03 agosto, 2026

Elevação de Carvalho a Vila (3): D. Álvaro de Carvalho, o Solar e Sto. António do Cântaro


Elementos para a História de Carvalho

I

(…) A igreja de Carvalho, tem a honra de abrigar, na sua modestíssima capela-mor, as ossamentas de D. Álvaro de Carvalho que foi governador da praça de Mazagão que ele soube defender com heroísmo, quando em 1562 ela foi cercada pelo sultão de Fez, Muley Abdallah.

Em modestíssimo monumento de pedra de Ançã, do lado direito, na dita capela-mor embebido na parede, diz a legenda, encontram-se as cinzas deste nobre e heróico governador da praça de Mazagão

E tudo indica que o solar dos Carvalhos era no local ocupado pela actual casa do médico Sr. Dr. António dos Santos Malva. Na opinião do P.e Nogueira Gonçalves, pouco resta do antigo solar naquelas construções; há, entretanto, duas janelas, duas pedras com as armas dos Carvalhos e dos Eças, dos começos do século dezasseis, manuelinas, de Álvaro de Carvalho casado com D. Catarina da Guerra filha ilegítima de Pedro de Eça. 

É da mesma época o pelourinho, hoje junto da sua fonte. Carvalho, hoje terra tão sertaneja, teve, e tem pois, o seu nome, gravado nos fastos da nossa história. 

Bem perto lhe passava a estrada real de Coimbra a Viseu. E foi essa circunstância que fez erguer ali, bem perto, nos primeiros tempos da nacionalidade, a albergaria de Santo António do Cântaro para dar agasalho e matar a sede aos viajantes que passavam.

Manuel Marques, in Notícias de Penacova (1/3/1952)

II

SANTO ANTÓNIO DO CÂNTARO: (...)“É a capela um edifício modesto, reformado em vários tempos. As partes mais antigas devem remontar ao princípio do século desaseis, à época manuelina. No altar de colunas torcidas e pâmpanos, lavrado no começo de setecentos há uma deliciosa escultura de Santo António, do século quinze; não é o frade acarinhando o Menino, não é o franciscano a apontar com a direita os peixinhos que se alongam na peanha, não; é um santo de místico encanto, de hábito apertado da corda e uma capa longa a roçar o chão, segurando em frente um livro que a esquerda suporta e a direita ampara por cima; e não é o Menino, não são os peixes, é um missal que candidamente apresenta aos viandantes.

Precede a capela um alpendre outrora sempre patente, e no qual à direita e no fundo, se destaca um nicho num maciço quadrangular, o nicho do cântaro de água sempre renovada e sempre fresca.

O testamento de Bartolomeu Domingues, 1215, faz crer que foi ele o primeiro instituidor da al- bergaria com as três camas sempre prontas e o cântaro sempre cheio nos meses de Julho, Agosto e Setembro com púcaro para se beber. Todavia ele devia ter só dado nova modalidade à fundação de seu pai Domingos Feirol, um homem do século doze, tendo o bispo D. Vermudo aplicado à mesma albergaria a terça da igreja de Carvalho no último quarto do mesmo século doze por contrato com D. Belida e seus filhos Gonçalo Fernandes e Bartolomeu, por lhe não bastarem as rendas iniciais e ser muito frequentada de peregrinos. 

No ano de 1314 confirmou a união e regularizou as obrigações para ele bispo e para o cabido, com o senhorio da terra, D. Estevão Anes Brochardo. Correndo o de 1364, Álvaro Fernandes de Carvalho converteu essas obrigações de harmonia com o cabido catedralício. 

É esta a albergaria de Carvalho da qual falam os velhos documentos. Carvalho, a pouca distância, é a sede de freguesia e o assento do solar dos Carvalhos, cujos representantes tiveram diversos capitães em África, sendo um deles Álvaro de Carvalho, governador de Mazagão, ao tempo do memorável cerco de 1562; e foi ainda senhor de Carvalho, o maior dentre os da família, aquele estadista que teve o título em primeira mão, de marquês de Pombal e que em quatro grossos volumes mandou fazer o tombo das suas terras de Carvalho e Cercosa.(...)

 Nogueira Gonçalves, historiador e arqueólogo (Arganil, 1901-Arganil, 1998) 

in Diário de Coimbra de 30/10/1948

III

(…) Falando daquela obra histórica junto ao adro da Igreja Paroquial, que é muito antiga, foi habitada e vítima de um incêndio e passou ao abandono. Contudo ainda lá estão bem visíveis aquelas gravuras em pedra de cantaria. Penso que seria uma grave injustiça nunca mais olhar para uma obra daquelas até chegar o seu fim. Ainda tem condições de restauro e bem o merece. Desde o incêndio parece que não houve quem olhasse para aquela relíquia antiga e que merecia mais respeito. Lembro-me que aquele recinto em frente e vedado com a entrada sem o portão, serviu muitos anos para servir as refeições às Filarmónicas e Grupos Musicais, e era palco para rapazes e raparigas cantarem e dançarem as modas daquele tempo. Penso que com a ajuda da população e Câmara Municipal seria possível recuperar este bonito edifício e seria local de encontro de diversão e cultura para a nossa terra.(...)

 “Um assinante natural de Carvalho” in jornal Nova Esperança, 30 de Abril de 1996: 

IV

(...) Deve-se encontrar no Arquivo Nacional do ano de 1908; que no ano de 1223, foi por Domingos Feirol, instituído o Morgadio de Carvalho. Em 1514 era Senhor, e possuidor Álvaro de Carvalho. Até hoje não foi feito àquele Senhor, a sua verdadeira história. Foi Capitão, Governador de Mazagão; foi quem em 1597 mandou construir a Igreja Matriz desta Freguesia e cujas cinzas, e de sua Família, repousam na referida Igreja.

Depois passou o Morgadio para Gil Fernandes de Carvalho; depois para Manuel de Carvalho, e mais tarde passou para Sebastião José de Carvalho e Melo, primeiro Conde de Oeiras, e Marquês de Pombal. Em 1762 foi solenemente reconhecido pela Câmara, Nobreza e Povo, como Senhor e Donatário de Carvalho como deve constar do auto respectivo lavrado em 29 de Julho desse mesmo ano. Naquele tempo, Carvalho era uma Vila de categoria; possuía Tribunal Judicial, onde eram feitos rigorosos julgamentos, e sentença dada em Carvalho, não tinha apelação. Mais tarde aqueles poderes foram instalados, em outros pontos do País, por serem talvez mais bem localizados (…).

José Jorge dos Santos, in Notícias de Penacova, 1956

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