13 maio, 2026

Só em 1953 foi possível um automóvel ir ao Roxo

Vista actual do Roxo

Não imaginam as novas gerações como as nossas aldeias viviam isoladas de algum progresso que, apesar de tudo, ia chegando a Portugal. Até muito tarde as populações não dispunham de água canalizada no domicílio (muitas vezes nem um chafariz existia), de luz eléctrica e de acessibilidades rodoviárias. E não falamos de inícios do século XX. Por exemplo, só há setenta e poucos anos, a estrada para o Roxo permitiu a passagem de um veículo a motor. Reza a história que o primeiro automóvel que foi a esta aldeia (no dia 8 de Novembro de 1953, data da festa anual) foi o do Sr. Franklim, natural do Caneiro e abastado emigrante no Brasil. 

O Notícias de Penacova (28.11.1953) deu conta da “imensa satisfação” com que aquela povoação viu chegar uma camioneta e depois o primeiro automóvel, acontecimento que pouco antes estava “longe dos seus sonhos doirados.” 

Transcrevemos a notícia:

DO RÔXO: OS NOSSOS CAMINHOS

Foi com imensa satisfação que vimos chegar ao nosso querido lugar uma camioneta. Sim, podemos dizê-lo que foi com satisfação, porque nunca se esperava ver nesta terra, tão longe dos seus sonhos doirados, um carro motorizado.

Imagem ilustrativa dos automóveis daquele tempo

Porém, com o auxílio do povo do Roxo e com a ajuda do sr. António Pais Martins, construtor da nossa escola, que aqui vem com a sua camioneta no transporte de materiais, vimos nesta povoação, no dia da nossa festa anual realizada no dia 8 do corrente mês, um automóvel conduzido pelo seu proprietário sr. Franklim Marques Lopes, do vizinho lugar do Caneiro. Este senhor, que foi alvo das maiores atenções por parte do povo roxense, veio ensinar o caminho a outros que porventura estejam com medo de vir até este lugar.

Assim, como o sr. Franklim, outros podem vir para admirar o quanto é maravilhoso este nosso querido cantinho de onde se avista um dos mais deslumbrantes panoramas. Pedimos, por isso, a todos os motoristas que se esforcem por visitar a nossa panorâmica terra, visto que, quando uma camioneta com 6.500 quilos de carga aqui pode conduzir-se, muito melhor o poderá fazer qualquer outro veículo de menos tonelagem. E não perderão o seu tempo porque ficarão encantados com as vistas desta linda serra e satisfeitos com os puríssimos ares que neste alto se respiram.

É com o maior contentamento, pois, que agradecemos aos roxenses que deram, não todos, um dia de trabalho no conserto dos nossos caminhos, e, em especial, ao sr. António Pais Martins que concorreu para o resto das despesas para tão útil melhoramento, embora este fosse para sua utilidade.

NP 28.11.53


12 maio, 2026

As raízes penacovenses da pianista e compositora Leonor Leitão-Cadete

Leonor Leitão-Cadete aos 18 anos, em 1947

Leonor Caldeira Leitão Tavares Cadete (conhecida artisticamente como Leonor Leitão-Cadete) é uma prestigiada pianista, compositora e pedagoga que nasceu em Alpiarça em 4 de Dezembro de 1929, mas tem ligações próximas a Penacova. Sobrinha do Dr. Amílcar Leitão e esposa D. Maria Fernanda de Melo Leitão (que foram donos da Quinta da Ribeira e da Casa da Freira). Curiosamente, em 1950 deu um recital de piano na Casa do Repouso (1), cuja receita reverteu para as obras da Residência Paroquial, então em fase de construção.  Ao longo da sua carreira, destacou-se pelos improvisos ao piano e pelo seu trabalho com coros e em contexto de música sacra. Apesar da sua idade, continua muito activa, inclusivamente nas redes sociais. Ver aqui a sua página no Facebook. Em 2017 a RTP emitiu um tributo a Leonor Cadete (veja AQUI). Trata-se de uma pequena biografia elaborada por Helena Ramos.

Leonor Leitão-Cadete 


Na TV, com Cristina Ferreira, em 2023

Em 2022 no programa televisivo CASA FELIZ

“A sua obra de composição é vasta, em particular os improvisos, sendo de referir o duplo CD de piano, intitulado Imagens da Minha Vida (2003). Tem muitas outras obras para piano, obras orquestrais e algumas para bailado, para além de obras corais e de música sacra. A este propósito são de destacar Fátima Revisitada em Música (Roma Editora -2008) e À Memória do Beato João Paulo II (Paulinas Editora – 2011).

Para além de intérprete e compositora, Leonor Leitão-Cadete foi autora de vários programas na Rádio Televisão Portuguesa, “Os jovens e a música”, “Caixinha de Música” e “Folhas Soltas”, onde se revela o seu talento como pedagoga. Também na RTP realizou 32 programas de improvisação ao piano em directo.

Foi em Alpiarça que começou a leccionar piano aos dezanove anos, a cerca de quarenta alunos, que se apresentavam regularmente em audições públicas. Também em Alpiarça, foi presidente da Pró-Arte, organizando concertos mensais, dando ela própria o concerto inaugural, com a presença do Presidente da Câmara Municipal de Alpiarça, Raul Neves, e do Director do Conservatório Nacional, Ivo Cruz.

Como professora, assumiria, ainda, a Presidência da Comissão Instaladora da Escola de Música do Conservatório Nacional. Fundou e foi Directora do Conservatório Regional de Tomar.

Por convite de Veríssimo Serrão, fez um projecto pioneiro para a criação de uma Escola Superior de Música no Instituto Politécnico de Santarém.

Participou na Estruturação do Ensino Artístico na Educação, nomeada pelo então Secretário de Estado da Reforma Educativa, Carrilho Ribeiro, elaborando um documento onde constavam as linhas fundamentais para o desenvolvimento das Artes em Portugal, dando, ainda, apoio pedagógico àquele gabinete.

Foi também Directora Pedagógica e Artística da Escola de Música Nossa Senhora do Cabo de Linda-a-Velha, Professora Convidada do Curso Superior de Piano do Conservatório Regional de Coimbra, Conselheira da Escola de Música de Santarém.

Isabel Baltazar, 2012 (in https://www.meloteca.com/portfolio-item/leonor-leitao-cadete/ )

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(1) Recital de piano

No dia 31, houve na Casa de Repouso um recital de Piano, dado pela menina Leonor Caldeira Leitão. Trata-se duma artista de nome, filha de Penacova, que já algumas vezes tem estado na Emissora. Foi pena que Penacova em peso, não fosse ouvir uma artista, que faz o que quer nas teclas do piano, ou tocando autores clássicos ou improvisando. Entre os assistentes, vimos e cumprimentamos, o sr. Dr. Amílcar Coimbra Leitão, notário em Santarém, e sua esposa D. Maria Fernanda de Melo Leitão, tios da artista; o Dr. Augusto C. Leitão; o Dr. Joaquim C. Leitão e o sr. Oliveira Cabral e sua esposa D. Estefânia Cabreira. O produto do recital 425$00, reverteu a favor da residência Paroquial. 

In Notícias de Penacova, 9 Set 1950

09 maio, 2026

Do castelo de Penacova, nada?

Silhueta do actual cruzeiro. Contexto ficcionado.

Encontram-se por esse Portugal além numerosos restos de famosos castelos mais ou menos gloriosos na história portuguesa. Do castelo de Penacova, nada. Restara dele unicamente o nome, mais nada.

Era meu pensamento que os materiais dele deveriam ter sido incorporados na alvenaria da capela da Senhora da Guia e nas paredes do cemitério que durante séculos esteve a servir de coroa ao lindo e interessante cone hoje plantado de oliveiras até quase ao cimo.

Um dia porém comecei a olhar mais atentamente para a base do Cruzeiro do fundo da vila e quando notei que cada pedra tinha a sua sigla e que aquelas que a não apresentavam exteriormente é porque voltadas para o interior estavam escondidas na alvenaria, fiquei então convencido que estavam ali finalmente ao menos algumas das venerandas relíquias do castelo de Penacova.

Esse pensamento cheguei  a comunicar ao sr. Professor Nunes numas das tardes em que ali nos encontramos e em que chamei a sua atenção para as siglas.

Quando no domingo passado, o notável arqueólogo P.e António Nogueira Gonçalves, conservador do Museu Machado de Castro, esteve nesta terra, a fazer o inventário dos monumentos e objectos artísticos do distrito de Coimbra, ao passar por ali, e deitando os olhos para aquelas  pedras reconheceu-as logo. Eram os restos do antigo castelo. 

Senti uma enorme alegria por ouvir a confirmação do mestre. E aquilo que eu estava para afirmar com certo receio, venho agora apontá-lo ao respeito dos penacovenses, porque o mestre falou. Não há engano.

Outras pedras certamente do mesmo castelo roqueiro* se encontram ao cimo da ladeira da fonte e talvez os próprios degraus da estrada para peões que passando em fronte da casa do sr. António Cabral leva à dita fonte da Costa do Sol.

Esta pedra lavrada deve ter descido da serra da Atalhada, porque é idêntica àquela com que se fazem as mós para a farinha de segunda, bem como as galgas e pesos para os lagares destas redondezas. É a novidade histórica que hoje trazemos à curiosidade de quantos ainda amam e veneram os elementos que nos legou a tradição dos séculos. Um fragmentozinho da história de Penacova.

MANUEL DO FREIXO

Notícias de Penacova, 25 Set 1958

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*NR: Castelos roqueiros: estruturas amuralhadas defensivas surgidas em Portugal, em zonas dominantes e habitualmente rochosas, construídos por iniciativa das populações para defesa da ameaça constante do inimigo. Sem poder central definido, serviam por isso como refúgio dos povoadores.

VEJA  OUTROS TEXTOS SOBRE O CASTELO neste blogue, pesquisando "castelo"

08 maio, 2026

"Os barqueiros da minha terra"

 


Festa do Barqueiro (Miro) - 2015


OS BARQUEIROS


Quando das janelas do altaneiro Seminário de Coimbra, (...) eu via passar, ao lado do Laranjal, ou lá em cima, em frente da Lapa dos Esteios, os barqueiros do meu concelho, lá bem mais perto da minha aldeia sertaneja, eu consolava-me de os ver e teria vontade de por eles mandar um beijo à minha mãe e um abraço a meu pai...

Habituei-me pois desde pequeno a amar os barqueiros da minha terra, como me diziam os meus companheiros de estudo. Mas a minha estima, a minha admiração e simpatia por eles, tem crescido com os anos, e até com o conhecimento cada vez mais perfeito que eu tenho deles se me perguntassem as razões que eu tenho, de boa mente as enumeraria.

São três as mais fortes razões porque respeito, estimo e admiro os barqueiros, nomeadamente os barqueiros de Penacova. Ao vê-los passar, curvados sobre as suas varas fincadas no fundo do rio, e a extremidade apoiada sobre o coração, com as pernas descobertas, tostadas pela aragem fria, retesadas nos bordos da barca a impulsionarem-na contra a corrente da água, na direcção da sua terra, lembro-me dos nossos argonautas de quinhentos a accionar os remos e as velas dos galeões das descobertas que tornaram tão grande o nosso Portugal!

Habituei-me a associar no meu pensamento estes denodados lutadores de hoje com os antigos, que lá foram mar em fora, a quem não amedrontaram as lendas do Mar Tenebroso...

Eu respeito e admiro os barqueiros, porque ainda são eles que melhor conservam a sua personalidade e o seu amor à família. Raro perdem o norte à sua casa, aos seus deveres de pais, à sua honra de maridos ou de filhos ou de irmãos.

São os barqueiros de além do rio, que ao domingo, formam uma barreira ao arco cruzeiro da igreja matriz e são os primeiros a receber a saudação do seu pároco, na missa paroquial. Ainda são eles que dão a maior percentagem aos sacramentos da Santa Igreja na quaresma.

- "Quando nós chegamos à curva do rio, na Rebordosa, e vemos a torre da nossa igreja, rezamos ao Santíssimo; e em perigos e trabalhos que passamos é que prometemos servir o Santíssimo». É frequente ouvirmos estas palavras da boca desses rudes trabalhadores do rio quando eles se vão inscrever na lista dos Irmãos.

E não tenho por isso razão para estimar e respeitar os nossos barqueiros do Mondego?


MANUEL DO FREIXO (Padre Manuel Marques)
In Notícias de Penacova , 2 Fev 1946

05 maio, 2026

Estatuto de Utilidade Pública atribuído à Associação Cultural Divo Canto

Na qualidade de associado, recebemos a seguinte comunicação, com a qual nos congratulamos:

"A Associação Cultural Divo Canto, de Penacova, obteve o Estatuto de Utilidade Pública, por Despacho do Gabinete do Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, publicado no Diário da República, em 30/04/2026.

O processo de candidatura foi iniciado em 2024, com a elaboração de um extenso dossier com o resumo da sua atividade nos últimos dez anos, onde se destacam as cerca de 120 atuações musicais, os intercâmbios culturais com mais de 80 grupos e associações e parcerias com 70 entidades públicas, privadas, do setor social, bombeiros e da igreja.

Para a aprovação da candidatura terá contribuído a avaliação feita ao “trabalho de relevante qualidade,” que a Associação Cultural Divo Canto e o seu grupo coral desenvolvem “na área da cultura, na criação musical, no ensino da música e na sua divulgação, quer seja em Portugal ou no estrangeiro, proporcionando experiências impactantes aos seus públicos, contribuindo para o seu prestígio, bem como para a elevação do concelho de Penacova”, referido no parecer favorável da Câmara Municipal de Penacova à atribuição do estatuto de utilidade pública.

Mas também porque “o Coral Divo Canto se assume como um agente cultural que contribui continuada e vincadamente para o desenvolvimento, promoção e enriquecimento cultural e artístico de Penacova, estabelecendo parcerias com diversas entidades públicas e privadas, que contribuem para uma acrescida afirmação e notoriedade pública cultural e regional.”, de acordo com o mesmo parecer;

Ou ainda porque “através dos intercâmbios culturais, o Coral Divo Canto tem trazido a Penacova variados grupos corais, portugueses e estrangeiros, contribuindo também para a valorização do nosso território e para a sua promoção turística”, para continuar a citar o parecer da Câmara Municipal de Penacova.

A Associação Cultural Divo Canto e o seu grupo coral agradecem às mais de 70 entidades, públicas, privadas, do setor social, dos bombeiros e da igreja, que têm colaborado connosco nas mais de 150 atuações musicais nos últimos 12 anos, e aos mais de 80 grupos e associações com quem tivemos intercâmbios culturais, pela sua contribuição na conquista do Estatuto de Utilidade Pública.

Um agradecimento especial para todos os nossos associados e para o público que nos tem acompanhado e apoiado ao longo dos anos."

-- oOo --

O Despacho n.º 5651/2026, (emitido pela Presidência do Conselho de Ministros - Gabinete do Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros e publicado no Diário da República n.º 84/2026, Série II de 2026-04-30) atribui o estatuto de utilidade pública à Associação Cultural Divo Canto, que desenvolve a sua atividade no âmbito da cultura, ensino e educação. 


Despacho n.º 5651/2026

Atribuição do estatuto de utilidade pública

A Associação Cultural Divo Canto, pessoa coletiva de direito privado n.º 513382909, constituída por escritura pública de 26 de janeiro de 2015, desenvolve a sua atividade no âmbito da cultura, ensino e educação.

A Associação desenvolve a sua atividade em articulação com entidades da administração local, nomeadamente com o Município de Penacova e com as Juntas de Freguesia de Carvalho, de Lorvão, de Penacova, de Sazes do Lorvão, da União das Freguesias de Friúmes e Paradela, da União das Freguesias de Oliveira do Mondego e Travanca do Mondego e da União das Freguesias de Vila Cova de Alva e Anseriz. A Associação Cultural Divo Canto colabora ainda com diversas entidades privadas.

Verificando que se encontram preenchidos todos os pressupostos e requisitos legais, (…)  atribuo o estatuto de utilidade pública à Associação Cultural Divo Canto, nos termos da Lei-Quadro do Estatuto de Utilidade Pública, aprovada pela Lei n.º 36/2021, de 14 de junho. Nos termos do n.º 1 do artigo 18.º daquela lei-quadro, o estatuto de utilidade pública é atribuído pelo prazo de dez anos a partir da publicação deste despacho.

24 de abril de 2026. - O Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, Tiago Meneses Moutinho Macieirinha.

-- oOo --

O Estatuto de Utilidade Pública é um reconhecimento oficial dado pelo Estado a pessoas coletivas privadas sem fins lucrativos (como associações ou fundações) que cooperam com a administração central ou local para fins de interesse comum.

Principais Benefícios e Utilidades:

Vantagens Fiscais e Mecenato: Acesso a isenções de impostos e atração de financiamento, pois pessoas/empresas podem deduzir donativos no IRS/IRC.

Apoios Financeiros Públicos: Aptidão para receber subsídios, subvenções e celebrar convénios com a administração central ou local.

Reconhecimento e Credibilidade: Prestígio institucional ao ser reconhecida como entidade que persegue fins de interesse geral.

Uso da Menção EUP: Direito a utilizar a designação "Pessoa Coletiva com Estatuto de Utilidade Pública" ou "EUP".

04 maio, 2026

Cemitério da Eirinha veio substituir o "quintalejo indecente", a "nesga de terra murada" do Monte da Sª da Guia

                                          Cemitério da eirinha actualmente 

Em 1902,  A Folha de Penacova fazia referência à urgente necessidade de concluir as obras do novo cemitério. O velho cemitério da Sr.ª da Guia, além de pequeno, apresentava "tristes e desgraçadas condições". A Câmara em sessão extraordinária deliberou continuar com as obras na Eirinha. 

"A câmara municipal deste concelho reuniu em sessão extraordinária no dia dois deste mês. Alguma coisa de anormal e urgente fez sair do rotineiríssimo preceito das sessõezinhas aos sábados, só de oito em oito dias, a actual vereação, que tem homens metódicos como aqueles que o são. Certamente que sim. Tal reunião teve por fim deliberar sobre duas coisas de extrema necessidade. Uma de essas coisas é a continuação das obras do novo cemitério desta vila. A outra é a reparação de algumas ruas não só de Penacova mas ainda de Lorvão, S. Pedro d'Alva e Paradela da Cortiça.

A continuação das obras do novo cemitério desta vila é uma necessidade que se impõe a tudo mais. Todos sabemos em que tristes e desgraçadas condições se encontra o antigo cemitério, essa nesga de terra murada, esse quintalejo indecente, que mais se assemelha a uma estrumeira que a um cemitério. 

É uma vergonha. 

Aquilo que ali está, está ali a indicar aos que visitam esta terra a grande falta de respeito que aqui há pelos mortos. 

Simplesmente vergonhoso.

Ora, nesta o noutras mais coisas locais, parece efectivamente que não passou por Penacova o século XIX, o século des luzes.

Penacova, porém, e quem sabe se por qualquer influência do seu nome fatídico, ficou de pé na cova, muda e extática, ante o desenrolar grandioso desse século que se assinalou brilhantemente por manifestações superiores do saber humano e não menos pela compreensão dos deveres sociais ou psíquicos, continuando ainda hoje a comunicar-se com Coimbra por intermédio do um traço de união que se chama as diligências do Albino!...

É tempo de despertar. O extraordinário da sessão extraordinária com que a câmara municipal reuniu no dia dois deste mês, já representa alguma coisa, mas ainda não é tudo.  Mãos à obra."

A FOLHA DE PENACOVA 

24 de Abril de 1902






Crónicas do Avô Luís (10) - Aprender nos Museus: O Museu Vitorino Nemésio


Penso ser difícil alguém não conhecer Vitorino Nemésio. Açoriano, nascido na Praia da Vitória, Ilha Terceira (poeta, ensaísta, romancista, cronista) académico que deu aulas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Enquanto Escritor, realça-se pela Obra Mau Tempo no Canal, onde retrata o espaço geográfico entre as Ilhas do Pico e do Faial e as suas vicissitudes.

E ligado a Penacova escreveu: Viagens ao Pé da Porta; Retrato do Semeador e partes do Guia de Portugal.

Nasceu em 1901 e faleceu em 1978.

Numa época da sua vida, Vitorino Nemésio apaixonou-se por Penacova, a minha Terra, e adquiriu ali um Moinho, na Portela de Oliveira, moinho esse onde hoje (com adaptações) se situa o Moinho Museu Vitorino Nemésio!

Enquanto proprietário do Moinho, o Intelectual inspirou-se, sendo-lhe atribuída a mensagem de que: “Em Penacova o vento moveu mós e mentes”!

Que moveu as mós, nós sabemos, mas as mentes, naquele tempo, nem mudavam muito, nem pouco: faziam o que lhes ordenavam de Lisboa!

Ao que consta, inspirava-se no recato amplo da paisagem da Portela de Oliveira, para escrever! A Portela de Oliveira (que tem uma fabulosa vista) é um ex-libris local -que começou a ficar bem composto, mas que ainda está por explorar- que tem capacidades enormes para fazer, por exemplo, um Festival anual de referência…

Após a sua morte, muito se deve ao ex-Presidente da Câmara Municipal (O Médico Dr. Leitão Couto) que, como pioneiro na matéria, deu ação à valorização do Património Local (até Nacional) do conjunto dos Moinhos, incluindo os de Penacova -que, para além dos da Portela de Oliveira e de Paradela de Lorvão, tem, ainda, os de Gavinhos e Arroteia e das Serras da Atalhada, Aveleira e Roxo!

Como disse um visitante: “… A zona envolvente é top. Com moinhos recuperados, alguns de alojamento local, percursos pedestres e paisagens espectaculares”. Ou outro: “… dotado de uma vista de 360 graus de tirar o fôlego e de um museu todo ele renovado aos tons do modernismo, torna-se facilmente uma experiência aliciante.”

No seu interior o Museu dá acesso a todas as peças de todos os tipos de Moinhos e das fainas conexas, bem como às suas legendas e explicações de como as peças encaixam na análise histórica da evolução alimentar.

Existe em permanência - no horário normal - um(a) Guia que explica tudo o que é necessário saber.

Os moinhos em geral - e os de Penacova em particular - estão muito ligados “ao ciclo do pão” uma vez que eram as suas pesadas mós que produziam a farinha, esmagando os grãos da aveia, da cevada, do trigo e do milho.

O que, nestes locais de vida pobre, eram fundamentais para matar a fome.

Estive na inauguração deste Moinho/Museu ou Museu/Moinho, como queiramos, no dia 25 de Fevereiro de 2016 - sendo Presidente do Município Humberto Oliveira, que me convidou - tendo aí conhecido o meu Amigo David Almeida, Director do Blogue Penacova OnLine, onde hoje são publicadas as Crónicas do Avô Luís e outros textos que ele ilustra de modo exemplar.

E quero salientar, aqui, que a museologia portuguesa tem uma certa tendência para empolar as situações, incluindo as locais: grandes obras; grandes somas de dinheiros envolvidas; grandes -por vezes insustentáveis- manutenções, nalguns casos, até, sem existência dos respectivos planos, para não se “assustarem” os orçamentos, como me dizem amigos expert’s em museologia, por exemplo referindo os meios promotores das acessibilidades que, se bem repararmos, se encontram cheios de ferrugens, ou inoperacionais, quando existem.

Daí salientar a simplicidade culta deste Museu icónico, que se “encaixa” em absoluto com o nosso passado, não tão distante assim.

Por isso Vos peço:

- levem as Crianças a este Museu Vitorino Nemésio. Visitem uma das Terras mais belas de Portugal: Penacova. Se não optarem por tomar a refeição num dos Restaurantes locais - o que recomendaria - levem um lanche e passem por cá um dia, uma manhã ou uma tarde feliz!

A Portela de Oliveira está inserida no espaço técnico/tático da Batalha do Bussaco, aquando das 3as Invasões Francesas (Ou Guerra Peninsular).

O que me leva a deambular, poetando, se me permitem:


A PORTELA


É de “Oliveira” por algum motivo

Fica na Beira, num lugar cativo

De beleza natural e sem igual…


Tem Moinhos (muitos)

Velas a rodar

Mós a circular


E tem um Museu

Que ensina História

Esquecida no Tempo


Num local de paisagem

estonteante

Num cimo de Serra bela

Que faz o Ser pensante


O que terá dito, na pena, a Napoleão

O seu Marechal Massena

Aquando da invasão?


Ter-lhe-à feito parar o coração?


E terá sido essa simples distração

(A olhar pra paisagem ali à mão)

Que pôs os Franceses a andarem

De St António do Cântaro para fora

Serra acima e Serra abaixo

Para, em Guerra, não mais voltarem?


Luís Pais Amante

Casa Azul


03 maio, 2026

Os Reparos de Vasco Vizeu (1946) e o velho Coreto do Terreiro


REPAROS *

"Sobre o nosso Largo do Terreiro, de que falei no meu último «rabisco», muito há ali a fazer para que tudo fique nos seus lugares arrumadinho com aspecto de quem sabe ter a sua casa em ordem, aprazível, atraente, pois que além de ser a entrada principal da nossa linda vila, é, como já se disse, a nossa sala de visitas, o nosso salão de festas, o nosso jardim de verão e inverno, o ponto obrigatório de reunião; é ali que estão as nossas Câmaras (velha e nova), todas as repartições públicas, o correio, algum comércio, pensões e o único café que possuímos e que por sinal melhorou ultimamente bastante com a transformação que sofreu, ficando comum bom aspecto moderno, mais amplo, asseado e que, para compensação do seu arrendatário, tem tido farta concorrência não só dos nossos hóspedes aristas como pelos naturais; e ainda bem, porque assim, e a seu tempo, pode melhorar muito mais, como sei ser essa a boa intenção do seu explorador.

Existe no referido Terreiro o coreto da nossa música, a colectividade mais velha da nossa terra e que só pela sua velhice ela nos impõe um certo respeito e gratidão mas também porque hoje faz parte da benemérita associação dos Bombeiros Voluntários Penacovenses, colectividade de que muito podem esperar, se todos nós olharmos para ela com amor e carinho que bem merece. 

Pois esse coreto, apesar de não ser obra de arte, e de, valha a verdade, estar em regular estado de conservação, e de ser absolutamente preciso, 𝖉𝖊𝖛𝖊 𝖉𝖊𝖘𝖆𝖕𝖆𝖗𝖊𝖈𝖊𝖗 𝖉𝖊 𝖔𝖓𝖉𝖊 𝖊𝖘𝖙á. Se alguma vez ali ficou bem, hoje, de forma alguma o está, porque além de afogar a bifurcação do Largo com o ramal que vai para Santo António, corta a meio aquele bocadinho de Avenida que, da nova Câmara, segue para cima. No entanto, antes ali que em parte nenhuma.

Mas onde ficaria bem o coreto? Na verdade é um assunto para pensar maduramente. Eu, sem que ninguém me encomendasse o sermão, mas sim pelo amor à nossa terra, já o visionei em diversos lugares e confesso que só num me parece ficar bem. E por coincidência há até uma árvore (um acer) que ali, um pouco abaixo do meio da Pérgola, está a morrer como a querer dar lugar ao coreto, sem que seja preciso estragar absolutamente nada do que lá existe. Ficaria ali bem e até resguardado dos ventos de Entre Penedos, sempre os mais desagradáveis, e até com a vantagem de se poder dar ali uns festivais com entradas pagas, para fins de Beneficência ou melhoramentos da terra, vedando o jardim da Pérgola.

Também se poderia transformar o seu aspecto, aproveitando as colunas e grades e substituindo o telhado por uma forma de caramanchão moderno e no sentido da ramada da Pérgola, que, com trepadeiras, roseiras e outras plantas próprias para cobertura, formaria como que um lindo bouquet de flores. E não julguem que isto ficaria muito dispendioso, porque aproveitando todos os materiais do coreto, o dispêndio é relativo, compensando bem o benefício que fazia ao nosso Largo do Terreiro.

VASCO VIZEU 

Notícias de Penacova, 1946

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* Escrevia o Notícias de Penacova em 1946: "Reparos" - Costumam ser lidos com bastante interesse e atenção os artigos publicados neste semanário, sob a designação genérica «Reparos», da autoria do sr. Vasco Vizeu, a quem, por isso, enviamos os nossos cumprimentos.

* sugerimos, igualmente, a leitura deste "post" sobre o Terreiro.