09 fevereiro, 2026

Penacova desaparecida: notas para a história do actual Largo de S. Francisco



Também conhecido por “Velha Casa da D. Amália” este edifício com alpendre e capela privativa, com coro, foi demolido em 1959 para dar lugar ao actual Largo de S. Francisco. Nesta casa viveu em tempos a “comadre Alexandrina” e aí existiu a “Sapataria Elegante” de Albino dos Santos, pai de Albino dos Santos Júnior. Aí funcionou o Clube Desportivo Penacovense (cremos que a partir de 1938). Foi também sala de Sessões da Junta de Freguesia.

Clube que era rival do “Grémio”. Promovia grandes bailes e chás dançantes e tinha orquestra privativa onde tocavam, como recorda Paulo Amaral ao comentar a foto que publicámos no Facebook: seu tio Augusto Amaral, vocalista, seu pai, José dos Santos Amaral, que tocava saxofone tenor, seu tio e padrinho, Edmundo, tocando sax alto, Joaquim Luís (Ferreiro), sax barítono, Quim Parente, bateria, Chico Facas, trompete, e Manuel Eliseu, que era o maestro e tocava violino.

Por sua vez a Capela demolida tinha igualmente um passado histórico muito importante. Sabe-se que já no século XVIII existia em Penacova uma Ordem Terceira de São Francisco, de algum modo relacionada com a instituição homónima de Coimbra, fundada em 1659. Há referências documentais (1720) a um Padre Comissário em Penacova, uma espécie de coordenador regional, com jurisdição e autoridade, por exemplo, junto dos “Irmãos Terceiros” de Poiares. Recorde-se que as Ordens Terceiras de S. Francisco tinham por missão a promoção da Caridade, o auxílio espiritual e material aos “irmãos”. Era frequente as Ordens Terceiras terem Capelas próprias. Terá sido o caso de Penacova. Quando a capela foi demolida em 1959, noticiou o Notícias de Penacova que “apareceu a certa profundidade um esqueleto denotando já muitas décadas de ter sido enterrado”, conjecturando-se que poderiam ser um dos muitos sepultamentos na capela privativa da Ordem de “irmãos” dos tempos da Peste Negra.

Este “velhíssimo” edificado era, no seu estilo, único na vila. Apesar disso, a progressiva decadência e ruína daquela casa terá levado a que aos olhos de muitos a demolição surgia como o mais ajuizado. Tal “espantalho a meter medo aos transeuntes”, como se disse na altura, a uns trouxe “saudade”, a outros trouxe “alívio”. Assim, “cumprindo-se a lei fatal de que nada no mundo é eterno, também a velha casa da D. Amália desapareceu”, para dar lugar “a um bom largo” que “bem preciso era naquele local”. Mesmo ignorando o que seria feito daquele local, o jornal da terra afirmou que o que interessava era “o desaparecimento daquela ruína que ali jazia há anos”.

Recorda Paulo Amaral que a capela “tinha um belíssimo painel de alto relevo onde estava inserido o São Francisco”. Essa imagem, foi, passados 34 anos (1993) e depois de ter andado não se sabe bem por onde, colocada num nicho no canto do largo, ou praceta, surgido após a demolição de 1959. De acordo com notícia da época a iniciativa foi da Câmara Municipal e da “Ordem de S. Francisco”. Sobre este aspecto, Isabel Jardim, ex-presidente do Conselho Nacional da Ordem Terceira, informou-nos que esse acto tinha tido a “intervenção de Irmãos e Irmãs da Ordem Terceira de Coimbra e de Irmãos e Irmãs da Fraternidade de Penacova”. Fraternidade de Penacova por ela fundada no tempo do Padre Pinho e que ainda hoje existe.

Neste largo funcionou algum tempo a Ciclo Preparatório em Pavilhões Pré-Fabricados. É hoje um parque de estacionamento.

Fontes:
Jornal Notícias de Penacova
Jornal Nova Esperança 
Inventário do Arquivo da Venerável Ordem Terceira da Penitência de S. Francisco da Cidade de Coimbra 
CEHR - Centro de Estudos de História Religiosa (Universidade Católica)

Cemitério da Carvoeira: depois da derrocada de 1942 o perigo espreita de novo



Quando, no início dos anos quarenta, se procedia à construção da estrada nacional junto ao cemitério da Carvoeira, aconteceu o que já na altura se temia. Nos finais de Novembro de 1942, a um sábado, deu-se a derrocada. Imagina-se a consternação das populações e o movimento de pessoas, naquele fim de semana,  em direcção ao local.  De imediato, conta a imprensa da época “o empreiteiro enterrou na parte oposta do cemitério os restos mortais que estavam no entulho”. Lamentou-se que o traçado da estrada tivesse sido aquele, colocando em risco a estabilidade do cemitério. 

Em 12 de Dezembro, há notícia de que haviam começado as obras de construção “de um muro de encosto à rampa”, apesar de se continuarem a verificar alguns desmoronamentos. A pedra para tal fim foi arrancada nas traseiras do cemitério.  “O povo não queria mudança do local”, pois “há mais de 40 anos se faziam ali enterros”. Assim, foi possível a ampliação do mesmo para aquele lado. 

Finalmente, em Fevereiro de 1943, quando as obras estariam perto de serem concluídas, o articulista do jornal escreveu: “uma vez terminado o muro de suporte, cremos que ficará obra segura e o cemitério firme”.

Ora, lamentavelmente, como refere o Edital da Câmara com data de 9 de Fevereiro, assinado pelos Presidentes da Câmara e da Junta, os recentes “eventos atmosféricos severos”  que atingiram o nosso país, “agravaram substancialmente as condições de utilização, em segurança” daquele cemitério, impedindo a “realização de novos enterros” e vedando mesmo o acesso de pessoas aos talhões mais críticos.

Oxalá a situação se resolva sem qualquer derrocada. Aqui fica este apontamento, não para alarmar, mas no sentido de recordar outros momentos difíceis que foram superados e que ecoam ainda na memória colectiva das gentes de Penacova.

07 fevereiro, 2026

Uma Capela do Rosário na Igreja de Figueira?


O Padre Manuel Vieira dos Santos foi nomeado, nos finais de 1913, pároco de Figueira de Lorvão. Nesse cargo permaneceu durante 54 anos. No final da carreira eclesiástica foi promovido a Cónego. Foi Arcipreste de Penacova, foi Presidente da Junta de freguesia. Foi um dos principais impulsionadores do Asilo de Nossa Senhora do Rosário. Nos anos 20 liderou a ampliação e transformação da capela-mor da Igreja, tendo, igual intervenção, sido estendida a  todo o corpo daquele templo.

Consta que na Igreja, em tempos recuados, teria existido uma Capela dedicada a N. Sª do Rosário. Quem colocou essa hipótese foi o Padre Manuel Marques, quando em 1950 escreveu no Notícias de Penacova o seguinte: 

“Mesmo quem conhece a igreja de Figueira antes da reforma de 1928 não conheceu capela alguma da Senhora do Rosário. Pois é certo que já houve uma capela dessa invocação. Capela que se salientava para o lado de fora, como se verifica pela leitura de parte dum assento de óbito que teve lugar em 16 de Janeiro de 1713 que reza assim:  “foi sepultado junto da capela do Rosário da parte de  fora”.

Tenho porém ideia de o falecido P.e Bernardo ter descoberto na antiga parede longitudinal, ao lado do altar da Senhora do Rosário, um arco de cantaria embebido na oitava parede. Desobstruiu esse arco de materiais que enchiam o vão e instalou  ali o altar do Coração de Jesus que mandou fazer em talha de castanho de que fazia parte o actual sacrário que está hoje no altar-mor. 

Ora uma pergunta: Seria esse arco e o seu vão que constituiria a tal «capela do Rosário» a que alude o excerto do assento de óbito citado? Alguma coisa talvez possa dizer o Sr. Arcipreste Vieira dos Santos, que tem assistido a uma verdadeira autópsia da igreja matriz de Figueira no curso destes trinta e seis anos de pároco da freguesia. “

Ao consultarmos o Inventário Artístico de Portugal (1953) não encontramos nenhuma referência à presumível existência remota da dita capela. Aliás, os autores não desenvolvem muito a descrição da Igreja, conforme se pode ver no excerto que publicamos. Referem a imagem de S. João Baptista (finais do séc XV), duas cruzes processionais dos séculos XVI e XVII, em prata, e um cálice do século XVIII.

Fomos à procura do tal assento de óbito e confirma-se, de facto, aquela referência.  


Interior da Igreja, na actualidade




03 fevereiro, 2026

Crónicas do Avô Luís (7): Visitar Museus é reviver a História

 


Visitar Museus é reviver a História

Nesta minha Crónica, relevo a importância de todos nós levarmos os nossos netos aos Museus.

A museologia em Portugal não é, ainda, uma realidade muito abrangente, nem muito “descentralizada”, mas começa a evoluir.

Um fim-de-semana destes estive com a Família em São João da Madeira. Terra conhecida pela indústria dos sapatos e, também, antigamente, da chapelaria. É verdade que o uso de chapéu foi sendo descontinuado no formato do vestuário e, hoje, quase inexiste.

Em 1992, eu fui Director de um Curso de Formação de Gestores de PME’s, justamente daquela região. Acredito que, hoje em dia, muitos dos gestores destas indústrias terão frequentado esse curso, financiado pela então CEE (através do Fundo Social Europeu).

Nessa altura ainda existia a Fábrica de Chapéus detida pela Empresa Industrial de Chapelaria, Lda, fundada em 1914, por António José de Oliveira Antunes. Era a maior Fábrica de Chapéus da Península Ibérica, que encerrou em 1995.

A nossa Família, incluindo os mais jovens, assistiu - entusiasmada - às explicações da nossa “cicerone” e, para além do apreço pela exposição fotográfica (rica e contextualizada), admirou-se muito com as evidências do trabalho de crianças.

E era exactamente aqui que eu queria chegar!

Não há tanto tempo assim desde que acabou o trabalho infantil em Portugal.

Leiam, por favor, o “extracto” que retirei de um trabalho * publicado pela DGERT, do Ministério do Trabalho, onde estiveram - e estão - amigo(a)s meus muito dedicados a esta causa:

PETI - Programa para Prevenção e Eliminação da Exploração do Trabalho Infantil; ACT - Autoridade para as Condições do Trabalho; PIEC - Programa para a Inclusão e Cidadania

O PETI – Programa para Prevenção e Eliminação da Exploração do Trabalho Infantil, foi criado pela Resolução do Conselho de Ministros nº 37/2004, de 20 de Março, tendo sucedido ao Plano para Eliminação da Exploração do Trabalho Infantil (PEETI), e prosseguia, designadamente, os seguintes objectivos:

• Dinamizava e coordenava acções de divulgação e de informação sobre a promoção e protecção dos direitos dos menores junto dos pais e encarregados de educação, dos estabelecimentos de educação e de ensino, dos empregadores e da opinião pública em geral, com vista à prevenção da exploração do trabalho infantil;

• Estabelecia acordos de cooperação institucional com outras entidades, designadamente as autarquias locais, sempre que o diagnóstico das necessidades das crianças e dos jovens em risco justificava a execução de acções conjuntas para a prevenção da exploração do trabalho infantil;

• Desenvolvia acções específicas de prevenção da exploração de trabalho infantil nas formas consideradas intoleráveis pela Convenção n.º 182 da OIT;

• Divulgava as medidas educativas e formativas promovidas, realizadas ou apoiadas pelos organismos dos Ministérios da Educação, do Trabalho e da Solidariedade Social, nomeadamente os Programas Integrados de Educação e Formação (PIEF), em todas as regiões onde o diagnóstico de necessidades dascrianças e jovens em risco o justificava.

Os destinatários do programa eram: menores em situação de abandono escolar sem terem concluído a escolaridade obrigatória; menores em risco de inserção precoce no mercado de trabalho; menores em situação de exploração efectiva do trabalho infantil; menores vítimas das piores formas de exploração.

No entanto, e por força do artigo 2º do Decreto-Lei n.º 229/2009, de 14 de Setembro, as atribuições do Programa para a Prevenção e Eliminação da Exploração do Trabalho Infantil, na parte relativa à prevenção e combate ao trabalho infantil passaram a ser asseguradas pela ACT – Autoridade para as Condições do Trabalho, a quem também cabe a inspecção das condições do trabalho. 

Sabidas, assim, as causas que enquadraram a chaga do Trabalho Infantil, necessário se torna concluir que, se em 2009, o Estado foi obrigado a endossar à ACT (Autoridade para as Condições de Trabalho) a prevenção é porque, nessa data (há pouco mais de 15 anos) a exploração das Crianças através do Trabalho Infantil, ainda era exercida por portugueses sem escrúpulos.

Vou mesmo mais longe, afirmando que ainda hoje existirá, especialmente exercido no contexto familiar, em desenvolvimento de trabalho sub-contratado, feito na casa de família do sub-contratado.

Só queria que tivessem vistos os netos parados em frente das fotografia, atónitos, apontando para as Crianças.

Pelo que devo incentivar as Famílias a visitarem a museologia portuguesa, porque estas visitas promovem o enriquecimento da civilidade.

… e é de pequenino que se torce o pepino!

Ou já não será?

Luís Pais Amante



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* CADERNOS DE EMPREGO E RELAÇÕES DE TRABALHO Nº 09 | TRABALHO INFANTIL: REPRESENTAÇÕES SOCIAIS NOS MEDIA | Autoria: Joana de Negrier Almeida e Macedo | © Direcção-Geral do Emprego e das Relações de Trabalho / Ministério da Economia e do Emprego  | Janeiro de 2012 | ISBN: 978-972-8312-58-9


31 janeiro, 2026

Autores penacovenses contemporâneos | Ficção e Poesia (7): Paulo Cunha Dinis


Paulo Cunha Dinis nasceu em 1972 e pertence a uma família de S. Pedro de Alva.  Fez os primeiros estudos em Penacova.  Reparte a sua vida entre Lisboa e Hombres. Escreveu algumas crónicas no jornal Nova Esperança. Depois de vários trabalhos publicados, vai lançar em breve, no Festival Literário de Penacova, um novo livro À Beira do Tempo – Contos da Terra e da Gente.


ENSAIO SOBRE A PRAÇA

Da contracapa:

" (...) Este livro faz parte de um retrato de sentimentos, objetivando incursões na compartimentação das limitações coletivas. Por outro lado, transfere uma mensagem de beleza sincrética, presente na mostra de uma escrita comentada das representações sociais, num estudo sobre as personagens… que traçaram os seus próprios caminhos. No próprio espaço em que nasceu este ensaio, não parece surpreendente a outorga da temporalidade como campo de referência da conciliação entre elementos de racionalização, subjetivação e de recomposição, num processo - não de romantismo da consolação - mas da circularidade própria dos fenómenos sociais. Mais do que um mero esboço, o autor traça na verdade uma caracterização sistemática do Homem, através de tantas figuras, de inúmeros fragmentos indivisíveis entre o visual e o escrito, em trajetórias, por vezes, de grande complexidade. Esta obra não trata de dramatizações como em Tamerlanto ou em Bajazet. E já não se compraz com um cenário extravagante. Mas com o que as palavras compõem, isto é, a triangulação de coloridos do ambiente social.(...) "

Bernardo de Mello Bandeira

Texto igualmente publicado in  https://www.amazon.com


PAULO CUNHA DINIS

Mestre em Estudos Políticos de Área – vertente Relações Internacionais no Cáucaso do Sul, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa, com a dissertação “A Geórgia e a Política Externa Russa. Uma análise do Cáucaso à luz da Teoria da Regionalização”; Licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa. Principais Áreas de Investigação: Política Externa Russa; Regionalismo Caucasiano; Diplomacia; Diásporas dos Estados ex-soviéticos; Defesa; Relações Internacionais.

Participação em Projectos: Estudo sobre a População do Concelho de Penacova de 1970 a 2011 apoiado pela Fundação Mário da Cunha Brito, Câmara Municipal de Penacova e Junta de Freguesia de São Pedro de Alva.

Publicações: “Ensaio sobre a Praça”, Editora Lugar da Palavra, publicado em 2010; “Lapsos de Tempo”, Editora Papiro, publicado em 2008.

Fonte: https://www.observatoriopolitico.pt/

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Ensaio sobre a Praça / Paulo Cunha. - Rio Tinto: Lugar da Palavra Editora, 2010. - 51 p.  ISBN 978-989-825-533-4

Lapsos de tempo / Paulo Cunha. - Porto : Papiro, 2008. - 72, [6] p. ; 23 cm. - ISBN 978-989-636-210-2

Penacova: visto pela demografia / Paulo Cunha Dinis, Filipa de Castro Henriques. – 1ª ed. – Rio Tinto :Lugar da Palavra Editora, 2015. – 115 p. : il. ; 21 cm.  – ISBN 978-989-731-098-0


26 janeiro, 2026

Autores penacovenses contemporâneos | Ficção e Poesia (6): António M. T. Catela


Foi apresentado no dia 13 de Outubro de 2012, no auditório do Centro Cultural de Penacova o livro de António Catela, Tudo num Momento

Contou com a presença do Presidente da Câmara, Humberto Oliveira e a Vereadora da Cultura, Fernanda Veiga, bem os ex-presidentes do Município, Estácio Flórido e Maurício Marques. Presentes  também muitos amigos e familiares do autor. 

Como o subtítulo do livro sugere - do blog ao livro -  esta publicação (edição de autor) engloba uma selecção dos textos que desde 2007 foram sendo publicados no blogue com o mesmo nome. 

De acordo com o autor, esta obra vem "concretizar um sonho de menino nunca cumprido". A escrita, e em especial a escrita romântica, sempre foi a sua paixão. 

Conforme se pode ler no Prefácio e numa das Notas Introdutórias "recorrendo a pinceladas de cores fortes e expressivas, fala do amor, da amizade, das relações, dos valores, de si próprio, da família e das (des)ilusões". Por outras palavras, o livro remete para "o melhor e o pior do quotidiano; os valores éticos, morais ou a falta deles; os sentimentos nobres, puros e belos que habitam o ser humano e, acima de tudo, a beleza de uma alma sonhadora" levando-nos a "questionar os nossos próprios sentimentos e a nossa forma de ser e de estar neste mundo." 

Para o autor, este livro pretende "ser um tributo ao amor", a esse sentimento que "mais faz sofrer e alegrar o mundo", que "enlouquece, que faz chorar, que magoa, mas que também faz sorrir e sonhar".

In Blogue Penacova Online, 15 de Outubro de 2012

ANTÓNIO MANUEL TEIXEIRA CATELA

António Manuel Teixeira Catela, "nasceu na Maternidade da Sagrada Família na cidade de Luanda, em Angola, em 1961! Ano em que começou a Guerra do Ex-Ultramar, ou melhor a revolta que iria dar início à independência de Angola." 

Frequentou o 5º ano geral de eletricidade. Estudou em algumas províncias de Angola, mais tarde na Lousã e terminando na Escola Avelar Brotero, em Coimbra. 

"Desde miúdo, que sempre se inclinou para a área das letras mas, por motivos vários, acabou por entrar num curso tecnológico, onde as suas melhores notas. nas diversas cadeiras, foram sempre as Línguas e a História de Portugal. Sempre gostou muito de escrever e dedica muito do seu tempo à escrita romântica, área onde se sente melhor."

É casado e tem duas filhas. Reside em S. Paio de Mondego, no concelho de Penacova, onde é Presidente da Junta de Freguesia, há 26 anos. Lado a lado com este cargo, tem desempenhado funções diversas na área do associativismo, em várias Associações do concelho. A nível profissional desempenhou várias funções, entre as quais se destaca a de electricista e a de agente de segurança. Actualmente é encarregado geral de equipamento, numa Associação de Desenvolvimento Regional, sendo responsável por todo o parque de máquinas. 

"Esteve também durante toda a sua vida, ligado à religião que não renega, tendo sido inclusive catequista. Pertence ainda hoje à Fábrica da Igreja da sua Paróquia e a uma Irmandade." 

"Não sendo escritor na verdadeira acepção da palavra, acaba por publicar este primeiro livro que é um tributo ao amor, às pessoas simples e humildes e uma forma de provar a si próprio que, "tudo é possível quando o homem sonha"! 

Fonte: "Biografia", publicada na badana do livro


"SONHADOR - Hoje, de olhar cansado, rugas marcadas, um rosto temperado pelo tempo, cabelos grisalhos, pelos a surgirem, dia após dia, onde não os desejamos e a desaparecerem para sempre de onde os queríamos, barriga proeminente, curvatura nas costas, à semelhança do corcunda de Notre Dame, vai assistindo ao seu "declinar", impávido e sereno, o rapaz bonito, de cabelos aos caracóis, que nem o vento movia. 

A cerveja esfregada, todas as manhãs, nos caracóis, na inexistência de gel, permitia que os mesmos não se estragassem. De olhos esverdeados brilhantes, que, ainda hoje, mantêm a sua cor ao sol e mudam para castanho ao luar, este rapaz, metido a "engatatão", muito tímido, que pedia namoro por bilhete e não conseguia "levar uma tampa" num baile, por isso não pedia às moças para dançar, foi, no fundo, sempre um romântico. Falava com a lua, com as estrelas e escrevia-lhes quadras, poemas que lançava no ar sem preocupações de métrica, no tempo em que as calças de que mais gostava, a mãe lavava à noite e, quantas vezes, ainda as vestia meia molhadas, no outro dia pela manhã. 

Tempos em que era vulgar uma vinda de Coimbra a pé e em que a chegada a casa, cansado mas feliz por ter vivido mais um dia, era o mais importante. 

Não esqueço o deitar no beliche, que chiava por todos os lados, ali bem juntinho ao rio. Jamais adormecia sem um beijo da mãe e envolvia-me em sonhos, que me traziam novas aventuras  para o dia seguinte. Sempre fui um romântico, um sonhador!

Terça-feira, 27 de Outubro de 2009"

Texto publicado na contracapa do livro


REGISTO NA BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL




24 janeiro, 2026

Lembremos...





Lembremos


Lembremos Carlos Paredes
E o trinar das suas Guitarras
Que nos ensinou a escutar

Recordemos
O Ser humilde que ele foi
Muito grande em Liberdade
Sem nunca esquecer a Cidade
De Coimbra

[… Paredes de Coimbra são
Guitarras de cá também
Violas a acompanhá-las
O manter do Fado vão …]

Acordemos
E juntemos com ovações
Os cantares com vocação
Mesmo que sejam Baladas

Antecipemos
Que as gerações vão manter
Com saudade as Guitarras
Que nos tocam o coração



Luís Pais Amante
Casa Azul

Em homenagem a Carlos Paredes.

Recorte de jornal satírico: "Há muitos anos que isto aconteceu em Lorvão..."


O ZÉ, sucessor do jornal O Xuão – semanário de caricaturas e humorístico, publicou-se em Lisboa  entre 1 de Novembro de 1910 e 1 de Março de 1919. Trocado no título o invocativo de João (Xuão) Franco pelo do Zé Povinho, o jornal era o mesmo, feito pelas mesmas pessoas: Estêvão de Carvalho (1881-1935), diretor e editor, Ricardo de Sousa, administrador e Silva e Sousa, caricaturista.

Numa época de exacerbado anticlericalismo, “O Zé” lembrou-se de publicar, em Fevereiro de 1912, sob o título “É padre e basta…” uma história que se terá passado em terras de Lorvão. 

Conta o jornal satírico-homorístico:

“Há muitos anos que isto aconteceu em Lorvão, próximo de Penacova. Havia lá um padre que desde a sua chegada àquela localidade notou a beleza de uma sua devota. Fez todos os possíveis para se aproximar dela o mais assiduamente que podia ser e um belo dia confessou-lhe o que sentia por ela. A mulher, primeiro zangou-se, mais tarde sorriu-se, até que por fim já trocava impressões com o cura.

O padreca estava todo enlevado pela conquista feminina que tinha feito, mas o que ele não imaginava por vislumbres sequer era que a mulher antes do último sorriso tinha contado tudo ao marido lá em casa e por conselho deste é que ela tinha continuado com tanta familiaridade… O carola caguinchas estava todo baboso e estava ansioso pelo momento feliz de estar a sós com ela… O momento desejado apresentou-se e o papa-hóstias do inferno já todo se inchava de prazer, de uma satisfação desmedida que o forçava.

Na povoação já havia mais pessoas que tinham notado a anormalidade do padre e essas pessoas espreitaram-lhes os passos até que ficaram sabendo o motivo daquele seu novo modo de ser. Inteirados do que conseguiram saber foram contar ao marido da devota cobiçada que se pôs a sorrir quando lhe expuseram o facto que pra ele não era segredo. Contou tudo aos indivíduos que se lhe dirigiram, depois de lhes agradecer a boa intenção com que o procuravam e combinou-se fazer-lhe uma partida.

Estavam no Carnaval e o marido da devota fez-se saído da terra para dar ocasião a que o engole partículas entrasse em sua casa… Assim aconteceu por antecipada combinação feita pelo padre e pela crente e sabida pelo marido pseudo-ofendido. Os amigos deste último também entravam como actores na peça que se ia representar e por isso estavam a postos por trás dum muro que pertencia ao quintal da casa onde morava a mulher traidora… O marido saiu de casa e com a sua saída chegou a noite, que na sua escuridão ocultava o vulto do padre. A beata, a medo, abriu a porta ao padre-cura e este, todo jubiloso, entrou na alcova conjugal.

O marido bateu à porta… e o padre em lugar de vestir a sua camisa, vestiu por engano a da mulher e não pôde vestir mais nada. Como não pudesse sair pela porta da rua serviu-se da porta traseira, a do quintal, e ao saltar o muro os outros homens que o esperavam correram após o padre, gritando: - Cerquem! Cerquem a alma do outro mundo! Realmente com aquela camisa tão grande de mulher parecia um fantasma…

O padre teve a sorte de chegar a sua casa depois de ter apanhado com um cacete pelas pernas… Assim é que em todas as aldeias haviam de proceder contra os padres insolentes, mas tendo o maior cuidado possível em lhes aplicar bem as doses de cacete, porque aquela gente sagrada, como são do céu, não lhes dói nada!

20 janeiro, 2026

As obras dos pintores/douradores de Farinha Podre na Sé e na Diocese de Viseu


Nos estudos relativos às obras de talha dourada e policromada (período Barroco) destinadas às igrejas e capelas da diocese de Viseu, são identificados alguns artistas e artífices intervenientes neste tipo de obras.

Nesta diocese, as oficinas locais de talha, existentes na primeira metade do século XVIII, não eram suficientes para dar resposta à procura. Assim, os artistas, na sua maioria, eram oriundos de outras regiões do país, desde concelhos mais próximos, como Carregal do Sal, Santa Comba Dão e Penacova, até outros do norte do país.

“A deslocação de alguns destes artistas para a diocese de Viseu não se confinou à sua contratação para uma única empreitada, acabando alguns deles por prolongar a sua permanência neste espaço geográfico para corresponderem as sucessivas obras que foram arrematando. Um dos exemplos que nos merece especial destaque é o dos mestres pintores/douradores Manuel de Miranda Pereira e José de Miranda Pereira, pai e filho respectivamente, oriundos de Farinha Podre, concelho de Penacova, que entre 1732 e 1753 adjudicaram várias obras de pintura e douramento no espaço diocesano”, sublinha Maria de Fátima Eusébio, especialista em património e actual directora do Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja.

 
Neste quadro, apresentado na publicação acima destacada, mais concretamente na comunicação de Maria de Fátima Eusébio “A mobilidade espacial e estética do entalhador Manuel Vieira da Silva” podemos verificar, em pormenor, as obras executadas por Manuel de Miranda Pereira e José de Miranda Pereira.

 

O site da Direcção Geral do Património Cultural, ao referir o conjunto arquitectónico e artístico da Sé de Viseu, menciona, no conjunto dos diversos artistas, os “pintores-douradores” de Farinha Podre, José de Miranda Pereira  e Manuel de Miranda Pereira (séc. XVIII).

Fala-se do “douramento dos retábulos de Nossa Senhora do Rosário e Santa Ana, por Manuel de Miranda Pereira e Baltazar Pinto da Mota bem como a assinatura (28 de Dezembro de 1733) do “contrato para a douragem do retábulo principal com o dourador José de Miranda Pereira, morador em Farinha Podre, em Penacova”. Também que “os frontais dos altares de Nossa Senhora do Rosário e Santa Ana” foram “dourados” por Manuel de Miranda Pereira e Baltasar Pinto da Mota.

Igreja de S. Pedro - Oliveira do Conde
 

19 janeiro, 2026

"Trezena do Glorioso S. António de Lisboa, para o uso dos Irmãos da Irmandade do mesmo Santo da Vila de Penacova "


As Irmandades e Confrarias, associações de fiéis, nasceram na Idade Média com o objectivo de promoverem o culto religioso público do seu santo padroeiro (orago) e de prestarem auxílio aos seus irmãos nas cerimónias fúnebres e em situações difíceis.

No século XVIII, em Portugal, as irmandades eram associações de leigos de grande importância social, religiosa e económica.

Um dos seus principais objectivos era congregar fiéis em torno da devoção a um santo padroeiro. Organizavam festas religiosas, missas e sufrágios pelas almas dos irmãos falecidos.

O "Inventário Artístico de Portugal", vol IV, 1953, refere que a capela de Santo António (Penacova)  é detentora de um cálice de prata, onde, no listel de base, se lê: “ESTE CALIX HE DA IRMANDADE DE SANTO ANTONIO FOI FEITO ERA D. 1664 a.” 

Este facto, entre outros, atesta a antiguidade desta devoção a Santo António em Penacova. 

Em 1778 a Imprensa da Universidade de Coimbra deu à estampa uma brochura de 55 páginas intitulada “Trezena do Glorioso S. António de Lisboa, para o uso dos Irmãos da Irmandade do mesmo Santo da Vila de Penacova”.  

Uma Trezena é um momento de oração realizado durante treze dias consecutivos (ou em 13 terças-feiras seguidas) uma espécie de novena, só que ao contrário da novena que é rezada em nove dias, é rezada em treze dias, em homenagem a Santo António (por ser o dia treze o seu dia). Neste caso, iniciava-se no dia 1 de Junho com a Exposição do SS (Santíssimo Sacramento) e entoava-se um cântico. Seguia-se uma oração e depois cantava-se um Hino. Incluia igualmente uma meditação, uma ladainha e uma antífona.

Nos restantes dias pontificava a meditação sobre as diversas virtudes (Fé, Esperança, Caridade, Prudência, Temperança, Fortaleza, Justiça, Paciência, Castidade, Humilde, Discrição, Sobriedade).








Capela de Santo António em Penacova