Mostrar mensagens com a etiqueta histórias de penacova. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta histórias de penacova. Mostrar todas as mensagens

29 junho, 2026

Histórias de Penacova (4): almas do outro mundo, assalto à capoeira e prisão de mulher de virtude...

𝔸𝕝𝕞𝕒𝕤 𝕕𝕠 𝕠𝕦𝕥𝕣𝕠 𝕞𝕦𝕟𝕕𝕠...

(1952)

Há nesta freguesia [Oliveira do Mondego] quem acredite em almas do outro mundo; nos princípios da semana finda passou-se nesta localidade um caso interessante.

Certo individuo muito crente em almas do outro mundo, a altas horas da noite ouviu por cima do telhado de sua casa certo ruido com o qual ficou aterrorizado (e era para isso);com grande espanto acordou sua esposa dizendo-lhe que a tal alma penada andava, por cima do telhado partindo-lhe as telhas. 

O caso foi presenciado pelos vizinhos que acorreram curiosos para verem a tal alma, afinal verificaram que uma cabra dum vizinho tinha fugido do curral, subindo com dois filhos para cima do telhado, pregando tamanho susto ao pobre homem, que ia fazendo dar trabalho à esposa e gastar mais em sabão... 

𝕭𝖆𝖗𝖗𝖎𝖌𝖆𝖉𝖆 𝖉𝖊 𝖗𝖆𝖕𝖔𝖘𝖆 ... 

(anos 30)

Foi o caso que numa das noites deste Maio pardo, uma matreira raposa ou mais, vieram à capoeira do Hospital da Misericórdia desta vila e levaram nada menos de seis belíssimas galinhas.

No dia seguinte, pelas pesquisas a que se procedeu, verificou-se que havia sangue e destroços mortais das mesmas, espalhados pelos olival do Mondego.

Velhaca ou velhacas! Nós nem sardinha e ela, ou elas, seis boas galinhas ! Não há direito!

E além de todas as perdas e desgostos e contratempos e tantas penas e «penas», de hoje para o futuro já se não pode trautear aquela cantiga dos recrutas, ao ouvirem tocar a doentes:

Quem quiser galinha

Vá para o hospital

Mas coma poucochinha

Que lhe pode fazer mal.


A bruxa do Travasso 

(1930)

Pela autoridade administrativa deste concelho foi presa no lugar do Travasso, a «bruxa» Delfina de Jesus, também ali conhecida por «A Santa dos Olivais», o cliente António Couceiro, do mesmo lugar, e o pai da «mulher de virtude», Joaquim Lopes Padilha, conivente nos seus bruxedos.

A Delfina de Jesus celebrava missa numa ampla sala da sua residência, onde lodos os dias se reuniam dezenas de pessoas daquele e outros lugares, na prática do rezas e cânticos religiosos. Dizia-se enviada de Deus e que a pessoa que a prendesse ficaria negra como carvão, afirmando também curar todas as doenças.

Quando ali chegou a autoridade administrativa, acompanhada de uma força da Guarda N. Republicana, alguns habitantes daquela povoação completamente sugestionados, pretenderam resistir, insubordinando-se, chegando a locar a sineta da capela a rebate. Mas ao verem a disposição da força armada os homens abandonaram o lugar, ficando apenas as mulheres.

Os presos seguiram para a cadeia de Coimbra onde aguardarão que sejam remetidos a juízo.

_________

FONTE: Jornais de Penacova


15 junho, 2026

Histórias de Penacova (3): A Mina de Prata que afinal deu em nada...




A história correu de boca em boca e de jornal em jornal. Noutros periódicos foi notícia. Por hoje ficamos pelo Diário de Coimbra, de 16 de Abril de 1934, cujo texto transcrevemos integralmente:

"Há dias, um operário de escavações encontrou subitamente um rico veio minério, quando trabalhava numa mina de água* que anda a ser explorada pela Câmara de Penacova.

Na honrada Ignorância de tal achado, o humilde e honesto trabalhador participou o estranho caso a quem de direito - que vem a ser às respectivas autoridades camarárias. Estas, por sua vez, e como lhe competia a sua situação de zeladores do município que representam mandaram colher as necessárias amostras dos minérios encontrados ao abandono. 

Perante a incógnita que se levantara do solo, foram ouvidos os técnicos e consultados os entendidos. Todos se pronunciaram em que a escondida mina era rica de prata e de mais outros minérios.

A boa nova correu veloz por toda a parte. E' que depois de falarem os sabedores e os especializados mais ninguém poderia opor duvidas e ficar a esmoer incredulidades. Tanto não era licito a quem destas coisas não percebe patavina.

Grande mal foi este. Como se tratava de minas, e de mais a mais de prata, logo uns certos cavalhelros viram ali «uma rica mina, - gíria de dizer-se de negócio entre mãos, que deixa muito dinheiro com pouco dispêndio de trabalho ...

Negócio graúdo a dar à vontade para cinco. Eis porque de repente cinco indivíduos - todos honrados, pelo visto - se peitaram em sociedade sem cotas, com o intuito de enriquecerem em pouco tempo, negociando a prata alheia ... E não olharam a mais nada, senão aos seus premeditados interesses.

E' certo que o trabalhador - este, coitado, ficou de fora da tal sociedade - era pago pela Câmara, o os próprios terrenos fertilizados de minérios são pertença da mesma soberana entidade. Mas isto em nada influi para a ganância de arranjar prata às mãos cheias e de graça. O que é preciso é chegar a nababo com pouco ou nenhum esforço. Conjecturas grandiosas que levaram o Sr. presidente da Comissão Administrativa, o tesoureiro da Câmara, de mistura com mais três outros que tais indivíduos, a constituírem-se  em donos, mandões e senhores de tudo aquilo, por intermédio da sociedade anónima, feita para explorações de conta própria.

O abuso é comentado com áspera acrimónia, dada a extorsão de dinheiros e de direitos que representa para a edilidade de Penacova. Não há munícipe que não esbraveje suas cóleras contra tal excesso de autoridade destes amigos do povo. E os protestos andam no ar assoprados por todos.

Fiados não sabemos em que, os cinco componentes deste grandioso “achado” a tudo e a todos fazem ouvidos moucos. Nada os incomoda e perturba. Nem a voz do povo, que neste assunto é bem a voz de Deus, nem a voz intima da consciência em rebates de sinceridade, que o diabo tenta empolgar definitivamente. E tanto os azedos comentários os não incomodam que estes mesmos cinco cavalheiros societários já registaram em seu nome o grande e precioso “achado”. E o registo fez-se na Secretaria da Câmara da mesma Câmara a que pertence o terreno onde o minério foi descoberto, em que o sr. tesoureiro é empregado e o outro seu sócio exerce funções de presidente.

Ate aqui tudo tem sido bem encaminhado pela esperteza interesseira de todos. Mas o sr. Governador Civil do Distrito, a quem cabe dizer a última palavra, vai por certo pronunciar-se. E o seu despacho de pronuncia, disso estamos convencidos, e fazer entrar na alçada da Câmara o que à mesma Câmara pertence de direito e de facto. E' que o lema de sua Exa. consiste em obrigar a governar com honestidade e probidade todos os que estão directamente sob as suas ordens. Ao seu carácter íntegro não o seduzem e corrompem achados deste ou de qualquer outro quilate ... " fim de citação

__________

* que segundo se sabe seria no cimo da Cheira.

09 abril, 2026

Histórias de Penacova (1): ℙÁ𝕊𝕊𝔸ℝ𝕆𝕊 𝔼𝕊𝕋ℝ𝔸ℕℍ𝕆𝕊 ...

Vem este título a propósito de um recorte do antigo jornal Gazeta de Coimbra. A “notícia” tem um pormenor algo chocante. O texto alude, igualmente, a uma outra história que se terá passado em Penacova, há muitos anos e que, curiosamente, em 2023, abordámos na rubrica “Ecos de Vozes Distantes” do Penacova Actual (cf AQUI)  

O recorte da Gazeta de Coimbra (13 out 1921) com o título “Aves: um belo exemplar” diz o seguinte:

“Foi oferecido a um nosso amigo uma grande ave, cujas asas abertas medem 1,50 m, morta há dias por uma mulher num pequeno pinhal de Gondelim, concelho de Penacova. Ignora-se o nome da ave que deu trabalho bastante a quem a matou à bordoada. As penas são lindíssimas, pesando a carne dessa ave nada menos de 3 kilos. Dizem os que a comeram ser magnífica.

Vem a propósito recordar que em Penacova, no reinado de D. José, uma grande ave desceu junto duma capela que ali existe no cimo dum monte e tomando no bico uma criança de peito que ali estava fugiu com ela, indo deixá-la noutro ponto e junto doutra capela, sem que causasse mal à criança. Na mesma ocasião deram os jornais estrangeiros notícia dum caso idêntico sucedido numa terra de França, com a diferença de que a criança ai nunca mais tornou a aparecer.”

Por sua vez, a outra situação que se verificou no "reinado de D. José” * foi noticiada na Gazeta de Lisboa no dia 3 de Julho de 1749, difundindo-se por todo o país. A veracidade dos acontecimentos não foi questionada, na medida em que o jornal afiançou que tinha sido  “uma pessoa de grande crédito, moradora na mesma vila” que dera a informação.

Escreveu a GL: 

“Junto ao Castelo da vila de Penacova, três léguas distante da cidade de Coimbra, andava no dia 2 de Junho, do presente ano, assoalhando uma pouca de lã, Isabel Francisca, viúva de Manuel de Brito, morador que foi da mesma vila, e tendo pouco distante de si um menino de um mês, que havia parido póstumo, chamado António, saiu das abóbadas de um magnífico templo, que naquele distrito se acha por acabar, destinado para a imagem de Nossa Senhora da Guia, uma ave de rapina de extraordinária grandeza, a que uns dão o nome de bufo, outros de guincho, e se costuma sustentar de gados e aves que apanha; e levando o menino nas garras voou para uma montanha chamada de Penedos, por passar por entre eles o rio Mondego. A lastimada mãe, vendo tão deplorável fatalidade, começou a invocar com ânsia o socorro de Santo António, de quem se venera a Imagem em uma ermida, que fica defronte daquele sítio. Passando a ave pela quinta de Bernardo Cabral de Castelo Branco, mística com a montanha para onde continuava o seu voo, pousou junto a uma fonte, em que está outra imagem do mesmo Santo: e concorrendo a gente, que andava trabalhando naquela fazenda, fugiu, deixando ao pé da mesma imagem o menino, sem mais lesão que umas leves feridas das garras, com que o apertava. Este prodígio, que admiraram muitos circunstantes, fez aumentar em todos a devoção do milagroso Santo Lisbonense; e para consolação dos seus devotos o mandou comunicar ao Reino por meio da Gazeta uma pessoa de grande crédito, moradora na mesma vila.”

Histórias de Penacova...

* Na realidade o reinado de D. José apenas se iniciou no ano seguinte.