segunda-feira, 25 de maio de 2015

Lorvão: impressões da visita de Lino d'Assumpção em finais do séc. XIX

A descida [entre Chelo e Lorvão] vai sempre por entre pinhais, na meia encosta abrupta e pedregosa, ao fim da qual (...) se ouve correr a água, embora se não veja. O sol está alto e mordente; sol cruel, implacável pressagio certo de tempestade, e cuja lividez estampa no terreno estratificado e amarelo a sombra esburacada dos pinheiros que rumorejam brandamente.

Além. onde a orreta  se alarga, vêem-se bois pequenos lavrando a terra escura e fraca, que vai sendo semeada com punhados de milho, e das rodas duma azenha, cujo ruído melancólico e rítmico chega até nós, levantam-se pulverizações douradas pela luz do sol. Nas bifurcações indecisas guiam-me rodadas fundas dos carros. E cantam melros e pintassilgos.

Lorvão: bilhete postal em 1926
Cruzo-me no caminho com raros homens de estatura pequena e cara rapada, vestidos de briche , e mulheres sem beleza, de tez encarquilhada, saias sombrias colhidas nas ancas, anágua  pela cabeça, ou lenço traçado na cara, que quase lhes tapa a boca, deixando escapar na testa umas farripas de revolto cabelo, que melhor se lhe chamaria estopa; pés descalços e deformados, carregando pesados cestos que lhes achatam os crânios; e tanto homens como mulheres correspondem à minha saudação com um reenvio religioso. Interrogados — questão de passar o tempo — que tal ia a lavoura, respondiam:

— Tchoveu, mais foi poucatchinho : mas Deus Nosso Senhor, assim como manda o pouco, pode mandar o muito, se quiser.

Uma vez chegado a Lorvão, encontra “ao soalheiro das portas”, sentadas, “mulheres e crianças cortando e afeiçoando em palitos os troncos brancos do salgueiro.”

E a descrição prossegue com grande pormenor:

Ao cabo da rua principal, e fazendo esquina para o largo do mosteiro, encontra-se, á esquerda, a venda do Carlos. Loja suja, dividida por um balcão negro, ao longo do qual vai e vem com passo lento, gesto mole e aborrecido, o dono da casa, quando não anda por Espanha fazendo negócio.

Era a hora do maior concorrência. Mulheres e crianças entravam de xaile pela cabeça, e a troco de palitos levavam bacalhau, açúcar, arroz, café, petróleo, azeite, vinho, broa, fósforos ou papel de cor. O palito é ali a moeda corrente. Para as transacções entre o merceeiro e os seus fregueses não há necessidade do intermédio nem da Casa da Moeda com as cédulas, nem do Banco de Portugal com as notas. O Carlos recebe os maços,e examina-os quase papel por papel, como um usurário examinaria uma peça de ouro suspeita. Ele bem sabe que se o poderem enganar que não deixam de o fazer; portanto, só depois de verificar se a moeda lhe serve é que dá a fazenda que lhe pedem e ela representa. Muitas vezes a moeda sofre uma depreciação que ele arbitra, atendendo á qualidade ou imperfeição do fabrico; outras então rejeita-a sem dó, como se fossem notas falsas: sem reparar que esses macinhos em que à pressa se juntaram lascas tortas, escuras, mal aparadas, representam uma fraude da fome que, ao meio dia, desejaria roer um bocado de broa. E como esta. saída do forno, cheira bem e abre o apetite! Não resisto ao desejo de a provar e de reconhecer que em tal ocasião me soube como se fosse a melhor iguaria.
Verificada a qualidade dos palitos, o Carlos atira com eles para diversos repartimentos, segundo a qualidade, e depois exporta-os por sua conta. A média das compras anuais anda por uma dúzia de contos de réis. Dizem que perto de mil pessoas se ocupam neste fabrico, tão simples como primitivo.


In As freiras de Lorvão : ensaio de monographia monastica / T. Lino d'Assumpção,1899

Sem comentários:

Enviar um comentário