sábado, 7 de maio de 2016

A terra tremeu em Carvalho

No dia 1 de Novembro de 1755 a terra tremeu em Portugal, com maior violência em Lisboa, mas por todo o país se verificaram inúmeros estragos com diversos níveis de gravidade.

Em Carvalho o abalo foi sentido seriam nove e meia da manhã. “Senti o primeiro tremor de terra, o qual durou meio quarto de hora, ou pouco mais, posto que com alguns muito pequenos intervalos”- escreveu o Prior Sebastião Soares D’ Eça. “O impulso foi como do centro da terra para o ar e não de um para outro lado.”- acrescenta.



Pormenor do documento existente no arquivo
nacional da Torre do Tombo



Recorde-se que a maior parte da informação acerca do sismo nos chegou através do inquérito realizado aos párocos das várias freguesias, cujas respostas foram compiladas no chamado Dicionário Geográfico de Portugal, elaborado pelo padre Luís Cardoso. O “interrogatório” compunha-se de três partes e pretendia saber as consequências do terramoto: a que horas principiou e o tempo que durou; se se percebeu que o impulso fosse maior do lado norte ou do lado sul; que número de casas arruinou em cada freguesia; se havia edifícios notáveis e o estado em que ficaram; que pessoas morreram e se alguma era distinta; que alterações se viram no mar, nas pontes e nos rios; se a terra abriu algumas bocas, o que nelas se notou e se surgiu alguma nova fonte; que providências se deram imediatamente em cada lugar pelo eclesiástico, militares e ministros; se aconteceram outros terramotos depois do acontecido no primeiro de Novembro; se havia memória de outros terramotos; que número de pessoas, de cada sexo, tinha cada freguesia; se houve falta de mantimentos; se houve incêndios, o tempo que duraram e os danos que fizeram.

Nesta freguesia “não houve ruína alguma total”, mas sabe-se que muitas casas apresentavam “notável ameaça de ruína” com “grandes brechas” e “falta de prumo”. De referir que das fontes saíram águas turvas. Diz ainda o Prior que “Nas paredes destas casas em que vivo” eram visíveis algumas “brechas quase da largura de dois dedos”. Em Carvalho “Não se experimentou falta de mantimentos, nem houve incêndio algum”.

Os abalos telúricos não se restringiram ao dia de Todos os Santos. “Aos quarenta/quarenta e um dias depois, pelas quatro horas depois da meia noite” ocorreu um segundo tremor de terra “que durou o espaço de doze minutos e com menos violência”. De treze para catorze de Janeiro sentiu-se um terceiro abalo “pela uma hora depois da meia noite, já com menos duração e força que o segundo”. É referido ainda um quarto, com “muito menos abalo” a 6 de Março pelas 8 horas da manhã.

À semelhança do que aconteceu por todo o país , também aqui se organizou uma “procissão pública”, e outros actos “penitênciais” como forma de “aplacar a Ira de Deus Senhor Nosso”. Recorde-se que a partir do dia 1 de Novembro, a Igreja Católica organizou uma série de procissões e também penitências para, precisamente, “aplacar a fúria divina”. O patriarcado de Lisboa terá mesmo criado uma oração dos terramotos que terminava com a seguinte prece: “(...) vos pedimos, que nos livreis dos tremores de terra, e nos conserveis sempre no verdadeiro temor e tremor do vosso santíssimo Nome, até à hora da nossa morte, Ámen”

O referido inquérito, mandado elaborar pelo Marquês de Pombal, tinha um prazo limite de resposta, sob pena de sanção para quem não o cumprisse ou decidisse não responder. Num texto distribuído na diocese de Coimbra, a pedido do Bispo, D. Miguel da Anunciação, dizia-se o seguinte:“ Fazemos saber que Sua Majestade é servido que Vossa mercê distintamente responda aos Interrogatórios seguintes e que nos mande a sua resposta, para nós a pormos na Sua Real presença, o que Vossa mercê fará dentro do espaço de um mês, aproveitando-se desse tempo para conferir os pontos duvidosos com pessoas inteligentes e peritas, que comuniquem a Vossa mercê a luz necessária para o acerto”





Carvalho, 28 de Abril de 1756
O Prior Sebastião Soares D'eça


No texto remetido em resposta, refere-se também existirem 325 indivíduos do sexo masculino e 359 do sexo feminino. Tem a data de 28 de Abril de 1756 e está assinado, como referimos, pelo Prior Sebastião Soares D’ Eça.

OBS: Nem de todas as freguesias do concelho de Penacova existem as respostas ao referido inquérito, no entanto as que se conservam e que foram por nós consultadas permitem extrair elementos não só curiosos como de valor histórico..


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