segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

PENACOVA NA LITERATURA PORTUGUESA: "A PRIMAVERA" (1601) de FRANCISCO RODRIGUES LOBO

O EPISÓDIO  DE PENACOVA
Francisco Rodrigues Lobo nasceu em Leiria, em 1580. Frequentou a Universidade de Coimbra, onde se diplomou em Leis. Foi aí que começou a interessar-se pela literatura e a escrever as suas primeiras composições poéticas. Concluídos os estudos voltou à sua terra natal, onde tinha algumas propriedades. Deslocava-se com frequência a Lisboa, mas regressava com prazer à tranquilidade do campo. Terá mantido ao longo da sua vida relações bastante amistosas com algumas famílias da alta nobreza, principalmente o Marquês de Vila Real e o Duque de Bragança, pai do futuro D. João IV. Faleceu em 1622, vítima de um naufrágio no rio Tejo, numa viagem de Santarém para Lisboa.

Como era frequente na época, escreveu em português e castelhano. Numa primeira fase, Rodrigues Lobo foi influenciado pela literatura espanhola, mas depois virou-se mais para Camões e Sá de Miranda. Considerado o precursor do barroco português, entre as suas obras contam-se três novelas: O Pastor Peregrino, A Primavera e O Desengano. O texto bucólico A Primavera (1601) tem, desde há muito tempo, assumido um papel importante na Literatura Portuguesa.

Por meio de A Primavera, primeira novela pastoril  portuguesa (ficção narrativa em prosa do final do século XVI até o século XVIII)  na qual se utiliza apenas a língua portuguesa, notava-se na escrita do autor uma certa influência da lírica de Camões nomeadamente nos temas do bucolismo e do desencanto. A obra é composta por trechos em que as prosas são alternadas com as formas poéticas, o que permite considerar por alguns autores   A Primavera mais como cancioneiro do que como novela.

A Primavera divide-se em três partes: Vales e montes entre Lis e o Lena, Campos de Mondego e Praias do Tejo. Cada parte corresponde à caracterização e representação de três espaços marcados pelo protagonista, nas passagens a três momentos que o destino lhe vai ordenando, correspondentes à peregrinação de Lereno. O Vale e montes entre Lis e Lena corresponde ao espaço da terra natal, o que compara a Lereno a sua identidade, por ser pastor nato e criado por essas terras, onde cuidou do seu rebanho enquanto as canções lho permitiram. Já Campos do Mondego, o segundo espaço, é caracterizado como um espaço de banir, pois Lereno obrigado pelo destino é condenado a deixar sua terra e viver em outra terra desconhecida e tomar “o caminho dos campos do Mondego.” Aqui, o tempo vivido é o de saudade da terra distante que foi deixada para trás e também do amor perdido. Podemos dizer que também é caracterizado como um tempo de provação do seu fiel amor.
Por onde entre penedos e aspereza passa o Mondego
 ....rompendo os montes seus...
Corre por entre as serras furioso, perto donde o rio Alva se derrama...
Se alevanta uma pena graciosa...uma profunda cova se descobre

Em A Primavera existem espaços em que o texto enraíza uma realidade geográfica, porém também há espaços situados fora da realidade, num universo fascinante e sobrenatural, como por exemplo, lugar da morada de alguns sábios e o bosque desconhecido – local “ilocalizável” que dá acesso á uma passagem subterrânea que desaparece conforme a vontade da pastora amada de Lereno – espaço este que acede Lereno acidentalmente, depois conscientemente e posteriormente por mandado da pastora misteriosa. Em relação a ponto de vista temporal, a novela se localiza em um plano “an-histórico”, pois não há referências que permitam a acção do enredo num tempo real histórico.
 "No episódio de Penacova o espaço aparece descrito com realismo e o elemento temporal é distante da realidade histórica devido a transformação das personagens reais e seres mitológicos. A ruptura de laços que ligariam a história narrativa ao tempo histórico é mais uma característica da construção da narrativa da novela pastoril."(1)

(1) Cf. estudo de Sirlene de Lima Corrêa Cristófano, mestre em Literatura, Culturais e Interartes, pela Faculdade de Letras Universidade do Porto – FLUP (2009).

 

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