06 janeiro, 2016

Penacova 1898: um retrato (III)

Prosseguimos com a publicação do relatório que em 1898 a Câmara apresentou ao Ministro das Obras Públicas, Elvino de Brito. Na primeira parte aqui transcrita, fazia-se a caracterização geográfica e sócio - económica do concelho; no segundo texto, dava-se conta da situação da indústria, incluindo a extractiva. Concluía-se que, não fora a emigração para o Brasil, Penacova atravessaria na altura uma situação ainda mais grave. No excerto de hoje, que poderíamos intitular de "Economia do Tempo", adiantam-se algumas soluções para muitos dos "constrangimentos" existentes.

Vejamos:

“Diversas medidas legislativas podem, no nosso entender, animar esta regeneração nascente e promover neste concelho uma prosperidade de que ele nunca gozou.
Desde que só pelo trabalho inteligente do homem se aproveita e valoriza a feracidade natural do solo, a primeira coisa que se deve procurar é a economia do tempo; e a este respeito, alguma coisa há a fazer, simplificando muitos serviços.
Por exemplo: pela actual lei do recrutamento estão quase todos os mancebos , maiores de 20 anos, sujeitos ao serviço militar da 2ª reserva, e, em virtude do disposto no regulamento dos serviços de reservas, não podem os reservistas ausentar-se do seu concelho por mais de trinta dias sem participarem, na respectiva administração do concelho, aquele para onde vão residir – um dia perdido; depois, deve o reservista apresentar-se na administração do concelho para onde vai residir dentro de 30 dias – outro dia perdido.
Se novamente regressar ao seu concelho passados dois ou três meses terá de perder outros dois dias.


Mas ainda o pior é que em muitos casos (e aqui dá-se isso com os sarreiros, ceifeiros, corticeiros, negociantes de palitos, etc) os reservistas passam na época própria do ano a exercer a sua profissão por grande parte do país, não se fixando em determinado concelho; estes têm que optar pela transgressão do regulamento, suspeitando-se as consequências, ou pela miséria proveniente da falta de trabalho. Melhor seria exigir apenas a mudança de domicílio quando os reservistas fossem para outro concelho com ânimo de fixar nele a sua residência, tanto mais que podem ser prevenidos pela imprensa periódica ou pelas famílias do seu chamamento ao serviço ou à revista.
Os serviços administrativos nos concelhos e paróquias têm uma ordenação de tal forma complicada que é muitas vezes impossível encontrar pessoal com as suficientes habilitações para bem desempenhar os diversos cargos; e a iniciativa local é entorpecida e esterilizada, especialmente nas corporações de fraca receita, como são muitas câmaras municipais e quase todas as juntas de paróquia, pelas excessivas formalidades que as leis exigem sem vantagem de fiscalização que compense.
Deve dar-se mais liberdade às corporações locais e tudo o que se fizer neste sentido merecerá agradecimento dos povos.”

CONTINUA




02 janeiro, 2016

Neste início de Ano e nos 50 anos do nicho em Travanca, invocar a protecção de N.ª Srª dos Caminhos

Recordamo-nos da sua inauguração. Tempos da escola primária. Um acto simples mas cheio de devoção e fé. Os grandes mentores desta obra foram a professora Maria da Piedade Madeira Marques (hoje a viver em Telhado) e o Pároco Padre Jorge Marques dos Santos (que dois anos depois deixaria a paróquia).
Ao longo destes 50 anos, muitas vezes ali passámos  e invocámos a sua protecção. Protectora nas viagens do dia a dia, protectora neste peregrinar que é a vida de cada um.
O pequeno nicho lá continua. O espaço adjacente mantém-se cuidado. No entanto, a imagem apresenta sinais de deterioração. O material de que é feita será um pouco frágil e também não podemos esquecer que já lá vão 50 anos.
Aqui fica um recorte do jornal que então se publicava no concelho, o Notícias de Penacova (Maio de 1966): 

“Nicho a Nossa Senhora dos Caminhos  - Através das colunas do Notícias”, tivemos conhecimento que pelo Natal, a mocidade desta terra, com o auxílio do Rev. Pároco e da Ex.ma Professora, organizaram uma pequena récita com o fim de angariar fundos para a construção de um nicho a Nossa Senhora dos Caminhos.
Como até à data nada mais tivesse sido publicado, levava-nos a crer que nada tivesse sido realizado, o que nos surpreendeu quando há dias ao visitarmos esta terra, deparamos com um pequenino nicho há pouco construído à entrada da povoação do Coval. Aproximamo-nos e verificámos pela sua imagem que se trata do falado nicho a Nossa Senhora dos Caminhos.
Dado isto, apressamo-nos a trocar impressões com alguém, para o que escolhemos o nosso amigo José O. Henriques, que nos deu algumas informações sobre a sua construção e ainda sobre a sua inauguração ocorrida em 25 de Março p. passado.
Sem dúvida alguma que o referido nicho foi erguido num óptimo local que se tornará ainda mais belo depois de crescidas as roseiras plantadas à sua volta.
Boa iniciativa a da mocidade e ainda do Rev.do Pároco e da Ex.ma Professora que não se pouparam a sacrifícios para levarem avante os seus planos. Que a todos Nossa Senhora recompense, são os nossos votos, ao mesmo tempo que os felicitamos.”



31 dezembro, 2015

Apontamentos sobre o Apocalipse de Lorvão ( II)

E outro anjo saiu do templo,
clamando com grande voz
ao que estava assentado sobre a nuvem:
 Lança a tua foice, e sega;
a hora de segar te é vinda,
 porque já a seara da terra está madura.

Apocalipse 14:15
A iluminura é um modo de apreensão do conhecimento procurando atingir o invisível através daquilo que é visível.
Com o aumento da procura dos livros, os copistas começaram a requintar o seu trabalho. Aumentou-se o tamanho e deu-se cor e enfeite às letras iniciais. Posteriormente colocaram-se outros ornatos nas margens das páginas e, finalmente, introduziu-se a iluminura (ou miniatura) onde as imagens e cores tinham uma simbologia própria.
As obras eram produzidas nos Scriptorium, onde os monges se ocupavam da cópia do texto e da sua "iluminação". Quanto maiores as posses dum mosteiro, maior a possibilidade de terem uma boa biblioteca e um bom scriptorium.
As “folhas” eram feitas de pele de animais que depois de tratadas formavam os “bifólios”. Para as cores, tinham de ser preparadas as tintas a partir de pigmentos. Primeiro eram aplicadas as cores pálidas e as camadas mais vivas. Só depois as cores mais fortes; a seguir, os contornos a preto ou castanho-escuro e, no final, os detalhes nas folhagens e personagens, feitos com um pincel fino. As cores predominantes eram o vermelho, o azul e o dourado. 
Em Portugal existiram três importantes scriptoria: Santa Cruz de Coimbra, Alcobaça e S. Mamede de Lorvão. Foi neste mosteiro que foram feitos os manuscritos mais ricos e criativos em imagens sagradas deste período: o Apocalipse de Lorvão e o Livro das Aves.
Recorde-se que em Outubro a UNESCO inscreveu no Registo da Memória do Mundo o conjunto de manuscritos dos Comentários do Apocalipse de Beato de Liébana existentes na Península Ibérica: dois portugueses «Apocalipse de Alcobaça» e o «Apocalipse de Lorvão»  - único «Beato»  ilustrado existente no nosso país - e nove espanhóis, em resultado de uma candidatura conjunta de Portugal e Espanha, apresentada em 2014 e intitulada Manuscritos do Comentário do Apocalipse (Beatus de Liébana) na Tradição Ibérica.
A nível europeu chegaram até nós cerca de 34 cópias, entre as quais 27 iluminadas. Estes códices são também conhecidos como “Beatos” por conterem a cópia do «Comentário ao Apocalipse» atribuído ao monge Beato de Liébana, que viveu nas Astúrias na segunda metade do século VIII.
Uma das ilustrações mais conhecidas do Apocalipse de Lorvão é a colheita e vindima representando Cristo - o juiz - com a coroa da vitória que, de foice em punho, se prepara para ceifar a seara seca, envenenada pelo pecado, apenas prestando para alimentar o fogo.
Como sabemos, na Bíblia o Juízo Final é comparado à ceifa e à vindima. Por isso, também um anjo aparece com uma foice na mão, cortando os cachos envenenados pela rebeldia humana e lançando-os no lagar da ira de Deus, onde são pisados e espremidos”.