domingo, 24 de março de 2013

Cartas Brasileiras: Do Outro Lado do Rio

Iporanga é uma pequena cidade localizada no Vale do Ribeira, banhada pelo Rio Ribeira de Iguape, em uma das regiões mais pobres do Estado de São Paulo, estado mais rico do Brasil.

Meu pai era iporanguense, dai minha ligação com a cidade.

As primeiras ocupações do lugar se deram em meados de 1576, com a formação do Garimpo de Santo Antônio, a oito kilômetros da foz do Ribeirão Iporanga, que desemboca no Ribeira de Iguape.

Seguiu-se a exploração do ouro. Era tanto o ouro que a igreja tem os sinos fundidos na Europa com o brasão do Império.

A extração trouxe mais gente, a fixação se deu  em pequenos núcleos,  com atividade agrícola de subsistência, cana de açúcar e cereais; depois, arroz, mandioca, mais tarde as plantações de banana. 

 
VEJA AQUI UM VÍDEO
 
É uma cidade com muita religiosidade. Anualmente, em 31 de dezembro é realizada a Festa de Nossa Senhora do Livramento, quanto a imagem desce o rio em uma balsa, em romaria, acompanhada por canoeiros. Devotos acompanham a descida em bóias feitas com câmaras de ar de pneu de caminhão. No final da festa a Santa sobe o rio na balsa, levada para a capelinha onde fica até o próximo ano.  A balsa é desmontada. Iporanga tem 2.032 habitantes na cidade e 2.702 na zora rual.

As casas de Iporanga da minha infância eram iluminadas apenas durante pouca parte da noite. Era uma luz amarela fornecida por um gerador a diesel.  Nos finais de tarde, quando o dia ia morrendo  e a noite chegava, sentava-me, com meu irmão, nas escadarias da igreja para ver as estrelas nascerem. Íamos contando uma a uma, conforme eram encontradas.

Cinco, gritava eu! Seis, respondia. Veja  aquelas pequeninas lá! Sete! Oito! Nove!. Assim prosseguíamos, até que de repente, na quase completa escuridão da noite, podíamos contemplar o céu repleto de estrelas, espetáculo que hoje somente pode ser visto bem longe das luzes das cidades. Às vezes, tirávamos os sapatos, deles fazíamos almofadas para apoiar as cabeças; deitados de barriga para cima, podíamos contemplar melhor a beleza. Nossos pais, juntamente, com nosso avô, ficavam dando voltas pela igreja. Quando mamãe via que estávamos deitados no chão, ensaiava uma reprimenda, no que era contida pelo sogro. Ele, muito calmo e com um sorriso no rosto, demonstrava adorar as peraltices dos netos. A dos filhos nunca aceitara; como todo  avô.

A Iporanga de hoje iluminada pelo progresso tem as estrelas do céu quase apagadas. Recentemente, quando lá estive, para que pudesse ver, novamente, o espetáculo da noite estrelada, atravessei a ponte para cruzar o rio, fui um pouco além da cidade. De lá pude sentir o mesmo deslumbramento da infância. Pude contar as estrelas, até mesmo identificá-las. Deitei-me na grama de barriga parar cima, sem me preocupar com o pito de minha mãe. Ela não estava mais lá, quem sabe fosse a estrelinha mais brilhante. Meu avó também não estava lá.  Nem mesmo meu pai. Ele, depois da longa caminhada percorrida, preferiu ficar descansando, sentado no banco da praça da igreja, aguardando que eu retornasse do outro lado do rio.

P.T.Juvenal Santos

1 comentário:

  1. Oi Mano, muito bom mesmo, me fez lembrar quando lá estive pela ultima vez com o Pai e o Lúcio. Parabéns pelo texto.
    Carlos H. Santos

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