No dia 7 de Março, integrada no Programa do 2º Festival Literário de Penacova, teve lugar a apresentação do livro de Paulo Cunha À Beira do Tempo - contos da terra e da gente. A sessão, que decorreu na Biblioteca Municipal, contou com a presença de Álvaro Coimbra, presidente da Câmara.
Apresentou a obra, Marta Ceia, especialista em assuntos globais, desenvolvimento sustentável e diplomacia. No prefácio, por si assinado, podemos ler o seguinte:
“À Beira do Tempo não começa onde começa. Começa antes, entre o som e o silêncio. Os passos que já não se ouvem na escada, o eco de um sino antigo, a lembrança da voz do avô misturada com o crepitar da forja e o baque do latão a ser moldado. Aqui o silêncio não é espaço vazio, mas identidade a desfazer-se e a refazer-se. É nesse momento de suspensão entre o silêncio do espaço e o som da memória que o livro existe. Paulo Cunha escreve como quem regressa depois de ter fugido e encontra tudo igual e, ao mesmo tempo, irreconhecível. Há tensão nestas vinte histórias, fruto da hesitação entre o desejo de desapego e a fidelidade à terra, às gentes, à história. A Laurinda, o Sacristão, o José Aquino, o Silvério e a Marquitas, são gente concreta, vozes dessa terra, testemunhas de vidas inteiras concentradas em gestos repetidos, portadoras de saberes não escritos e de ofícios que morreram sem cerimónia com os corpos que as sustentavam. Ao evocá-las, o autor não as cristaliza no passado, mas devolve-lhes a dignidade, inscrevendo-os num presente que as há de reconhecer.”
E, a terminar, sublinha:
“Ler À Beira do Tempo é caminhar pela terra, onde cada passo levanta sonoramente o pó que julgávamos assente. No fim, voltamos ao avô, ao silêncio do patamar vazio, à saudade que ainda anima, à ressonância do que deixou. Talvez apenas seja isso que o livro nos pede. Que nos sentemos no patamar, que ouçamos o que resta, e que, ao contarmos quem fomos, consigamos compreender melhor quem somos."
Na contracapa, podemos ler igualmente um texto do Presidente da Câmara, onde, a dado passo afirma que “a presente obra de Paulo Cunha é um presente para a memória futura. Um contributo inestimável para a nossa vida em comunidade, um legado para as futuras gerações. É acima de tudo um retrato fiel das tradições, modo de vida, hábitos, ofícios tradicionais, escrito com a sensibilidade de quem, realmente, ama a sua terra e as suas raízes.”
Como nota biográfica, transcrevemos o texto publicado no livro:
“PAULO CUNHA nasceu em 1972, em Cabinda - Angola. A maioria dos seus familiares pertence a São Pedro de Alva. A ocupação profissional está em Lisboa. Parte do tempo restante é passada em Hombres. Começou por escrever diversas crónicas no jornal Nova Esperança, tendo já publicado dois projetos de ficção, uma coletânea de pequenos contos, intitulada "Lapsos de Tempo", uma crónica satírica, intitulada Ensaio sobre a Praça, e, também, vários contos sobre a temática do natal na coletânea intitulada Lugares e palavras de natal, organizada pela editora Lugar da Palavra. No livro À Beira do Tempo, Contos da terra e da gente, o autor reitera o registo das relações familiares e sociais da gente que o viu crescer e contribuiu para o sentido de captação das particularidades do quotidiano, passado e presente, da região de Mondalva.”
Na página 28, a Feira de S. Pedro de Alva é o mote para um original olhar do autor. Um excerto:
São recordações. Já só existem recordações! Surgem num jeito envolto. Pouco mais vejo além delas. Vagueio num género de drone que sobrevoa o espaço, que rodopia nas linhas curvas das diversas perspetivas.
Lá em baixo, remonta-se o dia de feira. A vila reconstitui-se no lugar de todos os preços. Torna-se o grande bazar coberto por imensos toldos brancos. Espeta-se estaca a estaca. Ouve-se o tilintar dos ferros caídos, das marteladas secas sobre os calhaus da calçada. Afinam-se as vozes ensonadas! As cordas esticadas delineiam cada pedaço de chão alugado por um dia. A brisa matinal sopra na crista das tendas semelhantes a águas calmas protetoras do burburinho vivo. Cruzam-se residentes e vizinhos. Abrem-se caixas, rulotes e baús. Soltam-se conversas discretas e indiscretas. Mistura-se claridade com sombras vivas. Encontram-se vidas próximas, alheias... vidas suspensas, invejadas, escondidas e até esquecidas. Espalha-se pela vila uma estrondosa necessidade de troca. O chafariz de quatro torneiras espreita por cima do mar de toldos. Testemunha a libertação dos cheiros da pimenta e do colorau. Como invasores do recinto. A terra húmida da manhã é expulsa das narinas!


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