terça-feira, 27 de setembro de 2016

AINDA A 3ª INVASÃO FRANCESA: o sofrimento das populações nas proximidades de Arganil

Em complemento dos textos que publicámos recentemente sobre algumas das repercussões da 3ª invasão francesa no concelho de Penacova, apresentamos hoje o relato de um padre de Arganil que nos dá uma imagem do terror que se viveu na Beira Serra. Arganil, Poiares, Góis, Lousã foram concelhos muito martirizados. Entre nós, e como já vimos, foram também as freguesias do Alto Concelho, mais próximas daquelas zonas, que mais sofreram, bem como as aldeias da freguesia de Penacova vizinhas de Poiares. 
Que seja do nosso conhecimento ainda não existe nenhum estudo sobre o concelho de Penacova. Os nossos apontamentos resultaram da consulta dos relatos feitos pela mão dos  párocos e/ou arciprestes, em 1811, e  que se encontram disponíveis no Arquivo da Universidade. Sobre a região que vai de Pombal até Gouveia, já se debruçou a historiadora da Universidade de Coimbra, Maria Antónia Lopes.  É desta investigadora o texto que passamos a transcrever:
Mapa publicado no estudo citado de Maria Antónia Lopes

“Em Março de 1811 os Franceses iniciaram a retirada. Desesperados pela fome, buscando mais a sobrevivência do que o combate, levaram as atrocidades ao último grau, apanhando as populações em fuga, a quem torturavam e matavam para lhes extorquir víveres. Coimbra foi poupada, pois Massena não conseguiu entrar na cidade. Conduziu então os seus homens para Espanha pela margem sul do rio Mondego, onde a carnificina prosseguiu. (…) Por esta altura, a 23 de Março de 1811, o padre Manuel Gomes Nogueira, em carta ao seu irmão José Acúrsio das Neves, relata-lhe o que tinham sofrido na zona de Arganil às mãos dos invasores. A citação é longa, mas justifica-se:

Os primeiros que nos acometeram, foi em 14 de Fevereiro, aparecendo de repente em Góis uma divisão [...] e somente junto da vila se deu notícia deles, e se não fosse um homem que os viu entravam sem serem vistos.
No pequeno espaço que mediou até eles se apresentarem defronte da terra, se ajuntaram algumas espingardas que de dentro da vila fizeram fogo para além da ponte e eles se retiraram e deixaram 7 ou 8 bois que os de Góis lhes tomaram e logo puseram a salvo para a freguesia de Cadafaz. Mas os malditos se foram unir com outros que tinham ficado mais atrasados, entraram na vila e fizeram as barbaridades do costume [...].
 No dia 17 do mesmo Fevereiro estiveram também a pontos de entrar em Arganil, sem serem pressentidos, pois tendo-se retirado a 15 de Góis para Serpins, com imensos gados e roubos de Góis, Várzea [de Góis, actual Vila Nova do Ceira] e toda a Serra de Santa Quitéria, estava Arganil mais sossegada, mas no dito dia 17, que era domingo, de manhã ao sair da primeira missa, chegou a noticia de que já vinham na Ribeira da Aveia (vê agora o perigo que houve, se entravam enquanto se estava à primeira missa). Ninguém se persuadia de tal por ser voz só de um homem, mas veio segundo, que confirmou o primeiro, e então se pôs tudo em reboliço e fugida, e eles entraram de repente, como galgos atrás da gente, e imediatamente subiram ao Casal [da] Nogueira e se espalharam pelos montes, vales, pinhais, mataram 5 pessoas e feriram muitas [...].
 Estiveram neste dia em Arganil somente 2 para 3 horas; passaram a Celavisa, onde mataram e fizeram o mesmo que em Arganil [...].
No dia 12 de Março tornaram a entrar os Franceses em Arganil. No dia 14 subiram à serra no lugar da Aveleira [...] onde apanharam muitos gados, vieram sobre Adela e fizeram cerco a toda a ribeira de Celavisa, onde não ficou moita que não fosse mexida […].
Estiveram sempre passando Franceses todos os dias seguintes, ora mais ora menos, até que no dia 17 foi a maior enchente de cavalaria e infantaria, e então foi a destruição de Arganil. Mataram 10 pessoas que ainda apanharam”. [...]
“No dia 19 logo de manhã me constou aqui da chegada das nossas tropas [...]. Desci logo à vila [Arganil] e fui dos primeiros que lá entrámos depois dos Franceses. Corri as casas dos nossos amigos e as igrejas todas e causava horror ver semelhante confusão: as portas quebradas, as casas não pareciam senão uma confusão, trastes despedaçados, tudo revolto, nada em seu lugar, as lojas cavadas, quantos esconderijos se tinham feito para cada um refugiar o que podia, tudo descoberto, pelas ruas louças quebradas, animais mortos, uns inteiros, outros em pedaços, de outros só as entranhas com fétido por toda a parte.
Parti logo para o Sarzedo e por toda a estrada abaixo eram os mesmos vestígios de animais mortos” [... Em] Sarzedo fizeram muita carnagem, porque os habitantes como lá não tinham ido Franceses não se acautelaram a si nem aos seus gados; e, portanto, perderam tudo e morreu muita gente: o número não o posso ainda dizer, mas consta-me que morreram famílias inteiras”. “
... Agora o que mais deve lamentar-se é a fome, porque não só os pobres, mas também os ricos não têm coisa alguma que comam, porque por onde passou a tormenta nada absolutamente ficou, nem de mantimentos, nem de carnes, nem de hortaliças. E se alguma coisa escapou ao inimigo, o limpou a nossa tropa e assim mesmo os pobres soldados vão mortos de fome.”

FONTE: Maria Antónia Lopes, Sofrimentos das populações na terceira invasão francesa. De Gouveia a Pombal *    (Publicado como capítulo in O Exército Português e as Comemorações dos 200 Anos da Guerra Peninsular (volume III - 2010-2011), Lisboa/Parede, Exército Português/Tribuna da História, 2011, pp. 299-323). 


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