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09 maio, 2026

Do castelo de Penacova, nada?

Silhueta do actual cruzeiro. Contexto ficcionado.

Encontram-se por esse Portugal além numerosos restos de famosos castelos mais ou menos gloriosos na história portuguesa. Do castelo de Penacova, nada. Restara dele unicamente o nome, mais nada.

Era meu pensamento que os materiais dele deveriam ter sido incorporados na alvenaria da capela da Senhora da Guia e nas paredes do cemitério que durante séculos esteve a servir de coroa ao lindo e interessante cone hoje plantado de oliveiras até quase ao cimo.

Um dia porém comecei a olhar mais atentamente para a base do Cruzeiro do fundo da vila e quando notei que cada pedra tinha a sua sigla e que aquelas que a não apresentavam exteriormente é porque voltadas para o interior estavam escondidas na alvenaria, fiquei então convencido que estavam ali finalmente ao menos algumas das venerandas relíquias do castelo de Penacova.

Esse pensamento cheguei  a comunicar ao sr. Professor Nunes numas das tardes em que ali nos encontramos e em que chamei a sua atenção para as siglas.

Quando no domingo passado, o notável arqueólogo P.e António Nogueira Gonçalves, conservador do Museu Machado de Castro, esteve nesta terra, a fazer o inventário dos monumentos e objectos artísticos do distrito de Coimbra, ao passar por ali, e deitando os olhos para aquelas  pedras reconheceu-as logo. Eram os restos do antigo castelo. 

Senti uma enorme alegria por ouvir a confirmação do mestre. E aquilo que eu estava para afirmar com certo receio, venho agora apontá-lo ao respeito dos penacovenses, porque o mestre falou. Não há engano.

Outras pedras certamente do mesmo castelo roqueiro* se encontram ao cimo da ladeira da fonte e talvez os próprios degraus da estrada para peões que passando em fronte da casa do sr. António Cabral leva à dita fonte da Costa do Sol.

Esta pedra lavrada deve ter descido da serra da Atalhada, porque é idêntica àquela com que se fazem as mós para a farinha de segunda, bem como as galgas e pesos para os lagares destas redondezas. É a novidade histórica que hoje trazemos à curiosidade de quantos ainda amam e veneram os elementos que nos legou a tradição dos séculos. Um fragmentozinho da história de Penacova.

MANUEL DO FREIXO

Notícias de Penacova, 25 Set 1958

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*NR: Castelos roqueiros: estruturas amuralhadas defensivas surgidas em Portugal, em zonas dominantes e habitualmente rochosas, construídos por iniciativa das populações para defesa da ameaça constante do inimigo. Sem poder central definido, serviam por isso como refúgio dos povoadores.

VEJA  OUTROS TEXTOS SOBRE O CASTELO neste blogue, pesquisando "castelo"

08 maio, 2026

"Os barqueiros da minha terra"

 


Festa do Barqueiro (Miro) - 2015


OS BARQUEIROS


Quando das janelas do altaneiro Seminário de Coimbra, (...) eu via passar, ao lado do Laranjal, ou lá em cima, em frente da Lapa dos Esteios, os barqueiros do meu concelho, lá bem mais perto da minha aldeia sertaneja, eu consolava-me de os ver e teria vontade de por eles mandar um beijo à minha mãe e um abraço a meu pai...

Habituei-me pois desde pequeno a amar os barqueiros da minha terra, como me diziam os meus companheiros de estudo. Mas a minha estima, a minha admiração e simpatia por eles, tem crescido com os anos, e até com o conhecimento cada vez mais perfeito que eu tenho deles se me perguntassem as razões que eu tenho, de boa mente as enumeraria.

São três as mais fortes razões porque respeito, estimo e admiro os barqueiros, nomeadamente os barqueiros de Penacova. Ao vê-los passar, curvados sobre as suas varas fincadas no fundo do rio, e a extremidade apoiada sobre o coração, com as pernas descobertas, tostadas pela aragem fria, retesadas nos bordos da barca a impulsionarem-na contra a corrente da água, na direcção da sua terra, lembro-me dos nossos argonautas de quinhentos a accionar os remos e as velas dos galeões das descobertas que tornaram tão grande o nosso Portugal!

Habituei-me a associar no meu pensamento estes denodados lutadores de hoje com os antigos, que lá foram mar em fora, a quem não amedrontaram as lendas do Mar Tenebroso...

Eu respeito e admiro os barqueiros, porque ainda são eles que melhor conservam a sua personalidade e o seu amor à família. Raro perdem o norte à sua casa, aos seus deveres de pais, à sua honra de maridos ou de filhos ou de irmãos.

São os barqueiros de além do rio, que ao domingo, formam uma barreira ao arco cruzeiro da igreja matriz e são os primeiros a receber a saudação do seu pároco, na missa paroquial. Ainda são eles que dão a maior percentagem aos sacramentos da Santa Igreja na quaresma.

- "Quando nós chegamos à curva do rio, na Rebordosa, e vemos a torre da nossa igreja, rezamos ao Santíssimo; e em perigos e trabalhos que passamos é que prometemos servir o Santíssimo». É frequente ouvirmos estas palavras da boca desses rudes trabalhadores do rio quando eles se vão inscrever na lista dos Irmãos.

E não tenho por isso razão para estimar e respeitar os nossos barqueiros do Mondego?


MANUEL DO FREIXO (Padre Manuel Marques)
In Notícias de Penacova , 2 Fev 1946