11 agosto, 2026

A Barragem da Aguieira explicada pelo Engenheiro Director, Edgar Fritz Dolgner


Crédito fotográfico: Suplemento DC 1982 

Aguieira: do sonho à realidade

O rio Mondego, o maior curso de água integralmente em território português, nasce na Serra da Estrela a uma altitude do 1547 m e, após um percurso de 227 km, desagua no Oceano Atlântico junto à Figueira da Foz, ocupando a sua bacia hidrográfica uma área com cerca de 5671 m2. O regime hidrológico do rio, tal como dos seus afluentes, é quase torrencial, sendo portanto extremamente irregular e dal ter sldo baptizados pelo povo como O BASÓFIAS. Como curiosidade poder-se-á adiantar que em Coimbra os caudais líquidos atingem valores entre os 3000 m3/s a 1 m3/s, para cheias e permanentes, durante os vários dias do ano, respectivamente.

Há já algumas dezenas de anos que se vêm estudando os vários aspectos do rio Mondego de forma a satisfazer, mediante exploração adequada, múltiplos e importantes objectivos de interesse regional e nacional.

Foi-se assim levado a estabelecer três grandes opções que nortearam o seguimento dos estudos e conduziram a uma solução finalmente adoptada:

1 - Regularização dos caudais do Mondego e dos seus afluentes Dão e Alva, mediante a constituição de albufeiras - Aguieira, Mucelão (Fronhas), Midões e Girabolhos - se bem que as duas primeiras sejam suficientes para a limitação dos caudais do Mondego a jusante de Coimbra.

2 - Irrigação e drenagem da Planície do Mondego, mediante a construção de um sistema de valas e estações de bombagem apoiadas numa pequena albufeira criada por um açude a jusante da Aguieira - o Açude de Coimbra.

3 - Produção de energia eléctrica, embora esta condicionada a uma exploração das albufeiras que lhes permite a regularização das cheias e a garantia dos volumes de água para a rega dos campos.

Posto isto, passemos então a essa grandiosa obra de engenharia que é a Barragem da Aguieira, situada no troço médio do rio Mondego, localizada a cerca de 35 km a montante de Coimbra e 400 m a jusante da confluência com o seu afluente - o rio Dão. Trata-se de um aproveitamento de fins múltiplos cujas principais missões são:

- controlo de cheias
- fornecimento de água de rega aos campos a jusante de Coimbra
- produção de energia eléctrica.

Consiste essencialmente numa barragem de betão com 89 m de altura criando uma albufeira com 30 km de comprimento, a qual se estende pelo rio Mondego, pelo seu afluente – o rio Dão e ainda pelo afluente deste rio – o Criz, e uma Central de pé de barragem equipada com três grupos reversíveis turbina-bomba.

A barragem, do tipo de abóbadas múltiplas, compõe-se de três cúpulas apoiadas respectivamente nas margens e em dois contrafortes localizados no leito do rio. Estes contrafortes são levemente divergentes quanto ao eixo do rio e a distância média entre eles é de 90 m. Sobre eles e com a crista à cota (111,00) estão instalados os descarregadores com o caudal de descarga máxima da ordem dos 1000 m3/s cada. Os escoamentos são controlados por uma comporta-segmento, em cada descarregador, e o seu lançamento a jusante faz-se por meio de saltos de ski de jacto orientado para o centro do rio. O coroamento da barragem, situado à cota 126,65, tem um desenvolvimento de aproximadamente 400 m e comporta uma rodovia com 7 m de faixa de rodagem e respectivos passeios.

A albufeira criada pela barragem tem o volume total de 450×106 m3 dos quais 150 × 106 m3 entre as cotas 117,50 e 126,00. Com este último volume domina-se completamente a cheia centenária, que tem a ponta de 2500 m3/s, com a descarga máxima de 600 m3/s e a cheia milenária, com a ponta de 3500 m3/s, com a descarga máxima de 2000 m3/s.

A Central ocupa parte do espaço limitado pela abóbada central e pelos contrafortes, abrangendo uma área de 2300 m2. Nela estão instalados três grupos reversíveis, como se disse, tendo cada turbina-bomba a potência unitária de 90 MW sob 60 m de queda e 125 rotações por minuto, e o respectivo alternador-motor com 100 MVA de potência, 12 kV de tensão e 125 r.p.m. Cada grupo desenvolve a potência máxima de 112 MW como turbina e 94 MW como bomba quanto à turbina, e 100 MVA como gerador e absorve 110 MVA como bomba quanto ao alternador-motor.

Cada máquina é dotada do seu circuito hidráulico independente o qual consta de:

- uma tomada de água em forma de trompa, na boca da qual estão instaladas duas grades amoviveis de 5,5x16,0 m.
- um poço cilíndrico no qual deslizam a ensecadeira e a comporta de serviço, do tipo de lagartas, plana, com as dimensões de 5,0x7,5 m.
- uma curta conduta forçada com 57,35 m de desenvolvimento e 6,5 m de diâmetro interior, uma turbina tipo FRANCIS com 6,1 m de diâmetro imediatamente antes da qual está instalada uma válvula cilíndrica e um distribuidor.
- um tubo de aspiração equipado na sua extremidade de jusante, com ranhuras para ensecadeira e duas comportas corrediças de 6,0×5,6 m.

As três máquinas turbinam os seus caudais para uma bacia de restituição comum a qual comunica com a albufeira do Escalão da Raiva (construído visando a criação do embalse para a bombagem da água turbinada na Aguieira) através de 10 grades amovíveis. Os poços cilíndricos, mencionados atrás, são unidos no seu nível superior - à cota 126,65, por uma plataforma comum na qual estão instalados os servo-motores das comportas de serviço e se desloca um pórtico rolante de 80 t pelo qual se manobram as grades amovíveis das tomadas de água e a ensecadeira de montante.

As comportas corrediças das saídas dos grupos são também manobradas por servo-motores enquanto que a ensecadeira de jusante e as grades amovíveis são movimentadas por um outro pórtico de 2x10 t.

Para atender à função de domínio de cheias a cota de água na albufeira da Aguieira deve manter-se, de Inverno, à cota 117,5 enchendo depois até à cota 125,0 nos meses de Abril e Maio, atingindo a cota máxima de 126,0 nos meses de Junho, Julho e Agosto. Esta curva de segurança contra cheias termina baixando novamente para a cota 125,0 até meados de Outubro e, nesta ocasião, novamente até à cota 117,5.

A jusante, na albufeira da Raiva, a variação esperada de cotas é entre 61,5 e 54,0. A queda máxima de turbinamento na Aguieira é de 71,0 m e mínima de 53,0 m. As alturas de bombagem são respectivamente 71,5 m de máxima e 53,5 m de mínima. Os caudais do turbinamento e da bombagem são da ordem dos 167 m3/s e 155m3/s respectivamente.

A subestação de transformação constituída por 3x3 transformadores monofásicos, com a potência máxima unitária de 36 MVA situa-se imediatamente a montante da Central. Por meio de uma «teia» de cabos aéreos esta subestação está ligada ao Posto de Seccionamento localiza

do na margem direita, onde se localizam um painel de conjugação e dois painéis de saída de linha a 220 kV, equipados, e espaço de reserva para uma terceira saída de linha.

Finalmente, e aproveitando a derivação provisória, instalar-se-á uma descarga de fundo com a capacidade máxima de 125 m3/s. O caudal é controlado por uma comporta-segmento com as dimensões de 2,50×1,80 m.

A produção de energia eléctrica é a seguinte:
- sem bombagem, 260 GWh em ano médio e 120 GWh em ano critlco;
- com bombagem (para 6 horas de turbinamento) respectivamente 530 GWh e 450 GWh.

O Aproveitamento da Aguieira completa-se com a Barragem e Central da Raiva e a Barragem de Fronhas. Destas últimas, a primeira, já referida atrás, situa-se a cerca de 10 km a jusante da Aguieira, é uma barragem do tipo gravidade com 32 m de altura e vai ficar com uma central equipada com 2 grupos alternadores tipo “bolbo” e uma potência de 11 MW cada. A segunda localiza-se no rio Alva a montante da Ponte de Mucela e irá reter a água deste rio que será desviada através de um túnel com cerca de 8 km para a albufeira da Aguieira.

Quando se atingir o pleno funcionamento, a produção do complexo Aguieira-Raiva será de cerca de 8% do total de energia hidroeléctrica actualmente produzida em Portugal.

As partes inundadas pela albufeira submergiram algumas povoações e pontes existentes das quais se poderão destacar a Povoação da FOZ DO DÃO no local onde o rio com o mesmo nome «beija» o Mondego, a ponte sobre o rio Mondego junto daquela povoação e a ponte sobre o rio Criz (afluente do Dão) entre Santa Comba Dão e Mortágua construída em 1826. Nesta ponte havia uma pedra, na margem, com a seguinte Inscrição: «FOI ESTA PONTE CORTADA PELA INVASÃO DO EXÉRCITO FRANCÊS EM 1810. FOI REEDIFICADA EM 1826». Outras povoações a merecer apontamento e que ficaram submersas: Breda; Senhora da Ribeira; Alambique e Barca de Asnabrava, totalizando 105 habitações e 315 desalojados. Por outro lado, dos valores artísticos e culturais também «absorvidos» pelas águas saliente-se: a Capela da Senhora doPranto, no lugar da Senhora da Ribeira, freguesia de Pinheiro de Ázere. Fol em tempos o Santuário mais célebre da região, sabendo-se que existia antes do ano 1200 com a designação de «Santa Maria Maior», restando do templo primitivo a capela-mor. Os seus altares são de talha dourada, sendo o altar-mor de estilo Renascença e os laterais de estilo Barroco. Em virtude da riqueza dessa capela e para se preservar o seu espólio foi, antes do enchimento da albufeira, em Junho de 1980, transferida para outro local, pedra por pedra.

Refira-se, por último, que a construção do Aproveitamento Hidroeléctrico da Aguieira implicou

A construção de 10 pontes e 27,5 km de estrada nova, bem como a protecção a alguns troços das linhas férreas da Beira Alta e Dão, tendo resultado, com toda esta alteração, uma significativa melhoria na rede viária local.

Por outro lado, o próprio clima face à albufeira deverá sofrer modificações, enquanto que o caudal do rio Mondego passará a ser mais estável.

No capítulo do turismo abrem-se novos horizontes para a zona abrangida por esta obra havendo já, por parte das edilidades vizinhas, projectos de empreendimentos turísticos com notável envergadura.

Edgar Fritz Dolgner
Chefe designado da Central da Aguieira

in Suplemento do Diário de Coimbra, 6 de Maio de 1982

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Pesquisa Google em 11/8/26, 23:00:

Edgar Fritz Vieira Dolgner é um engenheiro eletrotécnico português que se destacou profissionalmente na gestão de infraestruturas energéticas e, posteriormente, no ensino sénior em Portugal.

Percurso Profissional e Liderança: Diretor da Barragem da Aguieira: Ao longo da sua carreira na EDP (Energia de Portugal), desempenhou funções de elevada responsabilidade técnica, tendo sido o Diretor do Aproveitamento Hidroelétrico da Aguieira, uma das principais centrais hidroelétricas do país, situada no rio Mondego. 

Ligação à AREP: Mantém uma ligação ativa à Associação de Reformados da EDP (AREP), participando na comunidade e nas dinâmicas sociais da instituição após o seu período de atividade profissional na empresa.

 Atividade Académica e Social: Professor no Ensino Sénior: Atualmente, colabora de forma voluntária como professor na Universidade Sénior de Gondomar.



Suplemento DC 1982 (capa)


05 agosto, 2026

Crónicas do Avô Luís (13): As Praias Fluviais

Nestes últimos tempos, tenho andado a visitar algumas Praias Fluviais, aqui pela Beira.

Tem estado cá o Clube da Netaria e os seus Membros adoram ir a estas Praias, recatadas, mas extremamente actualizadas aos tempos que correm.

E tenho ficado espantado com a quantidade - e qualidade - em que se transformaram  estes espaços de lazer!

Só o Poder Local (democrático e com autonomia financeira) poderia “aventurar-se” nestes investimentos, que são bem visíveis por esse País fora…

Porquê?

. Porque poderes não democráticos não os “dariam” deste tipo, generalizados e em benefício de todos, sem exceção: pobres ricos, remediados; da raça a b ou c; velhos adultos ou crianças;

.. Porque de “orçamentos municipais controlados” não sobraria espaço para “riquezas” desta natureza;

… Porque a Democracia “obriga” os Autarcas a se submeterem ao plebiscito com obra feita ou, programa "atractivado".

Ora,

Dentro desta linha de pensamento, as Praias Fluviais são - na minha modesta opinião - a parte mais visível da democracia funcional ao nível municipal.

Permitem o “passar das férias” em locais de acesso económico e captam, ainda, visitantes que consomem nos Concelhos, desenvolvendo a economia local.

Os primeiros votarão e os segundos gastarão aí as suas poupanças (por vezes parcas).

Por isso, sinceramente, o que mais tenho apreciado é o modo como as Crianças usufruem destas praias, interagindo entre si, só pelo “estatuto de criança”, sabendo nós as desgraças que andam pelo mundo, ao arrepio das Leis.

Correm, brincam, nadam e, até têm acesso à Cultura em sentido lacto e abrangente.

Sim, porque ter livros à disposição para ler; música para ouvir; jogos para jogar; espectáculos de quase tudo e para todos os gostos…é ter Cultura à disposição!

Portanto,

São os homens e as mulheres de amanhã que, orgulhosamente, se estão a formar numa óptica, verdadeira, de igualdade.

Sendo certo que a Igualdade é o objetivo constitucional mais flagrantemente cumprido nestas ações e, também, aquele que mais empenhou os “construtores de Abril”!

Objectivamente,

O art. 13, da CRP, enuncia-o com toda a propriedade, quando impõe acesso à igualdade, através do usufruto dos Direitos (todos) e impede a sua não generalização ou restrição!

De resto, num momento em que discute - outra vez, com fleuma - a questão da emigração ou da imigração - as Crianças de cores (como se costuma dizer) sentem-se absolutamente “livres” nestes locais, brincando com as nossas, sem se sentirem, minimamente, diminuídas, o que constatei.

Contribuindo, significativamente, para a elevação objectiva da Democracia. Igualdade, igualdade e igualdade é cada vez mais a palavra de ordem…

Luís Pais Amante


03 agosto, 2026

Elevação de Carvalho a Vila (3): D. Álvaro de Carvalho, o Solar e Sto. António do Cântaro


Elementos para a História de Carvalho

I

(…) A igreja de Carvalho, tem a honra de abrigar, na sua modestíssima capela-mor, as ossamentas de D. Álvaro de Carvalho que foi governador da praça de Mazagão que ele soube defender com heroísmo, quando em 1562 ela foi cercada pelo sultão de Fez, Muley Abdallah.

Em modestíssimo monumento de pedra de Ançã, do lado direito, na dita capela-mor embebido na parede, diz a legenda, encontram-se as cinzas deste nobre e heróico governador da praça de Mazagão

E tudo indica que o solar dos Carvalhos era no local ocupado pela actual casa do médico Sr. Dr. António dos Santos Malva. Na opinião do P.e Nogueira Gonçalves, pouco resta do antigo solar naquelas construções; há, entretanto, duas janelas, duas pedras com as armas dos Carvalhos e dos Eças, dos começos do século dezasseis, manuelinas, de Álvaro de Carvalho casado com D. Catarina da Guerra filha ilegítima de Pedro de Eça. 

É da mesma época o pelourinho, hoje junto da sua fonte. Carvalho, hoje terra tão sertaneja, teve, e tem pois, o seu nome, gravado nos fastos da nossa história. 

Bem perto lhe passava a estrada real de Coimbra a Viseu. E foi essa circunstância que fez erguer ali, bem perto, nos primeiros tempos da nacionalidade, a albergaria de Santo António do Cântaro para dar agasalho e matar a sede aos viajantes que passavam.

Manuel Marques, in Notícias de Penacova (1/3/1952)

II

SANTO ANTÓNIO DO CÂNTARO: (...)“É a capela um edifício modesto, reformado em vários tempos. As partes mais antigas devem remontar ao princípio do século desaseis, à época manuelina. No altar de colunas torcidas e pâmpanos, lavrado no começo de setecentos há uma deliciosa escultura de Santo António, do século quinze; não é o frade acarinhando o Menino, não é o franciscano a apontar com a direita os peixinhos que se alongam na peanha, não; é um santo de místico encanto, de hábito apertado da corda e uma capa longa a roçar o chão, segurando em frente um livro que a esquerda suporta e a direita ampara por cima; e não é o Menino, não são os peixes, é um missal que candidamente apresenta aos viandantes.

Precede a capela um alpendre outrora sempre patente, e no qual à direita e no fundo, se destaca um nicho num maciço quadrangular, o nicho do cântaro de água sempre renovada e sempre fresca.

O testamento de Bartolomeu Domingues, 1215, faz crer que foi ele o primeiro instituidor da al- bergaria com as três camas sempre prontas e o cântaro sempre cheio nos meses de Julho, Agosto e Setembro com púcaro para se beber. Todavia ele devia ter só dado nova modalidade à fundação de seu pai Domingos Feirol, um homem do século doze, tendo o bispo D. Vermudo aplicado à mesma albergaria a terça da igreja de Carvalho no último quarto do mesmo século doze por contrato com D. Belida e seus filhos Gonçalo Fernandes e Bartolomeu, por lhe não bastarem as rendas iniciais e ser muito frequentada de peregrinos. 

No ano de 1314 confirmou a união e regularizou as obrigações para ele bispo e para o cabido, com o senhorio da terra, D. Estevão Anes Brochardo. Correndo o de 1364, Álvaro Fernandes de Carvalho converteu essas obrigações de harmonia com o cabido catedralício. 

É esta a albergaria de Carvalho da qual falam os velhos documentos. Carvalho, a pouca distância, é a sede de freguesia e o assento do solar dos Carvalhos, cujos representantes tiveram diversos capitães em África, sendo um deles Álvaro de Carvalho, governador de Mazagão, ao tempo do memorável cerco de 1562; e foi ainda senhor de Carvalho, o maior dentre os da família, aquele estadista que teve o título em primeira mão, de marquês de Pombal e que em quatro grossos volumes mandou fazer o tombo das suas terras de Carvalho e Cercosa.(...)

 Nogueira Gonçalves, historiador e arqueólogo (Arganil, 1901-Arganil, 1998) 

in Diário de Coimbra de 30/10/1948

III

(…) Falando daquela obra histórica junto ao adro da Igreja Paroquial, que é muito antiga, foi habitada e vítima de um incêndio e passou ao abandono. Contudo ainda lá estão bem visíveis aquelas gravuras em pedra de cantaria. Penso que seria uma grave injustiça nunca mais olhar para uma obra daquelas até chegar o seu fim. Ainda tem condições de restauro e bem o merece. Desde o incêndio parece que não houve quem olhasse para aquela relíquia antiga e que merecia mais respeito. Lembro-me que aquele recinto em frente e vedado com a entrada sem o portão, serviu muitos anos para servir as refeições às Filarmónicas e Grupos Musicais, e era palco para rapazes e raparigas cantarem e dançarem as modas daquele tempo. Penso que com a ajuda da população e Câmara Municipal seria possível recuperar este bonito edifício e seria local de encontro de diversão e cultura para a nossa terra.(...)

 “Um assinante natural de Carvalho” in jornal Nova Esperança, 30 de Abril de 1996: 

IV

(...) Deve-se encontrar no Arquivo Nacional do ano de 1908; que no ano de 1223, foi por Domingos Feirol, instituído o Morgadio de Carvalho. Em 1514 era Senhor, e possuidor Álvaro de Carvalho. Até hoje não foi feito àquele Senhor, a sua verdadeira história. Foi Capitão, Governador de Mazagão; foi quem em 1597 mandou construir a Igreja Matriz desta Freguesia e cujas cinzas, e de sua Família, repousam na referida Igreja.

Depois passou o Morgadio para Gil Fernandes de Carvalho; depois para Manuel de Carvalho, e mais tarde passou para Sebastião José de Carvalho e Melo, primeiro Conde de Oeiras, e Marquês de Pombal. Em 1762 foi solenemente reconhecido pela Câmara, Nobreza e Povo, como Senhor e Donatário de Carvalho como deve constar do auto respectivo lavrado em 29 de Julho desse mesmo ano. Naquele tempo, Carvalho era uma Vila de categoria; possuía Tribunal Judicial, onde eram feitos rigorosos julgamentos, e sentença dada em Carvalho, não tinha apelação. Mais tarde aqueles poderes foram instalados, em outros pontos do País, por serem talvez mais bem localizados (…).

José Jorge dos Santos, in Notícias de Penacova, 1956