26 janeiro, 2026

Autores penacovenses contemporâneos | Ficção e Poesia (6): António M. T. Catela


Foi apresentado no dia 13 de Outubro de 2012, no auditório do Centro Cultural de Penacova o livro de António Catela, Tudo num Momento

Contou com a presença do Presidente da Câmara, Humberto Oliveira e a Vereadora da Cultura, Fernanda Veiga, bem os ex-presidentes do Município, Estácio Flórido e Maurício Marques. Presentes  também muitos amigos e familiares do autor. 

Como o subtítulo do livro sugere - do blog ao livro -  esta publicação (edição de autor) engloba uma selecção dos textos que desde 2007 foram sendo publicados no blogue com o mesmo nome. 

De acordo com o autor, esta obra vem "concretizar um sonho de menino nunca cumprido". A escrita, e em especial a escrita romântica, sempre foi a sua paixão. 

Conforme se pode ler no Prefácio e numa das Notas Introdutórias "recorrendo a pinceladas de cores fortes e expressivas, fala do amor, da amizade, das relações, dos valores, de si próprio, da família e das (des)ilusões". Por outras palavras, o livro remete para "o melhor e o pior do quotidiano; os valores éticos, morais ou a falta deles; os sentimentos nobres, puros e belos que habitam o ser humano e, acima de tudo, a beleza de uma alma sonhadora" levando-nos a "questionar os nossos próprios sentimentos e a nossa forma de ser e de estar neste mundo." 

Para o autor, este livro pretende "ser um tributo ao amor", a esse sentimento que "mais faz sofrer e alegrar o mundo", que "enlouquece, que faz chorar, que magoa, mas que também faz sorrir e sonhar".

In Blogue Penacova Online, 15 de Outubro de 2012

ANTÓNIO MANUEL TEIXEIRA CATELA

António Manuel Teixeira Catela, "nasceu na Maternidade da Sagrada Família na cidade de Luanda, em Angola, em 1961! Ano em que começou a Guerra do Ex-Ultramar, ou melhor a revolta que iria dar início à independência de Angola." 

Frequentou o 5º ano geral de eletricidade. Estudou em algumas províncias de Angola, mais tarde na Lousã e terminando na Escola Avelar Brotero, em Coimbra. 

"Desde miúdo, que sempre se inclinou para a área das letras mas, por motivos vários, acabou por entrar num curso tecnológico, onde as suas melhores notas. nas diversas cadeiras, foram sempre as Línguas e a História de Portugal. Sempre gostou muito de escrever e dedica muito do seu tempo à escrita romântica, área onde se sente melhor."

É casado e tem duas filhas. Reside em S. Paio de Mondego, no concelho de Penacova, onde é Presidente da Junta de Freguesia, há 26 anos. Lado a lado com este cargo, tem desempenhado funções diversas na área do associativismo, em várias Associações do concelho. A nível profissional desempenhou várias funções, entre as quais se destaca a de electricista e a de agente de segurança. Actualmente é encarregado geral de equipamento, numa Associação de Desenvolvimento Regional, sendo responsável por todo o parque de máquinas. 

"Esteve também durante toda a sua vida, ligado à religião que não renega, tendo sido inclusive catequista. Pertence ainda hoje à Fábrica da Igreja da sua Paróquia e a uma Irmandade." 

"Não sendo escritor na verdadeira acepção da palavra, acaba por publicar este primeiro livro que é um tributo ao amor, às pessoas simples e humildes e uma forma de provar a si próprio que, "tudo é possível quando o homem sonha"! 

Fonte: "Biografia", publicada na badana do livro


"SONHADOR - Hoje, de olhar cansado, rugas marcadas, um rosto temperado pelo tempo, cabelos grisalhos, pelos a surgirem, dia após dia, onde não os desejamos e a desaparecerem para sempre de onde os queríamos, barriga proeminente, curvatura nas costas, à semelhança do corcunda de Notre Dame, vai assistindo ao seu "declinar", impávido e sereno, o rapaz bonito, de cabelos aos caracóis, que nem o vento movia. 

A cerveja esfregada, todas as manhãs, nos caracóis, na inexistência de gel, permitia que os mesmos não se estragassem. De olhos esverdeados brilhantes, que, ainda hoje, mantêm a sua cor ao sol e mudam para castanho ao luar, este rapaz, metido a "engatatão", muito tímido, que pedia namoro por bilhete e não conseguia "levar uma tampa" num baile, por isso não pedia às moças para dançar, foi, no fundo, sempre um romântico. Falava com a lua, com as estrelas e escrevia-lhes quadras, poemas que lançava no ar sem preocupações de métrica, no tempo em que as calças de que mais gostava, a mãe lavava à noite e, quantas vezes, ainda as vestia meia molhadas, no outro dia pela manhã. 

Tempos em que era vulgar uma vinda de Coimbra a pé e em que a chegada a casa, cansado mas feliz por ter vivido mais um dia, era o mais importante. 

Não esqueço o deitar no beliche, que chiava por todos os lados, ali bem juntinho ao rio. Jamais adormecia sem um beijo da mãe e envolvia-me em sonhos, que me traziam novas aventuras  para o dia seguinte. Sempre fui um romântico, um sonhador!

Terça-feira, 27 de Outubro de 2009"

Texto publicado na contracapa do livro


REGISTO NA BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL




24 janeiro, 2026

Lembremos...





Lembremos


Lembremos Carlos Paredes
E o trinar das suas Guitarras
Que nos ensinou a escutar

Recordemos
O Ser humilde que ele foi
Muito grande em Liberdade
Sem nunca esquecer a Cidade
De Coimbra

[… Paredes de Coimbra são
Guitarras de cá também
Violas a acompanhá-las
O manter do Fado vão …]

Acordemos
E juntemos com ovações
Os cantares com vocação
Mesmo que sejam Baladas

Antecipemos
Que as gerações vão manter
Com saudade as Guitarras
Que nos tocam o coração



Luís Pais Amante
Casa Azul

Em homenagem a Carlos Paredes.

Recorte de jornal satírico: "Há muitos anos que isto aconteceu em Lorvão..."


O ZÉ, sucessor do jornal O Xuão – semanário de caricaturas e humorístico, publicou-se em Lisboa  entre 1 de Novembro de 1910 e 1 de Março de 1919. Trocado no título o invocativo de João (Xuão) Franco pelo do Zé Povinho, o jornal era o mesmo, feito pelas mesmas pessoas: Estêvão de Carvalho (1881-1935), diretor e editor, Ricardo de Sousa, administrador e Silva e Sousa, caricaturista.

Numa época de exacerbado anticlericalismo, “O Zé” lembrou-se de publicar, em Fevereiro de 1912, sob o título “É padre e basta…” uma história que se terá passado em terras de Lorvão. 

Conta o jornal satírico-homorístico:

“Há muitos anos que isto aconteceu em Lorvão, próximo de Penacova. Havia lá um padre que desde a sua chegada àquela localidade notou a beleza de uma sua devota. Fez todos os possíveis para se aproximar dela o mais assiduamente que podia ser e um belo dia confessou-lhe o que sentia por ela. A mulher, primeiro zangou-se, mais tarde sorriu-se, até que por fim já trocava impressões com o cura.

O padreca estava todo enlevado pela conquista feminina que tinha feito, mas o que ele não imaginava por vislumbres sequer era que a mulher antes do último sorriso tinha contado tudo ao marido lá em casa e por conselho deste é que ela tinha continuado com tanta familiaridade… O carola caguinchas estava todo baboso e estava ansioso pelo momento feliz de estar a sós com ela… O momento desejado apresentou-se e o papa-hóstias do inferno já todo se inchava de prazer, de uma satisfação desmedida que o forçava.

Na povoação já havia mais pessoas que tinham notado a anormalidade do padre e essas pessoas espreitaram-lhes os passos até que ficaram sabendo o motivo daquele seu novo modo de ser. Inteirados do que conseguiram saber foram contar ao marido da devota cobiçada que se pôs a sorrir quando lhe expuseram o facto que pra ele não era segredo. Contou tudo aos indivíduos que se lhe dirigiram, depois de lhes agradecer a boa intenção com que o procuravam e combinou-se fazer-lhe uma partida.

Estavam no Carnaval e o marido da devota fez-se saído da terra para dar ocasião a que o engole partículas entrasse em sua casa… Assim aconteceu por antecipada combinação feita pelo padre e pela crente e sabida pelo marido pseudo-ofendido. Os amigos deste último também entravam como actores na peça que se ia representar e por isso estavam a postos por trás dum muro que pertencia ao quintal da casa onde morava a mulher traidora… O marido saiu de casa e com a sua saída chegou a noite, que na sua escuridão ocultava o vulto do padre. A beata, a medo, abriu a porta ao padre-cura e este, todo jubiloso, entrou na alcova conjugal.

O marido bateu à porta… e o padre em lugar de vestir a sua camisa, vestiu por engano a da mulher e não pôde vestir mais nada. Como não pudesse sair pela porta da rua serviu-se da porta traseira, a do quintal, e ao saltar o muro os outros homens que o esperavam correram após o padre, gritando: - Cerquem! Cerquem a alma do outro mundo! Realmente com aquela camisa tão grande de mulher parecia um fantasma…

O padre teve a sorte de chegar a sua casa depois de ter apanhado com um cacete pelas pernas… Assim é que em todas as aldeias haviam de proceder contra os padres insolentes, mas tendo o maior cuidado possível em lhes aplicar bem as doses de cacete, porque aquela gente sagrada, como são do céu, não lhes dói nada!

20 janeiro, 2026

As obras dos pintores/douradores de Farinha Podre na Sé e na Diocese de Viseu


Nos estudos relativos às obras de talha dourada e policromada (período Barroco) destinadas às igrejas e capelas da diocese de Viseu, são identificados alguns artistas e artífices intervenientes neste tipo de obras.

Nesta diocese, as oficinas locais de talha, existentes na primeira metade do século XVIII, não eram suficientes para dar resposta à procura. Assim, os artistas, na sua maioria, eram oriundos de outras regiões do país, desde concelhos mais próximos, como Carregal do Sal, Santa Comba Dão e Penacova, até outros do norte do país.

“A deslocação de alguns destes artistas para a diocese de Viseu não se confinou à sua contratação para uma única empreitada, acabando alguns deles por prolongar a sua permanência neste espaço geográfico para corresponderem as sucessivas obras que foram arrematando. Um dos exemplos que nos merece especial destaque é o dos mestres pintores/douradores Manuel de Miranda Pereira e José de Miranda Pereira, pai e filho respectivamente, oriundos de Farinha Podre, concelho de Penacova, que entre 1732 e 1753 adjudicaram várias obras de pintura e douramento no espaço diocesano”, sublinha Maria de Fátima Eusébio, especialista em património e actual directora do Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja.

 
Neste quadro, apresentado na publicação acima destacada, mais concretamente na comunicação de Maria de Fátima Eusébio “A mobilidade espacial e estética do entalhador Manuel Vieira da Silva” podemos verificar, em pormenor, as obras executadas por Manuel de Miranda Pereira e José de Miranda Pereira.

 

O site da Direcção Geral do Património Cultural, ao referir o conjunto arquitectónico e artístico da Sé de Viseu, menciona, no conjunto dos diversos artistas, os “pintores-douradores” de Farinha Podre, José de Miranda Pereira  e Manuel de Miranda Pereira (séc. XVIII).

Fala-se do “douramento dos retábulos de Nossa Senhora do Rosário e Santa Ana, por Manuel de Miranda Pereira e Baltazar Pinto da Mota bem como a assinatura (28 de Dezembro de 1733) do “contrato para a douragem do retábulo principal com o dourador José de Miranda Pereira, morador em Farinha Podre, em Penacova”. Também que “os frontais dos altares de Nossa Senhora do Rosário e Santa Ana” foram “dourados” por Manuel de Miranda Pereira e Baltasar Pinto da Mota.

Igreja de S. Pedro - Oliveira do Conde
 

19 janeiro, 2026

"Trezena do Glorioso S. António de Lisboa, para o uso dos Irmãos da Irmandade do mesmo Santo da Vila de Penacova "


As Irmandades e Confrarias, associações de fiéis, nasceram na Idade Média com o objectivo de promoverem o culto religioso público do seu santo padroeiro (orago) e de prestarem auxílio aos seus irmãos nas cerimónias fúnebres e em situações difíceis.

No século XVIII, em Portugal, as irmandades eram associações de leigos de grande importância social, religiosa e económica.

Um dos seus principais objectivos era congregar fiéis em torno da devoção a um santo padroeiro. Organizavam festas religiosas, missas e sufrágios pelas almas dos irmãos falecidos.

O "Inventário Artístico de Portugal", vol IV, 1953, refere que a capela de Santo António (Penacova)  é detentora de um cálice de prata, onde, no listel de base, se lê: “ESTE CALIX HE DA IRMANDADE DE SANTO ANTONIO FOI FEITO ERA D. 1664 a.” 

Este facto, entre outros, atesta a antiguidade desta devoção a Santo António em Penacova. 

Em 1778 a Imprensa da Universidade de Coimbra deu à estampa uma brochura de 55 páginas intitulada “Trezena do Glorioso S. António de Lisboa, para o uso dos Irmãos da Irmandade do mesmo Santo da Vila de Penacova”.  

Uma Trezena é um momento de oração realizado durante treze dias consecutivos (ou em 13 terças-feiras seguidas) uma espécie de novena, só que ao contrário da novena que é rezada em nove dias, é rezada em treze dias, em homenagem a Santo António (por ser o dia treze o seu dia). Neste caso, iniciava-se no dia 1 de Junho com a Exposição do SS (Santíssimo Sacramento) e entoava-se um cântico. Seguia-se uma oração e depois cantava-se um Hino. Incluia igualmente uma meditação, uma ladainha e uma antífona.

Nos restantes dias pontificava a meditação sobre as diversas virtudes (Fé, Esperança, Caridade, Prudência, Temperança, Fortaleza, Justiça, Paciência, Castidade, Humilde, Discrição, Sobriedade).








Capela de Santo António em Penacova

17 janeiro, 2026

O topónimo Penacova em Terras de Santa Cruz


No artigo “A Saudade Portuguesa na Toponímia Brasileira”, escreve  Antenor Nascentes (1886 -1972), filólogo, linguista e lexicógrafo brasileiro, que “os navegadores portugueses, que a partir do século XVI começaram a explorar os mares nunca dantes navegados à procura de novas terras para dilatar a fé e o império, levavam consigo a saudade da terra natal e para mitigá-la, muitas vezes, davam às povoações fundadas nomes dos lugares onde nasceram”. 

“Essa transplantação quase sempre se operou espontaneamente, graças ao concurso dos povoadores anónimos, saudosos da pátria distante” – salienta. 

No entanto, “algumas vezes se deu por influência oficial, com o intuito de fazer desaparecer o topónimo aborígene, como aconteceu no Pará em 1758. O capitão-general Francisco Xavier de Mendonça Furtado ordenou que se substituíssem por topónimos portugueses os de origem tupi, visando assim dissimular a origem indígena dos povoados em que se transfiguraram os aldeamentos organizados pelos jesuítas”, mal vistos então pelo marquês de Pombal.

Antenor Nascentes não refere uma outra personalidade que terá, em contexto semelhante, conferido um topónimo português a um lugar do Pará.

Referimo-nos a  José de Nápoles Telles de Menezes (c.1747-c.1795),  Governador do Pará no final do século XVIII, filho de Luís Xavier de Nápoles Lemos e Menezes, Senhor do Morgado de Penacova. 

No livro “Belém do Pará sob o domínio português-1616 a 1823” de Jorge Harley, encontramos na pág. 78 a seguinte nota:

    
      "Fundou Tello de Menezes o lugar Penacova abaixo do Igaparé Una, 
povoando-o de aborígenes catequisados e "homens, segundo Baena,
de cor de mista qualidade e mulheres de prazer de fácil colheita no
mesmo sítio em que teve existência a Aldea de nome igual ao referido 
igarapé".
     Tello de Menezes aplicou ao lugar que creara o nome Pena Cóva
recordando a pitoresca vila Pena-Cóva, freguesia do Douro* em Portugal,
de onde talvez fosse filho.

 

O autor refere que Tello de Menezes “talvez” fosse filho de Penacova, desconhecendo que na realidade pertencia à família dos Nápoles, muito influente em Penacova, sendo filho do referido Luís Xavier e de Francisca Macedo. Quer os pais, quer os avós eram, pois, reputados elementos da nobreza beirã (Viseu, Penacova…). 

José de Nápoles, nascido em Viseu, foi Fidalgo da Casa Real, Cavaleiro da Ordem de Cristo e Tenente de Cavalaria em Almeida. Em 1779 passou a Governador e Capitão Geral do Estado do Grão Pará e Rio Negro. 

“No dia 26 de fevereiro de 1780, a bordo da charrua “Águia Real e Coração de Jesus” (navio de três mastros e um grande porão, mas de pequena capacidade para armamentos) chega ao Pará o governador e capitão general do Estado do Grão Pará e Rio Negro José de Nápoles Telles de Menezes, acompanhado de membros da Comissão de Demarcação de Limites entre os domínios de Portugal e Espanha.”- escreve Hoje na História

Depois de meritória acção no cargo, acabou por cair em desgraça, afastando-se em 1783. Veio a falecer em Lisboa. Solteiro e sem filhos deixou os bens ao sobrinho Luís Augusto de Nápoles Bourbon de Menezes. 

Mas temos mais referências: os Anais da Biblioteca e Arquivo Público do Pará (1902), ao falarem do Hospício construído pelos Capuchos de Santo  de Santo António, regista que “em torno do hospício grupou-se uma aldeia indígena, a que, em 1782, o governador e capitão general do Pará, José de Nápoles Tello de Menezes pôs a denominação de Penacova, e tentou reanimar, aumentando-lhe o número de habitantes”. 

Outra menção ao lugar “Penacova” aparece-nos na História do Pará (pág. 238 do vol. I) quando são referidas as “Agitações Políticas de 1823 a 1834”, designadamente a “Revolta de Outubro: Prisão do Cónego Batista de Campos”. Refere-se o seguinte: “Arrojados os corpos na lancha do navio, foram levados para a margem do rio, no sítio chamado “Penacova” e aí sepultados em grande vala que para isso se abriu”. 

Ficamos então a saber que existiu em Terras de Vera Cruz uma localidade chamada Penacova. O nome não terá vingado, já que nenhuma das pesquisas que fizemos nos confirmaram a existência deste topónimo nos nossos dias, ao contrário do que acontece, por exemplo, com Coimbra, nome de um município brasileiro no interior do estado de Minas Gerais. 

* De 1835 a 1936, a Província do Douro incluía os distritos do Porto, Aveiro e Coimbra. VER https://audaces.blogs.sapo.pt/2585.html

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QUER SABER MAIS SOBRE TOPÓNIMOS BRASILEIROS DE INFLUÊNCIA PORTUGUESA?


1. Ainda, pela leitura do artigo A SAUDADE PORTUGUESA NA TOPONIMIA BRASILEIRA, de  Antenor Nascentes,  ficamos a conhecer muitos outros exemplos: 

No Amazonas encontram-se: Borba, Silves, Barcelos, Badajoz, S. Paulo de Olivença (Olivença, então portuguesa). No Pará: Alcobaça, Alenquer, Alter do Chão (antigo Borani), Almeirim (antigo Paru), Aveiro, Arraiolos, Bragança, Chaves, Colares, Esposende (antiga Tuaré), Faro, Mazagão, Melgaço (antiga Cuaricuru), Monsaraz, Monte Alegre (antiga Curupatuba), Óbidos (antiga Pauxis), Oeiras (antiga Araticu), Ourém, Portei (antiga Arucará), Porto de Moz, Santarém (antiga Tapajós), Sintra, hoje Maracanã, Soure, Tentúgal, Viseu, Mazagão, antiga Vila Nova de Mazagão. 

No Maranhão: Alcântara, Viana (talvez a do Castelo, que não a do Alentejo),Guimarães, Caxias (igualmente no Estado do Rio de Janeiro,onde foi mudado para Duque de Caxias por ocasião da revisãonda nomenclatura geográfica e no Rio Grande do Sul, onde passou a chamar-se Caxias do Sul.

No Piauí,  estado da região Nordeste: Amarante, Oeiras, Valença (talvez a do Minho), Jerumenha. Jerumenha, alteração de Jurumenha, recebeu de Martius uma incrível etimologia tupi. Oeiras antigamente se chamou Moxa. Quando foi escolhida em 1761 para capital da capitania do Piauí, recebeu do rei D. José I este nome em homenagem ao ministro Sebastião de Carvalho e Melo, conde de Oeiras, mais tarde marquês de Pombal.

O Ceará conta: Sobral, Soure, Crato, Mecejana. Não se pode pôr em dúvida o primeiro. Não há sobreiros no Brasil.

Apesar de reconhecer a existência de uma vila portuguesa com o nome de Mecejana, apesar José de Alencar dá a palavra como de origem tupi e significando "a abandonada". 

O Rio Grande do Norte apresenta Macau e Estremoz.

Alagoas tem apenas Anadia.

Sergipe tem Badajoz.

A Baía conta: Abrantes, Barcelos, Belmonte, donde era senhor Pedro Álvares Cabral, o descobridor, que tocou em terras baianas em 1500, Alcobaça, Santarém, Trancoso, Olivença (hoje espanhola), Valença.

O Estado do Rio de Janeiro apresenta Arcozelo, uma simples estação ferroviária. Lá existem Valença e Resende, que se prendem a personalidades portuguesas.Valença em homenagem a D. Fernando José de Portugal, marquês de Aguiar, descendente dos nobres de Valença.

A cidade de Resende, foi criada no governo de D. José Luís de Castro, segundo conde de Resende e quinto vice--rei do Brasil, sendo assim chamada em honra dele.

São Paulo apresenta a cidade de Montemor, Paranhos, Nova Louzã, e as estações ferroviárias Lusitânia e Miragaia. Houve uma antiga Queluz.

O Rio Grande do Sul apresenta Alegrete, que não vem de topònimo. Havia no local uma cidade cuja capela os espanhóis incendiaram em 1761. O capitao-general marquês de Alegrete mandou reconstruída e então os habitantes, gratos, deram à localidade o nome do título do marquês.

Mato Grosso apresenta Melgaço.

Finalmente, Minas Gerais possui Cedofeita, que lembra a igrejinha do Porto,  Ericeira que evoca a praia donde partiu para o exílio o rei D. Manuel II. Barbacena, nome de freguesia próxima de Elvas, Queluz (hoje Lafayette), lembrando o palácio real das cercanias de Lisboa, Matozinhos, que possui um santuário que é uma réplica do que existe no Porto, Mariana e S. João del-Rei. Mariana era a vila do Carmo. Passou a ser cidade em 25 de Abril de 1745, recebendo este nome em honra de D. Maria Ana d'Austria, esposa do rei D. João V. S. João del-Rei era o antigo arraial do Rio das Mortes. Perto de S. João dei-Rei fica a antiga vila de S. José do Rio das Mortes, depois S. José del-Rei, hoje Tiradentes, cujo nome se atribui ao príncipe real D. José, mais tarde rei D. José I, filho de D. João V. Feita uma homenagem ao pai, julgaram de bom aviso fazer outra ao filho.

2. Por sua vez, uma simples pesquisa em “modo IA" dá-nos o seguinte:

A toponímia brasileira é rica em nomes portugueses, refletindo a colonização e a devoção, com exemplos como Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais (em homenagem às minas portuguesas) e Santa Catarina, além de muitas cidades com nomes de locais e santos de Portugal, como Braga, Coimbra, Aveiro, Lisboa, e Viseu, demonstrando a profunda ligação cultural e histórica entre os dois países, de Norte a Sul do Brasil.

Tipos de Nomes de Origem Portuguesa no Brasil

Nomes de Cidades e Estados:

Grandes Capitais: Rio de Janeiro (inspirado no estuário), São Paulo (dia de São Paulo), Porto Alegre (referência a "porto" e "alegre"), Belo Horizonte (referência à beleza do horizonte).

Nomes de Regiões: Minas Gerais (referência às ricas minas encontradas), Espírito Santo (referência religiosa), Santa Catarina (em homenagem a Santa Catarina de Alexandria).

Nomes de Santos e Devoção:

Grande parte das cidades brasileiras leva nomes de santos católicos, muitos deles venerados em Portugal, como São Francisco de Assis, Santo Antônio, São Sebastião, Nossa Senhora da Conceição (variando de estado para estado).

Nomes de Lugares e Características Geográficas de Portugal:

Cidades: Coimbra (MG), Braga (PB, SC), Aveiro (AM), Viseu (MG), Lamego (RJ), Évora (PE).

Características Naturais: 

Rio Douro (em homenagem ao rio português), Serra da Mantiqueira (com influência toponímica).

Nomes de Pessoas (Colonizadores e Figuras Históricas):

Muitos lugares recebem nomes de bandeirantes, exploradores e nobres portugueses, como Fernando de Noronha (PE), Ilha de São João (hoje Fernando de Noronha) e nomes de famílias importantes da época. 

A toponímia brasileira é um espelho direto da colonização portuguesa, apresentando mais de 70 cidades com nomes idênticos aos de Portugal. 

Esta herança consolidou-se através da substituição de nomes indígenas por designações lusitanas, especialmente durante a Reforma Pombalina. Aqui estão os principais exemplos dessa influência:

Cidades Homónimas (Mesmo Nome)

Muitas localidades brasileiras foram batizadas em homenagem a vilas e cidades da metrópole:

Santarém (Pará) – O estado do Pará é um dos que mais preserva esta ligação, com mais de 20 cidades homónimas. Bragança (Pará) e Bragança Paulista (São Paulo). Óbidos (Pará). Chaves (Pará). Viseu (Pará). Amarante (Piauí). Barcelos (Amazonas). 

14 janeiro, 2026

Autores penacovenses contemporâneos | Ficção e Poesia (5): Pedro Leitão Couto


 “A Era da Solidão”, romance de Pedro Leitão Couto, foi lançado a 19 de Outubro de 2019, no auditório do Centro Cultural / Biblioteca de Penacova, com apresentação da professora e escritora  Madalena Caixeiro.

Escreveu o jornal O Despertar:

"Dividida em quatro temas, independentes mas que acabam por ter alguma ligação, esta obra apresenta-se como uma espécie de “tratado sobre o conformismo”.

No seu prefácio, Madalena Caixeiro enaltece a profundidade das personagens que, com personalidades diferentes e “muito ricas a nível psicológico”, prendem o leitor com as suas contradições, conflitos e, mesmo, “desencontros dentro de si próprias”.

Neste livro, Pedro Leitão Couto aborda temas da atualidade, como as dificuldades do relacionamento social, a solidão e, até, o suicídio, problemas que, como escreve Madalena Caixeiro, “revelam dramas interiores que a personagem não consegue resolver”.

Sobre o autor, a também escritora realça a sua linguagem “cuidada” e a forma como “sabe contar, criar e comover”, recorrendo a palavras “claras, intensas e nítidas” para narrar o quotidiano, feito, no fundo, de momentos de alegria, tristeza e incerteza. Natural de Coimbra, Pedro Leitão Couto, 43 anos [em 2019], é licenciado em Economia pela Universidade de Coimbra. Atualmente dedica-se à literatura e à música. O autor vive em Coimbra mas tem raízes em Penacova. É filho de Adelina Nogueira Seco e do médico Joaquim Leitão Couto, ex-presidente da Câmara Municipal de Penacova." 


SINOPSE (por Vítor da Rocha)

«Uma obra repleta de ironia e clarividência, de desengano e de conformada tristeza. Composta por quatro narrativas, escritas sem rodeios nem cremes faciais, a obra A Era da Solidão é um verdadeiro tratado sobre o conformismo para onde a vida nos arrasta e a quase impossibilidade de uma partilha plena entre dois ou mais seres humanos, particularmente um homem e uma mulher unidos pelo amor, assim como a inevitabilidade de todo o ser humano ter na solidão a mais fiel de todas as companhias, como o diz Georges Moustaki na canção "Ma solitude":

Et si je préfère l'amour

D'une autre courtisane

Elle sera à mon dernier jour

Ma dernière compagne

Non, je ne suis jamais seul

Avec ma solitude

A Era da Solidão é uma obra de grande crueza, em todo o sentido daquilo que significa ler uma narrativa ficcional e pressentir que a vida pode mesmo não passar disso, a constante aprendizagem da rendição e a solidão como destino comum a todos, não apenas no primeiro e no derradeiro instante, mas na maior parte dos instantes de que se faz uma vida.»

_____

A Era da Solidão

de Pedro Leitão Couto 

ISBN: 9789898921253

Editor: Mosaico de Palavras

Data de Lançamento: Setembro de 2019

Dimensões: 153 x 229 x 14 mm

Páginas: 240

Auditório do Centro Cultural / Biblioteca de Penacova, 19 de Outubro de 2019 

(da esq. para a direita: Editor, Presidente da Câmara, Apresentadora, Autor)


Crónicas do Avô Luís (7): Mais Eleições, que chatice…


Mais Eleições, que chatice…

Nesta minha crónica no Blogue, tenho falado mais para os Jovens.

A Juventude Portuguesa vai muito, muito para além daquela que é “captada” pelos Partidos Políticos, que a transformam em absolutamente acrítica no dia seguinte à inscrição.

E aí vão escarafunchando para tentarem singrar numa “carreira” que já não se afigura capaz de acompanhar a “capacitação da nossa Juventude”, a melhor preparada de sempre!

Os que não enveredam por essas vias estreitas político-partidárias, normalmente, afastam-se da Política e deixam de “lhe passar cartão”. Pura e simplesmente…

De entre o nosso Clube da Netaria, há já um hipotético novo Votante, o Neto André.

No outro dia estive a falar com ele sobre as Eleições Presidenciais e a exclamação foi: mais Eleições Avô, que chatice…

Quando eu tinha a idade dele (1972) eu lutava para que fosse possível existirem Eleições Livres no nosso País; queria liberdade e mudança no mundo; lutava pela Democracia e, igualmente, por conseguir condições mínimas de vida para a população e apoio aos Estudantes mais carenciados, que éramos quase todos.

Só esta diferente situação temporal, muda e formata tudo o que hoje em dia está em mudança, nalguns casos dramaticamente.

O meu neto -e a generalidade dos(as) Jovens- já não estão preocupados com as questões que os do meu tempo centravam no seu dia a dia e no seu pensamento.

A Educação do Estado falhou na civilidade e o mesmo se pode dizer das Famílias.

A Política é cada vez mais um espaço “feudal” de elevação consuetudinária.

Já Parece que vivemos em Monarquia!

Experimentem, Meus Amigo(a)s, elencar os nomes dos Jovens Políticos que aparecem ainda sem barba no rodapé das Televisões e verifiquem se não são conhecidos os apelidos?

Ora bem,

Se as coisas assim estão, nas “Eleições chatice” que se avizinham, só podem esperar-se dois cenários, que antecipo:

1. Algum dos Candidatos “puxa” um número significativo de Jovens para votar e poderá exponenciar -para além do esperado- o seu resultado;

2. ⁠Ou isso não acontece significativamente e votarão os tais ligados às máquinas, cuja votação, a coincidir com o que se tem passado, não altera, substancialmente, nada.

Do que se me tem dado ver, todos os Pilitólogos apontam para o voto dos do nível etário acima dos 55 anos como determinante.

Nessa circunstância, estou crente que o Candidato Gouveia e Melo sairá beneficiado, se não cometer mais asneiras. Afinal é um Candidato com créditos firmados numa “empresa” difícil, mais apreendida por essa população.

Se a tal Juventude fora da Política for votar significativamente, beneficiarão, estou certo, André Ventura e Cotrim de Figueiredo.

Na minha análise - muito falível - ficarão de fora para a segunda volta, quase de certeza, António José Seguro e Marques Mendes.

O primeiro por mera culpa do Partido a que se entregou - e que o lixou - e das suas “tricas” permanentes, que seguirão até às Eleições.

O segundo porque tem seguido um trajeto que classifico de desastroso.

Mas pode ser que eu esteja enganado…


Luís Pais Amante

Casa Azul 

10 de Janeiro de 2025


PS: Se os Jovens são o futuro do País e se o País (para continuar Democrático, como necessário é) precisa de Eleições para se escolherem “os melhores de entre os menos maus”, então, temos, todos, de saber cativar a Juventude para participar nas votações.


08 janeiro, 2026

Penacova: Sonhar ou levitar?

 



Sonhar ou levitar?


Estamos no Inverno

O nevoeiro é denso

Mesmo, até, intenso

Sobre o lugar eterno

 

Acordo de manhã

E vou à minha janela

Para ver se sob ela

Ainda está tecido lã

 

E fico boquiaberto

Quando já desperto

Não vejo o Mondego

 

Nem o seu profundo Vale

Nem o “charme” em areal

Do Reconquinho em “ego”

 

Luís Pais Amante

Casa Azul


A propósito de uma fotografia espectacular com o crédito de Cátia Mateus, 

onde a nossa Casa Azul parece levitar sobre o nevoeiro da manhã.

30 dezembro, 2025

A alimentação das gentes de Penacova no Foral Manuelino de 1513: algumas pistas


Em 2019 foi apresentada, por Sónia Maria dos Anjos Godinho, à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra uma Tese de Mestrado subordinada ao título Forais Manuelinos do Distrito de Coimbra: Contributo para o Estudo da Alimentação

Esta investigadora analisou os forais da Lousã e Penacova (1513), de Serpins e de Tábua (1514) e de Coimbra e de Montemor-o-Velho (1516), detectando neles algumas das características da alimentação quinhentista, concretamente no distrito de Coimbra, identificando os principais alimentos aí descritos. 

A tese de mestrado complementa o tema comparando a informação recolhida com outras obras e estudos alusivos ao tema, sendo possível afirmar que os forais “são fontes fidedignas e importantíssimas que espelham os hábitos alimentares dos portugueses.” 


PRODUTOS ALIMENTARES

Especificamente, em relação a Penacova, Sónia Godinho refere, por exemplo, os cereais onde avultam o trigo, o centeio, a cevada, a aveia e o milho painço. 

Na alimentação do dia-a-dia entravam também os ovos, os lacticínios e seus derivados, como o leite, a manteiga e o queijo. Igualmente as hortaliças/legumes, em especial a cebola e o alho, e as frutas (ameixas e figos) e os frutos secos como as nozes, as avelãs, os figos secos, os pinhões e as castanhas.

No que se refere ao peixe, em especial ao peixe do rio, destacam-se a lampreia e o sável. 

Há também referências ao marisco, este só ao alcance das classes ricas,  pressupomos.

As referências às carnes brancas são frequentes (galinha, capão, ganso …), bem como as carnes vermelhas (vaca, vitela, carneiro, porco, cabrito e outras). Ainda as carnes de caça aparecem citadas (perdizes, pombos, lebres, coelhos, patos e outros).

O vinho e o azeite são outras referências muito importantes no conjunto dos produtos alimentares. Não esquecer o mel e, por último, o uso de especiarias como a pimenta e a canela. 


CONSIDERAÇÕES GENÉRICAS SOBRE OS PRODUTOS

A autora, tece algumas considerações genéricas sobre o uso dos produtos referidos, não necessária e especificamente sobre o concelho de Penacova. No entanto, por analogia, há aspectos comuns que podem ser tidos como interessantes.  

CEREAIS

Por exemplo, quanto aos cereais, Sónia Godinho, sublinha que o pão constitui a base da alimentação de todos os tempos.

Assim, no “foral de Coimbra, tal como em quase todos os outros estudados para este efeito, temos vários cereais panificáveis. Destacam-se o trigo, o centeio, a cevada, e a aveia. Fabricava-se “pão de trigo, o branco, que ia à mesa só dos ricos pelo seu preço e requinte.” As “classes inferiores” consumiam, especialmente, o pão escuro de centeio, de aveia e de cevada. “Este sem gosto e pouco nutritivo”.

Em relação aos cereais, o "milho maís" [variedade de milho graúdo], era uma novidade. Recém trazido da América, “tornou-se abundante nos campos do Baixo Mondego.” No entanto, no início do séc. XVI o seu cultivo não teria ainda chegado a Penacova ou pelo menos era residual – pressupomos nós. 

“A farinha era utilizada em papas (misturada com água) ou sopas, servia para cozer o biscoito, não só para os navegadores (como já referimos anteriormente), como também para as tropas e armadas do exército, e era utilizada como polme para o peixe ou carne, para as queijadas, assim como, para confeccionar empadas e pastéis, nas classes mais abastadas.”- diz-nos Sónia Godinho.

OVOS

Os ovos, eram “um alimento barato e existia em fartura devido à abundância de criação de galinhas, patas, gansas e pombas.” Eram consumidos em grande quantidade, cozidos, escalfados, fritos, mexidos e como ingrediente de vários pratos. (…) “Em algumas receitas de sobremesas entravam quantidades que podiam atingir várias dezenas, como a doçaria conventual dos séculos XVI a XVIII bem ilustra. Sendo um alimento de extrema relevância, os ovos vêm referenciados em quase todos os forais.

LACTICÍNIOS E DERIVADOS

No que diz respeito aos lacticínios e seus derivados, salienta-se que “o leite era pouco consumido isoladamente, no entanto, queijos, requeijões e manteiga (por vezes dita salgada, como no foral de Tábua), pelo contrário, eram muito frequentes na alimentação medieval e quinhentista.” 

“Na Corte, eram utilizados sobretudo como acompanhamentos ou sobremesas, enquanto os mais frequentes, nos forais em apreço, eram o queijo curado, o queijo fresco, o requeijão, a manteiga, que, como já dissemos por vezes é dita salgada (como é referida no foral da Lousã, Serpins, de Coimbra e no de Tábua).” 

HORTALIÇAS E OS LEGUMES

As hortaliças e os legumes frescos “eram sem dúvida consumidos em maior quantidade pelas classes mais pobres.” Além da “couve murciana, couve tronchuda, couve-flor, entre outras” eram consumidas outras hortaliças, “nomeadamente, a cebola, alho, pepino, espinafres, salsa, sumagre, palma, esparto, funcho, rabanetes e alface. 

FRUTA

“Desde a Idade Média que a fruta tem um papel bastante relevante na alimentação portuguesa.” Nos forais apareciam em destaque. Entre outros, cerejas, “amêixoas”, maçãs, peras, romãs, pêssegos, amoras, laranjas, limões, melões, uvas, figo, marmelo e tâmara. A laranja amarga e o limão, eram muito utilizados para tempero, mas a laranja doce só será introduzida em Portugal depois das viagens marítimas dos portugueses para o Oriente. 

“Salientamos também o facto de que a fruta fresca era frequentemente transformada em conservas, doces ou fruta seca e muito apreciado nas mesas de Reis ou de Mosteiros, era o consumo do doce à base de marmelos e por isso designado por marmelada.”

Por sua vez “nos forais analisados, os figos secos e as passas de uva, são os que sobressaem nesta categoria alimentar (…) A diversidade era tanta, desde amêndoas, pinhões por britar, avelãs, bolotas, nozes, nozes secas, castanhas que muitas vezes substituíam o pão em maus anos cerealíferos, assim como, faziam parte das refeições como acompanhamento principal, sobretudo na Beira Alta e Trás-os-Montes. “ Para a preparação de doces de frutos secos, o ingrediente essencial era o açúcar, sempre presente nas compotas e geleias, as denominadas conservas, como era o caso da marmelada e “frutas cobertas”, ou seja, frutas cristalizadas.

PEIXE

O peixe “era essencialmente consumido fresco, salgado, seco, fumado, em empadas, em escabeche e em conserva, em barris.” Assinalado em todos os forais acima referidos, o peixe do rio era principalmente a truta, o sável e “a lampreia, que sendo um ciclóstomo, provinha do mar, mas vinha desovar ao rio. Ainda hoje, é uma iguaria com notável destaque no concelho de Penacova, mais precisamente no Porto da Raiva.” – sublinha a investigadora na sua tese de mestrado. 

Ainda sobre a lampreia, Sónia Godinho sublinha que era “considerada um dos manjares de eleição” sendo “consumida por grupos sociais elevados económica e socialmente”, destacando-se principalmente na mesa real. O primeiro Livro de Cozinha da Infanta D. Maria, neta de D. Manuel I, regista uma receita da lampreia.

Receita da Lampreia 

Tomarão a lampreia lavada com água quente e tirar-lhe-ão a tripa sobre uma tijela nova, porque caia o sangue nela, e enrolá-la-ão dentro daquela tigela e deitar-lhe-ão coentro e salsa e cebola muito miúda, e deitar-lhe-ão ali um pouco de azeite e pô-la-ão coberta com um telhador, como for muito bem afogada, deitar-lhe-ão muita poucochinha água e vinagre, e deitar-lhe-ão cravo e pimenta e açafrão e um pouco de gengibre. 

“Com enorme importância alimentar, o peixe era abundante e diversificado. A sardinha era a espécie mais consumida, particularmente pelas classes mais baixas. No entanto é conhecido através dos livros da cozinha de D. João III, que este peixe também ia à mesa Real”. 

O peixe “ocupou um lugar de destaque no regime alimentar das comunidades monásticas”. 

CARNE

O consumo de carne caracterizava-se por uma enorme diversidade. “Nesta categoria, temos presente nos diversos forais a galinha, a lebre, o cervo, o ganso e o pato bravo. Muitas destas carnes eram provenientes do mercado ou de criação doméstica, normalmente era consumida fresca. A carne era confeccionada de variadíssimas maneiras, desde assada, cozida, em ensopado, estufada, em cuscuz, frita, fumada, em pastéis, picada, recheada, chegando a fazer parte de doces como o manjar branco”. As carnes vermelhas “continuavam a ser um alimento na mesa dos mais abastados.” Por exemplo, em Coimbra, as carnes de porco e de carneiro eram as mais baratas, seguidas as de cabra e ovelha, sendo mais comuns e de taxas mais altas as de vaca e as de boi. 

Nas classes mais ricas o consumo ia preferencialmente para o cordeiro, gamo, zebro, a vaca e até o urso. Os pratos de carne normalmente tinham como acompanhamento o pão ou enchidos como o toucinho, chouriço, linguiça, paio, salpicão e presunto. Outro dos acompanhamentos da carne eram os molhos e o cuscuz. A carne era temperada com abundantes e diversas especiarias, assim como a pimenta, mostarda, cravo, gengibre e em alguns casos específicos até com canela e açúcar. “A inserção das especiarias na culinária de então era mais do que um gesto de gastronomia, era um ato representativo do poder económico e social de determinadas classes, pelo que a sua referência nas receitas aparece bastante descriminada.” Presentes nos forais são as carnes de caça como os coelhos, lebres, garças, pombas e perdizes. A carne de caça na maioria das vezes era confeccionada de igual forma à carne vermelha, tendo como tempero diversas especiarias e o acompanhamento do pão, ou até mesmo integrado na própria receita”

VINHO

“O vinho sem exceção surge em todos os forais, o que não é de surpreender, visto que faz parte da base alimentar dos portugueses. Para além dos cereais, a vinha era outra grande cultura, sendo até a primeira a surgir em certas regiões. Embora grande parte das vinhas se destinassem ao consumo da uva como frutas de mesa, a maior parte destinava-se à produção de vinho, branco ou tinto, para ser exportado e consumido.

O vinho era a bebida mais consumida, independentemente da classe ou estatuto social, bebido por homens e mulheres, sãos e enfermos, reis e clérigos. “Desde beber vinho para matar a sede, como para confraternizar, acompanhar as refeições, ou como para uso de culto religioso, era um ato tão natural como comer”. 

Uma curiosidade: “a rainha D. Isabel de Aragão prescrevia aos doentes no seu hospital, homens e mulheres, para além de outros alimentos, uma tagra de vinho [antiga medida equivalente a dois litros] por dia que poderia variar entre 1,4 litros e 2,6.”

ESPECIARIAS

“As especiarias eram acima de tudo condimentos fulcrais à preservação/conservação dos alimentos assim como o sal, a sua importância era tal, que em nenhum foral é tributado.

Nos forais as especiarias mais destacáveis são: a pimenta, a canela, o ruibarbo [com sabor ácido, usado em doces como tortas e compotas e chás], o açúcar, a canafístula [planta medicinal que tem uma polpa líquida, escura e doce à semelhança do açúcar que serve para purgar o estômago], o gengibre, o açafrão, a mostarda”.

AZEITE

“O azeite é indubitavelmente um elemento importantíssimo, considerado outro dos produtos básicos na alimentação (tríade da alimentação: cereais, vinho e azeite), é também referido em todos os forais”.

“Outra das funções do azeite e não menos importante, era a de iluminar as casas e as igrejas.

São inúmeras as referências à compra e doação de azeite e de olivais, com a finalidade de manter as lâmpadas acesas em vários altares de igrejas, capelas e mosteiros. O azeite servia também “para o tratamento de certos males e doenças”. 

MEL

O mel “aparece referido em praticamente todos os forais analisados e é um alimento constante nos hábitos alimentares da época, muitas vezes substituto do açúcar, devido ao preço elevado deste último e não só, visto que regularmente era preferido pelo seu sabor e textura.”

ALIMENTAÇÃO DO POVO

Existem poucas fontes sobre a alimentação das camadas mais baixas da população. 

“A pobreza em que muitos viviam, quer no campo quer na cidade não lhes permitisse sequer ter uma mesa e as duas refeições, as principais, do dia: jantar e ceia”. 

Nas zonas rurais as populações “tinham mais facilidade em comer, pois tinham mais acesso ao pão, vinho e favas secas, tremoços e de peixe a sardinha “fartura da pobreza”. Azeite, ovos, carnes, doces ou peixes e mariscos talvez, em dias muitos especiais, de solidariedade festiva. No entanto, a regra era a ausência total daqueles alimentos o que provocava, como se compreende, doenças graves por falta de proteínas, vitaminas ou gorduras.”

 MESA DOS REIS E NOBRES

É sobre a mesa dos reis e nobres que há mais fontes. “As mesas dos reis e da alta nobreza davam preferência, como acontecia no resto da Europa, à carne. De facto, e, em muitos casos, coincidindo com o que registam os forais, temos as tradicionais carnes vermelhas (vaca, boi, porco) ao lado das ditas de “caça” que, por exemplo na cozinha de D. João III correspondiam a “perdizes, pombos, coelhos, leitões patos e lebres) (…) De animais de capoeira, as mesas régias tinham em abundância galinhas, patos, capões, gansos e outras espécies. O preço variava e as taxas a pagar registadas nos forais, acompanham o valor comercial dos mesmos. (…) A par das carnes assadas, em empadas ou em caldos, temos bons e apreciados peixes e mariscos. Encontramos dezenas de espécies de mar e de rio, na mesa dos poderosos. Curioso é sublinhar que os mais caros continuam hoje com essa característica. Damos o exemplo do salmonete, da garoupa, dos linguados, da lampreia e de outro peixe fresco do mar. O marisco abundava como também os forais o comprovam.”

MESA DO CLERO SECULAR

O alto clero (bispos, arcebispos e outros), alimentava-se de “saborosas e caras iguarias”. Por isso, nas suas mesas, como naquela de um bispo de Coimbra do século XIV, D. Estevão Anes Brochardo (1304-1318), podíamos ver das melhores carnes vermelhas (vaca, carneiros, vitela) e dos mais caros pescados (baleia grossa e magra, congros secos, gorazes e sáveis). É certo que tal como os outros tinham que cumprir os dias de jejum e de abstinência, deviam privar-se de “carnes de quadrúpedes” podendo comer ovos, carnes brancas, sobretudo, pescado. Não esquecer também, como a bebida, o vinho tinto e branco, quantas vezes meado ou terçado com água, com presença obrigatória na mesa dos membros da igreja. 

MESA DO CLERO REGULAR

“Quanto ao clero regular, feminino e masculino, as regras monásticas, como sabemos, estabeleciam normas muito precisas sobre o que as religiosas e religiosos podiam comer.

Se lermos algumas Regras, podemos ver que a proibição principal vai para as carnes vermelhas (só muito excepcionalmente, como em dias festivos, podiam comer vaca, carneiro ou outros). A caça era luxo de ricos por isso não entrava nas mesas dos mosteiros. Pão e vinho, os alimentos do sagrado, estão sempre presentes. Pescados «rezentes» (frescos), secos, cação, sável (o mais caro) e sardinha, o mais barato. Também compraram vários carneiros, um bode (animal muito referido nos forais), oito bois e uma vaca e duas azémolas. (…) Compraram bastante mel, figos e passas. Não faltaria também o azeite “para o comer” e para a iluminação, o sal para temperar, hortaliça e outros produtos que poderiam obter por doação, por pagamento de rendas e outras formas.

DOÇARIA CONVENTUAL

Sobre o clero regular feminino o que mais importa é referir a produção de doces (pastéis, compotas, doces de colher, bolos e tantos outros). Ficaram céleres sobretudo os mosteiros de Santa Clara, de Coimbra, de Santarém, de Évora, do Funchal. Produziam para consumo próprio, em dias especiais, mas também para presentear a reis, nobres e membros da Igreja.