02 abril, 2016

Gondelim e a Lenda da Senhora da Moita

Imagem de N.Sª da Moita
(foto de Rosa Silva)

Gondelim, terra mencionada em documentos muito antigos, foi residência de importantes famílias nobres ainda antes da fundação de Portugal. O site da junta de freguesia de Penacova regista a Lenda que envolve a Senhora da Moita, cujos festejos em sua honra estão a decorrer neste fim de semana que se segue à Páscoa, como é tradição.

É também essa lenda da Senhora da Moita que o nosso colaborador das Cartas Brasileiras, reconta no livro que tem para publicação intitulado “Azulejos Portugueses - Lembranças e Mistérios”.

Paulo Santos faz-nos, um breve resumo: ”Idosa portuguesa retorna de sua primeira visita a Portugal, desde que imigrara para o Brasil na década de 30.” No voo de regresso àquele país senta-se ao lado de uma jovem “tripeira”, que pela primeira vez visita as Terras de Vera Cruz. “É durante a viagem que ela conta para a jovem passagens de sua vida, no Brasil, e parte dela, ainda na infância em uma aldeia de Penacova. Fala de suas aventuras e venturas, dos sonhos, das sombras, dos medos, dos encantos, dos mistérios.(...) A ficção “Azulejos portugueses” é uma viagem pela região de Penacova (Portugal), por seus lugares e tradições, no roteiro da protagonista, os encantos, as lembranças, segredos, dúvidas, angústias e alegrias; como a própria vida."

Mas, fiquemos então com a leitura de um excerto da referida obra onde se fala de Gondelim e da Lenda da Senhora da Moita:



Capela de Nossa Srª da Moita
(aguarela de Conceição Ribeiro para o livro
"Azulejos Portugueses")

“Foram para a Quinta, onde havia passado parte da infância. Apesar de serem uns minguados quilômetros, os olhos atentos absorvendo tudo, a inquietação crescendo. A primeira parada foi na capela.

Diante da igreja, as recordações vieram aos borbotões, as mulheres conversando, os homens rindo, as crianças correndo nas gostosas brincadeiras na porta da igreja ao término das missas dominicais. A avó assegurava, a imagem da capela era a mesma escondida pelos cristãos no tempo da invasão bárbara.(...) De acordo a tradição, os moradores ao perceberem estar próxima a invasão dos bárbaros, encontraram um meio de proteger a Santa. Pegaram uma trilha bem conhecida em um dos montes, e enterraram a imagem, com um sino, lá no alto, debaixo de uma moita vistosa.

O tempo passou e arrastou com ele os que haviam escondido a Santa. Felizmente, haviam contado para os filhos e netos. Todos sabiam qual era o monte, qual trilha tomar e em qual das moitas estava enterrada. A história foi passada oralmente para os descendentes.

Com o passar dos anos, os detalhes foram sendo omitidos, esquecidos, até ninguém mais saber em qual das moitas do monte a Santa tinha sido escondida. Quando os invasores foram finalmente expulsos, os habitantes desconheciam por completo a história da imagem enterrada, a tradição totalmente perdida.

Passadas centenas de anos, moradores caçando no meio da mata de um dos montes, ouviram o som do badalar de um sino, no meio do nada. Assustados fugiram, voltaram para a aldeia.

Relataram o inusitado, tinham um monte mal-assombrado. O acontecimento espalhou-se, rapidamente, de boca em boca, todos na aldeia ficaram sabendo, muitos não acreditaram, outros preferiram não duvidar, uns ficaram com medo.


Alguns daqueles homens, encorajados por companhias e armados, retornaram ao monte, e foram a um ponto no meio da mata de onde teria saído o som metálico e vibrante.

Dividiram o grupo em quatro, na direção dos pontos cardeais, saíram a procurar, embrenhando-se na mata. Os homens de um dos grupos, ao escutarem o barulho, entraram ainda mais na mata. Conforme caminhavam sentiam o som aumentar, a indicar estarem perto do local.

Aprontaram a maior gritaria. Os integrantes dos outros grupos, ao escutarem os pedidos de socorro, correram para acudir, chegaram esbaforidos.

Junto a uma enorme moita, cortaram o mato e cavaram. Encontraram um sino e ao desenterrá-lo, trouxeram a imagem de uma Santa. Admirados, ajoelhados, rezaram, e deram o nome de Nossa Senhora da Moita.”

Paulo de Tarso J. Santos nasceu em Barretos, São Paulo, em Julho de 1944. É funcionário aposentado do Banespa (antigo Banco do Estado de São Paulo), é licenciado em Matemática pelo Sedes Spientiae - PUC-SP. Em 2007, a Câmara Brasileira de Jovens Escritores editou o seu livro de ficção “Cinzas e Fumaça”. Foi cronista colaborador de “O Diário de Barretos” durante quase dez anos, com cerca de quinhentas publicações.




21 março, 2016

Luís Pais Amante: conectado com a terra, com o rio, com os locais onde trabalhou, passeou e foi feliz

Luís Pais Amante, advogado e consultor em Lisboa, é natural de Penacova. No dia 12 de Março, apresentou no Centro Cultural o livro de poesia a que deu o título de “Conexões”. É o próprio autor que esclarece que o título foi escolhido “por ser o que melhor respeita todo este percurso de ligação e interligação e coligação com o mundo e com os seus problemas – e a minha visão deles – a partir dos locais onde passei o meu tempo e independentemente dos continentes onde eles se localizaram.”

Confessa também que vir a Penacova, tantos anos depois de a ter deixado, “continua a ser uma gratificante (re)descoberta!”. E no conjunto dos sessenta e dois poemas, ela está bem presente. “Espelho d’ Água” é um deles, merecendo especial destaque na contra-capa do livro:


Olha-se para ti, cá de cima
...e pressente-se o romance
O teu espelho, na água
Curva a mágoa num alcance
Mondego!
E sobe todo o nosso ego
E chora a rima...de relance
Olha-se para ti, cá de cima
... e logo bem se percebe
Que tudo ali se vai indo, na corrente
Seguindo um caminho consistente
Turvando a mente, ao de leve
Rio!
E ali se reflecte a felicidade da alma
E, fixando a imagem, se dá calma à idade
Absorvendo toda a aura da beldade
Processando-a com o passado persistente
Tudo o que tivemos, lá se vai
Tudo o que queremos, de lá se vem
Tudo ali se renova com beleza
Em trabalho consciente da natureza
... até tu, minha terra
Penacova!





O Dr. Luís Amante revela-nos, de coração aberto, o seu percurso de vida e ajuda-nos a compreender melhor este “seu trabalho para além do trabalho” – a escrita poética.

“Conectado com a minha terra, com o meu Rio, com as nossas casas e com os locais onde trabalhei, onde passeei e onde fui feliz, a verdade é que sobreveio sempre tempo e inspiração para ir traduzindo as experiências vividas em poesia.”

“Em Agosto de 1973, quando deixei a casa dos meus Pais, em Penacova, no Cruzeiro e fui para Lisboa, onde ainda resido, levava a certeza de querer evoluir como homem e de manter bem presentes, sempre, as bases e os ensinamentos da minha educação, da nossa simplicidade e da sua honestidade intrínseca.

Eram tempos de grandes dificuldades, há que admiti-lo sem vergonhas!

Ao longo destes anos que, entretanto se passaram – e são os anos de uma vida – tive a felicidade de ter um percurso ascendente e fui sendo titular de cargos de alguma responsabilidade.

Modestamente, embora, sei que construí coisas importantes e que me dediquei a causas interessantes.

Principalmente, sei que ajudei a consolidar uma Família e um grupo de empresas tradicionais, coesas e fraternas e solidárias e dedicadas, como as nossas, felizmente, são.

Mas continuei – ou tentei continuar – a ser a mesma pessoa humilde que nasceu numa terra do interior, gratificado pelo esforço que fizeram por si, dedicada aos seus amigos de infância, sem nunca esquecer as suas raízes.

E uma pessoa firme, por vezes dura, como somos quase todos por aqui, na Beira.

Corri mundo na minha profissão de consultor e conheci por dentro a problemática das empresas e as vicissitudes do desenvolvimento, em situações complexas e em países de onde saí chocado.

Mas sempre aproveitei, nos tempos livres que se me ofereciam, os ares puros da minha terra, o acolhimento das suas gentes, a bondade dos meus amigos e o prazer da sua boa comida, da minha pesca e das minhas caminhadas, que sempre me deliciaram, tudo servido num prato de beleza natural incomparável.

Ir à minha terra, ao fim de tantos anos, continua a ser uma gratificante (re)descoberta!

Participar, tanto quanto possível, nas questões da minha terra, constitui‑se para mim como imperativo de consciência.

E não ter terra, no sentido bem português de não ter – e manter –raízes no país profundo, tantas vezes esquecido, seria para mim um drama, na justa medida em que é aí que encontro a amizade desinte­ressada e a genuinidade do povo, essa instituição na qual tantos dizem ter a razão do seu desígnio, mas que, na realidade vão esquecendo a cada passo... Da evolução dos seus interesses particulares.

Em boa verdade, vai sendo a problemática de todo um Povo causticado – tendo como expoente os indefesos – que se torna a minha fonte privilegiada de preocupação actual, confesso.

Tenho, aliás, a sensação triste de que a minha geração das liber­dades falhou completamente quando se tratou de proteger, como se lhe impunha, os mais desprotegidos de hoje: doentes, reforma­dos, idosos, deficientes, sós, desempregados... E demais pessoas que já não têm tempo para reagir às vicissitudes do País.

Entretanto fui fazendo poesia – a minha poesia – e fui guar­dando ou oferecendo, ou dedicando o meu hobby e passando para as folhas brancas dos livros que fui lendo todos os meus senti­mentos, todos os meus pensamentos, todas as minhas impressões e todas as minhas apreensões.

Nesses livros encontra‑se, pois, o meu património literário, parte do qual constitui este livro que eu agora vos dou.

Sensível aos argumentos das pessoas mais próximos e, princi­palmente, da minha mulher, aquiesci à presente publicação que é despretensiosa e não quer mais do que dar a conhecer o meu trabalho para além do trabalho.

Sabendo que vou espantar muita gente que ao longo dos tem­pos se cruzou comigo (colegas, colaboradores, amigos, clientes, parceiros, fornecedores, professores) o certo é que admiti chegado o momento de me revelar a todos nesta faceta singular, que admito me completa como ser humano e que agora me tempera a idade, sobremaneira.

O resto, fica sujeito ao critério a que sempre estive sujeito nas minhas múltiplas actividades profissionais e ao qual sempre, tam­bém, me submeti por inteiro: o do contraditório e da crítica.


O título Conexões foi escolhido por ser o que melhor respeita todo este percurso de ligação e interligação e coligação com o mundo e com os seus problemas – e a minha visão deles – a partir dos locais onde passei o meu tempo e independentemente dos continentes onde eles se localizaram.

Conectado com a minha terra, com o meu Rio, com as nossas casas e com os locais onde trabalhei, onde passeei e onde fui feliz, a verdade é que sobreveio sempre tempo e inspiração para ir traduzindo as experiências vividas em poesia.

Quase sempre quando escrevi nas folhas brancas dos tais livros, registei o local e, muitas vezes, a própria hora. Tal facto pretende transportar‑me para a vivência concreta daquele momento, ainda hoje quando os releio. Os poemas aqui colocados neste livro, estando sequenciados no tempo – datados – podem não ser seguidos, por esses que se lhes seguiram não terem sido para aqui seleccionados.

Dito tudo isto devo agradecer às minhas fontes de inspiração, em primeiro lugar, a minha mulher, Ana Marques Lito, a Marga­rida Ferreira, que me assistiu na compilação, ao Fernando Mão de Ferro, meu Editor e sua equipa da Colibri (Helena e Raquel) e à minha sempre amiga Maria José Vera (filha do saudoso poeta António Vera), que aqui faz o favor de me anunciar ao mundo enquanto poeta, com toda a sua bon­dade e conhecimento.

Bem hajam todos.

Aos meus leitores, bom proveito.

A Penacova e aos meus conterrâneos, muito obrigado!

Do amigo, Luís Pais Amante
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Fotos: Penacova Eventos