sábado, 26 de dezembro de 2015

Apontamentos sobre o APOCALIPSE DE LORVÃO (I)


Em meados de Outubro passado, o Apocalipse de Lorvão, famoso pelas suas iluminuras, foi inscrito como registo da Memória do Mundo pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura).  
No século VIII, Beato de Liébana, clérigo asturiano,  escreveu o Comentário ao Apocalipse.
Mais tarde, no século XII (c. 1189), o monge Egas (ou Egeas) fez, no Mosteiro do Lorvão, uma cópia dessa obra, acrescentando comentários pessoais e ilustrando-a,  ficando assim conhecida como Apocalipse de Lorvão.
“A iluminura tem no período românico um lugar de destaque, pois o homem sentia  necessidade de explicar os textos através da imagem, A imagem serve de intermediário visível para atingir o invisível, é uma técnica diferente de apreensão do conhecimento.” – escreve  F. Brand, autor que iremos seguir de perto nestes apontamentos. 
Refira-se que outros documentos relativos a Portugal foram também já declarados Memória do Mundo: a Carta de Pêro Vaz de Caminha (1500), a versão castelhana do Tratado de Tordesilhas (1494) e o Diário da Primeira Viagem de Vasco da Gama à Índia (1477-1499).
O Apocalipse de Lorvão, em conjunto com O Livro das Aves (datado de 1184 e do mesmo autor) são considerados como os manuscritos mais ricos e criativos em imagens sagradas, considerando o período em que foram feitos. O Comentário ao Apocalipse foi copiado por Egeas em 1198, o que é atestado pela presença do seu nome e data no cólofon  (a nota final de um manuscrito ou de um livro impresso): “Iam liber est scriptus / qui scripsit sit benedictus / qua … / ERA MCCXIIa [1189] / Ego egeas qui hunc librum scribsi si in aliquibus / a recto tramite exivi, delinquenti indulgeat / karitas que omnia superant.”
Este manuscrito é formado por 223 fólios com cerca de 340 x 247 mm e é constituído por 70 histórias, cada uma com uma ilustração. Constitui o único exemplar em que sistematicamente a imagem comenta o texto. É considerado como apresentando as melhores iluminuras, mas também aqui não existe consenso entre os estudiosos. Wilhelm Neuss chega mesmo a considerar as ilustrações extremamente primitivas e infantis.
Pensa-se que terá havido, além do copista (Egeas) mais dois iluminadores. Têm essa opinião, por exemplo, Peter Klein e Adelaide Miranda. No entanto alguns afirmam serem um só, o monge copista e o iluminador.

CONTINUA

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