30 dezembro, 2025

A alimentação das gentes de Penacova no Foral Manuelino de 1513: algumas pistas


Em 2019 foi apresentada, por Sónia Maria dos Anjos Godinho, à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra uma Tese de Mestrado subordinada ao título Forais Manuelinos do Distrito de Coimbra: Contributo para o Estudo da Alimentação

Esta investigadora analisou os forais da Lousã e Penacova (1513), de Serpins e de Tábua (1514) e de Coimbra e de Montemor-o-Velho (1516), detectando neles algumas das características da alimentação quinhentista, concretamente no distrito de Coimbra, identificando os principais alimentos aí descritos. 

A tese de mestrado complementa o tema comparando a informação recolhida com outras obras e estudos alusivos ao tema, sendo possível afirmar que os forais “são fontes fidedignas e importantíssimas que espelham os hábitos alimentares dos portugueses.” 


PRODUTOS ALIMENTARES

Especificamente, em relação a Penacova, Sónia Godinho refere, por exemplo, os cereais onde avultam o trigo, o centeio, a cevada, a aveia e o milho painço. 

Na alimentação do dia-a-dia entravam também os ovos, os lacticínios e seus derivados, como o leite, a manteiga e o queijo. Igualmente as hortaliças/legumes, em especial a cebola e o alho, e as frutas (ameixas e figos) e os frutos secos como as nozes, as avelãs, os figos secos, os pinhões e as castanhas.

No que se refere ao peixe, em especial ao peixe do rio, destacam-se a lampreia e o sável. 

Há também referências ao marisco, este só ao alcance das classes ricas,  pressupomos.

As referências às carnes brancas são frequentes (galinha, capão, ganso …), bem como as carnes vermelhas (vaca, vitela, carneiro, porco, cabrito e outras). Ainda as carnes de caça aparecem citadas (perdizes, pombos, lebres, coelhos, patos e outros).

O vinho e o azeite são outras referências muito importantes no conjunto dos produtos alimentares. Não esquecer o mel e, por último, o uso de especiarias como a pimenta e a canela. 


CONSIDERAÇÕES GENÉRICAS SOBRE OS PRODUTOS

A autora, tece algumas considerações genéricas sobre o uso dos produtos referidos, não necessária e especificamente sobre o concelho de Penacova. No entanto, por analogia, há aspectos comuns que podem ser tidos como interessantes.  

CEREAIS

Por exemplo, quanto aos cereais, Sónia Godinho, sublinha que o pão constitui a base da alimentação de todos os tempos.

Assim, no “foral de Coimbra, tal como em quase todos os outros estudados para este efeito, temos vários cereais panificáveis. Destacam-se o trigo, o centeio, a cevada, e a aveia. Fabricava-se “pão de trigo, o branco, que ia à mesa só dos ricos pelo seu preço e requinte.” As “classes inferiores” consumiam, especialmente, o pão escuro de centeio, de aveia e de cevada. “Este sem gosto e pouco nutritivo”.

Em relação aos cereais, o "milho maís" [variedade de milho graúdo], era uma novidade. Recém trazido da América, “tornou-se abundante nos campos do Baixo Mondego.” No entanto, no início do séc. XVI o seu cultivo não teria ainda chegado a Penacova ou pelo menos era residual – pressupomos nós. 

“A farinha era utilizada em papas (misturada com água) ou sopas, servia para cozer o biscoito, não só para os navegadores (como já referimos anteriormente), como também para as tropas e armadas do exército, e era utilizada como polme para o peixe ou carne, para as queijadas, assim como, para confeccionar empadas e pastéis, nas classes mais abastadas.”- diz-nos Sónia Godinho.

OVOS

Os ovos, eram “um alimento barato e existia em fartura devido à abundância de criação de galinhas, patas, gansas e pombas.” Eram consumidos em grande quantidade, cozidos, escalfados, fritos, mexidos e como ingrediente de vários pratos. (…) “Em algumas receitas de sobremesas entravam quantidades que podiam atingir várias dezenas, como a doçaria conventual dos séculos XVI a XVIII bem ilustra. Sendo um alimento de extrema relevância, os ovos vêm referenciados em quase todos os forais.

LACTICÍNIOS E DERIVADOS

No que diz respeito aos lacticínios e seus derivados, salienta-se que “o leite era pouco consumido isoladamente, no entanto, queijos, requeijões e manteiga (por vezes dita salgada, como no foral de Tábua), pelo contrário, eram muito frequentes na alimentação medieval e quinhentista.” 

“Na Corte, eram utilizados sobretudo como acompanhamentos ou sobremesas, enquanto os mais frequentes, nos forais em apreço, eram o queijo curado, o queijo fresco, o requeijão, a manteiga, que, como já dissemos por vezes é dita salgada (como é referida no foral da Lousã, Serpins, de Coimbra e no de Tábua).” 

HORTALIÇAS E OS LEGUMES

As hortaliças e os legumes frescos “eram sem dúvida consumidos em maior quantidade pelas classes mais pobres.” Além da “couve murciana, couve tronchuda, couve-flor, entre outras” eram consumidas outras hortaliças, “nomeadamente, a cebola, alho, pepino, espinafres, salsa, sumagre, palma, esparto, funcho, rabanetes e alface. 

FRUTA

“Desde a Idade Média que a fruta tem um papel bastante relevante na alimentação portuguesa.” Nos forais apareciam em destaque. Entre outros, cerejas, “amêixoas”, maçãs, peras, romãs, pêssegos, amoras, laranjas, limões, melões, uvas, figo, marmelo e tâmara. A laranja amarga e o limão, eram muito utilizados para tempero, mas a laranja doce só será introduzida em Portugal depois das viagens marítimas dos portugueses para o Oriente. 

“Salientamos também o facto de que a fruta fresca era frequentemente transformada em conservas, doces ou fruta seca e muito apreciado nas mesas de Reis ou de Mosteiros, era o consumo do doce à base de marmelos e por isso designado por marmelada.”

Por sua vez “nos forais analisados, os figos secos e as passas de uva, são os que sobressaem nesta categoria alimentar (…) A diversidade era tanta, desde amêndoas, pinhões por britar, avelãs, bolotas, nozes, nozes secas, castanhas que muitas vezes substituíam o pão em maus anos cerealíferos, assim como, faziam parte das refeições como acompanhamento principal, sobretudo na Beira Alta e Trás-os-Montes. “ Para a preparação de doces de frutos secos, o ingrediente essencial era o açúcar, sempre presente nas compotas e geleias, as denominadas conservas, como era o caso da marmelada e “frutas cobertas”, ou seja, frutas cristalizadas.

PEIXE

O peixe “era essencialmente consumido fresco, salgado, seco, fumado, em empadas, em escabeche e em conserva, em barris.” Assinalado em todos os forais acima referidos, o peixe do rio era principalmente a truta, o sável e “a lampreia, que sendo um ciclóstomo, provinha do mar, mas vinha desovar ao rio. Ainda hoje, é uma iguaria com notável destaque no concelho de Penacova, mais precisamente no Porto da Raiva.” – sublinha a investigadora na sua tese de mestrado. 

Ainda sobre a lampreia, Sónia Godinho sublinha que era “considerada um dos manjares de eleição” sendo “consumida por grupos sociais elevados económica e socialmente”, destacando-se principalmente na mesa real. O primeiro Livro de Cozinha da Infanta D. Maria, neta de D. Manuel I, regista uma receita da lampreia.

Receita da Lampreia 

Tomarão a lampreia lavada com água quente e tirar-lhe-ão a tripa sobre uma tijela nova, porque caia o sangue nela, e enrolá-la-ão dentro daquela tigela e deitar-lhe-ão coentro e salsa e cebola muito miúda, e deitar-lhe-ão ali um pouco de azeite e pô-la-ão coberta com um telhador, como for muito bem afogada, deitar-lhe-ão muita poucochinha água e vinagre, e deitar-lhe-ão cravo e pimenta e açafrão e um pouco de gengibre. 

“Com enorme importância alimentar, o peixe era abundante e diversificado. A sardinha era a espécie mais consumida, particularmente pelas classes mais baixas. No entanto é conhecido através dos livros da cozinha de D. João III, que este peixe também ia à mesa Real”. 

O peixe “ocupou um lugar de destaque no regime alimentar das comunidades monásticas”. 

CARNE

O consumo de carne caracterizava-se por uma enorme diversidade. “Nesta categoria, temos presente nos diversos forais a galinha, a lebre, o cervo, o ganso e o pato bravo. Muitas destas carnes eram provenientes do mercado ou de criação doméstica, normalmente era consumida fresca. A carne era confeccionada de variadíssimas maneiras, desde assada, cozida, em ensopado, estufada, em cuscuz, frita, fumada, em pastéis, picada, recheada, chegando a fazer parte de doces como o manjar branco”. As carnes vermelhas “continuavam a ser um alimento na mesa dos mais abastados.” Por exemplo, em Coimbra, as carnes de porco e de carneiro eram as mais baratas, seguidas as de cabra e ovelha, sendo mais comuns e de taxas mais altas as de vaca e as de boi. 

Nas classes mais ricas o consumo ia preferencialmente para o cordeiro, gamo, zebro, a vaca e até o urso. Os pratos de carne normalmente tinham como acompanhamento o pão ou enchidos como o toucinho, chouriço, linguiça, paio, salpicão e presunto. Outro dos acompanhamentos da carne eram os molhos e o cuscuz. A carne era temperada com abundantes e diversas especiarias, assim como a pimenta, mostarda, cravo, gengibre e em alguns casos específicos até com canela e açúcar. “A inserção das especiarias na culinária de então era mais do que um gesto de gastronomia, era um ato representativo do poder económico e social de determinadas classes, pelo que a sua referência nas receitas aparece bastante descriminada.” Presentes nos forais são as carnes de caça como os coelhos, lebres, garças, pombas e perdizes. A carne de caça na maioria das vezes era confeccionada de igual forma à carne vermelha, tendo como tempero diversas especiarias e o acompanhamento do pão, ou até mesmo integrado na própria receita”

VINHO

“O vinho sem exceção surge em todos os forais, o que não é de surpreender, visto que faz parte da base alimentar dos portugueses. Para além dos cereais, a vinha era outra grande cultura, sendo até a primeira a surgir em certas regiões. Embora grande parte das vinhas se destinassem ao consumo da uva como frutas de mesa, a maior parte destinava-se à produção de vinho, branco ou tinto, para ser exportado e consumido.

O vinho era a bebida mais consumida, independentemente da classe ou estatuto social, bebido por homens e mulheres, sãos e enfermos, reis e clérigos. “Desde beber vinho para matar a sede, como para confraternizar, acompanhar as refeições, ou como para uso de culto religioso, era um ato tão natural como comer”. 

Uma curiosidade: “a rainha D. Isabel de Aragão prescrevia aos doentes no seu hospital, homens e mulheres, para além de outros alimentos, uma tagra de vinho [antiga medida equivalente a dois litros] por dia que poderia variar entre 1,4 litros e 2,6.”

ESPECIARIAS

“As especiarias eram acima de tudo condimentos fulcrais à preservação/conservação dos alimentos assim como o sal, a sua importância era tal, que em nenhum foral é tributado.

Nos forais as especiarias mais destacáveis são: a pimenta, a canela, o ruibarbo [com sabor ácido, usado em doces como tortas e compotas e chás], o açúcar, a canafístula [planta medicinal que tem uma polpa líquida, escura e doce à semelhança do açúcar que serve para purgar o estômago], o gengibre, o açafrão, a mostarda”.

AZEITE

“O azeite é indubitavelmente um elemento importantíssimo, considerado outro dos produtos básicos na alimentação (tríade da alimentação: cereais, vinho e azeite), é também referido em todos os forais”.

“Outra das funções do azeite e não menos importante, era a de iluminar as casas e as igrejas.

São inúmeras as referências à compra e doação de azeite e de olivais, com a finalidade de manter as lâmpadas acesas em vários altares de igrejas, capelas e mosteiros. O azeite servia também “para o tratamento de certos males e doenças”. 

MEL

O mel “aparece referido em praticamente todos os forais analisados e é um alimento constante nos hábitos alimentares da época, muitas vezes substituto do açúcar, devido ao preço elevado deste último e não só, visto que regularmente era preferido pelo seu sabor e textura.”

ALIMENTAÇÃO DO POVO

Existem poucas fontes sobre a alimentação das camadas mais baixas da população. 

“A pobreza em que muitos viviam, quer no campo quer na cidade não lhes permitisse sequer ter uma mesa e as duas refeições, as principais, do dia: jantar e ceia”. 

Nas zonas rurais as populações “tinham mais facilidade em comer, pois tinham mais acesso ao pão, vinho e favas secas, tremoços e de peixe a sardinha “fartura da pobreza”. Azeite, ovos, carnes, doces ou peixes e mariscos talvez, em dias muitos especiais, de solidariedade festiva. No entanto, a regra era a ausência total daqueles alimentos o que provocava, como se compreende, doenças graves por falta de proteínas, vitaminas ou gorduras.”

 MESA DOS REIS E NOBRES

É sobre a mesa dos reis e nobres que há mais fontes. “As mesas dos reis e da alta nobreza davam preferência, como acontecia no resto da Europa, à carne. De facto, e, em muitos casos, coincidindo com o que registam os forais, temos as tradicionais carnes vermelhas (vaca, boi, porco) ao lado das ditas de “caça” que, por exemplo na cozinha de D. João III correspondiam a “perdizes, pombos, coelhos, leitões patos e lebres) (…) De animais de capoeira, as mesas régias tinham em abundância galinhas, patos, capões, gansos e outras espécies. O preço variava e as taxas a pagar registadas nos forais, acompanham o valor comercial dos mesmos. (…) A par das carnes assadas, em empadas ou em caldos, temos bons e apreciados peixes e mariscos. Encontramos dezenas de espécies de mar e de rio, na mesa dos poderosos. Curioso é sublinhar que os mais caros continuam hoje com essa característica. Damos o exemplo do salmonete, da garoupa, dos linguados, da lampreia e de outro peixe fresco do mar. O marisco abundava como também os forais o comprovam.”

MESA DO CLERO SECULAR

O alto clero (bispos, arcebispos e outros), alimentava-se de “saborosas e caras iguarias”. Por isso, nas suas mesas, como naquela de um bispo de Coimbra do século XIV, D. Estevão Anes Brochardo (1304-1318), podíamos ver das melhores carnes vermelhas (vaca, carneiros, vitela) e dos mais caros pescados (baleia grossa e magra, congros secos, gorazes e sáveis). É certo que tal como os outros tinham que cumprir os dias de jejum e de abstinência, deviam privar-se de “carnes de quadrúpedes” podendo comer ovos, carnes brancas, sobretudo, pescado. Não esquecer também, como a bebida, o vinho tinto e branco, quantas vezes meado ou terçado com água, com presença obrigatória na mesa dos membros da igreja. 

MESA DO CLERO REGULAR

“Quanto ao clero regular, feminino e masculino, as regras monásticas, como sabemos, estabeleciam normas muito precisas sobre o que as religiosas e religiosos podiam comer.

Se lermos algumas Regras, podemos ver que a proibição principal vai para as carnes vermelhas (só muito excepcionalmente, como em dias festivos, podiam comer vaca, carneiro ou outros). A caça era luxo de ricos por isso não entrava nas mesas dos mosteiros. Pão e vinho, os alimentos do sagrado, estão sempre presentes. Pescados «rezentes» (frescos), secos, cação, sável (o mais caro) e sardinha, o mais barato. Também compraram vários carneiros, um bode (animal muito referido nos forais), oito bois e uma vaca e duas azémolas. (…) Compraram bastante mel, figos e passas. Não faltaria também o azeite “para o comer” e para a iluminação, o sal para temperar, hortaliça e outros produtos que poderiam obter por doação, por pagamento de rendas e outras formas.

DOÇARIA CONVENTUAL

Sobre o clero regular feminino o que mais importa é referir a produção de doces (pastéis, compotas, doces de colher, bolos e tantos outros). Ficaram céleres sobretudo os mosteiros de Santa Clara, de Coimbra, de Santarém, de Évora, do Funchal. Produziam para consumo próprio, em dias especiais, mas também para presentear a reis, nobres e membros da Igreja.

 



Escritores penacovenses contemporâneos | Ficção e Poesia (4): Ricardo Santos

Ricardo Santos

Nascido em 1975, cedo revelou interesse pela música e pelas ciências.Compôs e gravou mais de quarenta canções de diversos estilos. Licenciado em Ciências Farmacêuticas, fez formação adicional em liderança e gestão de negócios. O exercício da profissão levou-o a visitar mais de cinquenta países e a criar um negócio próprio com vendas em setenta e sete, mas é na escrita que toda a sua imaginação e criatividade se revelam.

Fonte:   https://www.wook.pt/autor/ricardo-santos/4011614/122

O livro O Dia em Que os Aviões Deixaram de Voar foi apresentado em Penacova em 2017. Refira-se que Ricardo Santos é filho de Adelino Santos, ex-presidente da Junta de Friúmes e actual produtor da cerveja artesanal Beira Alva.


O Dia em Que os Aviões Deixaram de Voar

SINOPSE

Um intrigante artefacto dos tempos faraónicos, misteriosamente, ganhou vida provocando uma tempestade solar de proporções épicas. Carlos, de passagem por Macau, reencontra uma antiga paixão amorosa e é envolvido numa alucinante viagem por terras de sabor português, e não só... É-lhe confiada uma missão vital para a sobrevivência do planeta. Não há qualquer margem para erro. O mundo depende do seu êxito. Como num filme de grande envolvência, e através de uma escrita fluida e repleta de pormenores históricos, sucedem-se então as peripécias de cinco gerações da família Vasconcelos, que decerto prenderão a atenção do leitor e o farão querer reproduzir a viagem do protagonista.

Data de Lançamento: Junho de 2017 | Editor: Chiado Books | Dimensões:160 x 239 | Páginas:396 | ISBN:9789897747694 | Coleção: Viagens na Ficção


Ventre Gelado - A Antártida como berço da civilização

SINOPSE

Melita, jovem Goesa apaixonada por arqueologia, estabelece a relação entre a localização das cidades Maias e estrelas no céu, fazendo uma descoberta inacreditável. Nesta viagem alucinante, Carlos descobre pistas sobre uma civilização perdida e embarca numa aventura que o levará a desvendar os segredos mais bem guardados do planeta. Que segredos serão esses? Estará o mundo preparado para os conhecer? A história começa nas ruínas de uma cidade Maia, onde Carlos encontra um mapa enigmático que sugere a existência de um povo que habita o interior da Terra. Forças especiais alemãs, de ideologia neonazi, também procuram esse povo subterrâneo, julgando tratar-se de Arianos, e ambos os caminhos se cruzam. A equipa viaja por diversos locais históricos, enfrentando desafios e perigos, desde as selvas da América Central até ao extremo Sul do continente.  Cada descoberta aproxima-os mais da verdade, revelando uma conexão surpreendente e um plano para destruir a humanidade.

Editor: Chiado Books  | Data de Lançamento: Novembro de 2024  | Dimensões: 147 x 228 x 45 | Páginas: 534  | ISBN: 9789893788769

28 dezembro, 2025

𝕆ℙ𝕀ℕ𝕀Ã𝕆 | Há que repensar a Política!

 



Há que repensar a Política!

Tenho a noção de ter “pensamento político estruturado” desde os meus 15 anos, complementado por “ação política” por vezes clandestina, desde as Eleições de 1969, sob a égide da CDE, que em Coimbra -como é interessante recordar- se coligou com a CEUD, de Mário Soares, em contra-ciclo com o que aconteceu na generalidade dos Distritos (em que a mera divisão divisão da Oposição foi visível).

Ainda existem vivas pessoas desse tempo; outros, até conterrâneos nossos dessas lides, infelizmente, já faleceram.

Antes do 25 de Abril propriamente dito (já como bastante próximo do PCP e Membro do Centro Republicano Almirante Reis), tentei ajudar, dentro das possibilidades, os meus Amigos Militares de Abril, vizinhos, envoltos na preparação da Revolução e, feita esta com o êxito que se conhece (já como Militante do PCP) foram-me confiadas “missões” concretas como os apoios informais ao Conselho da Revolução (quando era Assessor Jurídico do CEMFA/CEMGFA) acreditado Nato Secreto e a integração da Candidatura de Maria de Lourdes Pintassilgo, bem como, nomeadamente, outras “missões” que considero, ainda, passíveis de se manterem no conhecimento dos outros intervenientes interessados, até com ligação a Penacova, de que lhes caberá falar, por disso terem beneficiado.

Em 1983, saí do Partido Comunista Português, por considerar que se estava a querer interiorizar uma “ortodoxia seguidista”, muito controlada, acrítica e “pró soviética para além do normal” o que teve expressão numa “purga” que levou ao abandono de muita militância de grande valor intelectual, como Vital Moreira. Seja como for eu saí antes.

Mas recordo e mantenho grande estima pessoal por Membros do PCP, com os quais lidei de mais perto e de outros que fui conhecendo, que ainda hoje se me apresentam como gente muito confiável, embora estejamos distantes no pensamento e nas convicções. Não em todas, claro está.

De resto, nunca mais tive nenhuma experiência partidária…nem vou ter; a minha maneira de ser não se coaduna, nem com seguidismos, nem com facilitismos!

!… Quando ouço “discutir” tão apaixonadamente o 25 de Novembro, só posso sorrir, porque eu “estava lá”, literalmente falando e sei o que se passou …!

E quando vejo tentar “retalhar” um Processo Ganhador, como o foi o 25 de Abril, onde  está um bocadinho de mim, jovem irrequieto que enfrentou “os fascistas de Penacova” -que os havia em substancial quantidade, como se sabe ou devia saber- em condições e com resultados que importa, ainda, manter no segredo, fico estarrecido.

Fui para outras paragens!

Fiz os meus Estudos!

Construí uma vida desafogada, sem favorecimentos mas com trabalho; muito trabalho, sempre!

E nesse “trabalho” de Escriturário na HPE, a Advogado, Director das maiores Empresas Portuguesas, Consultor Nacional e Internacional e Empresário/Gestor (fundador do Grupo Place há 33 anos) conheci de perto a evolução da mistura dos interesses pessoais, com os interesses da Política e, também, o modo como “as teias organizadas” mandam e comandam. Essas teias que se movem no escuro, integrando pessoas que até nos fazem ficar chocados, por vezes…

Quando falo -ou escrevo, ou penso- é porque tenho comigo os exemplos…; eu não invento!

Por obrigação profissional lidei com os melhores -porque extraordináriamente bem preparados- responsáveis políticos deste País.

Aqueles que nomeavam para tarefas complicadas do foro negocial, inclusive com várias Direções Gerais de Bruxelas, Banco Mundial, Banco Africano de Desenvolvimento, etc, etc, “um miúdo promissor”, como diziam e como Decq Mota antecipara.

Falo, a título de exemplo, desde logo, de José dos Santos Amaral, antifascista convicto e forte, numa terra minada pelos interesses do regime; do Dr. Ilharco, do Eng. Torres Campos e do Dr. Nascimento Rodrigues e do Dr. Antunes da Silva; do Dr. Jorge Seabra, do Professor Baião Horta, da Enga Maria de Lourdes Pintassilgo, do Dr. Melo Biscaya, do Eng. António Guterres, do Dr. João Figueiredo, do Eng. Carlos Dias, do Eng. Montalvão, do Eng. Fernando Mendes, do Dr. Leitão Couto (que me apresentou seu irmão), que viria a ser Presidente do IPE, com o qual trabalhei amiúde e muitos outros ligados a Partidos Políticos ou não.

Fui sendo sondado para muitos cargos, que sempre recusei. Até para Deputado. E fiquei boquiaberto - e às vezes ainda fico - com nomeações feitas a gentes da nossa terra, sem experiência ou traquejo, só por serem (ou os seus familiares) das tais “teias”…

Continuei a ser Advogado e Consultor; LIVRE e sem depender ou dever favores fosse a quem fosse. Amando a minha Terra, Penacova, mas poucas vezes confiando nos seus “actores políticos da sombra” que ainda estão vivos e sabem trabalhar nisso, comandado as tropas e mexendo os “cordelinhos”, o que por vezes sai asneira…

Durante todo este tempo - muito mesmo - fui assistindo a uma degradação gigantesca dos principiantes da política e tem sido isso mesmo a determinar o que vou escrevendo respeitosa, mas contundentemente. Há coisas que não se admitem!

Tenho apoiado situações diversas de pendores diferentes, justamente porque incorporo na minha avaliação isenta, em cada momento, os projectos estruturados, a sua mais-valia espectável, a capacidade de serem levados à prática e o impacto que possam vir a ter na vida triste dos mais desfavorecidos e na projeção da minha Terra e do famigerado Interior.

Aconteceu isso no meu apoio visível ao Humberto Oliveira e ao Pedro Coimbra; no meu apoio mais discreto, com voto expresso no Álvaro Coimbra (a que me liga o tempo em que comia bolachas no Fundo da Vila, ao colo do “Mané”, meu saudoso Pai, distribuidor de propaganda política antifascista pelo Concelho, na sua mota BSA) cujo trabalho de compromisso sério com a promessa eleitoral merece a minha vénia e, também, mais visível, no Paulo Rodrigues, como candidato à Junta de Freguesia.

As Pessoas, por vezes, não compreendem as minhas posições e eu dou isso de barato. Não as negoceio. Há beneficiários líquidos da política que ficam à espera que tudo lhes chegue à mão e que todos lhes devam bajulagem.

Mas sabem que não me vendo a interesses, venham eles donde vierem…e detesto os oportunismos e os meandros dos favores, confundindo as amizades, que vão engrossando.

É só estarmos atentos…

Já não sou o miúdo que, corajosamente, enfrentou os fascistas que mandavam em Penacova em 1969… mas continuo irrequieto e vertical.

Sou uma Pessoa que só “gasta tempo” com o que o merece: a Família, a Casa Azul, os Amigos, a Gestão do Património ganho a pulso, a projeção Cultural da minha Terra e a ajuda aos mais carentes e aos projectos diferenciadores que, do ponto de vista da Cultura e da sua estruturação e dinamização, hoje, causam inveja e têm sido conduzidos por uma Equipa extraordinária.

E aprendi a não fazer nem pedir favores… mas respeitar muito os actores do desenvolvimento sustentado.

Tenho, pois, preparação suficiente para entender que a Política tem de ser repensada e que os seus actores actuais, com honrosas exceções - são fracos, muito fracos - não têm capacidade para isso e estão “presos às militâncias”, sem as quais não são ninguém.

É preciso interiorizar que as questões, nos dias de hoje, já não se colocam na simplicidade dogmática da catalogação esquerda/direita; são mais “criação desinteressada de organizações capacitadas” para fazerem o caminho necessário à construção de um País Moderno, digno, incorruptível e socialmente estável, com aproveitamento das “cabeças independentes” que continuam desaproveitadas.

O titular do cartão partidário (quando em trabalho para o Estado) tem de ser um funcionário sujeito às regras (todas) da meritocracia e não essa cambada de corruptos incompetentes que surgem todos os dias em condições que até arrepiam. Os erros sistemáticos não podem ser “lavados”…

Será uma agenda complexa! Muita gente vai “ficar em terra”; muita outra vai sair do anonimato e singrar num Portugal diferente.

Principalmente porque os titulares das benesses “não querem deixar a chupeta” e o poder da comunicação social, salvo raras exceções, através de jornalistas empoderados e de comentariado interesseiro, só mantém na agenda o que provoca a disrupção dos eleitores, o interesse das Antenas e a “partidarite” que joga em todos os tabuleiros.

Caso mais do que evidente do que acima disse é o modo incompetente, mal intencionado, baseado na mentira e no preconceito como os adversários políticos trataram o “Caso Spinumviva” e continuam a tratar o “Caso Influencer”.

No primeiro caso, quis “cortar-se a cabeça” a um político que eu entendo promissor -discordando do seu pensamento em alguns aspectos - bem formado, apto, simples, que teve de trabalhar quando esteve em “sabática” por divergência partidária feia e que viu a sua Família, “ficar sem chão” à custa do “comentariado pago”!

No segundo caso quer “inocentar-se fora do tempo” aquele que é o político mais traquejado, mais “planificado”, mais aproveitador das oportunidades que a vida - e os muitos amigos - lhe têm dado de bandeja e continuam a dar, que “se envolveu” em conversas muito comprometedoras, com agentes pouco recomendáveis, por si escolhidos, aos quais deu guarida de confiança a pontos de selecionarem, para guardar dinheiro vivo de origem desconhecida, um “cofre escuro” como o do Gabinete do Primeiro Ministro de Portugal, o que é impossível de não ser escrutinado até ao tutano.

… E nada disto tem comparação!

Luís Pais Amante

Casa Azul


18 dezembro, 2025

Escritores penacovenses contemporâneos | Ficção e Poesia (3): Sónia Marques Carvão



Naturais de Penacova (ou ao concelho ligados por estreitos laços familiares) contam-se já alguns autores contemporâneos (ficção e poesia) que merecem ser mais conhecidos e devidamente valorizados. Iremos fazer referência a cada um deles (se porventura houver mais algum que possamos desconhecer, agradecemos que nos seja comunicado).  Para já, as menções que faremos  limitar-se-ão, na maior parte dos casos, às sinopses e aos dados biográficos que podemos ler nas plataformas que os estão a comercializar. Fica em aberto a possibilidade de posteriormente desenvolvermos o tema com entrevistas aos autores.

NO MOSTEIRO DO VALE DO SILÊNCIO

Integrado no programa da Feira de Tradições que decorreu em Lorvão em 2017, foi apresentado, no dia 17 de Junho, o livro No Mosteiro do Vale do Silêncio da autoria de Sónia Marques Carvão e editado pelo Município de Penacova. 

Salienta a autora, na introdução, que depois de muita bibliografia de carácter historiográfico sobre Lorvão, surge “este pequeno romance” que “pretende dar a conhecer a presença dos beneditinos nesta região e despertar interesse pelo conhecimento da sua história em todos os âmbitos da sua expulsão (…) sensibilizando para uma época e para um Mosteiro “.

“Sem entrar em detalhes de actos históricos, mas recorrendo a alguns deles para desenvolver o romance – que é disso que se trata - foram lidas algumas obras para nos inteirarmos de alguns aspectos importantes”, acrescenta. 

A acção passa-se no século XII, dando um salto para o século XXI. Romance ficcionado, embora foque alguns factos históricos (Manuscritos, Livro das Aves, hábitos diários, entre outros) sobre os beneditinos que estiveram no Mosteiro de Lorvão. 

"Tudo aqui nasce, cresce e completa-se. Esta é uma terra numa outra inteira, e esta só é parte inteira de alma grande. Que sejam as franjas das chuvas primaveris e com a ajuda do Sol a formar o arco-íris é uma verdade. Todavia, para poder caminhar por onde cantam as aves, para poder ver as vermelhas romãs, sentir o perfume da alfazema e do alecrim, devemos contemplar e orar vendo, sentindo e escutando. " (pág. 93)

O romance tem como personagens principais um jovem monge, Bernardo, a jovem Clara, uma rapariga do “povoamento” e o Abade Lucas. Trata-se de uma viagem no tempo. Viagem ao passado, envolta numa dinâmica de regresso ao futuro. É que, depois de muitos séculos, o Mosteiro de Lorvão, vê regressar os Beneditinos, dando assim, vida e dinâmica aos espaços que, com a saída do hospital psiquiátrico, se encontravam à espera de uma utilização condigna.(…) Uma obra que certamente vai cumprir os seus objectivos: cativar (e desafiar) o leitor, promover um maior conhecimento e sensibilidade sobre o Mosteiro de Lorvão, cuja história, não se escreve apenas no feminino, mas nos remete também para a acção dos monges negros, isto é, dos monges beneditinos que estiveram na origem do cenóbio laurbanense. 

In Blogue Penacova Online, 19 de Junho de 2017.


FICHA BIBLIOGRÁFICA DA BIBLOTECA NACIONAL DE PORTUGAL

No Mosteiro do vale do silêncio / Sónia Marques Carvão. - Penacova: Município de Penacova, D.L. 2017. - 201, [2] p. ; 23 cm. - ISBN 978-972-99628-7-5


SÓNIA MARQUES CARVÃO

Sónia Marques Carvão nasceu no Rio de Janeiro, veio para Portugal ainda criança, cresceu numa aldeia do Concelho de Penacova (Chelo) da freguesia dc Lorvão. Enquanto jovem, foi viver para Coimbra e começou a trabalhar para continuar a estudar. Aos 18 anos, emigrou para o Canada onde trabalhou e estudou. Obteve a Licenciatura em Filosofia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Realizou um curso relacionado com Filosofia para/ crianças, obtendo também a Certificação em Filosofia de Educação. Tem também um Curso dc Formação Avançada cm Ética pela Universidade Católica. de Lisboa, uma certificação em Inteligência Emocional e Autoconhecimento e Curso Internacional de Filosofia Aplicada e uma certificação como facilitadora de filosofia para crianças e jovens, pela Direcção Nacional da Associação Portuguesa de Ética e Filosofia Prática. FL

(in Jornal da Região)

Filha de Rogélia Ferreira de Sousa, de Chelo, e de Nelson das Lapas Marques, da Foz do Caneiro; neta de António Marques e Flamira Marques, do Caneiro, e de Narcisa Calhau, de Chelo, e de António de Sousa, da Granja do Rio. 


Nota:

Sónia Marques Carvão é igualmente autora de A ferramenta que faz os contos. Obra que, segundo a mesma, reflecte “a experiência de trabalho com crianças num colégio de Lisboa.” A sessão de apresentação, que decorreu em Penacova a 15 de Fevereiro de 2014, incluiu a demonstração de uma sessão prática de Filosofia (com) para Crianças, seguindo a metodologia da “Comunidade de Investigação”.




16 dezembro, 2025

Imagem da Imaculada Conceição: de Lorvão para o Museu Machado de Castro

“Imaculada Conceição” 
Séc. XVIII, madeira estofada, dourada e policromada (54,2 x 17,9 x 16 cm).

Ainda há poucos dias celebrámos a Imaculada Conceição  (8 de Dezembro). Em 2024, esteve patente ao público, no Museu Nacional Machado de Castro, em Coimbra, uma exposição subordinada ao título Machado de Castro (1731-1822): das origens à consagração, coordenada cientificamente por Sandra Costa Saldanha.

Entre as peças expostas, destacou-se a escultura “Imaculada Conceição”, originária do Mosteiro de Lorvão e actualmente à guarda daquele Museu. Trata-se de uma obra da Oficina de Lisboa, 1775-1785, em madeira estofada, dourada e policromada (54,2 x 17,9 x 16 cm).

Sobre esta imagem escreveu Diogo Lemos (1):

(...) A sua incorporação no MNMC inscreve-se no (longo) contexto de desamortização dos bens patrimoniais dos cenóbios portugueses, ao abrigo do decreto da extinção das ordens religiosas, promulgado a 30 de maio de 1834.

(…)

Iniciado apenas em 1877, o processo de gestão do espólio do Mosteiro de Lorvão delegou-se ao então Bispo Conde de Coimbra, D. Manuel Correia de Bastos Pinto (1830-1913), sendo as peças de maior valor remetidas para o Museu Nacional da Academia de Belas Artes e Arqueologia de Lisboa e para o Museu de Arqueologia do Instituto de Coimbra (Assumpção, 1899: 169).

(…)

No que à escultura da Imaculada Conceição diz respeito, sabemos, com base nos registos de entradas de peças no MNMC1, que “a pequena imagem de madeira” foi “trazida de Lorvão para o Museu de Arte Sacra [de Coimbra] pelo Dr. António Garcia Ribeiro de Vasconcelos” (1860-1941):

(…)

A encomenda da imagem da Imaculada Conceição deverá, com grande probabilidade, situar-se durante o triénio de D. Madalena Maria Joana Caldeira (1783-1786). Patrona de um extraordinário conjunto de obras de arte, D. Madalena custeou, a título de exemplo, a execução do órgão da igreja, a gradaria de ferro com aplicações de bronze do coro e os arcazes da sacristia. Para além destas preciosas obras, a abadessa contribuiu com 1:540$000 réis para os “ornamentos e frontaes para todos os altares” (Assumpção, 1899: 114), não se verificando nos triénios adjacentes registos de despesas com outros altares – excetuando os das rainhas D. Sancha e D. Teresa, de Nossa Senhora da Vida, de São João e do Santíssimo Sacramento, custeados por D. Maria Catarina Xavier de Mendonça durante o triénio de 1780-1783 (Assumpção, 1899: 113-114). (…) A encomenda da imagem da Imaculada Conceição a uma oficina do círculo de Machado de Castro é, portanto, natural.

(…)

Obra que se assume como um modelo herdeiro de fontes iconográficas exaustivamente reproduzidas no contexto da imaginária devocional portuguesa, filia-se em três obras distintas: as célebres pinturas da Virgem de Guido Reni (1575-1642), a saber a de Nossa Senhora da Conceição, executada em 1627 e atualmente à guarda do Metropolitan Museum of Art, e a Mater Amirabilis, proveniente da coleção Bolognetti (Bolonha), executada em cerca de 1635; e a afamada Imaculada de Carlo Maratta (1625-1713), encomendada em cerca de 1660 para a capela do português Rui Lopes da Silva, na igreja de Santo Isidoro a Capo, em Roma.

(…)

Para além da posição das mãos, a imagem do mosteiro de Lorvão singulariza-se, ainda, pelo tratamento das vestes, diferenciando-se da Imaculada de Reni à guarda do Metropolitan Museum of Art. Detalhe que poderia ser entendido como mera derivação artística, assume-se como uma expressão do fenómeno da fusão de fontes iconográficas, por vezes de autorias distintas e até extemporâneas, para a criação da (nova) obra de arte.

____

(1) Diogo Lemos é doutorando em História da Arte na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Professor assistente convidado nesta Faculdade e editor assistente da coleção “Os Mundos da História”, dinamizada pelo Centro de História da Sociedade de da Cultura. Dedica a sua atividade científica à investigação da arte portuguesa da Época Moderna. Desenvolve atividade no campo da inventariação, conservação, planeamento e gestão do património da Universidade de Coimbra.

 


11 dezembro, 2025

𝕆ℙ𝕀ℕ𝕀Ã𝕆 | Esta América? … é dos Cowboys!


Esta América? … é dos Cowboys!

Num artigo de Opinião que escrevi aqui, no Penacova Online, publicado no dia 19 de Julho de 2024, eu afirmei:


Só que, na minha modesta opinião, as coisas (em política pura) só se conseguem mudar através das pessoas (geração) que sejam portadoras de mensagens e de conhecimentos e de práticas e de tempo para que as mudanças possam operar com a necessária rapidez e consolidação. Esses atributos não reciclados, só nas gerações mais jovens (e preparadas) podem surgir. 

E isso não está a acontecer na América do mundo novo; na América estão 2 velhos a tentar manter linhas de governação esgotadas: um com quase 82 anos e outro com 78... 

Naturalmente que eu fico estupefacto com esta falta de capacidade regenerativa. Serei só eu? 


Passou mais do que um ano; foi eleito presidente um dos velhos e (logo para azar da Europa e do mundo) um homem ligado ao que de pior tem a sociedade: narcisista; voyeurista; incompetente; com ligações obscuras aos “piores mundos que existem”; fanfarrão; racista; aldrabão; e outras coisas mais… como charlatão.

Homem cuja principal acção tem sido espezinhar as pessoas, independentemente da fragilidade em que estas se encontrem.

É Donald Trump de seu nome!

E, efectivamente, passado quase um ano sobre o início de um “reinado” tão conturbado, vamos ficando com a ideia de que está ali um velho amigo de Putin (um oligarca triste, com muitos anos de “carreira”) quiçá com amizade alicerçada com serviços de colaboração ou mesmo espionagem, prestados em traição aos próprios EUA e ao Ocidente…para salvar as insolvências próprias.

…Se calhar, até, umbilicalmente ligado a “coisas muito pouco recomendáveis”!

Primeiro quis definhar o mundo todo (Organizações Internacionais insuspeitas incluídas); depois quis subjugá-lo, pondo em causa todas as “parcerias” e acordos existentes; também com a colocação em vigor de taxas comerciais disruptivas e arrogantes que constituíram, por si só, uma inequívoca punhalada nas costas dos “aliados da América”; e, finalmente, tentou abocanhar inclusive “terra de outras civilizações”, com imposição de “contratos leoninos”!

Entretanto,

Montou a farsa do seu pseudo interesse pela Paz, oferecendo-se mesmo para Prémio Nobel, como se o mundo civilizado fosse só isso: uma organização mafiosa, com a corrupção como lei de base, onde se exige isto e aquilo e se faz birrinha quando não se alcança.

Apesar de dizer uma coisa e o seu contrário sistematicamente, a verdade é que “a sua matilha” age em ataque conjunto, como se fossem cães raivosos a tentar subjugar as presas…

Trump não está sozinho na visão de um mundo unipolar, onde o mais forte (que, por norma, faz cultivar a sua personalidade) e dita a lei, roubando o mais fraco utilizando a força; segue Stalin e ressuscita o método dos Cowboys na sua famigerada guerra contra os Povos indígenas.

É a sua família e os seus “sócios de negociatas” que comandam as relações internacionais, para vergonha de uma das mais aptas organizações de política externa, construída por gerações e gerações de Políticos sérios.

Triste cena esta, convenhamos, em que os velhos se empoderam com pessoas pouco qualificadas, vindas não se sabe bem donde, que abominam o(a)s Imigrantes embora as exibam na cama e nos Eventos, como de troféus se tratassem.

Estamos todos em choque, penso eu, indiscutivelmente!

- Se tem feito mal de propósito a quem não tem capacidade para lhe fazer frente, é verdade?

- Se tem “reduzido a escombros” o Direito Internacional, é igualmente verdade?

- Se pretende reduzir o mundo à perpetuação de meros negócios suspeitos, ainda é verdadeiro?

- Se tem como objectivo aumentar aquilo que dizem ser a sua fortuna, ou salvar as trapalhadas em que se vai metendo, verdade, verdade?

- Se tem humilhado - a mando de terceiros - quem tem demonstrado coragem e verticalidade acima do comum (como os Ucranianos), ainda verdade, também?

Agora ter a ousadia de tentar dar lições ao Mundo Livre - como ainda é a nossa Velha Europa Democrática - acerca de governança e de Liberdade, não só é verdade, como é inadmissível, pura e simplesmente!

A Europa tem estado demasiado descansada, numa ligação de dependência relativamente à América, especialmente no lado militar, sim.

A nossa Europa pode não ser exemplar, mas não será nunca o que aquele “oráculo maltrapilho” nos diz; constituímos - todos juntos - uma civilização muito, muito antiga, mas adaptada aos tempos modernos, com um razoável sentido de solidariedade e com uma vida que não passa só por “comer hambúrgueres”…

É sabido do despeito americano pelo nosso modo de viver há muito tempo; … e sobre o resto do “presságio” xenófobo, bom seria que os EUA olhassem para si próprios… para os horrores das comunidades de droga que criaram, para o desemprego como regra, para o armamento civil, com as nefastas consequências de um Farwest empolgado, que faz vítimas diariamente, que são, sobretudo, Crianças.

Por muito que nós Europeus possamos “dever à América do post guerra” - e devemos alguma coisa, certamente - certo é que não podemos andar a vida inteira a pagar isso; ou a ouvir baboseiras; ou a manter cordialidade para com “brutos normalizados”, que passam a vida a dar cabo uns dos outros a tiro.

À nossa custa muito evolui a economia americana, com níveis de consumo lucrativo em excesso para os bens e serviços dali originários, que, diga-se - destacando-se na indústria da guerra - não ultrapassam os nossos em indústria de conforto e vida digna e avanço tecnológico com investigação.

Se a NATO é a OTAN, muito se deve à dedicação e investimento de todos nós Europeus, incluindo os nossos militares que nada ficam a dever aos americanos e eles bem o sabem.

Daí eu achar que (a manter-se esta posição louca de um velho pouco recomendável) e dos seus “capangas”, o que devemos fazer é, pura e simplesmente, dar-lhes um pontapé num sítio qualquer que doa muito, como estão a fazer - com sucesso - os Canadianos.

Não nos podemos deixar enxovalhar… até porque muito pouco aprendemos, hoje em dia, com gente desta espécie, onde a doutrina é a regra da perpetuação no Poder, para disso retirar lucros equivalentes  “a roubo” aos mais desfavorecidos do mundo desgraçado que por ali anda!

Ou não será?

Luís Pais Amante


08 dezembro, 2025

A Nossa Casa [Azul]

A nossa Casa


Casa, no sentido mais latino

É o refúgio, físico e emocional

Dá-nos confiança, segurança

E tem um traço sentimental

Como tu, Casa Azul, afinal

Aqui implantada, recuperada

A olhar o Vale profundo

Colocado à nossa frente

Na perspectivação do mundo

Onde ficas deveras eloquente


Neste ângulo donde te vejo

Hoje, aqui sentado e despojado

Vê-se que estás virada a Sul

Que o tom do teu azul cobalto

Ultrapassa os limites da beleza

E traz contributos à natureza

Porque “o sonho é azul”

Azul da mente, se transparente

E “O Rio é azul”

Cor da alegria da sua corrente


O Sol que (de poente) te ilumina

[Na minha objectiva empolgada]

Está como que em exaltação

Lembra os símbolos da união

E é franqueado a todos nós

Para te podermos ter com sofreguidão

Com amor, carinho e devoção

 “Dá esperança à Vida futura”

Num tempo de ingratidão

… Onde o Céu ainda continua azul!


Luís Pais Amante

Casa Azul

As obras de conservação e restauro do Mosteiro e a presença de Salazar em Lorvão

Cem anos ´decorridos sobre a data de extinção das Ordens Religiosas, decretada em 1834, o Mosteiro de Lorvão tinha atingido tal grau de ruína que chegou a estar iminente a sua derrocada, especialmente da Igreja. As obras foram sendo adiadas e só por volta de 1940 se começou a vislumbrar uma solução para evitar essa “catástrofe” a nível de património cultural. Por esta altura, Salazar esteve em Lorvão para se inteirar do andamento das obras em curso. O jornal A Comarca de Arganil (31/10/1944) noticiou essa deslocação do Chefe do Governo. 

“Ontem,  a população de Lorvão, sede desta freguesia, teve o agradável ensejo de voltar a ver na sua terra o eminente Chefe do Governo, sr. dr. Oliveira Salazar. 

Foi inesperada esta visita, motivo por que não pode ser tributada a s. ex.ª, com pesar de todos os lorva- nenses, a homenagem de que era justamente merecedor. 

Mostra o sr. Presidente do Conselho, com a sua comparência em Lorvão, que se interessa a valer por que o notável Mosteiro, que muito honra o nosso concelho, seja restaurado o mais breve possível, para que os seus inúmeros visitantes não levem dali má impressão.

Era cerca do meio-dia quando o sr. dr. Oliveira Salazar chegou, vindo na sua companhia de mais três pessoas, sem dúvida técnicos das repartições dependentes da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. 

A sua demora foi de duas horas, percorrendo todas as dependências, entre elas o Museu, e interessando-se vivamente pelos mais pequeninos detalhes das obras em curso. Quis saber o número de operários que nelas têm trabalhado e há quanto tempo estavam paradas. 

O guarda do Mosteiro, sr. Manuel Gaudêncio, prestou todos os esclarecimentos pedidos pelo ilustre Chefe do Governo. Finda a visita, o sr. dr. Oliveira Salazar e a sua comitiva tomaram um pequeno lanche ao ar livre, junto do Mosteiro, após o que se retiraram pela estrada de Penacova - a mesma por onde tinha vindo. 

As obras de restauro estão paralisadas há uns oito dias e nelas têm trabalhado diariamente cinco operários, debaixo da direcção do respectivo encarregado, sr. Máximo. Os serviços feitos têm sido os escoramentos dos tetos e paredes, como preliminares das grandes obras a realizar.” 

Recorde-se, muito resumidamente, todo o processo de recuperação arquitectónica e artística* deste Monumento Nacional.

A situação de quase ruína e a iminência de ruptura, em especial das estruturas da zona da Igreja, por cedência das fundações, já tinham sido reconhecidas em vistorias efectuadas em 1916 e em 1923. Estas “patologias graves” ao nível da estrutura, só na década de quarenta começaram a ser intervencionadas, sob a tutela da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais.

Assim, em 1943 (prolongando-se por toda a década) foram iniciadas as obras mais inadiáveis de conservação e reparação, estabilizando a estrutura do cunhal norte da cabeça da Igreja, em ruptura iminente, como se referiu. Estas operações foram coordenadas pelo arquitecto Amoroso Lopes (1913 - 1995), técnico  igualmente responsável pela construção, anos mais tarde, da cúpula do Panteão Nacional (Lisboa), e entregues ao empreiteiro Manuel Jesus Cardoso. 

Numa segunda fase, que se prolongou até cerca de 1960, procedeu-se à reconstrução e consolidação dos espaços do mosteiro, repondo a traça seiscentista, e recuperando paredes, coberturas, pavimentos e vãos. Tentou-se também recuperar retábulos, pinturas e esculturas. 

No final da década de cinquenta (1957) o Ministério das Obras Públicas considera estar concluída a recuperação de maior vulto deste valioso património lorvanense. 

Os anos sessenta ficam marcados com a adaptação do edifício do antigo dormitório a Hospital Psiquiátrico, sob a tutela do Ministério da Saúde. Unidade que funcionou de 1960 a 2012. Em 1984 tinha 330 camas e empregava mais de 170 pessoas, sendo 70% do lugar de Lorvão e arredores. 

*Confrontar Lorvão: um mosteiro e um lugar, Tânia Sofia Lopes Antunes, 2013 (tese de Mestrado) 

01 dezembro, 2025

Crónicas do Avô Luís (6) - Natal: uma “receita” familiar!

 


Natal: uma “receita” familiar!

Estamos a chegar ao Natal.

Essa época extraordinária que vai passando de geração em geração ao longo dos anos (muitos), transformando a vida das Crianças e, igualmente, dos Adultos.

É a dinâmica familiar que nós (todos) vamos construindo em “formas consuetudinárias” de festejo.

A minha idade já passou por vários momentos de Natal; o próximo será o 71 (septuagésimo primeiro)!

E, nestes anos todos [desde os tempos das carências generalizadas das Famílias] fomos adaptando a Época à realidade evolutiva dos hábitos de consumo.

Não me canso de recordar os tempos do Natal à lareira, com um “frio de rachar” e tudo à volta cheio de geada.

As expectativas das prendas que se resumiam a roupa ou calçado, agigantando-se quando surgia um chocolate ou um rebuçado.

O reboliço do dia seguinte a exibir “os despojos”!

A crença -até muito tarde- de que era o Pai Natal que tratava uns muito bem e outros muito mal.

Até que (com o nascimento dos membros do Clube da Netaria) a reunião familiar passou a ser literalmente “engolida” pelos embrulhos das prendas.

E, paulatinamente, cada um dava uma prenda a cada qual e todos davam as suas próprias prendas às Crianças.

Era um “regabofe” completamente em contra-ciclo com o recolhido que o Natal exige, pelo menos para quem foi educado na Fé Cristã.

… quase não sobrava tempo para se conversar, contar as experiências, ler contos, ouvir música natalícia, brindar e degustar o momento.

Até surgir o “cheiro bom da consoada” …

Percepcionado o desfazamento do consumo puro e duro, com o objecto do festejo (que, na minha Opinião modesta, deve ser singelo, desprendido, centrado no convívio são) evoluiu-se para uma solução drástica de “excluir prendas para adultos”…

E essa simples decisão poupou metros quadrados aos papeis de embrulho e deu mais espaço à Sala, que num certo momento era ocupada por bonecos, bonequinhos, pilhas, trotinetas, bicicletas;… eu sei lá?

As nossas Crianças - tal como as outras - adoravam as prendinhas e os papéis de embrulho enquanto foram mais pequenas (digamos até aos 3/4 anos).

Agora (5/6/7) já escolhem as prendas que querem e, por vezes, os adultos repetem as prendas ou as Crianças (pura e simplesmente) não gostam delas e fazem “birras”!

As coisas renovavam-se em caracterizações descaracterizadas.

Havia que mudar a situação.

E evoluiu-se de novo para outra solução hipotética, mais radical.

Qual, perguntarão os Leitores?

Cada Criança vai ter um envelope com o seu nome, que começará a circular em breve pelos membros da Família; cada Adulto lá colocará o que entender; os Pais adquirirão o que melhor satisfizer as necessidades do momento.

Achámos todos [Família Democrática] que, deste modo:

1. se combateria o desperdício;
2. ⁠se punha freio ao consumismo;
3. ⁠se pouparia o ambiente, tornando-o mais amigo;
4. ⁠se arranjaria mais espaço para a Festa de Natal, com convívio mais apropriado aos tempos que por aí andam;
5. ⁠tempos esses que (queiramos ou não) são tempos de carência e preocupação…

Na prática - esperamos nós - criar-se-à uma recriação mais apropriada à simplicidade do nascimento do Menino Jesus, que anda esquecido nas Celebrações.

O que me levou a escrever esta “Crónica do Avô Luís”, que até com o Natal condiz e se limita a partilhar uma experiência que pode ser aproveitada por outras Famílias (abertas às inovações, até no amor às Crianças)!

Dentro daquela lógica de que não vale a pena perder tempo com o que já está inventado ou em execução.

… Vamos esperar para ver!


Luís Pais Amante

Casa Azul, 
com desejos de Boas Festas aos seguidores do Blogue e aos Amigos!