de Janeiro,onde foi mudado para Duque de Caxias por ocasião da revisãonda nomenclatura geográfica e no Rio Grande do Sul, onde passou a chamar-se Caxias do Sul.

No Piauí,  estado da região Nordeste: Amarante, Oeiras, Valença (talvez a do Minho), Jerumenha. Jerumenha, alteração de Jurumenha, recebeu de Martius uma incrível etimologia tupi. Oeiras antigamente se chamou Moxa. Quando foi escolhida em 1761 para capital da capitania do Piauí, recebeu do rei D. José I este nome em homenagem ao ministro Sebastião de Carvalho e Melo, conde de Oeiras, mais tarde marquês de Pombal.

O Ceará conta: Sobral, Soure, Crato, Mecejana. Não se pode pôr em dúvida o primeiro. Não há sobreiros no Brasil.

Apesar de reconhecer a existência de uma vila portuguesa com o nome de Mecejana, apesar José de Alencar dá a palavra como de origem tupi e significando "a abandonada". 

O Rio Grande do Norte apresenta Macau e Estremoz.

Alagoas tem apenas Anadia.

Sergipe tem Badajoz.

A Baía conta: Abrantes, Barcelos, Belmonte, donde era senhor Pedro Álvares Cabral, o descobridor, que tocou em terras baianas em 1500, Alcobaça, Santarém, Trancoso, Olivença (hoje espanhola), Valença.

O Estado do Rio de Janeiro apresenta Arcozelo, uma simples estação ferroviária. Lá existem Valença e Resende, que se prendem a personalidades portuguesas.Valença em homenagem a D. Fernando José de Portugal, marquês de Aguiar, descendente dos nobres de Valença.

A cidade de Resende, foi criada no governo de D. José Luís de Castro, segundo conde de Resende e quinto vice--rei do Brasil, sendo assim chamada em honra dele.

São Paulo apresenta a cidade de Montemor, Paranhos, Nova Louzã, e as estações ferroviárias Lusitânia e Miragaia. Houve uma antiga Queluz.

O Rio Grande do Sul apresenta Alegrete, que não vem de topònimo. Havia no local uma cidade cuja capela os espanhóis incendiaram em 1761. O capitao-general marquês de Alegrete mandou reconstruída e então os habitantes, gratos, deram à localidade o nome do título do marquês.

Mato Grosso apresenta Melgaço.

Finalmente, Minas Gerais possui Cedofeita, que lembra a igrejinha do Porto,  Ericeira que evoca a praia donde partiu para o exílio o rei D. Manuel II. Barbacena, nome de freguesia próxima de Elvas, Queluz (hoje Lafayette), lembrando o palácio real das cercanias de Lisboa, Matozinhos, que possui um santuário que é uma réplica do que existe no Porto, Mariana e S. João del-Rei. Mariana era a vila do Carmo. Passou a ser cidade em 25 de Abril de 1745, recebendo este nome em honra de D. Maria Ana d'Austria, esposa do rei D. João V. S. João del-Rei era o antigo arraial do Rio das Mortes. Perto de S. João dei-Rei fica a antiga vila de S. José do Rio das Mortes, depois S. José del-Rei, hoje Tiradentes, cujo nome se atribui ao príncipe real D. José, mais tarde rei D. José I, filho de D. João V. Feita uma homenagem ao pai, julgaram de bom aviso fazer outra ao filho.

2. Por sua vez, uma simples pesquisa em “modo IA" dá-nos o seguinte:

A toponímia brasileira é rica em nomes portugueses, refletindo a colonização e a devoção, com exemplos como Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais (em homenagem às minas portuguesas) e Santa Catarina, além de muitas cidades com nomes de locais e santos de Portugal, como Braga, Coimbra, Aveiro, Lisboa, e Viseu, demonstrando a profunda ligação cultural e histórica entre os dois países, de Norte a Sul do Brasil.

Tipos de Nomes de Origem Portuguesa no Brasil

Nomes de Cidades e Estados:

Grandes Capitais: Rio de Janeiro (inspirado no estuário), São Paulo (dia de São Paulo), Porto Alegre (referência a "porto" e "alegre"), Belo Horizonte (referência à beleza do horizonte).

Nomes de Regiões: Minas Gerais (referência às ricas minas encontradas), Espírito Santo (referência religiosa), Santa Catarina (em homenagem a Santa Catarina de Alexandria).

Nomes de Santos e Devoção:

Grande parte das cidades brasileiras leva nomes de santos católicos, muitos deles venerados em Portugal, como São Francisco de Assis, Santo Antônio, São Sebastião, Nossa Senhora da Conceição (variando de estado para estado).

Nomes de Lugares e Características Geográficas de Portugal:

Cidades: Coimbra (MG), Braga (PB, SC), Aveiro (AM), Viseu (MG), Lamego (RJ), Évora (PE).

Características Naturais: 

Rio Douro (em homenagem ao rio português), Serra da Mantiqueira (com influência toponímica).

Nomes de Pessoas (Colonizadores e Figuras Históricas):

Muitos lugares recebem nomes de bandeirantes, exploradores e nobres portugueses, como Fernando de Noronha (PE), Ilha de São João (hoje Fernando de Noronha) e nomes de famílias importantes da época. 

A toponímia brasileira é um espelho direto da colonização portuguesa, apresentando mais de 70 cidades com nomes idênticos aos de Portugal. 

Esta herança consolidou-se através da substituição de nomes indígenas por designações lusitanas, especialmente durante a Reforma Pombalina. Aqui estão os principais exemplos dessa influência:

Cidades Homónimas (Mesmo Nome)

Muitas localidades brasileiras foram batizadas em homenagem a vilas e cidades da metrópole:

Santarém (Pará) – O estado do Pará é um dos que mais preserva esta ligação, com mais de 20 cidades homónimas. Bragança (Pará) e Bragança Paulista (São Paulo). Óbidos (Pará). Chaves (Pará). Viseu (Pará). Amarante (Piauí). Barcelos (Amazonas). 

14 janeiro, 2026

Autores penacovenses contemporâneos | Ficção e Poesia (5): Pedro Leitão Couto


 “A Era da Solidão”, romance de Pedro Leitão Couto, foi lançado a 19 de Outubro de 2019, no auditório do Centro Cultural / Biblioteca de Penacova, com apresentação da professora e escritora  Madalena Caixeiro.

Escreveu o jornal O Despertar:

"Dividida em quatro temas, independentes mas que acabam por ter alguma ligação, esta obra apresenta-se como uma espécie de “tratado sobre o conformismo”.

No seu prefácio, Madalena Caixeiro enaltece a profundidade das personagens que, com personalidades diferentes e “muito ricas a nível psicológico”, prendem o leitor com as suas contradições, conflitos e, mesmo, “desencontros dentro de si próprias”.

Neste livro, Pedro Leitão Couto aborda temas da atualidade, como as dificuldades do relacionamento social, a solidão e, até, o suicídio, problemas que, como escreve Madalena Caixeiro, “revelam dramas interiores que a personagem não consegue resolver”.

Sobre o autor, a também escritora realça a sua linguagem “cuidada” e a forma como “sabe contar, criar e comover”, recorrendo a palavras “claras, intensas e nítidas” para narrar o quotidiano, feito, no fundo, de momentos de alegria, tristeza e incerteza. Natural de Coimbra, Pedro Leitão Couto, 43 anos [em 2019], é licenciado em Economia pela Universidade de Coimbra. Atualmente dedica-se à literatura e à música. O autor vive em Coimbra mas tem raízes em Penacova. É filho de Adelina Nogueira Seco e do médico Joaquim Leitão Couto, ex-presidente da Câmara Municipal de Penacova." 


SINOPSE (por Vítor da Rocha)

«Uma obra repleta de ironia e clarividência, de desengano e de conformada tristeza. Composta por quatro narrativas, escritas sem rodeios nem cremes faciais, a obra A Era da Solidão é um verdadeiro tratado sobre o conformismo para onde a vida nos arrasta e a quase impossibilidade de uma partilha plena entre dois ou mais seres humanos, particularmente um homem e uma mulher unidos pelo amor, assim como a inevitabilidade de todo o ser humano ter na solidão a mais fiel de todas as companhias, como o diz Georges Moustaki na canção "Ma solitude":

Et si je préfère l'amour

D'une autre courtisane

Elle sera à mon dernier jour

Ma dernière compagne

Non, je ne suis jamais seul

Avec ma solitude

A Era da Solidão é uma obra de grande crueza, em todo o sentido daquilo que significa ler uma narrativa ficcional e pressentir que a vida pode mesmo não passar disso, a constante aprendizagem da rendição e a solidão como destino comum a todos, não apenas no primeiro e no derradeiro instante, mas na maior parte dos instantes de que se faz uma vida.»

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A Era da Solidão

de Pedro Leitão Couto 

ISBN: 9789898921253

Editor: Mosaico de Palavras

Data de Lançamento: Setembro de 2019

Dimensões: 153 x 229 x 14 mm

Páginas: 240

Auditório do Centro Cultural / Biblioteca de Penacova, 19 de Outubro de 2019 

(da esq. para a direita: Editor, Presidente da Câmara, Apresentadora, Autor)


Crónicas do Avô Luís (7): Mais Eleições, que chatice…


Mais Eleições, que chatice…

Nesta minha crónica no Blogue, tenho falado mais para os Jovens.

A Juventude Portuguesa vai muito, muito para além daquela que é “captada” pelos Partidos Políticos, que a transformam em absolutamente acrítica no dia seguinte à inscrição.

E aí vão escarafunchando para tentarem singrar numa “carreira” que já não se afigura capaz de acompanhar a “capacitação da nossa Juventude”, a melhor preparada de sempre!

Os que não enveredam por essas vias estreitas político-partidárias, normalmente, afastam-se da Política e deixam de “lhe passar cartão”. Pura e simplesmente…

De entre o nosso Clube da Netaria, há já um hipotético novo Votante, o Neto André.

No outro dia estive a falar com ele sobre as Eleições Presidenciais e a exclamação foi: mais Eleições Avô, que chatice…

Quando eu tinha a idade dele (1972) eu lutava para que fosse possível existirem Eleições Livres no nosso País; queria liberdade e mudança no mundo; lutava pela Democracia e, igualmente, por conseguir condições mínimas de vida para a população e apoio aos Estudantes mais carenciados, que éramos quase todos.

Só esta diferente situação temporal, muda e formata tudo o que hoje em dia está em mudança, nalguns casos dramaticamente.

O meu neto -e a generalidade dos(as) Jovens- já não estão preocupados com as questões que os do meu tempo centravam no seu dia a dia e no seu pensamento.

A Educação do Estado falhou na civilidade e o mesmo se pode dizer das Famílias.

A Política é cada vez mais um espaço “feudal” de elevação consuetudinária.

Já Parece que vivemos em Monarquia!

Experimentem, Meus Amigo(a)s, elencar os nomes dos Jovens Políticos que aparecem ainda sem barba no rodapé das Televisões e verifiquem se não são conhecidos os apelidos?

Ora bem,

Se as coisas assim estão, nas “Eleições chatice” que se avizinham, só podem esperar-se dois cenários, que antecipo:

1. Algum dos Candidatos “puxa” um número significativo de Jovens para votar e poderá exponenciar -para além do esperado- o seu resultado;

2. ⁠Ou isso não acontece significativamente e votarão os tais ligados às máquinas, cuja votação, a coincidir com o que se tem passado, não altera, substancialmente, nada.

Do que se me tem dado ver, todos os Pilitólogos apontam para o voto dos do nível etário acima dos 55 anos como determinante.

Nessa circunstância, estou crente que o Candidato Gouveia e Melo sairá beneficiado, se não cometer mais asneiras. Afinal é um Candidato com créditos firmados numa “empresa” difícil, mais apreendida por essa população.

Se a tal Juventude fora da Política for votar significativamente, beneficiarão, estou certo, André Ventura e Cotrim de Figueiredo.

Na minha análise - muito falível - ficarão de fora para a segunda volta, quase de certeza, António José Seguro e Marques Mendes.

O primeiro por mera culpa do Partido a que se entregou - e que o lixou - e das suas “tricas” permanentes, que seguirão até às Eleições.

O segundo porque tem seguido um trajeto que classifico de desastroso.

Mas pode ser que eu esteja enganado…


Luís Pais Amante

Casa Azul 

10 de Janeiro de 2025


PS: Se os Jovens são o futuro do País e se o País (para continuar Democrático, como necessário é) precisa de Eleições para se escolherem “os melhores de entre os menos maus”, então, temos, todos, de saber cativar a Juventude para participar nas votações.


08 janeiro, 2026

Penacova: Sonhar ou levitar?

 



Sonhar ou levitar?


Estamos no Inverno

O nevoeiro é denso

Mesmo, até, intenso

Sobre o lugar eterno

 

Acordo de manhã

E vou à minha janela

Para ver se sob ela

Ainda está tecido lã

 

E fico boquiaberto

Quando já desperto

Não vejo o Mondego

 

Nem o seu profundo Vale

Nem o “charme” em areal

Do Reconquinho em “ego”

 

Luís Pais Amante

Casa Azul


A propósito de uma fotografia espectacular com o crédito de Cátia Mateus, 

onde a nossa Casa Azul parece levitar sobre o nevoeiro da manhã.

30 dezembro, 2025

A alimentação das gentes de Penacova no Foral Manuelino de 1513: algumas pistas


Em 2019 foi apresentada, por Sónia Maria dos Anjos Godinho, à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra uma Tese de Mestrado subordinada ao título Forais Manuelinos do Distrito de Coimbra: Contributo para o Estudo da Alimentação

Esta investigadora analisou os forais da Lousã e Penacova (1513), de Serpins e de Tábua (1514) e de Coimbra e de Montemor-o-Velho (1516), detectando neles algumas das características da alimentação quinhentista, concretamente no distrito de Coimbra, identificando os principais alimentos aí descritos. 

A tese de mestrado complementa o tema comparando a informação recolhida com outras obras e estudos alusivos ao tema, sendo possível afirmar que os forais “são fontes fidedignas e importantíssimas que espelham os hábitos alimentares dos portugueses.” 


PRODUTOS ALIMENTARES

Especificamente, em relação a Penacova, Sónia Godinho refere, por exemplo, os cereais onde avultam o trigo, o centeio, a cevada, a aveia e o milho painço. 

Na alimentação do dia-a-dia entravam também os ovos, os lacticínios e seus derivados, como o leite, a manteiga e o queijo. Igualmente as hortaliças/legumes, em especial a cebola e o alho, e as frutas (ameixas e figos) e os frutos secos como as nozes, as avelãs, os figos secos, os pinhões e as castanhas.

No que se refere ao peixe, em especial ao peixe do rio, destacam-se a lampreia e o sável. 

Há também referências ao marisco, este só ao alcance das classes ricas,  pressupomos.

As referências às carnes brancas são frequentes (galinha, capão, ganso …), bem como as carnes vermelhas (vaca, vitela, carneiro, porco, cabrito e outras). Ainda as carnes de caça aparecem citadas (perdizes, pombos, lebres, coelhos, patos e outros).

O vinho e o azeite são outras referências muito importantes no conjunto dos produtos alimentares. Não esquecer o mel e, por último, o uso de especiarias como a pimenta e a canela. 


CONSIDERAÇÕES GENÉRICAS SOBRE OS PRODUTOS

A autora, tece algumas considerações genéricas sobre o uso dos produtos referidos, não necessária e especificamente sobre o concelho de Penacova. No entanto, por analogia, há aspectos comuns que podem ser tidos como interessantes.  

CEREAIS

Por exemplo, quanto aos cereais, Sónia Godinho, sublinha que o pão constitui a base da alimentação de todos os tempos.

Assim, no “foral de Coimbra, tal como em quase todos os outros estudados para este efeito, temos vários cereais panificáveis. Destacam-se o trigo, o centeio, a cevada, e a aveia. Fabricava-se “pão de trigo, o branco, que ia à mesa só dos ricos pelo seu preço e requinte.” As “classes inferiores” consumiam, especialmente, o pão escuro de centeio, de aveia e de cevada. “Este sem gosto e pouco nutritivo”.

Em relação aos cereais, o "milho maís" [variedade de milho graúdo], era uma novidade. Recém trazido da América, “tornou-se abundante nos campos do Baixo Mondego.” No entanto, no início do séc. XVI o seu cultivo não teria ainda chegado a Penacova ou pelo menos era residual – pressupomos nós. 

“A farinha era utilizada em papas (misturada com água) ou sopas, servia para cozer o biscoito, não só para os navegadores (como já referimos anteriormente), como também para as tropas e armadas do exército, e era utilizada como polme para o peixe ou carne, para as queijadas, assim como, para confeccionar empadas e pastéis, nas classes mais abastadas.”- diz-nos Sónia Godinho.

OVOS

Os ovos, eram “um alimento barato e existia em fartura devido à abundância de criação de galinhas, patas, gansas e pombas.” Eram consumidos em grande quantidade, cozidos, escalfados, fritos, mexidos e como ingrediente de vários pratos. (…) “Em algumas receitas de sobremesas entravam quantidades que podiam atingir várias dezenas, como a doçaria conventual dos séculos XVI a XVIII bem ilustra. Sendo um alimento de extrema relevância, os ovos vêm referenciados em quase todos os forais.

LACTICÍNIOS E DERIVADOS

No que diz respeito aos lacticínios e seus derivados, salienta-se que “o leite era pouco consumido isoladamente, no entanto, queijos, requeijões e manteiga (por vezes dita salgada, como no foral de Tábua), pelo contrário, eram muito frequentes na alimentação medieval e quinhentista.” 

“Na Corte, eram utilizados sobretudo como acompanhamentos ou sobremesas, enquanto os mais frequentes, nos forais em apreço, eram o queijo curado, o queijo fresco, o requeijão, a manteiga, que, como já dissemos por vezes é dita salgada (como é referida no foral da Lousã, Serpins, de Coimbra e no de Tábua).” 

HORTALIÇAS E OS LEGUMES

As hortaliças e os legumes frescos “eram sem dúvida consumidos em maior quantidade pelas classes mais pobres.” Além da “couve murciana, couve tronchuda, couve-flor, entre outras” eram consumidas outras hortaliças, “nomeadamente, a cebola, alho, pepino, espinafres, salsa, sumagre, palma, esparto, funcho, rabanetes e alface. 

FRUTA

“Desde a Idade Média que a fruta tem um papel bastante relevante na alimentação portuguesa.” Nos forais apareciam em destaque. Entre outros, cerejas, “amêixoas”, maçãs, peras, romãs, pêssegos, amoras, laranjas, limões, melões, uvas, figo, marmelo e tâmara. A laranja amarga e o limão, eram muito utilizados para tempero, mas a laranja doce só será introduzida em Portugal depois das viagens marítimas dos portugueses para o Oriente. 

“Salientamos também o facto de que a fruta fresca era frequentemente transformada em conservas, doces ou fruta seca e muito apreciado nas mesas de Reis ou de Mosteiros, era o consumo do doce à base de marmelos e por isso designado por marmelada.”

Por sua vez “nos forais analisados, os figos secos e as passas de uva, são os que sobressaem nesta categoria alimentar (…) A diversidade era tanta, desde amêndoas, pinhões por britar, avelãs, bolotas, nozes, nozes secas, castanhas que muitas vezes substituíam o pão em maus anos cerealíferos, assim como, faziam parte das refeições como acompanhamento principal, sobretudo na Beira Alta e Trás-os-Montes. “ Para a preparação de doces de frutos secos, o ingrediente essencial era o açúcar, sempre presente nas compotas e geleias, as denominadas conservas, como era o caso da marmelada e “frutas cobertas”, ou seja, frutas cristalizadas.

PEIXE

O peixe “era essencialmente consumido fresco, salgado, seco, fumado, em empadas, em escabeche e em conserva, em barris.” Assinalado em todos os forais acima referidos, o peixe do rio era principalmente a truta, o sável e “a lampreia, que sendo um ciclóstomo, provinha do mar, mas vinha desovar ao rio. Ainda hoje, é uma iguaria com notável destaque no concelho de Penacova, mais precisamente no Porto da Raiva.” – sublinha a investigadora na sua tese de mestrado. 

Ainda sobre a lampreia, Sónia Godinho sublinha que era “considerada um dos manjares de eleição” sendo “consumida por grupos sociais elevados económica e socialmente”, destacando-se principalmente na mesa real. O primeiro Livro de Cozinha da Infanta D. Maria, neta de D. Manuel I, regista uma receita da lampreia.

Receita da Lampreia 

Tomarão a lampreia lavada com água quente e tirar-lhe-ão a tripa sobre uma tijela nova, porque caia o sangue nela, e enrolá-la-ão dentro daquela tigela e deitar-lhe-ão coentro e salsa e cebola muito miúda, e deitar-lhe-ão ali um pouco de azeite e pô-la-ão coberta com um telhador, como for muito bem afogada, deitar-lhe-ão muita poucochinha água e vinagre, e deitar-lhe-ão cravo e pimenta e açafrão e um pouco de gengibre. 

“Com enorme importância alimentar, o peixe era abundante e diversificado. A sardinha era a espécie mais consumida, particularmente pelas classes mais baixas. No entanto é conhecido através dos livros da cozinha de D. João III, que este peixe também ia à mesa Real”. 

O peixe “ocupou um lugar de destaque no regime alimentar das comunidades monásticas”. 

CARNE

O consumo de carne caracterizava-se por uma enorme diversidade. “Nesta categoria, temos presente nos diversos forais a galinha, a lebre, o cervo, o ganso e o pato bravo. Muitas destas carnes eram provenientes do mercado ou de criação doméstica, normalmente era consumida fresca. A carne era confeccionada de variadíssimas maneiras, desde assada, cozida, em ensopado, estufada, em cuscuz, frita, fumada, em pastéis, picada, recheada, chegando a fazer parte de doces como o manjar branco”. As carnes vermelhas “continuavam a ser um alimento na mesa dos mais abastados.” Por exemplo, em Coimbra, as carnes de porco e de carneiro eram as mais baratas, seguidas as de cabra e ovelha, sendo mais comuns e de taxas mais altas as de vaca e as de boi. 

Nas classes mais ricas o consumo ia preferencialmente para o cordeiro, gamo, zebro, a vaca e até o urso. Os pratos de carne normalmente tinham como acompanhamento o pão ou enchidos como o toucinho, chouriço, linguiça, paio, salpicão e presunto. Outro dos acompanhamentos da carne eram os molhos e o cuscuz. A carne era temperada com abundantes e diversas especiarias, assim como a pimenta, mostarda, cravo, gengibre e em alguns casos específicos até com canela e açúcar. “A inserção das especiarias na culinária de então era mais do que um gesto de gastronomia, era um ato representativo do poder económico e social de determinadas classes, pelo que a sua referência nas receitas aparece bastante descriminada.” Presentes nos forais são as carnes de caça como os coelhos, lebres, garças, pombas e perdizes. A carne de caça na maioria das vezes era confeccionada de igual forma à carne vermelha, tendo como tempero diversas especiarias e o acompanhamento do pão, ou até mesmo integrado na própria receita”

VINHO

“O vinho sem exceção surge em todos os forais, o que não é de surpreender, visto que faz parte da base alimentar dos portugueses. Para além dos cereais, a vinha era outra grande cultura, sendo até a primeira a surgir em certas regiões. Embora grande parte das vinhas se destinassem ao consumo da uva como frutas de mesa, a maior parte destinava-se à produção de vinho, branco ou tinto, para ser exportado e consumido.

O vinho era a bebida mais consumida, independentemente da classe ou estatuto social, bebido por homens e mulheres, sãos e enfermos, reis e clérigos. “Desde beber vinho para matar a sede, como para confraternizar, acompanhar as refeições, ou como para uso de culto religioso, era um ato tão natural como comer”. 

Uma curiosidade: “a rainha D. Isabel de Aragão prescrevia aos doentes no seu hospital, homens e mulheres, para além de outros alimentos, uma tagra de vinho [antiga medida equivalente a dois litros] por dia que poderia variar entre 1,4 litros e 2,6.”

ESPECIARIAS

“As especiarias eram acima de tudo condimentos fulcrais à preservação/conservação dos alimentos assim como o sal, a sua importância era tal, que em nenhum foral é tributado.

Nos forais as especiarias mais destacáveis são: a pimenta, a canela, o ruibarbo [com sabor ácido, usado em doces como tortas e compotas e chás], o açúcar, a canafístula [planta medicinal que tem uma polpa líquida, escura e doce à semelhança do açúcar que serve para purgar o estômago], o gengibre, o açafrão, a mostarda”.

AZEITE

“O azeite é indubitavelmente um elemento importantíssimo, considerado outro dos produtos básicos na alimentação (tríade da alimentação: cereais, vinho e azeite), é também referido em todos os forais”.

“Outra das funções do azeite e não menos importante, era a de iluminar as casas e as igrejas.

São inúmeras as referências à compra e doação de azeite e de olivais, com a finalidade de manter as lâmpadas acesas em vários altares de igrejas, capelas e mosteiros. O azeite servia também “para o tratamento de certos males e doenças”. 

MEL

O mel “aparece referido em praticamente todos os forais analisados e é um alimento constante nos hábitos alimentares da época, muitas vezes substituto do açúcar, devido ao preço elevado deste último e não só, visto que regularmente era preferido pelo seu sabor e textura.”

ALIMENTAÇÃO DO POVO

Existem poucas fontes sobre a alimentação das camadas mais baixas da população. 

“A pobreza em que muitos viviam, quer no campo quer na cidade não lhes permitisse sequer ter uma mesa e as duas refeições, as principais, do dia: jantar e ceia”. 

Nas zonas rurais as populações “tinham mais facilidade em comer, pois tinham mais acesso ao pão, vinho e favas secas, tremoços e de peixe a sardinha “fartura da pobreza”. Azeite, ovos, carnes, doces ou peixes e mariscos talvez, em dias muitos especiais, de solidariedade festiva. No entanto, a regra era a ausência total daqueles alimentos o que provocava, como se compreende, doenças graves por falta de proteínas, vitaminas ou gorduras.”

 MESA DOS REIS E NOBRES

É sobre a mesa dos reis e nobres que há mais fontes. “As mesas dos reis e da alta nobreza davam preferência, como acontecia no resto da Europa, à carne. De facto, e, em muitos casos, coincidindo com o que registam os forais, temos as tradicionais carnes vermelhas (vaca, boi, porco) ao lado das ditas de “caça” que, por exemplo na cozinha de D. João III correspondiam a “perdizes, pombos, coelhos, leitões patos e lebres) (…) De animais de capoeira, as mesas régias tinham em abundância galinhas, patos, capões, gansos e outras espécies. O preço variava e as taxas a pagar registadas nos forais, acompanham o valor comercial dos mesmos. (…) A par das carnes assadas, em empadas ou em caldos, temos bons e apreciados peixes e mariscos. Encontramos dezenas de espécies de mar e de rio, na mesa dos poderosos. Curioso é sublinhar que os mais caros continuam hoje com essa característica. Damos o exemplo do salmonete, da garoupa, dos linguados, da lampreia e de outro peixe fresco do mar. O marisco abundava como também os forais o comprovam.”

MESA DO CLERO SECULAR

O alto clero (bispos, arcebispos e outros), alimentava-se de “saborosas e caras iguarias”. Por isso, nas suas mesas, como naquela de um bispo de Coimbra do século XIV, D. Estevão Anes Brochardo (1304-1318), podíamos ver das melhores carnes vermelhas (vaca, carneiros, vitela) e dos mais caros pescados (baleia grossa e magra, congros secos, gorazes e sáveis). É certo que tal como os outros tinham que cumprir os dias de jejum e de abstinência, deviam privar-se de “carnes de quadrúpedes” podendo comer ovos, carnes brancas, sobretudo, pescado. Não esquecer também, como a bebida, o vinho tinto e branco, quantas vezes meado ou terçado com água, com presença obrigatória na mesa dos membros da igreja. 

MESA DO CLERO REGULAR

“Quanto ao clero regular, feminino e masculino, as regras monásticas, como sabemos, estabeleciam normas muito precisas sobre o que as religiosas e religiosos podiam comer.

Se lermos algumas Regras, podemos ver que a proibição principal vai para as carnes vermelhas (só muito excepcionalmente, como em dias festivos, podiam comer vaca, carneiro ou outros). A caça era luxo de ricos por isso não entrava nas mesas dos mosteiros. Pão e vinho, os alimentos do sagrado, estão sempre presentes. Pescados «rezentes» (frescos), secos, cação, sável (o mais caro) e sardinha, o mais barato. Também compraram vários carneiros, um bode (animal muito referido nos forais), oito bois e uma vaca e duas azémolas. (…) Compraram bastante mel, figos e passas. Não faltaria também o azeite “para o comer” e para a iluminação, o sal para temperar, hortaliça e outros produtos que poderiam obter por doação, por pagamento de rendas e outras formas.

DOÇARIA CONVENTUAL

Sobre o clero regular feminino o que mais importa é referir a produção de doces (pastéis, compotas, doces de colher, bolos e tantos outros). Ficaram céleres sobretudo os mosteiros de Santa Clara, de Coimbra, de Santarém, de Évora, do Funchal. Produziam para consumo próprio, em dias especiais, mas também para presentear a reis, nobres e membros da Igreja.

 



Autores penacovenses contemporâneos | Ficção e Poesia (4): Ricardo Santos

Ricardo Santos

Nascido em 1975, cedo revelou interesse pela música e pelas ciências.Compôs e gravou mais de quarenta canções de diversos estilos. Licenciado em Ciências Farmacêuticas, fez formação adicional em liderança e gestão de negócios. O exercício da profissão levou-o a visitar mais de cinquenta países e a criar um negócio próprio com vendas em setenta e sete, mas é na escrita que toda a sua imaginação e criatividade se revelam.

Fonte:   https://www.wook.pt/autor/ricardo-santos/4011614/122

O livro O Dia em Que os Aviões Deixaram de Voar foi apresentado em Penacova em 2017. Refira-se que Ricardo Santos é filho de Adelino Santos, ex-presidente da Junta de Friúmes e actual produtor da cerveja artesanal Beira Alva.


O Dia em Que os Aviões Deixaram de Voar

SINOPSE

Um intrigante artefacto dos tempos faraónicos, misteriosamente, ganhou vida provocando uma tempestade solar de proporções épicas. Carlos, de passagem por Macau, reencontra uma antiga paixão amorosa e é envolvido numa alucinante viagem por terras de sabor português, e não só... É-lhe confiada uma missão vital para a sobrevivência do planeta. Não há qualquer margem para erro. O mundo depende do seu êxito. Como num filme de grande envolvência, e através de uma escrita fluida e repleta de pormenores históricos, sucedem-se então as peripécias de cinco gerações da família Vasconcelos, que decerto prenderão a atenção do leitor e o farão querer reproduzir a viagem do protagonista.

Data de Lançamento: Junho de 2017 | Editor: Chiado Books | Dimensões:160 x 239 | Páginas:396 | ISBN:9789897747694 | Coleção: Viagens na Ficção


Ventre Gelado - A Antártida como berço da civilização

SINOPSE

Melita, jovem Goesa apaixonada por arqueologia, estabelece a relação entre a localização das cidades Maias e estrelas no céu, fazendo uma descoberta inacreditável. Nesta viagem alucinante, Carlos descobre pistas sobre uma civilização perdida e embarca numa aventura que o levará a desvendar os segredos mais bem guardados do planeta. Que segredos serão esses? Estará o mundo preparado para os conhecer? A história começa nas ruínas de uma cidade Maia, onde Carlos encontra um mapa enigmático que sugere a existência de um povo que habita o interior da Terra. Forças especiais alemãs, de ideologia neonazi, também procuram esse povo subterrâneo, julgando tratar-se de Arianos, e ambos os caminhos se cruzam. A equipa viaja por diversos locais históricos, enfrentando desafios e perigos, desde as selvas da América Central até ao extremo Sul do continente.  Cada descoberta aproxima-os mais da verdade, revelando uma conexão surpreendente e um plano para destruir a humanidade.

Editor: Chiado Books  | Data de Lançamento: Novembro de 2024  | Dimensões: 147 x 228 x 45 | Páginas: 534  | ISBN: 9789893788769

28 dezembro, 2025

𝕆ℙ𝕀ℕ𝕀Ã𝕆 | Há que repensar a Política!

 



Há que repensar a Política!

Tenho a noção de ter “pensamento político estruturado” desde os meus 15 anos, complementado por “ação política” por vezes clandestina, desde as Eleições de 1969, sob a égide da CDE, que em Coimbra -como é interessante recordar- se coligou com a CEUD, de Mário Soares, em contra-ciclo com o que aconteceu na generalidade dos Distritos (em que a mera divisão divisão da Oposição foi visível).

Ainda existem vivas pessoas desse tempo; outros, até conterrâneos nossos dessas lides, infelizmente, já faleceram.

Antes do 25 de Abril propriamente dito (já como bastante próximo do PCP e Membro do Centro Republicano Almirante Reis), tentei ajudar, dentro das possibilidades, os meus Amigos Militares de Abril, vizinhos, envoltos na preparação da Revolução e, feita esta com o êxito que se conhece (já como Militante do PCP) foram-me confiadas “missões” concretas como os apoios informais ao Conselho da Revolução (quando era Assessor Jurídico do CEMFA/CEMGFA) acreditado Nato Secreto e a integração da Candidatura de Maria de Lourdes Pintassilgo, bem como, nomeadamente, outras “missões” que considero, ainda, passíveis de se manterem no conhecimento dos outros intervenientes interessados, até com ligação a Penacova, de que lhes caberá falar, por disso terem beneficiado.

Em 1983, saí do Partido Comunista Português, por considerar que se estava a querer interiorizar uma “ortodoxia seguidista”, muito controlada, acrítica e “pró soviética para além do normal” o que teve expressão numa “purga” que levou ao abandono de muita militância de grande valor intelectual, como Vital Moreira. Seja como for eu saí antes.

Mas recordo e mantenho grande estima pessoal por Membros do PCP, com os quais lidei de mais perto e de outros que fui conhecendo, que ainda hoje se me apresentam como gente muito confiável, embora estejamos distantes no pensamento e nas convicções. Não em todas, claro está.

De resto, nunca mais tive nenhuma experiência partidária…nem vou ter; a minha maneira de ser não se coaduna, nem com seguidismos, nem com facilitismos!

!… Quando ouço “discutir” tão apaixonadamente o 25 de Novembro, só posso sorrir, porque eu “estava lá”, literalmente falando e sei o que se passou …!

E quando vejo tentar “retalhar” um Processo Ganhador, como o foi o 25 de Abril, onde  está um bocadinho de mim, jovem irrequieto que enfrentou “os fascistas de Penacova” -que os havia em substancial quantidade, como se sabe ou devia saber- em condições e com resultados que importa, ainda, manter no segredo, fico estarrecido.

Fui para outras paragens!

Fiz os meus Estudos!

Construí uma vida desafogada, sem favorecimentos mas com trabalho; muito trabalho, sempre!

E nesse “trabalho” de Escriturário na HPE, a Advogado, Director das maiores Empresas Portuguesas, Consultor Nacional e Internacional e Empresário/Gestor (fundador do Grupo Place há 33 anos) conheci de perto a evolução da mistura dos interesses pessoais, com os interesses da Política e, também, o modo como “as teias organizadas” mandam e comandam. Essas teias que se movem no escuro, integrando pessoas que até nos fazem ficar chocados, por vezes…

Quando falo -ou escrevo, ou penso- é porque tenho comigo os exemplos…; eu não invento!

Por obrigação profissional lidei com os melhores -porque extraordináriamente bem preparados- responsáveis políticos deste País.

Aqueles que nomeavam para tarefas complicadas do foro negocial, inclusive com várias Direções Gerais de Bruxelas, Banco Mundial, Banco Africano de Desenvolvimento, etc, etc, “um miúdo promissor”, como diziam e como Decq Mota antecipara.

Falo, a título de exemplo, desde logo, de José dos Santos Amaral, antifascista convicto e forte, numa terra minada pelos interesses do regime; do Dr. Ilharco, do Eng. Torres Campos e do Dr. Nascimento Rodrigues e do Dr. Antunes da Silva; do Dr. Jorge Seabra, do Professor Baião Horta, da Enga Maria de Lourdes Pintassilgo, do Dr. Melo Biscaya, do Eng. António Guterres, do Dr. João Figueiredo, do Eng. Carlos Dias, do Eng. Montalvão, do Eng. Fernando Mendes, do Dr. Leitão Couto (que me apresentou seu irmão), que viria a ser Presidente do IPE, com o qual trabalhei amiúde e muitos outros ligados a Partidos Políticos ou não.

Fui sendo sondado para muitos cargos, que sempre recusei. Até para Deputado. E fiquei boquiaberto - e às vezes ainda fico - com nomeações feitas a gentes da nossa terra, sem experiência ou traquejo, só por serem (ou os seus familiares) das tais “teias”…

Continuei a ser Advogado e Consultor; LIVRE e sem depender ou dever favores fosse a quem fosse. Amando a minha Terra, Penacova, mas poucas vezes confiando nos seus “actores políticos da sombra” que ainda estão vivos e sabem trabalhar nisso, comandado as tropas e mexendo os “cordelinhos”, o que por vezes sai asneira…

Durante todo este tempo - muito mesmo - fui assistindo a uma degradação gigantesca dos principiantes da política e tem sido isso mesmo a determinar o que vou escrevendo respeitosa, mas contundentemente. Há coisas que não se admitem!

Tenho apoiado situações diversas de pendores diferentes, justamente porque incorporo na minha avaliação isenta, em cada momento, os projectos estruturados, a sua mais-valia espectável, a capacidade de serem levados à prática e o impacto que possam vir a ter na vida triste dos mais desfavorecidos e na projeção da minha Terra e do famigerado Interior.

Aconteceu isso no meu apoio visível ao Humberto Oliveira e ao Pedro Coimbra; no meu apoio mais discreto, com voto expresso no Álvaro Coimbra (a que me liga o tempo em que comia bolachas no Fundo da Vila, ao colo do “Mané”, meu saudoso Pai, distribuidor de propaganda política antifascista pelo Concelho, na sua mota BSA) cujo trabalho de compromisso sério com a promessa eleitoral merece a minha vénia e, também, mais visível, no Paulo Rodrigues, como candidato à Junta de Freguesia.

As Pessoas, por vezes, não compreendem as minhas posições e eu dou isso de barato. Não as negoceio. Há beneficiários líquidos da política que ficam à espera que tudo lhes chegue à mão e que todos lhes devam bajulagem.

Mas sabem que não me vendo a interesses, venham eles donde vierem…e detesto os oportunismos e os meandros dos favores, confundindo as amizades, que vão engrossando.

É só estarmos atentos…

Já não sou o miúdo que, corajosamente, enfrentou os fascistas que mandavam em Penacova em 1969… mas continuo irrequieto e vertical.

Sou uma Pessoa que só “gasta tempo” com o que o merece: a Família, a Casa Azul, os Amigos, a Gestão do Património ganho a pulso, a projeção Cultural da minha Terra e a ajuda aos mais carentes e aos projectos diferenciadores que, do ponto de vista da Cultura e da sua estruturação e dinamização, hoje, causam inveja e têm sido conduzidos por uma Equipa extraordinária.

E aprendi a não fazer nem pedir favores… mas respeitar muito os actores do desenvolvimento sustentado.

Tenho, pois, preparação suficiente para entender que a Política tem de ser repensada e que os seus actores actuais, com honrosas exceções - são fracos, muito fracos - não têm capacidade para isso e estão “presos às militâncias”, sem as quais não são ninguém.

É preciso interiorizar que as questões, nos dias de hoje, já não se colocam na simplicidade dogmática da catalogação esquerda/direita; são mais “criação desinteressada de organizações capacitadas” para fazerem o caminho necessário à construção de um País Moderno, digno, incorruptível e socialmente estável, com aproveitamento das “cabeças independentes” que continuam desaproveitadas.

O titular do cartão partidário (quando em trabalho para o Estado) tem de ser um funcionário sujeito às regras (todas) da meritocracia e não essa cambada de corruptos incompetentes que surgem todos os dias em condições que até arrepiam. Os erros sistemáticos não podem ser “lavados”…

Será uma agenda complexa! Muita gente vai “ficar em terra”; muita outra vai sair do anonimato e singrar num Portugal diferente.

Principalmente porque os titulares das benesses “não querem deixar a chupeta” e o poder da comunicação social, salvo raras exceções, através de jornalistas empoderados e de comentariado interesseiro, só mantém na agenda o que provoca a disrupção dos eleitores, o interesse das Antenas e a “partidarite” que joga em todos os tabuleiros.

Caso mais do que evidente do que acima disse é o modo incompetente, mal intencionado, baseado na mentira e no preconceito como os adversários políticos trataram o “Caso Spinumviva” e continuam a tratar o “Caso Influencer”.

No primeiro caso, quis “cortar-se a cabeça” a um político que eu entendo promissor -discordando do seu pensamento em alguns aspectos - bem formado, apto, simples, que teve de trabalhar quando esteve em “sabática” por divergência partidária feia e que viu a sua Família, “ficar sem chão” à custa do “comentariado pago”!

No segundo caso quer “inocentar-se fora do tempo” aquele que é o político mais traquejado, mais “planificado”, mais aproveitador das oportunidades que a vida - e os muitos amigos - lhe têm dado de bandeja e continuam a dar, que “se envolveu” em conversas muito comprometedoras, com agentes pouco recomendáveis, por si escolhidos, aos quais deu guarida de confiança a pontos de selecionarem, para guardar dinheiro vivo de origem desconhecida, um “cofre escuro” como o do Gabinete do Primeiro Ministro de Portugal, o que é impossível de não ser escrutinado até ao tutano.

… E nada disto tem comparação!

Luís Pais Amante

Casa Azul


18 dezembro, 2025

Autores penacovenses contemporâneos | Ficção e Poesia (3): Sónia Marques Carvão



Naturais de Penacova (ou ao concelho ligados por estreitos laços familiares) contam-se já alguns autores contemporâneos (ficção e poesia) que merecem ser mais conhecidos e devidamente valorizados. Iremos fazer referência a cada um deles (se porventura houver mais algum que possamos desconhecer, agradecemos que nos seja comunicado).  Para já, as menções que faremos  limitar-se-ão, na maior parte dos casos, às sinopses e aos dados biográficos que podemos ler nas plataformas que os estão a comercializar. Fica em aberto a possibilidade de posteriormente desenvolvermos o tema com entrevistas aos autores.

NO MOSTEIRO DO VALE DO SILÊNCIO

Integrado no programa da Feira de Tradições que decorreu em Lorvão em 2017, foi apresentado, no dia 17 de Junho, o livro No Mosteiro do Vale do Silêncio da autoria de Sónia Marques Carvão e editado pelo Município de Penacova. 

Salienta a autora, na introdução, que depois de muita bibliografia de carácter historiográfico sobre Lorvão, surge “este pequeno romance” que “pretende dar a conhecer a presença dos beneditinos nesta região e despertar interesse pelo conhecimento da sua história em todos os âmbitos da sua expulsão (…) sensibilizando para uma época e para um Mosteiro “.

“Sem entrar em detalhes de actos históricos, mas recorrendo a alguns deles para desenvolver o romance – que é disso que se trata - foram lidas algumas obras para nos inteirarmos de alguns aspectos importantes”, acrescenta. 

A acção passa-se no século XII, dando um salto para o século XXI. Romance ficcionado, embora foque alguns factos históricos (Manuscritos, Livro das Aves, hábitos diários, entre outros) sobre os beneditinos que estiveram no Mosteiro de Lorvão. 

"Tudo aqui nasce, cresce e completa-se. Esta é uma terra numa outra inteira, e esta só é parte inteira de alma grande. Que sejam as franjas das chuvas primaveris e com a ajuda do Sol a formar o arco-íris é uma verdade. Todavia, para poder caminhar por onde cantam as aves, para poder ver as vermelhas romãs, sentir o perfume da alfazema e do alecrim, devemos contemplar e orar vendo, sentindo e escutando. " (pág. 93)

O romance tem como personagens principais um jovem monge, Bernardo, a jovem Clara, uma rapariga do “povoamento” e o Abade Lucas. Trata-se de uma viagem no tempo. Viagem ao passado, envolta numa dinâmica de regresso ao futuro. É que, depois de muitos séculos, o Mosteiro de Lorvão, vê regressar os Beneditinos, dando assim, vida e dinâmica aos espaços que, com a saída do hospital psiquiátrico, se encontravam à espera de uma utilização condigna.(…) Uma obra que certamente vai cumprir os seus objectivos: cativar (e desafiar) o leitor, promover um maior conhecimento e sensibilidade sobre o Mosteiro de Lorvão, cuja história, não se escreve apenas no feminino, mas nos remete também para a acção dos monges negros, isto é, dos monges beneditinos que estiveram na origem do cenóbio laurbanense. 

In Blogue Penacova Online, 19 de Junho de 2017.


FICHA BIBLIOGRÁFICA DA BIBLOTECA NACIONAL DE PORTUGAL

No Mosteiro do vale do silêncio / Sónia Marques Carvão. - Penacova: Município de Penacova, D.L. 2017. - 201, [2] p. ; 23 cm. - ISBN 978-972-99628-7-5


SÓNIA MARQUES CARVÃO

Sónia Marques Carvão nasceu no Rio de Janeiro, veio para Portugal ainda criança, cresceu numa aldeia do Concelho de Penacova (Chelo) da freguesia dc Lorvão. Enquanto jovem, foi viver para Coimbra e começou a trabalhar para continuar a estudar. Aos 18 anos, emigrou para o Canada onde trabalhou e estudou. Obteve a Licenciatura em Filosofia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Realizou um curso relacionado com Filosofia para/ crianças, obtendo também a Certificação em Filosofia de Educação. Tem também um Curso dc Formação Avançada cm Ética pela Universidade Católica. de Lisboa, uma certificação em Inteligência Emocional e Autoconhecimento e Curso Internacional de Filosofia Aplicada e uma certificação como facilitadora de filosofia para crianças e jovens, pela Direcção Nacional da Associação Portuguesa de Ética e Filosofia Prática. FL

(in Jornal da Região)

Filha de Rogélia Ferreira de Sousa, de Chelo, e de Nelson das Lapas Marques, da Foz do Caneiro; neta de António Marques e Flamira Marques, do Caneiro, e de Narcisa Calhau, de Chelo, e de António de Sousa, da Granja do Rio. 


Nota:

Sónia Marques Carvão é igualmente autora de A ferramenta que faz os contos. Obra que, segundo a mesma, reflecte “a experiência de trabalho com crianças num colégio de Lisboa.” A sessão de apresentação, que decorreu em Penacova a 15 de Fevereiro de 2014, incluiu a demonstração de uma sessão prática de Filosofia (com) para Crianças, seguindo a metodologia da “Comunidade de Investigação”.