segunda-feira, 7 de março de 2016

Penacova na Literatura Portuguesa

Está a Literatura Portuguesa (principalmente a Literatura de Viagens) semeada de referências a Penacova. Um levantamento que, segundo cremos, está por fazer. Existe de facto material suficiente para coligir numa antologia o muito que se escreveu sobre este recanto que viu nascer muitos de nós. Nem todas as terras deste nosso Portugal se poderão orgulhar do mesmo. E, se alargarmos o conceito estrito de literatura aos textos publicados, em prosa e em verso,  em revistas e jornais, locais e nacionais, o volume aumenta significativamente. Algumas dessas referências a Penacova são já conhecidas dos penacovenses, como será o caso do trecho que de seguida publicamos, mas muitas outras haverá que são quase ou totalmente desconhecidas. Quem sabe um dia consigamos ter tempo e engenho para levar por diante uma obra que inclua estes e muitos outros aspectos da vida de Penacova (concelho) ao longo dos tempos e que permanecem por aí, dispersos, em letra de imprensa, seja em livros, seja em muitos jornais e revistas.


ANTERO DE FIGUEIREDO
(1866-1953)
(...) Eu cogitava nestas cousas enquanto o automóvel, que me levava, fugia pela estrada de Coimbra a Penacova, - bela entre as mais belas, sugestiva entre as mais sugestivas - a acompanhar as curvas do Mondego, marginado, de cá, de outeiros socalcados de campos e de parques; de lá, de montes, uns brandos, cobertos de pinhais novos e verdinhos, ou de velhos pinhais de copas espessas; outros,  de penedias violentas da idade das convulsões. A estrada volta-se e revolteia-se como cobra perseguida. Às  vezes, numa curva decidida para um lanço recto e longo, de costas para o rio, ela parece querer fugir, emancipar-se de tanto enlevo; mas logo, noutra curva vencida, em sentido contrário, lá se torna, chamada pelo encantamento do Mondego - pela sedução das suas margens permanentemente insinuantes na sua variedade feita de bosquetes tenros, de florestas duras, de hortas fartas, de trigais amarelinhos, de penedias agrestes, de laranjais perfumados, - de panoramas de surpresa maravilhadora. E assim todo o tempo, até que se avista num alto, num promontório, em fundo de pinhais e penhascos violáceos e amarelos, sobre o areal largo do Mondego, o casario branco e acastelado da alcandorada Penacova.
Agora, desde o leito do rio, trepa-se sempre por uma estrada às laçadas, sob árvores, como a da Ribeira de Santarém à cidade, como a de Tondela, pelo vale de Besteiros, ao Caramulo.
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Que extraordinário assunto para pintar que não é este vale de Penacova, visto do Penedo do Castro, da Carvoeira, da Senhora do Monte Alto; vasto, luminoso, colorido, com seu rio, campos, montes e serras ; ou, mais simples e ameno, visto da Senhora da Guia, capelinha no alto de um cone de verduras de árvores e de socalcos de campos, sobre farta várzea de milheirais de ouro e olivedos de cinzas prateadas, que vão, uns e outros, longe, até às colinas de lá , onde, a meia encosta, pousa o lugar da Carvoeira — manchas de casais brancos, esparsos entre verdes postos na tinta estamenha dos montes nus que, por esse lado, confinam a paisagem. De cá, nos longes, - pinhais de alto a baixo; próximo, - cumiadas com pinheiros ralos a escalarem lombas de margaças lilases, que a luz poente pintará com a tinta das copas das olaias floridas. Em baixo, panos azuis de um rio, quási sem água, parado num areal amarelo. Defronte, descendo até o Mondego, a pique, como os penedos das Portas do Rodam, sobre o Tejo, formidáveis rochas estratificadas. Amarelentas e musgosas, o sol da tarde transformá-las há num colossal «bloco» de ouro esverdinhado. Na campina, fitas de estradas; nos altos, riscos vermelhos - carreirinhos - a subir os montes, por entre penedos e pinheiros de troncos ardosiados; E aqueles moinhos, a um de fundo, como monges de longada (para onde ?) na crista da serra, além ! ...
(...)

Excerto de obra de 1919

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