quinta-feira, 8 de março de 2012

Requiem pelo Hospital de Lorvão


Página do Penacova Online (Julho 2008)
Texto de
Paulo Henrique Figueiredo, (Ex) Responsável pelo Serviço de Psicologia Clínica do Hospital Psiquiátrico do Lorvão,
in DIÁRIO AS BEIRAS de 11 de Julho de 2008 e que o PenacovaOnline também recebeu para publicação:

Durante muitos anos subimos e descemos aquelas escadas cavadas pelos séculos. Calcorreámos-lhe os recantos, espreitámos-lhe os nichos escondidos, admirámos o criativo capricho dos azulejos. Ouvimos sussurrar os seus segredos naquela neblina feita de História que pairava nos longos corredores, nas esquinas gastas, nas abóbadas magníficas. Encantámo-nos com lendas improváveis de sorrisos de freiras e abadessas, seduzidos pelo silêncio desolado dos claustros. Experimentámos os sentidos, todos os dias de muitos anos. Inquietamente, participámos da vida daqueles Homens e Mulheres, partilhámos os seus desassossegos chorados, mágoas próprias de para quem pensar se tornou uma dor e são sempre escuras as cores do amanhã.
Ao longo de cinco décadas, o Hospital Psiquiátrico do Lorvão prestou assistência às populações pobres de uma vasta área geográfica. Ainda que com o estigma próprio das instituições psiquiátricas, as terras serranas da gente simples sabiam da sua disponibilidade quando os cansaços afogavam a vontade, quando as mãos calejadas deixavam de cavar a esperança. Muitas vezes foi o refúgio, o momento necessário para respirar fundo, o espaço terapêutico da calmaria de novos (re)equilíbrios capazes de afrontar as dificuldades.
Foi muitas vezes incompreendido. E maltratado também, com a altivez vácua de quem não lhe respeitou o caminho, não lhe valorizou o esforço, não quis olhar como igual. Na arrogância própria das conclusões por atalhos breves, dos que apenas lhe viam os defeitos , farisaicamente sem olhar para si próprios, sobranceiramente sem olhar à volta.
Descendo as escadas pela última vez no contexto em que as pisámos durante 25 anos, olhámos lentamente para trás. Ternamente, com um respeito triste e humedecido, o belíssimo Porto Sentido percorreu-nos o sorriso mordido:
“ Ver-te assim abandonado / nesse timbre pardacento / nesse teu jeito fechado / de quem mói um sentimento/ de milhafre ferido na asa. “

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